Parecia piada, toda vez que os queridíssimos diretos ordenavam que os líderes fizessem a inspeção no chalé.
Winnifred olhou ao redor, era apenas ela ali, o que eles esperavam? A ruiva olhou-se no espelho e riu de sua própria situação, considerando mais do que seriamente encenar um ato digno de teatro onde brigaria consigo mesmo pela bagunça, pela zona, que havia deixado no chalé.
“Honestamente, Winnifred Blythe, você já foi mais organizada”, disse séria, uma sobrancelha arqueada e as sardinhas esquentando de vermelhidão tamanha a vergonha que sentia com a situação. Balançou a cabeça em meio a uma risada, antes de comprovar, parecia até demais com sua mãe.
Parecia, não parecia?
Suspirou pesadamente, enquanto dobrava as cobertas que estavam jogadas no chão. Na escrivaninha, uma foto de si e de sua mãe lhe encarava de volta. Se fosse para ser sincera, não era em nada parecida com a filha de Afrodite.
A mulher era alta, tinha longos cabelos loiros, nariz empinadinho e sobrancelhas perfeitas. A cor de seus lábios era do tom mais perfeito de rosa e Winnifred não podia deixar de imaginar como ela estaria atualmente, se ainda estivesse viva. Certamente, as rugas que ela teria ganhado (de preocupação, diga de passagem) iriam deixá-la apenas mais elegante. Lembrava-se de seus movimentos serem muito bem ensaiados e de como ela era delicada. Com raiva, socou a coberta em cima de sua cama e passou a recolher as roupas pelo chão.
Odiava que ela havia... Ido. Sentia tanto rancor guardado, tanto pesar... A situação era patética. Não tinha motivo para que ela se metesse em missões enquanto ainda era tão nova, mas ainda assim a mulher havia se metido numa. E tinha lhe deixado sozinha.
Sozinha!
Parecia um pesadelo, digno de seu pai. As roupas dobradas foram enfiadas em seu armário e ela voltou-se a organizar as coisas em sua escrivaninha, guardando os sapatos no sapateiro abaixo de sua cama e aproveitando para tirar a poeira do quarto. Que inferno. Winnifred percebeu com ódio uma lágrima que escorria de seus olhos e molhava sua bochecha.
Sentia tanta falta de sua mãe.
Quando fitou o chalé organizado, suspirou. Ela estava em todos os cantos, no modo como dobrava as roupas, no modo como organizava a cama ou como organizava sua escrivaninha. Em como havia um bilhetinho em seu espelho para não se esquecer do que tinha que fazer e em como tinha sempre um tapetinho na porta do chalé.
( ☾ ) —— A centuriã chegou no Acampamento em plena madrugada, com o silêncio caindo por todo o espaço. Era até meio estranho andar ao longo da Via Principalis sem o falatório dos semideuses, que descansavam em seus respectivos alojamentos. Miranda acompanhou o semideus que foram buscar até sua respectiva coorte, fazendo questão de saber se ele estava bem antes de partir para o seu quarto afim de fazer os seus preparativos.
Algo lhe dizia que o dia seguinte seria tão cheio quanto os anteriores.
Com o passar dos dias, Miranda estava usando ainda mais os poderes durante as patrulhas, se conectando com a sua parte divina e finalmente entendendo a complexidade daquilo. Algumas coisas passavam a fazer mais sentido agora: seus grimórios escritos em latim ao longo dos anos pareciam menos complicados, como se as peças daquele quebra-cabeça começassem a reaparecer. Por isso, assim que voltou aos seus aposentos, soube que precisava fazer algo para testar seu conhecimento recém recuperado.
Gray pegou um dos livros de capa dura, um dos que pareciam mais antigos. Ela não passava de uma criança quando começou a escrever tudo aquilo, uma semideusa recém chegada no acampamento que anotava tudo o que as sombras faziam ao seu comando e o seu progresso no treinamento militar. Ao passar as páginas, acabou dando um risinho por conta do conteúdo, intercalado com as suas experiências adolescentes. Passou as páginas que descreviam seu primeiro beijo correndo, como se não quisesse ver por vergonha, até notar que precisava avançar um pouco até chegar onde queria.
