Estava sentada em um bondinho amarelo sem ideia de como chegara ali ou, ainda mais intrigante, de como o veículo andava pelos trilhos de Santa Teresa sem que ninguém o dirigisse. Sabia onde estava por simplesmente saber, assim como sabia seu nome. E só isso.
O trem parou em frente a uma casa grande de aspecto antigo, que ainda possuía o charme da época em que fora construída. A menina soltou as mãos que abraçavam os joelhos na frente do corpo e saltou do veículo, que prosseguiu imediatamente.
Ali, sozinha numa noite particularmente fria do escaldante Rio de Janeiro, sabia estar completamente perdida. E, não tendo lugar nenhum para ir a não ser em frente, assim o fez. Os portões velhos que cercavam o lugar estavam enfeitados com tiras de tecido e máscaras de carnaval, sem falar das pequenas luzes de natal que se enroscavam como heras pelo ferro retorcido. Obviamente, os donos do lugar estavam dando uma festa. Entrou.
O silêncio mórbido de antes quebrou-se quando colocou o primeiro pé no que agora sabia ser uma república feminina. Sabia simplesmente por saber, assim como sabia que morava ali. E só isso. No grande quintal gramado, luzes iguais as do portão se estendiam pelas árvores, e auto-falantes invisíveis tocavam uma melodia desconhecida. Ao som dela dançavam várias pessoas, algumas sozinhas e algumas em pares, mas todas - sem exceção - mascaradas.
As máscaras tinham diferentes formatos, cores e tamanhos, mas a maioria deixava visíveis os sorrisos extasiados cheios de dentes brancos que cantarolavam, acompanhando as melodias.
- Que bom que você chegou.
A voz fez com que virasse a cabeça de súbito, para dar de cara com um rosto que mesmo mascarado ainda lhe era familiar. Por trás da máscara branca, com grandes lágrimas negras pintadas, espreitavam olhos azuis encantadoramente dóceis e curiosos, que eram emoldurados por ondas de cabelos loiros. Tudo familiar, exceto pelo sorriso nos lábios, que lhe era estranho. Como se escondesse algo, ou como se estivesse ali por educação. Obviamente, era um sorriso que estava fora do lugar. Ainda assim, ouviu-se responder.
- Eu conheço você.
- Acredito que não.
- Não, conheço. Você também mora aqui, nós...
- Somos estranhas. - respondeu a dona dos olhos azuis - Você não sabe absolutamente nada sobre mim.
Franziu o cenho - Sinto muito, devo ter confundido as coisas.
- Aproveite a festa. Ainda tem tempo. - e com isso, seguiu seu caminho.
Ela também seguiu, testando com os pés descalços a grama úmida de orvalho. Entre os dançarinos, uma menina que dançava entre três garotos, dona de cachos que pontuavam o final das longas mechas negras, dirigiu-lhe um sorriso. Um conhecido sorriso de deboche, que embora não fosse insulto nenhum despertou nela uma certa irritação. Controlou-se e desviou o olhar, ignorando a menina que - sabia ela agora, sem saber como sabia - também morava ali.
Caminhou pelos dançarinos, sendo empurrada de um lado para o outro até chegar a uma mesa disposta em um canto, cheia de diferentes comidas de aspecto delicioso. Assim que estendeu a mão para pegar um doce, três jovens de largos sorrisos apareceram atrás de si. Uma delas pôs a mão em seu ombro, o que a sobressaltou.
- Não quis assustar. - disse a garota do vestido vermelho. Também tinha olhos claros e cachos loiros, mas seus olhos faíscavam com algo explosivo e seus cachos eram rebeldes.
- Só viemos ver se está aproveitando a festa. - disse a menina morena, com o cravo vermelho preso nos cabelos castanhos e volumosos. A terceira e mais alta, que trajava um vestido de losangos e um chapéu de pontas, apenas riu.
- Eu... Conheço alguma de vocês?
- Não. - disseram as três em uníssono.
- Ainda tem tempo. - disse a alta Arlequina
- Porque não aproveita a festa? - perguntou a loira, se aproximando com o sorriso fora de lugar. Agora que observava, estava bem ali: o mesmo sorriso quebrado. Em todas as bocas que via ali. Sem ao menos perceber, afastou-se um passo.
- Eu... está tarde. Vou seguir meu caminho.
- Tem certeza? - perguntou a morena, avançando um passo também, abrindo ainda mais o sorriso, que agora deixava à mostra os dentes cor de porcelana.
Um arrepio percorreu sua coluna, e ela começou a andar para trás - Me deixem ir! Eu quero ficar sozinha!
A Arlequina riu por trás da máscara - Tem certeza? - disse, ecoando a morena. Então correu, deixando as três para trás ao afastar-se da multidão de dançarinos.
