Hoje é sem enrolação, let’s go go go
♡ I̶n̶t̶e̶n̶s̶a̶r̶m̶y̶l̶y̶ ♡
Genre: drama, romance, comedy, mystery
Havia chovido a tarde toda, e a brisa que entrava pela fresta da janela era fria e causava arrepios ao longo da superfície descoberta da pele de meus braços. Mas não o suficiente pra fazer com que eu levantasse de onde me acomodava para tentar resolver a gelada situação. Me mantinha na mesma posição há umas boas horas sem saber se quando enfim me pusesse de pé, lembraria como realizar o simples ato de caminhar.
Não movia um músculo. Em contrapartida, corria meus olhos desesperados pelos quatro cantos do notebook em busca de um maldito X. Não deveria ser algo tão complicado, não é? Nunca foi afinal.
Mas não desta vez. Desta vez a porcaria de um X estava sendo um empecilho imenso, uma pedra bem no meio do meu caminho, uma rocha gigantesca que me separava do meu objetivo.
Suspiro longamente e aperto os olhos com um ar de tranquilidade que não condiz com o caos que ocorre em meu interior.
O que meu pensamento atordoado e exausto me diz e repete como um mantra entre jogos de respirações e tentativas de manter meus olhos fechados, na esperança de uma milagrosa calma interior dar às caras nesse momento crítico, é que, X deveria significar coisa boa. Consigo pensar em várias possibilidades agora mesmo. Como um X marcando o local de um tesouro em um mapa, o X que remete à beijo ao fim de uma mensagem ou o X como uma maneira duvidosa e preguiçosa de se referir à queijo em cardápios de lanchonetes.
Minha fome agora parece triplicar com o breve vislumbre mental de queijo derretido e meu estômago ronca vergonhosamente, parecendo querer devorar a mim mesma de dentro pra fora.
Mas não posso parar pra comer. Ou não quero. Não ainda, enfim.
Então, voltamos ao início.
Ao grande X da questão. O mais necessitado no momento. O X que fecharia este maldito anúncio. O X que deveria aparecer após a contagem regressiva no cantinho direito da tela, mas que pra testar minha paciência, minha resistência ou meus limites, não estava agindo segundo o protocolo das propagandas e, ao invés de sumir quando os trinta segundos chegavam ao fim, recomeçava.
A tela estava travada há umas duas longas horas e nem reza brava estava resolvendo esse problema. Não havia ninguém pra me auxiliar com isso, até porquê —ham-ham — é sexta-feira à noite.
Nem transferir o bendito arquivo pra outro dispositivo eu estava conseguindo.
O projeto já estava finalizado. Após um isolamento de semanas do mundo exterior. Depois de muito choro e ranger de dentes, desafiando a tudo e a todos e principalmente a mim mesma, ele enfim estava pronto. Pronto pra ser entregue pro carrancudo do meu chefe. Pronto pra ser o degrau que eu tanto almejava pra me livrar da insuportável da Mina, a intrometida secretária ruiva do dito cujo. E tudo o que eu precisava fazer era enviá-lo, para assim poder voltar a respirar normalmente, ou quase isso. O que eu não fazia há o que? Semanas? Meses? Desde que entrei nessa empresa infernal? Talvez já tenha perdido a conta, não que isso importe. Isso realmente não vem ao caso agora. Tudo o que tenho que fazer é focar em encontrar um X, só um X pra fechar essa merda insuportável e...
— Essa porra não tem X?! — Explodo e meus olhos abandonam a tela ao que expiro todo o ar que estive segurando por minutos, desinflando meus pulmões entre alguns grunhidos raivosos. Minha careta indignada deveria ser realmente impressionante, já que Trist não tirava os brilhantes olhos esverdeados de mim.
Se eu deveria estar usando um bloqueador de anúncios ou qualquer outra droga do tipo? Claro que deveria! Mas depois de um puta sermão recebido pelo primo de Taehyung sobre como são eles que mantém certos sites de pé, e como estou sendo insensível e desrespeitosa ao usufruir deles sem ajudar em porra nenhuma, decidi que este ano passaria a ser uma pessoa um pouco melhor. E como eu faria isso? Permitindo que as propagandas aparecessem pra mim, me bombardeassem em momentos completamente inoportunos. Como agora. O que pra minha eu embriagada às 23:38 de um 31 de dezembro nem tão empolgante, fazia todo o sentido.
