PORTUGUÊS
19 de abril é o Dia dos Povos Indígenas no Brasil. Quis mostrar neste desenho a história e o presente dos povos indígenas por aqui.
Decidi desenhar onças, um animal nativo e que representa bravura. O homem está com o osso no queixo como está descrito nos livros de 1500. As cicatrizes mostram a luta para existir. O pedaço de pau é a ferramenta usada para sacrificar inimigos capturados.
A mulher está segurando um bebê e um maracá. Os espíritos ancestrais vivem no maracá. Eles estão dizendo: opressores, queimadores de floresta e genocidas, sumam daqui! O bebê representa o futuro para os povos indígenas, que será feito sem esquecer da ancestralidade.
O bandeirante é uma caveira. Decidi não associar nenhum animal com a crueldade dos bandeirantes. A caveira também representa a morte que a colonização trouxe. Incluí a bandeira do Brasil para mostrar que o Brasil foi construído apagando os povos indígenas.
GUARANI
Japyrundy paporundy Ypykuéra ára hína Brasil-pe. Ahechaukase ko ta'angápe hembiasakue ha hekove ko'ag̃agua ko tetãme.
Amoha'ã'akue jagua'áicha, peteĩ mymba ko'apegua ha'éva py'aguasu rechaukaha. Kuimba'e oguereko peteĩ kãngue hendyvápe, ojehaiva'ekue háicha aranduka 1500-arygua. Japihakuéra omoha'anga la ñorairõ hekóre. Pe yvyra ha'e tembiporu ojuka hag̃ua ipyhypyre.
Kuña ningo oguereko peteĩ mitã'i ha mbaraka. Ypykuéra ánga oiko hína mbaraka pype. Poroguerekovaiha, ka'aguy hapyha ha porojukaha, pekañy, he'i hikuái. Mitã'i omoha'anga teko oútava ypykuérape g̃uarã, ojejapótava hembiasakue resarai'ỹ.
La bandeirante ha'e akãkãngue háicha. Ndamoha'ã mymba bandeirante-kuéra poromombyasyha'ápe. Akãkãngue ohechauka avei te'õ ogueruva'ekue poroguerekovaiha. Amoĩ Brasil poyvi ahechauka hag̃ua ojejapoha ko tetã ypykuéra reko oñemboje'óvo.
ENGLISH
April 19th is Indigenous Peoples' Day in Brazil. I wanted to show, in this piece, their history and present as well.
I decided to draw them as jaguars, a native animal that represents courage. The man has a bone n his chin, as described in books from the 1500s. His scars show his struggle to survive. The piece of wood he's holding is a tool used to kill captured enemies.
The woman is holding a baby and a maraca. The ancestors' spirits live in the maraca. They're saying: oppressors, forest burners and genociders, get lost! The baby represents the future to the indigenous people, which will be made without abandoning their ancestry.
The bandeirante is a skull. I chose not to associate any animal with their cruelty. The skull also represents death brought by colonization. I included the Brazilian flag to show Brazil was made by erasing the native peoples.
Para aprender uma língua, uma boa dica é acompanhar assuntos que te interessam e assuntos atuais nessa língua. Infelizmente, não temos jornais em tupi. Também faltam palavras para coisas que são problemas atuais no brasil, como o desemprego, corte de verba para educação e saúde, intolerância religiosa, etc. Mas consegui fazer um texto breve usando palavras dos dicionários de antes do séc. XVIII.
Marãpe oîkó îandé retama?
Como está nosso país?
Îaîkotebẽ ka'a rarõmo. Itaîuberapotara oporoîuká nhẽ.
Precisamos cuidas das florestas. A ganância mata.
Aqui, vemos o verbo ekotebẽ, que é "afligir-se", mas podemos usar com o sentido de necessidade.
A ganância ficou como itaîuberapotara (vontade de ouro/dinheiro). Existe também tekoate'yma (vida preguiçosa) para "avareza" nos dicionários.
Ndopoporabykypotarangaî; pe ate'ymeté, e'i gûá orébo.
Vocês não querem trabalhar; são preguiçoses, nos dizem.
Tem uma palavra bem longa aí. Vamos desconstruí-la: porabyky significa trabalhar; opoporabyky seria vocês trabalham; opoporabykypotar é vocês querem trabalhar; e ndoporabykypotarangaî é vocês absolutamente não querem trabalhar.