Assim que chegou numa receita que poderia recriar, Mira pegou os seus materiais e abriu a janela, deixando a luz da lua entrar em seu quarto. Apagou as luzes e acendeu diversas velas, que criavam sombras dançantes pelo cômodo. Miranda começou a moer grãos e ervas secas num pilão, tomando cuidado com as quantidades e a qualidade dos ingredientes escolhidos.
Quando havia separado todos em pequenos potes, passou a preparar uma mistura com água, um pouco de ambrosia — não muita, senão as sombras seriam subjugadas — e algumas gotas de seu sangue, virando um líquido escarlate e brilhante. Ao misturar as ervas de Trívia, toda a cor desapareceu, criando um preto absoluto que absorvia a luz de todas as velas. Passou então a montar algumas lentes na janela, canalizando um raio forte de luz do luar para o frasco. Algum tempo depois, o líquido tomou um aspecto metalizado, como se estivesse contendo uma nuvem de brilho em um recipiente pequeno.
A filha de Trívia então pegou um papel, molhando uma pena de grifo na tinta recém feita. Suas mãos habilidosas criaram um símbolo circular que continham três caminhos escuros, além de pequenos arabescos precisos em honra à deusa da bruxaria. Assim que terminou o desenho, usou o resto da tinta para escrever o nome do feitiço embaixo: Via Tenebris, o caminho das sombras. O papel brilhou em prata, desfazendo-se logo em seguida.
Era só lembrar o nome do feitiço quando fosse necessário. Miranda não sabia, entretanto, que o usaria mais cedo do que esperava.
VIA TENEBRIS, path of darkness — umbracinese I.
50 (Inteligência) + 50 (Umbracinese I) = 100 de dano de habilidade.
( ☾ ) —— Dirigindo de volta para o Acampamento Júpiter, Miranda pensava em planos e estratégias que talvez sequer chegasse a usar. Com todos quietos ou dormindo dentro do carro, só restava ela e seus pensamentos — e, honestamente? Preferia assim. Era uma jovem tímida, apesar de estar sempre em evidência por conta do cargo que aceitara cinco anos atrás. Era meio esquisito pensar naquela passagem de tempo, que já era uma centuriã por meia década… mas, bem, era mais esquisito ainda pensar no tempo que era uma campista: suas barras embaixo da tatuagem do SPQR já passavam de dez, uma para cada ano de serviço. Se quisesse, já poderia se aposentar e viver uma vida pacífica em Nova Roma.
Não era o seu desejo, entretanto. Queria proteger o máximo de pessoas possível e, se ainda estivesse em condições, o faria. Aquilo já tinha sido um tópico que algumas pessoas puxaram por curiosidade com a semideusa, que sempre desviava ou dizia que não sairia do posto tão cedo. Miranda não queria pensar em sua vida em Nova Roma ainda, afinal, teria que decidir qual curso faria, ou qual caminho seguiria além de ser uma guerreira/bruxa. Querendo ou não, Júpiter era sua zona de conforto — uma zona de conforto estranha para se ter? Sim, mas uma zona de conforto. — e não queria sair dela tão cedo.
As maiores preocupações que teve durante a volta para casa foram justamente as próprias. Apesar de não ter sido capaz de ajudar os outros legionários, estava agradecida por ter voltado com pelo menos um para o acampamento. Era difícil a ideia de perder gente durante algo tão simples como uma viagem, mas era uma possibilidade real. Essa era a vida deles, correndo riscos sempre. Ainda assim, esperava que pudesse fazer mais por seus campistas, antes que fosse tarde demais.
Que a sua vontade de protegê-los fosse o suficiente para guiá-la naquele momento, afinal, era a única certeza que tinha no meio de tantos problemas.
