O retorno de Saturno | Hindsight is 20/20
Um ensaio sobre agradecer e admirar a vista durante a escalada.
Saturno está em Aquário novamente, por volta de 29 anos depois daquele 9 de agosto quando teve início meu ciclo nessa linha do tempo. Hoje esse ciclo de certa forma se fecha para que um novo comece, e penso que foi no momento mais auspicioso possível: a Grande Conjunção de Saturno e Júpiter saindo de Capricórnio e entrando em Aquário coincidiu com uma colheita pessoal que estava escrita nos céus desde sempre, mas da qual fui tomando conhecimento aos poucos, em doses homeopáticas ao longo desses quase 30 anos de muitas idas e vindas, até a inevitável rendição e dedicação ao estudo da evolução interior.
Digo que essa rendição é inevitável porque, quanto mais cedo nos tornamos atentos aos sinais do Universo (que são constantes), mais cedo entendemos esse ciclo eterno de colheita e plantio como algo real; não há como fugir dele. E logo fica claro que esse momento pode ser extremamente gratificante se o padrão vibracional da mente se mantém elevado e conduz os anseios materiais da forma mais saudável possível. Sem ansiedade, sem apego e medos. É extremamente fácil chegar a essa conclusão, mas na prática a teoria acaba sendo outra e a compreensão dessa máxima pode acabar vindo somente com a irritação oriunda de uma sequência monumental de tropeços ao longo da vida.
Certamente esse foi o meu caso.
Por muito tempo tive receio do “fardo” que eu teria que carregar devido a esse tão falado retorno de Saturno porque grande parte das pessoas com as quais já conversei e alguns artigos que já li costumam ressaltar a característica mais implacável desse fechamento de temporada, como se invariavelmente fosse um marco tenebroso. Mas o aprendizado faz entender que o que ocorre é apenas o justo, e nada além disso. Uma vez que a colheita é inevitável, exigi de mim mesma uma resposta interior sobre o que realmente valia a pena plantar no agora para ver florescer no futuro. Isso fez o véu cair, mostrando com nitidez os padrões que deveriam ser constantemente nutridos, e os que deveriam ser quebrados.
Dentre tudo o que orbitava ao redor dessa resposta, o que ficou mais escancarado foi o fato de não querer saber como perdoar as Carolinas do passado. Essa falta de perdão interior acabava desencadeando uma série de sentimentos e vibrações que apenas me tornava uma cega prisioneira de mim mesma, me fazendo acreditar que o inferno sempre foram os outros. Acabei criando limites que me acorrentaram, não conseguia encontrar um meio de manifestar a chave e Saturno voltaria em poucos anos com sua foice para a tão esperada prestação de contas.
Era como se o lado que ardia por toda e qualquer evolução positiva despertasse após um longo sono forçado, e sair desse torpor incomodasse uma outra parte dentro de mim que até então se encontrava no controle: o orgulho, que me anestesia para mostrar o perdão como algo desnecessário, através de uma lente que distorce o real. Já perdi as contas de quantas vezes esse orgulho me fez andar em círculos enquanto isolada dentro de uma caixinha limitadora e confortável, que inevitavelmente gera a dor inigualável da resistência à mudança. Nesse momento, a escolha é bem simples: nadar ou afundar.
À medida em que Saturno se aproxima, as pistas de que o retorno é iminente vão ficando cada vez mais ressonantes. E quando isso finalmente acontece, o que se recebe é exatamente o que foi emanado ao longo dos quase 30 anos anteriores.
O caminho até aqui me faz olhar para tudo o que foi vivido ineditamente em paz, e é um alívio inexplicável finalmente ser capaz de sentir o progresso de uma forma aparente e ter a ciência de que isso exige trabalho constante, disciplina e vigília no seu sentido mais amplo. As Carolinas do passado foram perdoadas no momento em que ficou claro que cada uma das atitudes que elas tomaram, conscientes e inconscientes, me moldaram e me ajudaram a aprender a melhor forma de seguir escalando a montanha. Embora alguns momentos tenham sido tensos, com tropeços e quedas pelo caminho, libertei minhas versões do passado para manter acesa a vontade de seguir subindo, focada no agora. Soltar de uma vez por todas bagagens que tanto me drenavam e tornavam a subida desgastante foi algo essencial. Verdade seja dita: a vista tem sido extremamente gratificante.
Saturno voltou me trazendo redenção. Está sendo um despertar que mostra como os aprendizados de hoje pautam o amanhã.
O que você quer colher quando ele retornar pra ti?













