É na madrugada entre o deixar de ser, e se torna outro, que meu coração absorve toda a melancolia do mundo.
- Δt
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É na madrugada entre o deixar de ser, e se torna outro, que meu coração absorve toda a melancolia do mundo.
- Δt
Eu sou um amante com ou sem amante, porque o amor é quem eu sou, não com quem estou.
Não preciso de muito para me sentir acompanhada. Uma música nos fones, uma boa série, um livro nas mãos, qualquer refúgio que me permita continuar sendo eu mesma. Enquanto o mundo corre para estar onde todos estão, eu encontro contentamento nas pequenas coisas.
Nanda Marques.
é curioso este assunto do amor, sobretudo quando alguém nos diz que nunca amou e, ainda assim, fala dele com uma familiaridade que nos deixa desconfiados, sem maldade, entretanto por aquela pequena e persistente incapacidade de acreditar inteiramente naquilo que nos dizem, às palavras que parecem trazer consigo uma história, e quando escutamos amor queremos saber de onde veio, quem esteve antes, quem partiu, quem ficou, quem sofreu o suficiente para aprender a falar daquela maneira, e então surge a pergunta que não fazemos, porque certas perguntas, uma vez feitas, já não permitem que a relação volte ao lugar anterior, de modo que ficamos calados, a observar, a tentar perceber se estamos perante alguém que nunca amou ou perante alguém que amou tanto que decidiu chamar-lhe outra coisa, liberdade, indiferença? ou simplesmente não sei que é uma palavra muito cómoda para quem não quer explicar-se. diz-se, não amo ninguém e nós queremos acreditar, seria mais simples, mas depois vem os textos, vem as frases sobre saudade, sobre desejo, sobre abandono, sobre aquela necessidade quase absurda de ser escolhido por alguém, e pensamos, não é possível saber tudo isto sem ter vivido qualquer coisa, é possível, mas esta possibilidade me incomoda ainda mais, porque me obriga a aceitar que uma pessoa pode conhecer uma dor sem lhe ter pertencido, pode escrever sobre amor sem ter amado, pode compreender o coração dos outros sem nunca ter entregue o seu, e fico ali, entre a confiança e a suspeita, sem saber qual delas merece permanecer. eu gostaria de confiar nas palavras, gostaria mesmo, mas não consigo. essa espécie de cautela que não sabe descansar, uma voz pequena a perguntar o que não foi dito, quem não foi mencionado, onde está a parte da história que falta, e talvez seja injusto pedir provas ao amor, ainda mais a alguém que nunca nos prometeu amor algum, mas não deixa de ser verdade que certas palavras nos alcançam e, quando isso acontece, queremos saber se foram feitas para nós ou se somos apenas mais uma pessoa a encontrar-se nelas. o problema não esteja em quem fala de amor sem amar, mas em nós, que precisamos de acreditar que toda palavra verdadeira nasceu de uma experiência verdadeira, quando talvez a verdade também possa nascer da falta, da vontade, da imaginação, daquilo que nunca aconteceu e, justamente por nunca ter acontecido, permanece intacto dentro de alguém. mesmo assim, desconfio. não sei fazer diferente, sou assim. leio, sinto, aproximo-me e depois recuo um pouco, apenas o suficiente para poder dizer a mim próprio que ainda tenho escolha, que se tudo aquilo for mentira eu já estava preparado, embora saiba perfeitamente que ninguém se prepara para ser enganado, prepara-se apenas para fingir que não ficou ferido.