Quem trabalha ou tem uma certa admiração pelo SBT sabe que a história do canal é recheada de caprichos por parte de Silvio Santos, que tentou, à época, moldar o canal da melhor maneira possível para que todos os tipos de público fossem atingidos e satisfeitos.
Um dos documentos mais lidos e observados por quem é da área é a carta endereçada a todos os funcionários do setor de jornalismo da emissora da Anhanguera, na qual são enumerados os princípios editoriais do Sistema Brasileiro de Televisão/TV Studios, redigida e assinada por Senor Abravanel em 3 de março de 1988.
Princípios editoriais do jornalismo do SBT: documento atualmente exposto, em grande escala, em redações de filiais e afiliadas da emissora pelo país (Reprodução/SBT)
Cabe aqui, à coluna, analisar todos os quatorze mandamentos da bíblia sbtista de se fazer jornalismo no contexto atual, no qual a missão informativa compete ao circo sem lona “Primeiro Impacto”, ao já censurado “SBT Brasil”, ao festival de reprises “Jornal da Semana” e também ao programa semanal de entrevistas “Poder em Foco”, além do investigativo “Conexão Repórter”.
Credibilidade: não é o que a equipe do “Primeiro Impacto” de Marcão do Povo parece se importar. O próprio jornalista já soltou, em uma declaração repugnante e desumana, que infectados pelo novo coronavírus deveriam ser submetidos a “campos de concentração”, em alusão às medidas tomadas pelo regime nazista na Alemanha de Hitler.
Respeitabilidade: Silvio Santos parece ter ignorado o seu próprio manifesto, já que, anualmente, acena positivamente a qualquer comandante do Poder Executivo com intervenções direcionadas no seu departamento de jornalismo. Incorruptíveis e honestos não se curvam a ninguém por interesses.
Seriedade: quem faz a dança do galo, dança “Deu Onda” no estúdio, sobe na bancada - quase a destruindo - para comemorar audiência e profere palavrões ao vivo passa longe disso. Dudu Camargo e Marcão do Povo estão a anos-luz de ser sérios fugindo da “velhice”. Isso é coisa pra uma atração como a de Ratinho.
Isenção: o programa que mais se esforça para conseguir ouvir sempre os dois ou mais lados é o “Conexão Repórter”, com uma equipe conduzida de maneira maestral por Roberto Cabrini. O “Poder em Foco” tenta, mas peca nesse ponto. Nem falo do circo matinal e do telejornal noturno, que sofrem interferência direta do rei dos aviõezinhos de dinheiro.
Apartidarismo: vai parecer repetitivo e chato esse tópico, porque é basicamente remoer o que foi dito acima. Silvio Santos é simpático a todos os que sentam o seu traseiro nas cadeiras dos Palácios da Alvorada e do Planalto desde 1970. Emílio Médici, Ernesto Geisel, João Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro. Parece até linha do tempo de uma aula de história, mas não é. É o “apartidarismo” que Senor Abravanel tenta demonstrar da pior maneira possível.
Imagem diferenciada/personalidade: característica que, infelizmente, a emissora perdeu ao longo do tempo. Quem assistia ao “Aqui Agora” em seu auge e ao “SBT Brasil” na época de sua estreia, com Ana Paula Padrão, percebia uma diferença entre o SBT e outros canais de televisão no tratamento da notícia e na identidade de cada programa. Hoje em dia, o picadeiro matinal é uma fórmula copiada da Record, e o telejornal de bancada noturno parece nada mais do que um “JN” de 1989.
Produto indispensável: o que falar de uma emissora que passou vergonha no dia da confirmação da morte de Gugu Liberato, estrela revelada pelo SBT, abrindo plantão tardiamente para anunciar o fato e reprisando outros boletins durante a madrugada sem adicionar informações relevantes? É a mesma emissora que, também, durante vários outros acontecimentos bombásticos no país, sequer moveu esforços para interromper a sua programação.
Produto popular: foi-se a época em que a emissora teve informativos que não fossem para o lado do popularesco ou do populista. É algo que a matriz tem muito a aprender com os informativos de suas filiais de Porto Alegre, Rio de Janeiro, Brasília, Belém, Ribeirão Preto, Jaú e Araçatuba...
Produto moderno: não pretendo confundir com questões gráficas, mas fica impossível não citar um cenário que é praticamente o mesmo desde 2013 como o principal do jornalismo da emissora. Dinamismo e agilidade no vídeo, só mesmo no festival sangrento de Dudu, Marcão, Márcia e companhia.
Empresarial: um dos quesitos bem respeitados dentro da emissora. Nada a reclamar.
Metas e objetivos: fácil de perceber. Se não deu audiência ou não gerou buzz, o patrão tritura.
Produto didático: quem lembra de Marcão do Povo debochando do novo coronavírus, dizendo que era uma gripezinha - de maneira semelhante ao presidente Messias? Total falta de transparência.
Pessimismo dispensável: de 4h a 9h é um show de pessimismo. Crimes, sangue, tragédias expostas como se fossem espetáculos dignos de celebração.
Princípios do público: o caso descrito no primeiro tópico foi uma agressão de dor imensurável ao público.
Tire as suas próprias conclusões. E, se possível, compartilhe-as conosco também.