( ☾ ) —— Com as péssimas notícias batendo em sua porta, Miranda não poderia simplesmente ficar parada esperando algo de ruim acontecer. Na manhã de sexta-feira, a centuriã se preparava para a viagem que faria ao Acampamento Meio-Sangue junto à Nathaniel e Elijah, afim de obter mais informações sobre a situação atual do mundo divino e sobre o legionário que havia se machucado por conta dos Minotauros. Por conta disso, optou por esvaziar ao máximo a sua agenda, deixando tudo em ordem para os poucos dias que ficaria fora. Assim que terminou, faria a sua patrulha do dia e voltaria para organizar mais papéis. Simples, não?
Bem, nada na vida de uma semideusa poderia ser tão simples assim.
Depois de ver alguém da própria coorte ser possuído por um espírito maligno — parecia que aquele Eidolon havia sido posto de propósito ali, para desestabilizar a linha de comando do Acampamento Júpiter —, Gray estava preocupada com o que poderia acontecer com os mais novos, que haviam esquecido completamente do treinamento e não tinham memória muscular o suficiente para reaprender com rapidez. O instinto de batalha de um semideus era forte e a romana contara com ele em diversas situações de vida ou morte, contudo, não sabia se isso era o bastante para lidar com os monstros que estavam aparecendo ao redor do acampamento. Tinha que ser. Se para entrar na Legião todo mundo tinha que passar pelo crivo de Lupa, então significava que todos eram capazes de grandes atos.
Isso não a deixava mais tranquila, entretanto. Permanecia num estado constante de alerta, esperando não ser pega de surpresa. Quando notou que alguns dos seus legionários mais novos estavam sendo postos para patrulha, um mal pressentimento passou por sua espinha, a deixando ainda mais atenta. —— Vocês fiquem por aqui. Acho que tem algo mais para frente. Se eu demorar a voltar, tragam Cedric para cá. —— Gray ordenou, tirando os brincos que se transformaram nas adagas de ferro estígio em suas mãos.
Era um risco andar por aí sem um escudo, no entanto, Miranda teve experiências desagradáveis o suficiente nos últimos dias para saber que se movimentava com mais facilidade sem o equipamento. Então era assim que lutava, com alto risco e altas chances de recompensa? Parecia ousado para uma pessoa que seguia tudo à risca. Seguia com cautela para longe dos limites do acampamento, entrando numa área mais perigosa. E, tal como havia pressentido, pôde ver a silhueta de um monstro avançando para si.
Antes ela do que um legionário. A centuriã sentiu uma espada cortar o ar ao seu lado, desviando-se do golpe por pouco. Aster e Aconitum já estavam sendo colocadas para uso: assim que identificou que se tratava de um Spartus, mirou em seu crânio, atordoando-o por tempo suficiente para realizar outro ataque. Ele tentou impedir, mas Miranda tinha sido mais rápida e deslizou para o lado, mexendo as mãos para atrair a escuridão. Ao invés das sombras se enrolarem nos dígitos, a jovem as chamou com mais urgência, criando formas pontiagudas para atravessar a criatura que rugiu de dor.
SPARTUS: 353/450 HP 450/450 MP
MIRANDA: 300/300 HP 235/260 MP
Por estar perto o suficiente, a semideusa conseguiu dar mais um golpe com a sua mão, tocando-o e removendo parte de sua energia vital. Parte do esqueleto criou linhas verdes e cinzas, sinal de uma decomposição clara, com alguns de seus ossos virando pó logo depois. O Spartus detestou aquilo, utilizando de sua espada para cortar a lateral do corpo da semideusa, que praguejou em latim ao sentir a ardência da lâmina alheia. Como retaliação, Gray fincou Aster e Aconitum no crânio da criatura, forçando para baixo com o próprio peso para arrancar o maxilar do monstro, que soltou um som gutural e a deixou atordoada com o barulho. Com a distração momentânea, ele teve tempo para desferir outro golpe na lateral da romana, agravando a ferida feita anteriormente.