Eu sei. Foi uma ideia imbecil desde o início. O típico caso de promessa que não se deve fazer, como aquelas de ser a frequentadora mais assídua da academia da esquina. Mas minha teimosia não permitiria que eu voltasse atrás na minha promessa de ano novo na primeira chance que tivesse.
É com certeza uma lição a se levar pra vida toda, deveria ser um mandamento talhado no teto do meu quarto “não darás mais trela pra galera do TI”.
E sim. É sexta-feira à noite, e não me canso de frisar, pois minha vontade era estar em qualquer outro lugar, fazendo qualquer outra coisa, mas, ainda assim, prossigo por aqui.
Estou raivosa há vários minutos, reclamando e jogando toda minha frustração sobre uma letra do alfabeto. É isso aí.
É engraçado como uma coisa pequena pode se transformar em um problema gigantesco quando você já está sobrecarregado por mil e uma situações e sentimentos.
Como quando você está atrasado e percebe que não lembra mais onde enfiou a maldita chave do carro, e quando encontra a chave, perde a bolsa. E percebe que isso não seria tão estressante se você estivesse de bom humor. Então tudo vai virando uma tenebrosa bola de neve formada na base do ódio. Mas você não tem tempo pra isso, pois precisa chegar a tempo no trabalho e sorrir para o seu chefe como se fosse a pessoa mais realizada da face da terra.
Ou talvez eu seja dramática demais.
Ainda não sei bem como pensar e agir de outra maneira quando universo não parece fazer muita questão de colaborar um pouquinho que seja comigo.
Mas estou trabalhando nisso.
Meu olhar cansado pousa sobre a tela do notebook largado na mesa e enfim me permito ler o que tanto tem ali.
Torne seus desejos realidade.”
Dizia o tal anúncio enlouquecedor que nas últimas duas horas medonhas povoava minha tela e interrompia absolutamente tudo o que tentava fazer.
O layout da propaganda era enfeitadinho com balões coloridos, seres mitológicos e brilhinhos que caiam em uma animação meio “mensagens em gif dos tempos do falecido Orkut”. Era até que bonitinho. Bem feitinho. Mas ao meu ver, essa coisa toda de “realize seus desejos” parecia mais o bordão de um daqueles anúncios de empréstimo bancário, com juros exorbitantes, que te fazem questionar se o seu sonho é mesmo tão importante ou urgente assim ao ponto de te fazer passar o resto da vida pagando por ele.
A proposta era tão utópica, soava tão irreal pra mim, que eu facilmente cairia na risada, não fosse a raiva do momento. Sempre fui incentivada desde a infância, a esquecer essas bobagens de sonhos e seguir por caminhos confiáveis.
Estudar algo que te garanta um emprego estável?
Não desperdiçar sua vida em busca daquele “algo a mais”?
Há muito abandonei minha busca por qualquer coisa que fizesse meu coração bater mais forte. O meu único desejo — ao menos o único em que consigo pensar no momento — era um bem imediato, de enviar essa porcaria, na qual tanto me empenhei e me descabelei, pra garantir minha vaga no “emprego dos sonhos” e, enfim poder tomar um bom banho. E depois?
Provavelmente, seguiria a grande onda das pessoas que vivem da mesma maneira que eu e encontraria um jeitinho de desperdiçar minha juventude em uma frustrante tentativa de esquecer minhas frustrações.
Não é como se me preocupasse muito com isso, estivesse atrasada para algum compromisso ou fosse realmente fazer algo de muito importante, mas suponho que seria algo bom. E que não envolveria exaustão cerebral, reflexões decepcionantes e neurônios queimados.
— Foda-se — resmungo ao largar o que tinha em mãos na mesa. — Desisto.