Veja também a partícula gûá, que indica sujeito indeterminado do verbo. Quem nos dizem? Não mencionei. Disse apenas que nos dizem isso.
Kó yby xe mba'e, e'i oré îukábo oré sýkeme tembi'urama tyma.
Esta terra é minha, diz quando chegamos para plantar nossa comida.
Aqui estou mencionando o MST, claro; um dos maiores produtores de alimentos orgânicos da América Latina.
Abaetepitîaretá osapyapy ka'a komandá "soja" séryba'e kakuapa abati abé.
Genocidas ficam queimando a floresta pra plantar soja e milho.
Aqui, usei abaeté como indígena; assim, abaetepitîara é quem mata indígenas.
Para esclarecer o que é a soja, a associei ao feijão: komandá soja séryba'e — o feijão que se chama soja.
O verbo kakuab significa criar planta ou bicho.
Nda ambyasybora poîtara ruã. Oîopoî tapi'irusu re'ĩ.
Não para para alimentar as pessoas famintas. É para alimentar o gado.
Um jeito de falar de gado em tupi é tapi'irusu, isto é, anta grande.
Aîpó so'o ndîandé rembi'urama ruã bé. Oîmondó mamõygûara supé.
Essa carne não é nossa comida. Mandam para o exterior.
Abaetá i ambyasy. Ndokaruî be'ĩ o ekoagûera îabé.
Muitas pessoas estão com fome. Não comem como antigamente.
Fiquei um tempo pensando em como dizem "como antigamente". Antigamente ou outrora pode ser raka'e, erimba'e, kûesenhe'ym ou mesmo akûeîme. Mas não são substantivos para eu usar o îabé. Então fiz (trs)ekoagûera, o costume antigo.
Abaetá ndoporabykyî. Ndi ate'ými.
Muitas pessoas não trabalham. Não são preguiçosas.
Aqui está o jeito que decidi falar do desemprego.
Ndobasemangaî morabyky supé oporabykypotar îepé.
Não encontram trabalho nenhum mesmo que queiram trabalhar.
Aqui aparece o -angá de novo, que seria absolutamente.
Aqui eu chamei garimpeiro de procurador de ouro/pedra amarela brilhante: itá-îu(b)-berab-(rs)eka(r)-s-ara.
Para dizem genocídio, eu me inspirei no guarani paraguaio jukapa e fiz îukapab, isto é, matar todes.
Itaîuberaba rekáreme, 'ygetá i motuîúki.
Procurando ouro, poluem muitos rios.
Aqui é um caso em que usamos o indicativo circunstancial; quanto o advérbio vem antes do verbo.
Emonãnamo, anametá se'õû nhẽ.
Assim, muitas famílias morrem.
Igualmente aparece o indicativo circunstancial; desta vez com um verbo irregular manõ/(rs)e'õ.
Marãpe îa'ekatu îandé retama pysyrõmo?
Como podemos salvar nosso país?
Tîaîmoin tembi'u abá nha'ẽme?
Vamos por comida no prato das pessoas?
Tîasarõngatu ka'a 'y abé?
Vamos proteger as florestas e os rios?
Tîarekokatu îandé retama morombo'esaba?
Vamos cuidar bem das escolas do nosso país?
Îandé anama rorypape, Îasytatapytanga i berábi benhẽne!
Para a alegria de nossa nação, a Estrela Vermelha ★ vai brilhar de novo!
Muita gente diz que tupi-guarani e japonês são línguas irmãs. Errado! Eu sei que há a hipótese dos povos da Ásia terem migrado para as Américas. Mas isso tem pelo menos 15 mil anos.
O japonês é uma língua japônica. A família japônica só inclui línguas do arquipélago do Japão (além do japonês, há línguas minoritárias em Okinawa).
Já o tupi é uma língua do Macro-Tupi, uma grande família de línguas na América do Sul, incluindo o guarani paraguaio, o nheengatu, etc.
Se o argumento é de que o tupi e o japonês têm relação genética, então cadê a influência do japonês nas outras dezenas de famílias linguísticas do continente? O quéchua e o mapuche, por exemplo, também têm influência do japonês? Vamos por tudo numa grande família ameríndia? Ousar propor isso mostra um desconhecimento enorme sobre a diversidade cultural de Abya Yala.