SPARTUS: 159/450 HP 450/450 MP
MIRANDA: HP: 262/300 MP: 210/260
Desgostosa com o ataque da criatura, Miranda tentou acertar as lâminas mais uma vez, sem sucesso. Spartus avançou com a espada para cima da romana, contudo, a centuriã girou para evitar mais um ferimento. Com a destreza da jovem, o monstro se atrapalhou e deixou a arma cair, dando brecha para mais um ataque dela, que o impediu de recuperar a espada ao dar dois cortes paralelos nos ossos que formavam sua caixa torácica. A filha de Trívia já havia deixado diversas marcas grossas no esqueleto, que revidou ao empurrá-la com um soco no torso. A garota bufou, dando um corte no antebraço da criatura, que errou o contra ataque. Ela estava começando a ficar impaciente e aquilo não era um bom sinal.
SPARTUS: 115/450 HP 450/450 MP
MIRANDA: HP: 253/300 MP: 210/260
A guerreira não perdeu tempo para chamar as sombras de novo, conjurando cordas para apertar os ossos do monstro. Ouviu o barulho de alguns deles se quebrando, algo que colocou um sorrisinho em seu rosto. Não teve tempo para comemorar a sua pequena vitória: a criatura revidou com dois ataques seguidos, surpreendendo a semideusa, que deixou as adagas caírem por descuido. A jovem desviou de um terceiro ataque e conseguiu recuperar as armas, contudo, sentiu a espada do monstro bater contra as suas costas, fazendo com que ela fosse parar no chão. A jovem rolou na grama para ficar de barriga para cima e, quando o Spartus tentou atacá-la de novo, segurou o punho da criatura com força, sentindo o restinho de vitalidade que ele ainda tinha. Miranda sorriu, acelerando o processo de decomposição dos ossos e os fazendo quebrar em fragmentos pequenos, sentindo o cheiro podre no ar.
A jovem se levantou, um pouco quebrada após o confronto com o Spartus. Seu plano era de voltar ao Acampamento Júpiter o mais rápido possível, todavia, as parcas haviam preparado mais um desafio para ela. Miranda viu um Ghoul se aproximar para onde estava descansando, soltando um suspiro pesado e sacando novamente as adagas para enfrentá-lo. Aquela besta sanguinária não era exatamente rápida, tanto que Gray conseguiu desferir dois golpes sem ser atingida pelas garras da criatura. Dois cortes no torso e dois cortes nas costas denunciavam o caminho que Aster e Aconitum fizeram pelo monstro, fazendo-o soltar um som horrível em retribuição. Aquilo atordoou Miranda, que ficou tonta na mesma hora e completamente desorientada. Com a guarda baixa, o Ghoul conseguiu atacá-la, rasgando seu braço e fazendo a jovem ver estrelinhas com a dor.
Ela não podia vacilar, só tinha uma chance para fazer aquilo dar certo. Miranda apontou para a boca da criatura, unindo as forças que tinha para chamar as sombras. Ela via a escuridão obrigando o monstro a ficar de boca aberta, fazendo um caminho pelo interior do Ghoul para destruí-lo por dentro. Gray controlava as sombras para que elas furassem o monstro de dentro para fora, até que o mesmo se tornou pó depois de suas investidas. Cansada, deixou o seu braço cair, ainda olhando ao redor para ver se tinha algum perigo iminente.
Quando percebeu que nada mais parecia estar ao redor, Mira voltou para dentro dos limites do acampamento. Se ficasse tempo de mais do lado de fora, poderia acabar atraindo mais monstros, e isso era algo que justamente queria evitar. Ao voltar, cumprimentou os legionários como se não estivesse sangrando, dizendo que deveriam ficar atentos com os monstros do lado de fora e que se mais alguma acontecesse, deveriam avisá-la imediatamente.
Miranda precisava de um banho, de uma poção de cura e seu almoço. Ainda teria um longo dia pela frente. Que Trívia a ajudasse.
( ☾ ) —— Não era do feitio de Miranda se candidatar para a limpeza de templos, considerando todo o tempo tomado com as funções de centuriã. No entanto, sabendo que não chegaria perto da colina onde os legionários e cidadãos de Nova Roma faziam suas oferendas se não fosse por conta de uma tarefa ou patrulha, a semideusa se ofereceu para a função, levando consigo mel, frutas, ervas frescas e vinho. Tinha um pequeno assunto a tratar com a mãe divina e, bem, esperava ser ouvida.