É sério. Eu nem sofri para concluir esse projeto estúpido mesmo. Pra que? Pra que tentar levar uma vida “normal” como a maioria das pessoas, não é mesmo? Que grande bobagem!
— Por que mesmo que eu não largo toda essa droga da existência capitalista e não vou viver da minha arte em uma praia?
Porque, sejamos racionais, você não tem arte alguma pra vender, minha mente logo completa. Sem contar a perfeita ausência de talentos ou experiência com artesanatos de qualquer espécie.
Trist continua a me encarar como quem julga, e já não sei se é minha consciência falando comigo ou se aprendi a me comunicar telepaticamente com meu amigo felino.
E em meio ao meu momento “quero chutar o balde, mas todo mundo sabe que não vou desistir coisíssima nenhuma”, já me encontro de pé ao lado da bancada da cozinha, com os braços abertos, encarando a parede. A visão embaça aos poucos pela ausência de piscadas me fazendo enxergar coisa alguma com o desfoque.
Okay. Talvez. Assim, só talvez, eu esteja um pouco exaltada e o melhor seja realmente dar uma pausa. A pausa que Hana tanto insistiu que eu precisava. É isso. Uma pausa. Esse transtorno todo é claramente um sinal de um poder maior de que eu me devo um descanso.
Meu pai sempre me dizia que quando um dia já começa com as coisas dando errado, o melhor é não insistir em tentar resolver tudo quanto é tipo de problema nele.
Eu deveria ter notado mesmo, que esse seria mais um desses dias. A começar pelo momento em que levantei do sofá pela manhã, com um mal jeito super doloroso no pescoço por ter dormido toda torta. E então percebi que teria de ser cuidadosa — por mais difícil que isso fosse pra mim — e segui virando minha cabeça lentamente afim de checar as horas no relógio do forno micro-ondas. Daquele jeito todo esquisito, como se estivesse usando um colar cervical, parecendo um robô, ou o Batman naquele traje emborrachado.
E então, antes que pudesse decifrar os números daquela distância, um barulho de vidro se quebrando me fez virar o pescoço bruscamente pro lado oposto, instantaneamente retorcendo meu rosto em uma careta de agonia, tudo pra dar de cara com um Trist empoleirado na estante, tentando pela enésima vez devorar Penny, a calopsita da Hana.
Ao correr pra tirá-lo de lá, bati com a perna na quina da mesinha de centro, me afastando aos pulos e indo parar exatamente onde estava o porta-retrato que Trist derrubou da mobilha cortando meu pé.
Percebo tarde demais que aquela era a fonte do tal barulho de vidro se quebrando.
Deitei no chão rolando e gemendo de dor.
Só a lembrança me faz apertar os olhos.
É, esse é realmente um daqueles dias.
Tamborilo meus dedos sobre a mesa e corro meus olhos pelos cômodos aparentes pensando no que fazer a seguir. Fixo em um ponto em específico abrindo um sorriso quase maníaco.
Talvez seja disso que eu preciso.
Afinal há quanto tempo não coloco uma gota sequer de álcool na boca?
Tento ignorar a lembrança dos conselhos de meu avô sobre evitar bebidas alcoólicas pois:
— No início você toma uma bebida, depois a bebida toma uma bebida, depois a bebida toma-o a si — ele dizia com a propriedade de quem passou por mais ressacas morais do que gostaria de admitir.
Apenas mais tarde, quando me interessei por O Grande Gatsby, descobri que a frase em questão era de Fitzgerald.
Com um sacudir de cabeça, mando as lembranças de meu avô com cara de sabe-tudo pra escanteio, ao que meus pés seguem desesperados em direção a garrafa que meus olhos recém visualizaram sobre o aparador do outro lado da sala. Tropeço no tapete felpudo que cobre boa parte do ambiente, mas prossigo milagrosamente sem cair.
Por que mesmo tem uma garrafa vazia por aqui? Isso me cheira a Hana, e não refreio o pensamento vívido de esganá-la.
— Trist, eu mato a Hana e você oculta o cadáver, fechou? — O gato corre em direção aos quartos sem dar a mínima pra todo o drama humano que se desenrola a sua frente.
