Tales of a Grass Widow, por Rafael F. Vieira
(Artigo original aqui)
Algures nos meus tempos de secundário, escrevi umas quadras, umas quantas linhas de rimas forçadas sobre solidão e outras coisas adolescentemente irritantes. A minha colega de carteira leu-os, sem querer, e comentou "devias era investir na matemática". E foi a minha experiência com quadras, nunca mais tentei escrevê-las porque, após ouvir uma opinião agressiva mas sincera, reli os poemas e, verdade seja dita, eram horríveis. Penso que na altura, se tivesse mostrado o mesmo trabalho aos meus amigos, seriam mais brandos, ou até omitiriam a verdade, para conservarem a simpatia inerente a uma amizade juvenil, com receio da minha possível reacção negativa.
Isto para fazer a ponte lógica com as críticas actuais que passam aqui n' A Culatra; penso que haja um caminho "socialmente correcto" que se arrastou desde a nossa vivência interpessoal até às redes sociais, uma série de maneirismos inconscientes que reproduzimos online. O problema disto é a falta de noção do que se escreve, e como se escreve; blogs como o Depois do Cinema, alimentado pelas correlações sociais arrastadas para ambientes como o facebook, impulsionam a sua expansão cibernáutica, sem qualquer espécie de critério qualitativo. Portanto, não é só o querer escrever sobre algo que se gosta, é saber escrever sobre algo que se gosta (não falo apenas de gramáticas e léxicos); é notório, quando se lê um texto, o pouco à-vontade que o escritor tem com o tema. Vamos ver a crítica do último álbum de Cocorosie pela Punch.pt e como o autor, Rafael F. Vieira, consegue escrever uma percentagem abusiva de inutilidades.
"Não se trata de um par de músicos mas sim de artistas"
E eu aqui a pensar que a música seria, já por si, uma manifestação artística, felizmente existe a Punch.pt para me elucidar e para me permitir escrever comentários com desdém e ironia.
"Uma das grandes particularidades é a voz de boneca com a garganta arranhada de Bianca, fazendo ronronar de prazer os ouvidos e alimentando nutritivamente a voz lírica de Sierra."
Volto a uma antiga questão d' A Culatra, a necessidade de florear textos, atribuindo-lhes um cariz amador e pouco cuidado. O que se pensa que torna uma crítica mais elaborada,como isto do "fazendo ronronar de prazer os ouvidos", é só uma maneira de tentar encarecer sem necessidade, disfarçando a dificuldade de expressão escrita. Os ouvidos ronronarem de prazer? O que é que um texto crítico (supostamente mais próximo de tecnicismos e vocabulários específicos e não de prosa lírica) ganha com isto?
"A partir de The Adventures of Ghosthorse and Stillborn, de 2007, foram introduzidas batidas dançáveis, vozes a rappar e psicadelismo pop"
"Psicadelismo pop": seria por esta altura que eu, caso não tivesse que escrever este texto, pararia de ler. Primeiro porque estes rótulos musicais são só desculpas para não pormenorizar e especificar os recursos musicais utilizados, uma muleta dos procrastinadores. Eu também posso fazer isso.
"Ah isto é indie electro metal"
Agora lidem com isso, tentem descobrir o que é indie electro metal ou passem o conceito à frente, atribuindo ao texto a faceta transmitida na crítica em questão do que realmente é, um desperdício de palavras, tão pouco importantes que podem ser passadas à frente. Mas isso é algo que não fazemos por aqui:
"Psychedelic pop is a psychedelic musical style inspired by the sounds of psychedelic folk and psychedelic rock, but applied to a pop music setting. It reached its peak during the late 1960s, declining rapidly in the early 1970s."
Confio mais na wikipedia que no autor, RFV.
Quanto ao resto, não foi nesse álbum que foram introduzidas "batidas dançáveis", é ouvir a by your side do primeiro álbum ou a noah's ark do segundo, onde também já apareciam "vozes a rappar", em bisonours.
"Chegar ao fim desse álbum era como não desistir de nadar num mar que sabemos ser cinzento desde o areal."
Peço um momento de releitura para esta frase. Como assim? A Culatra tem tido lugar para este tipo de frases, normalmente em formato de imagem com texto, mas isto roça o ofensivo para o leitor; é suposto nós sabermos como é isto de nadar num mar que sabemos ser cinzento blablabla? Certamente poderemos imaginar, mas isso é um exercício para poesias e afins, ou para as minhas quadras escritas no secundário. E isto porque o álbum se chama Grey Oceans, daí a piada. "Piada".
"e também no tema 'Poison', a terminar o disco, com as vozes, por vezes em coro, a entoarem um refrão que se destaca perante sonoridades delicadamente venenosas"
Viram o que aconteceu? "Delicado" está associado a algo frágil, nunca juntariam a um concei.. ah RFV, seu malandro, juntar conceitos antagónicos gratuita e desnecessariamente. "Delicademente venenosas", parabéns.
"Eis as CocoRosie, e ei-las assim no single “Gravediggress”, composto por sons electrónicos disparados em vários sentidos, com uma quebra para as vozes e o piano reflectirem em que universo pretendem habitar, porém retornando ao ponto de partida."
vago
16. O que há de indeterminado, de indeciso em alguma coisa.
17. Falta de clareza; incerteza.
Esta frase consegue, impressionantemente, não só participar da ideia de "vago" como de todos os seus sinónimos.
"São amigas loucas com quem nos conseguimos divertir e deprimir como não fazemos com mais ninguém."
Então RFV, e esforçares-te um pouco para escrever algo com pés e cabeça? Como por exemplo, não afirmares que as Cocorosie são "amigas loucas", porque não só não sabemos ao que te referes, que tipo de "amigas loucas" são essas, como é estranho e desconfortável para o leitor.
Tal como eu desisti das quadras como opção de escrita, pela consciência da falta de qualidade das mesmas, às vezes o melhor é mesmo recuarmos e deixarmos a escrita para quem sabe. "Fazer ronronar de prazer os ouvidos".
- Sr. Antero










