Em um período de férias decidi acompanhá-la sem perguntar para onde.
Ela passou na minha casa e só buzinou sem paciência por volta de 17h.
Fui até a janela do quarto, abri e gritei
Me virei e bufei, odeio que me apressem.
A mala estava pesada, eu sempre levava mais do que precisava, nunca usava metade daquilo, mas eu tinha que levar de tudo, a Florence sabia ser muito imprevisível.
Arrastava a mala com dificuldade pela escada quando ouvi a porta da frente bater contra a parede.
Ouvi ela dizer ainda no corredor:
— Você foi fazer suas próprias roupas?
Nem respondi, minhas duas mãos estavam sobre a mala e tentei me apressar para que ela não visse o quão pesado estava.
— UAU! Você vai se mudar para onde vamos? — Ela disse começou a subir para me ajudar.
— Não não, não precisa — Fiquei com vergonha.
De repente estavamos lutando pra quem levava a mala e então nós duas soltamos de uma vez e a mala rolou pela escada inteira.
Ela desceu e disse — Eu não tenho culpa se a princesa é orgulhosa demais pra me deixar carregar. Anda. Vamos!
Ela já estava na porta e eu desci apressada, ela colocava no porta-malas e em seguida entrou no lado do motorista.
Fechei a porta de casa e conferi por fora se todas as janelas estavam fechadas. Sentei no banco do carona.
Vestia jeans como de costume, uma blusa completamente transparente branca e por baixo um sutiã branco também e estava de chapéu, óculos redondos de sol e uma bota simples.
— O que foi? — Florence disse.
— Para onde vamos? — Eu disse.
— Você vai descobrir. — Ela respondeu, aumentou a música e começou a cantar junto.
“Aquele sou eu no canto, aquele sou eu no centro das atenções, perdendo minha religião, tentando me igualar a você, e eu não sei se eu consigo fazer isso, oh, não, eu falei demais...”
Ela fingia estar cantando em um microfone e eu ria sem parar. R.E.M - Losing my religion. Ligou o carro e partiu. Essa música era digna de um começo de viagem, não?
Quando estávamos juntas não era necessário tantas palavras em certas situações. Era tão bom ficar em um silêncio, aquele que se encaixava, não existia nada de melhor no mundo.
Eu observava a estrada e o pôr-do-sol ia aparecendo.
Engraçado como o pôr-do-sol funciona. Nunca é o mesmo. Sempre nos apresentando uma beleza infinita e mutável mas pontual, resistente, se faz em uma luta constante para ir embora, com graça e destreza.
Meus olhos se perderam nela, o sol brilhava contra aquele ruivo desbotado, seus cabelos voavam de uma forma descontrolada contra o vento. Ela parecia estar mais linda do que já era daquela posição, parecia impossível, mas era real.
Em algumas lembranças palavras não são suficientes mas se eu fosse me lembrar daquilo certamente lembraria do rosto dela concentrado na direção e do sol que a parecia complementar aquela pintura.
Tocava More Than Words – Extreme e dizia exatamente o que eu pensava.
“Mais que palavras, é tudo que você tem que fazer para torná-la real, então você não teria que dizer, que você me ama, porque eu já saberia”
A música as vezes era indispensável. Encostei no ombro dela e ela quase tomou um susto, estava imersa na estrada e na canção.
— Isabella? — Ela dizia delicadamente.
Eu queria chorar e não queria que esse momento terminasse.
— Shhhh. — Não queria que ela me olhasse e ela entendeu.
Florence voltou com seus olhos para a estrada, eu fechei os olhos e acabei adormecendo.