Um choro baixo, sofrido, chamou sua atenção. Sentada em um banco abraçando um objeto que a outra não pôde identificar, estava uma menina. Sua pele era de um bronzeado desbotado, e os lábios rosados tremiam. Por sua máscara de onça escorriam lágrimas.
- Eu te conheço? - estava ciente de que estava sendo indelicada com a menina que chorava, mas de alguma forma a pergunta parecia de extrema importância.
- Não. - respondeu a menina entre soluços, sem levantar os olhos - Você não conhece ninguém.
- Acho isso bem difícil - respondeu torcendo os lábios, mas se aproximou da outra, vislumbrando o espelho quebrado que ela abraçava.
- Quebrou. - disse a menina, que percebeu o olhar
- É por isso que está chorando? - ela fez que sim - Bem, você pode consertar.
- Mesmo assim, ele ainda vai ter sido quebrado. Nunca mais será o mesmo.
- Do que está falando?
- De nós. Das pessoas. Todas foram quebradas, e nada pode realmente ser consertado. - voltando a chorar, levantou do banco e deu-lhe as costas - e desde que eu descobri isso eu sinto tanto frio. - ela abraçou o próprio peito - Tanto frio...
Com um barulho oco, algo caiu no chão. Levando os olhos para a grama, pôde ver que se tratava da máscara de onça. Imediatamente três homens, com máscaras venezianas brancas que lhe cobriam o rosto inteiro, surgiram por trás de si. Um deles a segurou, enquanto os outros dois levavam a menina -ainda de costas - embora.
Olhando o que faziam sem reação, a menina descalça permitiu que a levasse para a margem da multidão. Uma mão puxou-a para dentro do turbilhão de dançarinos, e foi empurrada cada vez mais para o meio. Estava perdida entre suas fitas de tecido e confetes, entre suas máscaras, suas risadas ruidosas que lhe alfinetavam os ouvidos, seus sorrisos quebrados que não poderiam ser consertados e aquela mesma música que tocava e tocava e tocava...
Percebeu que, sem querer, estava dançando também. Rodando sem controle no mesmo lugar, enquanto se afogava no mar de pessoas.
Foi então que uma mão segurou a sua, interrompendo aquele loop infinito. Levantando o olhar, viu um garoto. Como todos os outros da festa, usava uma máscara. Essa era azul marinho, e cobria só os olhos e o nariz, de modo a deixar à mostra o sorriso divertido e presunçoso, como se ele soubesse de algo que ela não sabia. Trajava uma roupa branca semi-oculta por um sobretudo azul e vermelho, semelhante ao de um personagem infantil que conhecia. mas os cabelos não eram loiros, ou lisos. Ela franziu o cenho - Eu te...
- Se me conhece? Não. Ninguém realmente conhece ninguém, até tentar. Quer dançar? - e, sem esperar resposta, postou a outra mão em sua cintura e a guiou no ritmo daquela maldita melodia interminável.
- Mas todos aqui... Ainda que familiares, não são quem me lembro. - disse, pisando sem querer no pé do outro - Desculpe. Eu não sei dançar.
- É porque você tem medo. - disse ele, guiando-a num rodopio
- De dançar?
- De conhecer os outros. Tem medo do que pode descobrir, de acabar sozinha no frio...
- ... E de acabar quebrada.
- Todos foram quebrados, em algum ponto. É normal ter medo de repetir a dose. Mas se não se arriscar, nunca vai saber como é. - outro rodopio e voltaram a dançar.
- O que?
- Tente. Se arrisque e descubra. - sem aviso, parou de guiá-la e descansou as mãos nas costas. O sorriso divertido e presunçoso continuava a repousar nos lábios, impecável.
Olhando ao redor, percebeu que ninguém notara a cena. Os dançarinos ainda cantavam a melodia, perdidos em seus passos despreocupados e sorrisos que, se ela se esforçasse para ver, podiam ser verdadeiros. Felizes, até. Não deslocados ou quebrados, mas livres. Porque haviam se arriscado e estavam aproveitando, não só a festa mas também a vida. Voltou a olhar para cima, para o rosto do pequeno príncipe mascarado. Mordendo os próprios lábios, estendeu as mãos para segurar as extremidades da máscara azul. Puxou. E sorriu.
- Eu conheço você! - agora, tinha certeza disso.
O sorriso dele se alargou, e ela se arriscava a dizer que foi por admiração.
Ao redor dos dois, lentamente, todos foram tirando suas máscaras. Os rostos, agora sim conhecidos, sorriam - Aproveite a festa. - disse ele, oferecendo novamente a mão - Ainda tem tempo.