Acho difícil dizer se o tupi é uma língua sem gênero ou com gênero. O pronome da 3a pessoa é sempre a’e, pra qualquer número ou gênero. Em geral, não tem por que especificar o gênero de morombo’esara (professore) ou outras funções, enquanto que outras são segregadas por gênero (quem faz o cauim e quem o consome) – talvez daí a observação de ri’a (”mulher com testículos” [sic] no VLB) e kunhãrapixara (”semelhante das mulheres”), que talvez fossem mulheres trans na sociedade de agora; e de sakûãîba’egûyra (abaixo do que tem pênis) talvez para homens trans.
De certa forma, o tupi permite que a pessoa expresse seu gênero apenas em momentos específicos, pedindo pra que a chamem de gûãîbĩ (velha) ou túîba’e (velho), respondendo como pá (usado por homens) ou eẽ (neutro).
Muitas interjeições em tupi dependem do gênero:
îu: vocativo para mulher;
re’a: partícula que indica expectativa para homens;
re’ĩ: partícula que indica expectativa para mulheres.
Considero essa flexibilidade semelhante ao japonês, em que pronomes como 私, あたし, 僕, 俺 (eu) expressam gênero, intimidade e até maturidade. Partículas como わ, よ, ぜ, かしら e かな (impossível traduzir) também podem ser consideradas femininas, masculinas ou neutras. Aparentemente, a tendência no Japão é de que a linguagem torne-se mais neutra.
Palavras para membros da família são também específicas:
a’yra (t-, r-, s-): filho de homem;
aîyra (t-, r-, s-): filha de homem;
membyra: filhe de mulher;
ybyra (t-, r-, t-): irmão mais velho de homem;
yke’yra (t-, r-, t-): irmão mais novo de homem;
endyra (t-, r-): irmã de homem;
pyky’yra: irmã mais nova de mulher;
ykera (t-, r-, t-): irmã mais velha de mulher;
menduba (lit. pai do marido): sogro de mulher;
mendy (lit. mãe do marido): sogra de mulher;
aîxó (t-, r-, t-): sogra de homem;
atu’uba (t-, r-, t-/s-): sogro de homem.
De acordo com os registros quinhentistas, é possível que a palavra para abá (pessoa) pudesse ser usada para homens exclusivamente em alguns contextos, assim como podemos usar a palavra homem pra falar de toda a humanidade em português. Para casos em que se deseja especificar, por exemplo, o sexo de um animal, usa-se kunhã para fêmeas e sakûãîba’e (lit. o que tem pênis) para machos.
Pra encerrar o texto: Pronome neutro é importante. Proteja crianças trans e intersexo.