O amor à primeira vista é um conceito quase tão polêmico quanto mamilos.
Na minha perspectiva, ele é bem diferente do que sempre vi representado na literatura ou na televisão. Pra mim, é uma coincidência agradável entre interesse súbito, descobertas, admiração e um desdobrar das coisas no caminho certo.
Fiquei pensando nisso quando, há não muito tempo, passei pelo local onde vivi isso uma vez. O velho conhecido Jardim do Éden. Palco de traquinagens, lágrimas, zoeira, da classe de 74, de nudez desenfreada e desse maravilhoso sentimento que, em questão de instantes, me tirou do fundo de um ridículo poço emocional e me fez alado como caralhinhos da pornochanchada voando pelo céu infinito.
No trajeto de 11 anos que se passaram, experimentei também amores à algumas vistas depois. Sinceramente, entendo que o tempo gasto pelo cupido pra nos atingir com a tal da flecha, não é exatamente a informação mais importante quando nos apaixonamos por alguém. Contudo, ser acertado em cheio, como um tapa na cara ou uma surra de pau mole surpresa, assim, de primeira, chama a atenção e é claramente relevante.
Em intensidade bastante semelhante, vivi esse sentimento intenso ano passado. Não foi tão fulminante. O sopapo na minha face veio alguns encontros depois. Mas veio! De com força e acordou inesperadamente um coração que hibernava. Ao despertar, o músculo cardíaco impulsionou uma série de mudanças radicais desacomodando várias das acomodações acumuladas com o tempo.
Agora ativo, o coração passava a trabalhar em busca de resultados diferentes. Afinal, é contra-produtivo e não adianta esperar mudanças fazendo as mesmas coisas do mesmo jeito. Passei a dormir e acordar mais cedo, me exercitar mais e praticar esportes diversificados, parei de fumar, voltei a tocar, cultivei a barba, viajei para novos lugares, conheci pessoas diferentes, passei a ser mais aberto com meus sentimentos e adotei um novo corte de cabelo. Além disso, passei a trabalhar em um ramo distinto do que eu imaginava, e fiquei mais confortável do que eu esperava. Quando menos percebi, mudei de casa, bairro e até de regional. Meus roles também passaram ser um pouco diferentes.
Apesar das mudanças, a vida seguiu conceitualmente normal, devagar, sempre e repleta de altos e baixos. Até que o inesperado aconteceu: Um plot twist digno dos bons filmes de M. Night Shaimamalaemelimalamndamasnm. De repente, eu estava namorando. Algo imprevisível para todos os envolvidos direta e indiretamente. "Mas Malibu! Como assim aquele amor de um ano atrás continuava vivo e delirante nesse coração saltitante?" Ele estava. E estava disposto a arriscar todo o seu vigor rubro, se jogando nessa aventura maravilhosa que é amar e sentir-se amado.
Relacionamentos amorosos são sempre uma aposta. Como tal, o desfecho é imprevisível. No fim, foi como entrar eufórico em uma partida de truco com Zap e mais 2 cartas bosta. A gente tenta a sorte, mas como diz a sabedoria milenar dos baralhistas profissionais: "Morri de pau duro".
Pelo menos tentei. Foi bom tentar e saber. Agora resolvi essa etapa. Espero fazer bom uso de tudo que construí nesse último ano, e cheirar carreiras dee cafeína com esse coração, pra ele não voltar a dormir. Afinal de contas, o coração que dorme no ônibus vai parar no ponto final, que pode ser de boa, mas altas vezes é bem mais longe do que ele gostaria, pode ser um lugar e desconhecido e hostil, dá mais trabalho e ainda pode ser que ele gaste mais dinheiro pra voltar.