Nós encontramos línguas relacionadas por comparação e registro histórico. Não só podemos encontrar palavras parecidas no português e no romeno como também podemos ver que as línguas latinas vão ficando cada vez mais parecidas conforme voltamos no tempo. Essa ciência nos fez chegar à família indo-europeia e à família afro-asiática, por exemplo.
Dizem que tanto o tupi quanto o japonês preferem a ordem sujeito-objeto-verbo. No entanto, essa é a ordem mais comum no mundo. Além disso, as línguas celtas insulares preferem começar a frase com o verbo, e ainda são parentes das línguas itálicas.
O homem ajudou o menino.
男は少年を手伝った。
Apŷaba kunumĩ oîpytybõ.
Também dizem que tanto o tupi quanto o japonês usam posposições, e não preposições. Mas isso é uma semelhança superficial. As línguas túrquicas também preferem posposições. E o tupi tem uma semelhança assim com o francês, porque marca as negações antes e depois do verbo:
Eu não quero
Je ne veux pas
Nd-a-î-potár-i
Aproveitando que você está lendo até aqui, vou mostrar uma pequena lista que fazem para sustentar esse absurdo:
"kabe" é parede em japonês, e "acapê" em tupi. Errado! (trs)akapé é abdômen em tupi.
"ame" é chuva em japonês, e "ama" em tupi. Errado! "Ama" é guarani. Em tupi é "amana".
"an'ya" é sombrio em japonês, e é "anhã" em guarani (não tupi). Errado! Em tupi é "Anhangá", que é um ser mitológico.
"arashi" é tempestade em japonês, e em tupi é "arassy". Só que nunca vi essa palavra em tupi. Talvez seja 'Arasy, que é um nome que significa "mãe do dia".
"kashi" é doce em japonês, e em tupi é "kaxi". Não sei de onde vem esse "kaxi", mas "doce" em tupi é (rs)e'ẽ — que também significa salgado, porque o tupi tem poucas palavras para sabores.
"kuri" é um tipo de castanha do Japão, e é castanha em guarani. Pelo menos uma palavra da lista tá certo, hein.
Apesar do símbolo do quebra-cabeça ser amplamente usado, a comunidade autista prefere o próprio símbolo: o infinito de arco-íris, que representa a diversidade e as infinitas possibilidades.
Digo diversidade porque é um espectro, e que recentemente incluiu também a síndrome de Asperger — há um tempo, muita gente queria se livrar desse nome "Asperger" pela história desse médico, mas também não devemos esquecer das peculiaridades de cada condição para oferecer uma qualidade de vida melhor.
Uma característica do autismo é a dificuldade com a linguagem. Então como pode ter autista poliglota?
Pessoalmente, pra mim, o caso é que eu adoro decifrar códigos e símbolos. É como um jogo pra mim. Também tem a ecolalia, que é ficar repetindo sons. Isso é parte fundamental de aprender uma língua falada. Além da diversão, estudar outras línguas faz com que eu exercite minhas habilidades sociais. Tenho certeza que estaria longe de onde estou quanto a isso se não tivesse estudado tantas línguas.
IXÉ IPÍ XE 'ANGÉ. NDAÎKÓÎ AMÕAÉ ABÁ ÎABÉ.
Perceba que precisamos "conjugar" o adjetivo "'angé" com o "xe". Veja que damos ênfase no "ixé" usando "ipó".
CHÉKO AUTISTA. CHE NDAHA'ÉI AMBUE YBYPÓRAICHA.
Veja que o sufixo átono "ko" é que dá ênfase em guarani.
AÎKOPY'I XE ANHÕ. XE APYSYK XE KOTY PUPÉ XE REKÓ RESÉ.
Para dizer "frequentemente", usamos o sufixo "py'i" — em guarani é "py'ỹi". Outra palavra para "só" é "oîepebẽ" (totalmente um). Expressamos "gostar" em tupi com o verbo de 2ª classe "apysyk" (estar satisfeito) e a posposição "resé".
AIKO PY'ỸI CHEAÑO. CHEGUSTA AIKO CHE KOTY PYPE.
Já em guarani, pra expressar "gostar", emprestamos o castelhano "gustar".
XE KYRIRĨ MEMẼ. NDA XE MOROMONGETÁ RUÃ.
Sempre lembro da palavra "kyrirĩ" (silêncio) porque parece com o som do grilo numa noite silenciosa.
