eu tenho medo de a vida passar assim.
foi.
me preocupo com o tempo de trabalho, com os momentos de lazer. eu contabilizo, faço planos. durmo por cima dos alarmes.
isso não é viver. isso é a morte aos segundos.
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eu tenho medo de a vida passar assim.
foi.
me preocupo com o tempo de trabalho, com os momentos de lazer. eu contabilizo, faço planos. durmo por cima dos alarmes.
isso não é viver. isso é a morte aos segundos.
velhas e envelhecidas
venho fazendo as pazes com as linhas, curvas e manchas. me olhar não é mais uma sentença. a urgência não transpassa.
quando vejo minha mãe e a elevo em elogios, percebo a injustiça. por que eu não iria querer ficar parecida?
a ânsia pelo retrato antigo, duma infância não tão distante, havia me amargurado. não quero ser um registro do tempo, estática e perfeita e lisa.
quero ser um registro no tempo, marcada e empoeirada e divina.
desejo é algo que escorre. banha paredes, mancha salões, enche pupilas. dedos firmes, abraços de mil pássaros e arrepios eriçando a pele. forma-se um elo, secreto, único, compreendido só ali, bem naquele canto que um dia pensou que não pudesse mais sentir. desejo esse que umedece os olhos, saliva a boca e empoça. estilhaça o ar e clama por mais um segundo, um milésimo, uma última virada antes de dar as costas e esperar até a próxima vez.
meu bem, seríamos tolos se pensássemos que há outro nome para o que chamamos de desejo além da carne.
sinto o peito apertar, a água invade meus pulmões e eu me desespero. não consigo gritar porque não há voz mais alta que a dele.
mas os minutos passam, as tempestades se dividem. e meu peito se alivia, o líquido escoa. há um pedido silencioso de desculpas na piada que eu rio. eu perdôo, eu perdôo. amar é algo engraçado.
se eu posso escolher, pai, me desculpe, mas jamais quero viver um amor assim.