Num áudio recebido há alguns minutos não tão distantes, lembro-me de ouvi-la reclamando do meu companheirismo — ou da total ausência dele — e me convidando pra algo em um pub aqui perto.
Fito a extensão envidraçada da sacada. A noite é fresca e o céu está tão limpo que mesmo em meio as luzes da cidade, é possível enxergar uma ou outra constelação com clareza.
— É isso aí. — Solto o ar pela boca cansada, encarando um conjunto de estrelas que vagamente lembro de ter aprendido que formavam Órion.
Resignada, sigo com pressa alguma em direção ao meu banheiro e após um dos banhos mais lentos de minha vida, começo a procurar algo que preste pra vestir, e ir ao menos um pouco apresentável pra esse tal pub.
Honestamente não entendo como Hana ainda não desistiu de me convidar pra sair. Com um não após o outro, em seu lugar não sei se faria o mesmo. Ela insiste que em meus vinte e três anos eu deveria me preocupar menos com o que vou fazer pelo resto da minha vida e curtir um pouco o hoje, porque o amanhã é incerto demais pra algo assim.
Mas vai tentar enfiar isso na minha cabeça infestada de caraminholas...
Sem contar que, minhas habilidades comunicativas tem sido tão pouco utilizadas nos últimos tempos que sinto como se tivesse perdido o tato pra essas coisas. E isso tem criado uma espécie de receio tirano de sair e precisar interagir com outros seres humanos, falar com alguém que não seja nenhuma das pessoas do meu restrito círculo social por qualquer que seja o motivo, sabe?
Porque sair pra me divertir não é como ir até a padaria comprar pão e responder educadamente ao padeiro no meu melhor modo piloto automático. Porque sair pra me divertir envolve conhecer pessoas novas. Falar com pessoas novas. E isso de uns tempos pra cá, tem me deixado em pânico.
Analisando esses fatos, acabo de me dar conta de que as únicas pessoas com as quais não converso por pura obrigação, são Hana e Taehyung. E Jimin. E não sei bem o que pensar sobre isso.
Mas hoje foi um dia tão longo e fodido que me fez considerar seriamente a ideia de Hana e me enfiar em um ambiente assim, tão hostil. Isso e a constatação de que não há nenhuma gota de álcool nessa residência ou alguma companhia além do meu gato Trist que, inclusive, também parece muito afim de me abandonar a qualquer instante.
Ele anda estressado por me ter enfiada dentro de casa há tantos dias e nem posso culpá-lo.
Depois de uma hora e meia de muita enrolação, enfim pronta saio em disparada do apartamento antes que algo a mais me distraia, ou me faça mudar de ideia.
O que não seria muito difícil, levando em conta que a ansiedade pelo que estava prestes a fazer já me amolecia as pernas. Era como se meu corpo traísse minha mente e estivesse aguardando apenas um motivo, uma só desculpa, pra me convencer a voltar correndo pra casa e me enfiar embaixo das cobertas.
Conferia com certa satisfação meu reflexo no espelho do elevador enquanto desembaraçava algumas mechas do cabelo com os dedos, e antes que as portas pudessem se fechar ouço alguém se aproximar a passos apressados.
Por puro reflexo, estico rapidamente o braço direito, mantendo a passagem aberta da maneira menos recomendável possível ao passo que uma nuvem de perfume cítrico preenche o cubículo.
— Por nada — solto em um murmúrio quase desinteressado.
Quase, pois sua voz põe meu corpo em estado de alerta antes que eu possa entender o que está acontecendo me fazendo levantar o olhar curiosa.
Ou melhor, fui atingida por um belo de um tanque de guerra. Atropelada pela mais perfeita junção de pontos fracos que podem encabeçar a lista das minhas expectativas amorosas de uma vida inteira. Com as portas se fechando às suas costas, parado bem a minha frente, me analisando em ambiente de uns ridículos poucos metros quadrados. Um moreno munido de jaqueta de couro, muitos músculos e olhos negros intensos me fitava.
Ele nota o olhar descarado que lhe ofereço e me replica em um sorrisinho presunçoso.