CHE KYRIRĨ MEME. NAPOROMONGETÁI JEPI.
Aqui, escolhi a palavra "jepi" (sempre, costumeiramente).
XE MOAÎUKATU MBUATÃ NHẼ. NDE'I TE'E XE NHARÕNAMO TE'YÎA PUPÉ XE REKÓREME.
Esse "nhẽ" seria "efetivamente". Eu traduziria dizendo "o barulho forte acaba me incomodando". Para dizer "não é à toa que", usamos "nde'i te'e" e o resto no gerúndio.
CHE KO'ÕI AYVUGUASU. NDAREÍRI CHEÑARÕ AIKO VOVE HETA TAPICHA APYTÉPE.
Já no guarani, "não é à toa que" se diz "ndareíri". Para dizer "multidão", escolhi "heta tapicha" (muita gente).
"I 'ANGÉBA'E NDOÎANDÚBI ABÁ ÎEPY'AMONGETÁ, NDOPORAÛSÚBI ABÉ", E'I GÛÁ. MO'EMA É! ENDÉ XEBE NHEMOMBE'ÚREMEMO, A'EKATUMO NDE NHEMOASŶABA ANDUPA NDE RORYPABA BÉ.
O verbo "andub" pode ser sentir com os sentidos ou compreender. Já o sentimento em si é "(îe)py'amongetá" (conversa do coração/fígado). O pronome "gûá" indica um sujeito indefinido. Algo como "fizeram isso" ou "dizem aquilo".
NDAJE "LA AUTISTAKUÉRA NDOIKUAÁI TAPICHA REMIANDU HA NDOPOROAYHÚI AVEI". JAPU! REMOMBE'ÚRÕ CHÉBE, IKATU AÑANDU LA NE ÑEMBYASY HA LA NDE JEVY'A.
Aqui mantive a influência do castelhano pra dar autenticidade. Esse começo "(nda)je" é equivalente ao "dizem que".
NDA XE RATÃETÉÎ KOÎPÓ NDA XE MEMBEKETÉÎ PE SOSÉ. IXETE AÎKOÉ.
A palavra "(rs)atã" pode ser para dureza ou força; e "membek" para moleza ou fraqueza.
NACHEMBARETEVÉI TÉRÃ NACHEKANGYVÉI PEHEGUI. CHEAMBUÉNTEKO.
No final, temos umas palavras longas devido à regra do guarani.
Para perguntar o motivo de uma causa, podemos dizer mba'erama resepe (lit. por que coisa futura). Não há verbo aprender, mas há verbo ensinar: mbo'e. Então usamos um prefixo reflexivo e criamos o verbo "nhembo'e", isto é, se ensinar. Colocamos o verbo "potar" no final e fica: nhembo'epotar, ou seja, querer se ensinar. A frase completa fica: mba'erama resepe erenhembo'epotar tupinhe'enga resé? (para que coisa futura você quer aprender sobre a língua tupi?)
Para chamar para fazer uma coisa, que fui até redundante. Usei a partícula "ta", que é o permissivo. Dá a ideia de "que aconteça isso". Usei no final a partícula ká/ky, que indica escolha, deliberação, ou mesmo ordem. Para que "memes em tupi" seja o objeto, eu transformei isso tudo num substantivo usando o sufixo -sûara/ndûara (aqui ficou <x> porque estava depois de um <i>). A frase completa ficou: tîaîmonhangetá meme tupi rupixûara ky!
New research, published in October in the Proceedings of the National Academy of Sciences, concluded that despite size discrepancy, there’s no functional difference between men’s and women’s brains. “Male” brains and “female” brains simply don’t exist. In fact, there’s significant overlap.
Por que eu uso linguagem neutra? Eu falo "alunes" e "querides" e sempre tem aquela pessoa nos comentários achando que é um erro.
Bem, vou começar explicando o que é a linguagem neutra (também chamada de neolinguagem). É a escolha de palavras que incluam pessoas de qualquer gênero. Essa linguagem desafia a tradição do português do masculino ser o padrão: os dicionários mostram os adjetivos e as profissões no masculino, falamos de um grupo misto no masculino, etc.
