estou numa casa nova, outra vez. numa casa nova para mim, mas também tão nova de aspecto que parece que foi pintada de branco mesmo ontem e que sou a primeira a estreá-la. mas não sou. parece que é assim há já alguns anos e que por aqui esses não passam. Há casas assim, brancas, imaculadas, paradas no tempo, talvez como certas pessoas mas na verdade nem sei se isto é verdade, ou sequer possível.
( o tempo passa por nós todos. na pele, no coração, na alma e há marcas que têm mesmo que ficar para nos relembrar que já ultrapassamos e o que realmente importa. as rugas, os cabelos brancos, as cicatrizes, as cartas de amor, as desilusões, os postais de destinos de férias de sonho quando ainda haviam postais e destinos de sonho)
aqui, nesta casa super, super branca, onde o tempo e o uso não se sentiam, agora vão começar a sentir-se, começa a cheirar a vida que se vai renovar. mas não me interpretem mal, e perdoa-me casa, que aqui não há nada de mal, nem é branca-hospital. é apenas branca canva, do chão às paredes ao tecto, bem isolada, onde não se podia passar nada fora do que foi estipulado o que requeria quadruplo cuidado.
e é justamente por isso está na hora de lhe dar uma nova vida. começemos por pôr cor. azul, amarelo, lilás, côr-de-rosa, plantas verdes com e sem flôr. agora um pouco de cheiro. limão, laranja, fruta da época, óleos essenciais, talvez alguns animais e ração de pacote no chão. agora vamos manter a casa tão limpa e cuidada como usada. cozinhar, receber, ler, estar, fazer amor, viver.
trazer mais pessoas dentro, colocar música mais alta, fazer mais cozinhados, inventar mais danças inesperadas, expressar mais emoções, inspirar mais amor, mais coisas fora do sitio, mais salpicos de sumo de laranja na parede, pingos de chuva no chão, até alguma louça por lavar e manchas de turmeric e beterraba nos tupperwaree, daquelas que ficam para sempre para relembrar o que não se pode controlar.
ó casa branca, tu que estás tão cuidada. agora sim, não te falta mesmo nada.
