Era estranho pensar no tempo em que não estava no Acampamento Júpiter. Já havia passado mais anos sendo uma legionária do que vivendo entre os mortais, contudo, Gray não conseguia esquecer certas coisas da infância. Não queria ser indefesa de novo, por isso a perda de memória havia lhe afetado tanto, por isso estava tão insistente no próprio treinamento. Podia até mesmo ser um pouquinho imprudente ao se meter em patrulhas e caça aos monstros ao redor dos limites do Acampamento, contudo, precisava reaprender tudo o mais rápido possível para ensinar aos semideuses mais novos.
Se eles não pudessem contar com ela, não seria uma boa centuriã.
A Primeira Coorte já havia tido sua cota de centuriões arrogantes ao extremo, que não faziam muito pelos legionários dos quais eram responsáveis. Por mais que fosse rígida no treinamento dos outros, Miranda o fazia para que eles fossem capazes de se defender e defender o acampamento, além de manter a glória do passado com novos atos de bravura. Eles precisavam mostrar a razão pelo qual a coorte era tão respeitada, trabalhar dobrado pela honra dos soldados que vieram antes deles.
Havia assimilado a cultura romana muito rápido, deixando todos os seus laços com o mundo mortal para trás. Ali, era centuriã e filha de Trívia, uma legionária orgulhosa que já podia se aposentar, mas permanecia em serviço pois achava que poderia contribuir mais. O que faria se não fosse aquilo? O futuro parecia incerto, não pelo medo da morte, mas por não ter ideia de como agir. Era algo que pensava antes da perda de memória: deixaria de ser uma guerreira um dia para ser o quê? Uma estudante em Nova Roma?
A iminente destruição de tudo fez com que não precisasse refletir muito mais sobre a aposentadoria.
Agora, lá estava ela, concentrando-se em limpar os templos que lhe foram designados e pensando no que faria com uma tempestade vindo em direção da Décima Segunda Legião Fulminata. O fez com diligência e muito respeito, afinal, os deuses tendiam a ser temperamentais se seus espaços sagrados não fossem tratados da maneira certa. Quando enfim chegou ao altar de Trívia, Miranda o fez com ainda mais dedicação. Era uma das pessoas que mais aparecia ali, considerando a sua conexão com a deusa.
A carta de recomendação que havia lhe garantido um lugar na Primeira Coorte vinha diretamente da deusa, tal como as adagas que já lhe salvaram a vida mais de uma vez. Gray poderia se considerar uma semideusa muito sortuda, no final das contas: poucos legionários eram vistos pelos pais divinos. Não que Trívia fosse exatamente uma mãe presente, no entanto, a centuriã sabia que a divindade a escutava em momentos de desespero. Por isso, tratava-a com tanto respeito, deixando oferendas regularmente em seu templo.
Limpou as tigelas de ouro imperial com cuidado, além de varrer o chão de mármore e espanar as estátuas para a deusa. Passava pano em pequenas marcas do clima, como manchas de terra e lama, tomando cuidado para deixar tudo um brinco. Assim que acabou, a semideusa se ajoelhou em frente à estátua principal de Trívia, representada por três mulheres diferentes. Nas tigelas limpas, colocou as novas oferendas que trouxera, fechando os olhos em seguida para recitar a sua prece.
“Deusa da encruzilhada de três vias, que a sua chama me guie pelas estradas tortuosas à minha frente e me faça encontrar o caminho de casa. Que eu possa encontrar forças nas sombras da noite e na luz da lua cheia, para me defender dos perigos e manter Nova Roma segura. Trívia, minha mãe, serei a sua guerreira e a guia dos legionários. Que eu apresente as virtudes de uma verdadeira filha, a pureza de uma moça, o amor de uma mãe e a sabedoria de uma anciã, e possa honrar a divindade com as minhas decisões. Minha magia é dedicada a ti, Deusa da Feitiçaria e protetora de suas devotas."