Lhe arqueio uma sobrancelha enquanto só consigo pensar que, inferno, não faz nem um minuto que o vi e ele já me atacou com tudo isso? Vai saber mais quantas armas esse cara ainda tem escondidas.
O celular em sua mão se acende e uso do momento em que a atenção do belo estranho se volta para o aparelho para me virar, ajeitar o vestido, fixar meu olhar no espelho e fingir que limpo batom borrado no canto dos lábios. Tudo pra desviar meu foco do gostosão à minha esquerda.
— Tá linda — fala arrastado.
Logo acho que ele fala ao telefone e minha curiosidade faz meu olhar correr em sua direção, mas me surpreendo ao notar que o moreno não está mais com o celular em mãos e agora me observa atentamente.
— O que? — arrisco confusa com o fato de que talvez ele possa realmente estar falando comigo. Droga. Qual o meu problema?
Sem saber bem o que fazer, fecho e abro meus olhos lentamente e logo vejo o elevador se abrir.
— Hm... Obrigada? — murmuro e aceno um “tchauzinho” patético, ele pisca pra mim com aquele maldito sorrisinho de novo e eu saio em disparada do prédio com a mão sobre a testa.
Eu definitivamente não sei mais viver em sociedade.
Quando alcanço a rua, vejo que o Uber que chamei já estava a minha espera, o que me alivia um pouco.
O caminho até o pub foi relativamente rápido. E chegando lá me pego positivamente surpresa com o ambiente que, bem, era tipo um barzinho, até que tranquilo e meio acolhedor se parasse pra pensar no tipo de lugar que Hana normalmente frequenta.
Dou uma olhada em volta e nem sinal da minha amiga. Reviro os olhos decidindo seguir logo para o balcão pegar alguma bebida.
Após a terceira taça de martini — bebida a qual nunca nem havia experimentado antes e escolhi unicamente por uma vontade súbita e sem sentido de comer as azeitonas no final — suspiro e desbloqueio meu celular.
Enquanto vagava sem rumo pelas redes sociais o inacreditável acontece.
A desgraçada da propaganda que acabou com meu dia estava bem ali, me encarando, me desafiando.
— Tá de sacanagem comigo...
Após constatar que algumas decisões tomadas hoje por mim foram de cunho totalmente “não eu”. Resolvo fazer mais uma coisa absurda.
Não sei bem o que esperava quando decidi baixar o aplicativo da tal propaganda. Mas com certeza não esperava nada daquilo.
Um gênio surgia e desaparecia no canto da tela. Não era como o gênio do Aladdin. Não. Era mais como, quem ele me lembrava mesmo?
Decidindo seguir as instruções da tela, clico no gênio. Ele gira como o próprio pião da casa própria até parar e me encarar com um olhar profundo e estranho enquanto me pede pra fechar os olhos e fazer o pedido.
Ao fechar os olhos a primeira coisa que me vem à cabeça, é o gostoso do elevador.
— Ai que droga, sai da minha cabeça, não é isso que-
— O que é isso? Tá falando sozinha? Tá falando sozinha em público, Lynn? E que porra é essa? Você vem pra um pub pra brincar de Akinator? — Ouço o esganiço em meu ouvido e meu riso ecoa débil, quase tão ridículo quanto toda a situação que se desenrola ao meu redor. — Larga isso! — uma conhecida mão de unhas coloridas tenta tomar meu celular de mim.
Hana ostenta os cabelos curtos com mechas cor de rosa, um vestido holográfico, óculos caleidoscópio e um sorriso grande e esperto. O que obviamente, da infinidade de informações que ela traz consigo, a última é a que mais me causa preocupação.
— Você não parece ter saído de casa rumo à um pub, mas rumo à uma rave — provoco só pra não perder o costume.
— Do que você tá falando? Se esse seu vestido não fosse curto e decotado, com essa sua cara aí, eu diria que está indo pra um velório.
— Ha Ha... Acho que você tá precisando maneirar na bebida.
— E você tá precisando transar.