Vamos lembrar que gênero gramatical e gênero de gente não são a mesma coisa. É verdade que "cadeira" é uma palavra feminina, por exemplo. A língua vasca, apesar de não ter gênero gramatical, tem peculiaridades para substantivos animados e inanimados. O japonês tem verbos diferentes para "haver" dependendo se o sujeito é animado ou inanimado. Enfim, gênero gramatical não precisa ter nada a ver com o gênero de gente. Mas às vezes tem. Um "enfermeiro" ou "bailarino" é um homem, e uma "médica" ou "professora" é mulher. Nesses casos, usar o masculino como regra pode apagar algumas pessoas ou gerar ambiguidade.
Aí é que está a função da linguagem neutra. Tentar não apagar ninguém do seu discurso e permitir que qualquer pessoa lendo seu texto sinta-se confortável. Naturalmente, vamos irritar umas pessoas transfóbicas aí nos comentários, mas isso é um bônus.
Você pode chamar a linguagem neutra de "erro de português" (mas só se você nunca escrever "vc" no lugar de "você"), mas a língua serve para passar ideias. Um texto que consegue passar uma ideia está certo. E eu uso a linguagem neutra pra passar também a ideia de que apoio o feminismo e o ativismo trans.
Se você estiver fazendo um texto na norma culta, para o trabalho, por exemplo, você pode incluir a linguagem neutra de forma mais criativa. Troque "todes" por "todo o mundo," troque "alunes" por "estudantes," "mãe" por "responsável," "êlu" por "o indivíduo," e assim por diante.
Quando vimos os primeiros verbos, percebemos que precisamos de algumas posposições — aquelas palavras que vem depois ou no final de uma palavra. Essas duas posposições têm significados bem parecidos: "-pe" significa "em" ou "para," e "pupé" significa "dentro de."
-pe vem no final da palavra e não tem acento. Então ka'a vira ka'ape, e não *ka'apé. Alguns lugares do Brasil tem esse -pe no nome: îagûary (rio da onça) + pe → îagûarype (Jaguaribe).
Se a palavra terminar com um <a> átono, ele se torna <y>:
ybaka (céu) → ybákype
oka (casa) → ókype
Se a palavra terminar em <ba> ou <pa>, essa última sílaba átona some:
upaba (lagoa) → upape
taba (aldeia) → tape
Karagûatatyba (Caraguatatuba) → Karagûatatype
Se a palavra terminar em <ma>, fica <me>:
tetama (região, terra, área) → tetame
E se a palavra terminar com um som nasal, fica <me> também:
paranã (mar, rio grande) → paranãme
nhũ (campo) → nhũme
Já o "pupé" é sempre uma palavra separada:
inĩ pupé (na rede), oka pupé (em casa)
Ka'ioby oîkó mara'aroka pupé (Ka'ioby está no hospital)
Agora que conhecemos os pronomes, podemos começar com uns verbos básicos.
Imagino que estes sejam os verbos mai importantes e simples para aprender. Primeiramente, "ekó" significa "estar;" "gûatá" significa "andar" ou "caminhar;" "'ytab" significa "nadar," e "bebé" significa "voar."
Para conjugar os verbos — sim, temos que conjugar os verbos em tupi —, colocamos um prefixo. Cada pronome tem um prefixo:
ixé → a
endé → ere
îandé → îa
oré → oro
peẽ → pe
a'e → o
Assim, como dizer:
Aîkó ka'ape (estou na mata)
Eregûatá (você caminha)
Îaîkó 'ype (estamos no rio)
Oro'ytab (nadamos)
Pegûatá ka'ape (vocês caminham)
Gûyrá obebé (o pássaro voa)
Perceba essa terminação átona -pe. Essa é a nossa primeira posposição — o português tem preposições, e o tupi tem posposições, que vêm depois das palavras. Essa posposição indica o lugar que uma coisa acontece. Vamos ver como usá-la mais profundamente no futuro.
Vamos ver algumas frases para falar com educação em tupi.
Primeiramente, o cumprimento mais comum talvez seja:
Ereîúrype? Ereîúpe? (lit. você vem?)
E respondemos:
Eẽ/pá, aîur. (lit. sim, venho)
Também é possível: eîkobé (viva).
Para os cumprimentos ao longo do dia, temos registrados:
Tîa nde ko'ema (bom dia)
Tîa nde karuka (boa tarde)
Tîa nde pytuna (boa noite)
Para perguntar o que a pessoa está fazendo, usam-se:
Marãpe ereîkó? (como você tá?)
Marã erépe? (como/que diz?)
Marãpe nde nhemongetá? (que você tá pensando?)