Quando abriu os olhos, pouca coisa parecia diferente. Sentiu apenas a brisa passar entre as colunas do templo, o silêncio reinando por todo o espaço. Miranda ficou ali por um tempo, em paz, mantendo a mente vazia e tranquila. Quando percebeu que deveria voltar para a rotina, a jovem suspirou, levando suas coisas para fora do templo, esperando ter sido ouvida.
Se tivesse olhado para trás, veria o ciclo de vida das frutas mudando, enquanto uma pequena sombra dançava sobre elas.
( ☾ ) —— Envolta pelas sombras, Miranda caminhava até os Campos de Marte sob a luz do luar. Aquilo funcionava para ela: se sentia mais segura à noite, como se estivesse em seu elemento. O motivo daquele treino fora dos horários comuns? Mnemósine, a grande titã da memória. Detestava a ideia de ter sido roubada de uma parte de si: havia escolhido ser uma guerreira e dedicou a maior parte da sua vida para aprimorar suas habilidades, flertando com a morte diversas vezes por causa disso. Agora, sem o controle total de seus poderes, era como se algo estivesse faltando — como se ainda fosse Miranda Gray, mas não totalmente.
E não adiantou de nada pesquisar em livros existentes e em seus diários, nada parecia fazer efeito contra a perda de memória — claro, por mais que Miranda fosse extremamente teimosa, não poderia sozinha derrotar as vontades de uma titã. Sabe o que poderia fazer, então? Reconquistar a sua segurança com trabalho duro. Já tinha aprendido uma vez, poderia aprender de novo. A própria insistência seria o seu jeito de vencer aquela luta, não desistindo ou se dando por vencida.
Obstinada do jeito que era, não era um infortúnio desses que iria mantê-la parada.
Sentou-se de pernas cruzadas no chão, de olhos fechados e ouvidos atentos. A primeira coisa que deveria fazer era se conectar com a sua parte divina, a fonte de seus poderes. Apesar de ter tido suas memórias roubadas, lembrava de quando era pequena e ainda não entendia muito bem o que tudo aquilo significava: se estivesse com raiva, poderia acabar machucando as pessoas que gostava e não queria aquilo. Queria saber se defender e defender os outros, sem que as coisas fugissem de seu controle. Respirou, portanto, para acalmar seus pensamentos e focar somente no que era importante — algo que já havia feito antes com frequência, mas não se recordava.
Ao abrir os olhos, notou como um círculo de grama morta havia se formado ao seu redor, sorrindo com satisfação em seguida. Não ficou parada muito tempo na pequena vitória, passando a criar mais pontos de decomposição por onde andava. Quando se deu por satisfeita, concentrou-se nas sombras ao seu redor, afim de se conectar com a escuridão. Assim que sentiu o poder da noite correr por si, chamou-a, vendo as sombras obedecerem os seus comandos. Pequenos fios pretos se direcionavam até as palmas da filha de Trívia, logo cobrindo toda a pele de ambas as mãos. Com um pequeno sorriso, começou a testar os limites de seu poder.
Miranda movia-se de maneira delicada e elegante, criando e desfazendo formas pontiagudas com as sombras com os dígitos. Testava o jeito certo de conjurá-las, optando pela maneira mais eficaz depois de certo tempo se entendendo com a umbracinese. Não conseguia estabilizá-las por mais do que alguns minutos, contudo, sabia que era uma questão de tempo para recuperar o controle que lhe fora roubado. Era persistente demais para se dar como vencida. A romana passou a lançar rajadas de sombras para nenhum alvo em específico — não queria acabar machucando algum desavisado por acidente, cansando-se após certo tempo. Sentia que não tinha a mesma resistência de antes, mas isso iria voltar conforme treinasse.
Os titãs até poderiam tentar atrasá-los, mas a centuriã não desistiria de reconquistar a sua capacidade de proteger a si mesma e Nova Roma. Era o seu dever e o cumpriria, independente dos obstáculos que colocassem em seu caminho.