Despretensiosamente fito a tela do meu celular e flagro o gênio bizarro com um sorriso sinistro. Ele era meio caricato, mas alguns de seus traços em especial, às vezes me aparentavam realistas demais, como os olhos super expressivos. Pareciam me enxergar de verdade, além da minha casca formada por maquiagem, vestido, salto alto, uma vontade forjada de estar ali e muito álcool. Ou talvez fosse apenas de fato o álcool, que estava me fazendo pensar coisas tão absurdas.
— Por falar em transar — Hana continua a tagarelar — Taehyung tem um amigo pra te apresentar.
— Você só pode tá brincando comigo — resmungo e sopro minha franja pra cima. É claro que todo aquele drama de Hana sobre eu ser uma péssima amiga que nunca vai a lugar nenhum com ela, só poderia ter mais alguma motivação obscura.
— Não se atreva a sair daqui Lynn!
— Hana não! — Bato com meu pé no chão como uma criança birrenta.
— Hana sim! — A criatura colorida aponta o dedo na minha cara.
— Você sabe o que isso significa pra mim? Alguém me arrumando encontros? —a vejo assentir e revirar os olhos — Isso mesmo! Fim de carreira! Eu mesma posso conseguir meus próprios encontros.
— Para com isso, não tem nada a ver, a gente sabe que você consegue Lynn.
— Só que é meio lerda, não, muito lerda, muito lerda mesmo, e...
— Hana! — lhe interrompo indignada lhe afanando os óculos chamativos e os colocando no rosto.
— Você não saia daí que eu vou procurar o Taehyung — ela me ignora totalmente e logo vai se embrenhando pelo amontoado de pessoas da pista de dança.
Cogito a possibilidade de levantar do banquinho do bar e sair correndo antes de que os planos que Hana e Taehyung tem pra mim realmente se concretizem. Mas só cogito. Não passa de um pensamento perdido flutuando na bagunça da minha mente.
Uma música calma começa a tocar e o visual rebelde sem causa de James Dean, deixa de ser algo abstrato das profundezas da minha mente em queda livre sobre o álcool, e se personifica bem a minha frente.
Ofuscando minha visão em repetições caleidoscópicas nas várias cores do arco íris.
Até retiro os benditos óculos que me deixam tonta pra checar se estava vendo certo. E caralho. Como estava.
E essa noite tinha acabado de ficar uns 99,9% mais interessante. Ao menos até uma garota loira enroscar os braços finos em seu pescoço e não parecer querer soltá-lo tão cedo. Bem, não posso julgar, pois vontade de fazer o mesmo não é o que me falta.
Me remexo em meu lugar desconfortável, me levanto do banquinho onde estava puxando o tecido do vestido sem parar e sigo o encarando, como me convenço de que venho criando por hábito desde que nos conhecemos.
Há apenas algumas horas, sim. Não me condeno por minhas fantasias.
Seus intensos olhos me encontram em meio à multidão e ali permanecem. Uma familiaridade estranha se estabelece enquanto as írises cintilam como as obsidianas negras presentes nas joias de minha mãe.
O moreno sorri cafajeste arqueando uma sobrancelha como se tivesse a mais completa certeza de que eu o tinha seguido até ali. Porém seu semblante logo se fecha enquanto o meu se ilumina com o que acontece a seguir.
Sem desviar meu olhar do seu, agora quem arqueia a sobrancelha em desafio sou eu, ao passo que um perfume conhecido se espalha ao meu redor.
— Olha só o que temos aqui — Jimin enlaça minha cintura e sussurra em meu ouvido.
— Não sabia que também estaria aqui — sorrio me virando.
— Não perderia isso por nada.
— Ahh não Jimin, até você?
— Lynn, eu sei o que você acha sobre isso, mas-
— Se sabe o que eu acho, por que tá compactuando com isso? Também acha que eu tô encalhada ou sei lá?
— Não é nada disso, deixa eu falar, droga... — me olha esperando pelas farpas, e quando elas não vem, ele prossegue — Eu só acho que, você não perde nada em conhecer esse amigo do Taehyung, sabe que ele se importa demais com você pra te meter em alguma furada e, também, obviamente você não é obrigada a nada, se o cara for um porre pode ir embora quando quiser — ri.