Mais frases do dia-a-dia:
Aîeruré ndebe (por favor, lit. te peço, te pergunto)
Para dar uma coisa, diga "ne'ĩ" (toma).
Aûîé, aûîébeté, aûîé (obrigade, lit. está pronto, está bom, chega)
Aîkuab (obrigade, lit. sei/reconheço)
Nde nhyrõ xebe (desculpe, lit. teu perdão)
Note que não temos registros para “por favor” e para agradecer, mas vemos o uso de "îeruré" pra pedir favores. Tanto que no guarani paraguaio não existe “por favor," embora haja outros jeitos de falar com educação.
Os pronomes são seis, e tem duas classes. Aqui vamos ver a primeira classe. Digamos que é a principal porque é a classe que "manda nos verbos." Perceba que usarei linguagem neutra. Não só pelo meu respeito à diversidade de gênero, mas também para reforçar as palavras em tupi que não tem gênero.
"Ixé" significa "eu." Então posso dizer "ixé morombo'esara" (eu sou professore).
"Endé" é "você." Então posso dizer "Endé Potyra membyra" (você é filhe de membyra). Veja que usei a linguagem neutra aqui, pois a palavra "membyra" não especifica gênero.
Para dizer "nós," o tupi tem duas opções. "oré" somos nós, mas sem incluir a pessoa na sua frente. Por exemplo, quando um cacique tupinambá fala com um cacique kayapó sobre o povo tupinambá, ele usa "oré." Assim, posso dizer: oré U'ubatybygûara (nós somos ubatubenses).
Já o "îandé" inclui a pessoa na sua frente. Então, se o tal cacique tupinambá estiver falando com o cacique kayapó sobre os povos indígenas, ele dirá "îandé." Por isso, posso dizer: îandé popyatã (nós somos fortes).
O pronome "a'e" é qualquer terceira pessoa, isto é, ela, elas, êlu, êlus, ele, eles. Por isso usei o pronome neutro "êlu." Então posso dizer: a'e pindaîtykara (êlu é pescadore ou êlus são pescadôries).
Por fim, "peẽ" são "vocês." Então posso dizer: peẽ kyre'ymbaba (vocês são guerreires).
Vamos aprender a nos apresentar em tupi. Para isso, vamos pular um pouco a gramática e aprender umas frases simples.
Quando for dizer seu nome, diga "xe rera..." (meu nome é...) ou "ixé..." (eu sou). E quando for perguntar pelo nome de alguém, diga: marãpe nde rera? (como é o seu nome?)
Já para perguntar de onde a pessoa é, diga "mamõ suípe ereîur?" (de onde você vem?). Você pode responder dizendo "aîur ... suí" (venho de...) ou "ixé ...-ygûara" (eu sou ...-ense). Se for um nome que termina numa vogal átona, remova essa última vogal. Por exemplo: Karagûatatyba (Caraguatatuba/SP) → karagûatatybygûara (caraguatatubense).
Vou começar a postar umas dicas para o tupi por aqui. Para ir bem devagar, vamos ver primeiro a pronúncia do tupi.
A letra <b> se pronuncia sem fechar os lábios. Fica um som parecido com o /v/ muito comum no castelhano.
O <g> é pronunciado sem bloquear a passagem de ar com a parte detrás da língua. Isso é comum em muitos sotaques do castelhano também.
O <r> é sempre como em "arara," sem ficar vibrando como no castelhano, e nunca como o <rr> do português "carro."
O <s> tem sempre o som de /s/, e nunca /z/.
Algumas combinações de letras tem um começo nasalizado. Por isso temos o <mb> e o <nd>. Não precisa pronunciar com um /i/ no começo. É "mba'e," e não "imbaé."
O <ng> é como o <ng> do inglês.
O <g> pode sumir quando dizemos <gû>. Então "gûyrá" pode ser "ûyrá."
Perto de sons nasais, o <î> pode se tornar o nosso <nh>. Então podemos falar "îandé" como "nhandé."
A letra <y> tem um som entre o /i/ e o /u/. Para fazê-lo, diga /iuiuiu/ e sinta o caminho que sua língua faz perto do céu da boca. A língua deve ficar no meio desse caminho, e os lábios abertos como para dizer /i/.
O <'> é uma oclusão glotal. É aquela parada de ar quando dizemos "aham" para negar alguma coisa.