— Tá, vou pensar — resmungo.
— Eu gosto assim — pisca desdenhando de minha careta debochada.
— Acho que vou, sei lá, dar uma volta por aí — digo, de repente me sentindo sufocada pela ansiedade.
— Tá, vai lá — Jimin me observa enquanto me afasto e quando ia me virar ouço sua voz novamente.
— Lynn! — lhe incentivo a continuar com um aceno de cabeça — Hm... Não esquece que eu tô aqui, tá bem? — seu tom é apreensivo.
— Eu sei. — Sorrio verdadeiramente, pois sabia mesmo. Se havia alguém com quem poderia contar nessa vida, esse alguém era Jimin.
Caminhei por entre as pessoas até encontrar uma espécie de varanda aos fundos do estabelecimento. Me apoiei na balaustrada de madeira observando as luzes que dançavam sobre o lago e as pessoas que haviam ali atrás.
Ajeito a roupa ao corpo novamente me sentindo incomodada pela peça não parar de subir.
— Se continuar puxando esse seu vestido pra baixo, até o fim da noite ele vai estar nos seus pés. — Seu tom rouco me arrepia e me amaldiçoo por nem conseguir disfarçar.
— Talvez eu queira isso. — lhe disse o olhando, em um rompante de coragem que veio sabe-se lá de onde.
— Touché. — ele ri erguendo seus braços em rendição.
— Você tá me seguindo, estranho? — pergunto após alguns segundos, simplesmente por não saber o que dizer.
— Não sei, você e eu, se esbarrando por aí, destino talvez, se acredita nessas coisas. — diz calmamente, como se realmente levasse isso a sério.
— Dispenso — murmuro fitando o lago, subitamente nervosa por pensar que a qualquer momento Hana e Taehyung surgirão do além com o tal amigo.
— Se precisar de ajuda, você sabe, pra deixar o seu vestido nos seus pés.
— Você não é lá muito sutil, sabe — falo e ele dá de ombros.
— Hm, vem — pego sua mão o rebocando pra saída daquele lugar e minha eu interior comemora. Há, quem é a lerda agora?
— Pra onde você tá me levando? — me pergunta e lá estava aquele sorrisinho cretino novamente.
— Se você se comportar, talvez eu te deixe ajudar a me livrar desse maldito vestido. — Ouço sua gargalhada e por uma fração de segundos me pergunto o que diabos estou fazendo e pra onde caralhos estou o levando.
Talvez no fim das contas, devesse ter seguido os conselhos de meu avô sobre as bebidas.
Assim que estamos próximos a saída, avisto Hana e Taehyung não muito longe dali e tento acelerar os passos, mas logo paramos em um solavanco, e ao virar pra trás me deparo com o gostoso do elevador tentando se livrar da loira de antes. Reviro os olhos me soltando dele, decidindo ir embora sozinha mesmo.
O som de meu salto ecoa pela calçada úmida enquanto sigo apressada em direção aos táxis. Meu celular vibra em minha mão me assustando e escorregando como um sabonete no banho, se lançando no meio da rua movimentada.
Corro pra pegá-lo antes que um carro passe por cima dele e noto que a tela estava piscando loucamente. O gênio estava lá, girando em um redemoinho de um canto ao outro, como o diabo da tasmânia dos desenhos animados.
E a partir daí, foi tudo muito rápido. Em um segundo o gênio parava de girar e piscava um olho pra mim, com uma cara de quem estava tramando algo. No outro, ouvia gritos, um clarão logo me cegava enquanto meu corpo era arremessado e o impacto com o chão frio e áspero me desnorteavam até tudo virar escuridão.
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Beijo, beijo e, até a próxima? 😘
Esta é uma obra ficcional por mim criada, os acontecimentos aqui dramatizados e a personalidade dos indivíduos por trás dos nomes por ventura citados no decorrer da trama e que dão vida aos personagens não possuem vínculo algum com a realidade.
PLÁGIO É CRIME de acordo com o Art. 184 – Código Penal, acerca da Violação aos Direitos Autorais: Violar direitos de autor e os que lhe são conexos implica a: Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.