CAPÍTULO 1 — Rust in the Air
(Rick’s POV)
O calor naquela manhã parecia ter saído direto do ventre da terra — denso, abafado, o tipo que se arrasta pelas costas e finca os pés na alma. O céu de Redridge, sempre indiferente, ostentava aquele azul estourado demais, como se estivesse à beira de explodir em algo que jamais seria chuva.
A viatura engasgou uma, duas vezes, antes de morrer de vez no acostamento da Highway 54. Nada de novo. A mecânica já vinha avisando há semanas, mas assim como muita coisa na minha vida, eu empurrei com a barriga. Rangido seco, fumaça amarelada, um silêncio cortante que veio logo depois. Desci devagar, como quem já sabe que não há o que fazer, e levantei o capô com a frustração resignada de quem entende que não adianta brigar com o inevitável.
O motor era um emaranhado de promessas vencidas. Peças queimadas, peças corroídas, cheiro de ferro cansado. Olhei para aquilo com a mesma expressão que usava diante do espelho nos dias em que acordava mais homem do que pai, mais vazio do que xerife. Fingi que entendia o que via, mas a verdade é que aquilo era só mais um reflexo, uma estrutura ainda de pé, mas que já tinha quebrado por dentro há muito tempo.
— Que maravilha. — Respirava fundo ao ver que eu estava sem sinal no celular. O rádio? Morto. Tudo calado ao meu redor, exceto o peso na cabeça e o zumbido persistente daquilo que a gente tenta ignorar. Quarenta minutos passaram com a lentidão dos dias longos. E então ele apareceu.
O som do caminhão chegou antes dele, um motor antigo, grave, como se cuspisse lembranças com cada rotação. O logo desbotado na lateral dizia Sanctuary Motors, e atrás do volante vinha um homem que parecia ter saído direto de outro tempo: jaqueta jogada no banco, óculos pendurados na gola, botas empoeiradas e um andar sem pressa, sem pedido de licença, como se o mundo abrisse espaço para ele sem que precisasse falar uma palavra.
Negan Smith.
Desceu com a calma desconcertante de quem já viveu o suficiente pra não se apressar por nada. Limpou as mãos num pano encardido, deu uma olhada rápida na viatura como se já conhecesse cada falha antes mesmo de tocar. E então sorriu, aquele tipo de sorriso que não pede permissão, que não suaviza, que chega inteiro e se instala feito faísca no peito.
— Dia bonito pra quebrar a viatura, hein, xerife? — A voz era rouca, mas segura. Não respondi de imediato. Só fechei o capô com força, respirei fundo e disse, já farto daquele jogo que nem tinha começado:
— Só preciso que leve pra oficina. — Ele assentiu com um gesto leve, já circulando o carro como quem patrulha território conhecido. — Posso fazer isso, claro… — respondeu. — Mas vou te dizer… esse carro tá com a mesma cara de exaustão que você. Se quiser, dou um trato nos dois. —
O comentário veio acompanhado de um olhar direto. Firme. Eu o encarei de volta. Não por orgulho. Mas porque não sabia como desviar. Aqueles segundos esticaram no ar, carregados de algo que não dava nome. A cidade parecia distante naquele instante, como se nós dois estivéssemos numa redoma construída de poeira e não-ditos.
— Quer que eu chame um guincho ou vem comigo? — Ele perguntou, já subindo no caminhão. — O banco do carona ainda funciona… só morde se merecer. —
Subi. Sem responder, sem pensar muito. O banco rangeu sob meu peso, o couro quente grudando na camisa como se avisasse que, dali pra frente, nada ia passar despercebido. O interior do caminhão era um retrato fiel do homem que o dirigia: cheiro de óleo, couro velho, fumaça antiga e algo mais, algo cru, bruto, que gruda na pele feito poeira fina que se aloja em lugares que a gente nem sabe nomear. A estrada de volta se estendia à nossa frente, reta e vazia. Redridge desfilava pelas janelas com suas casas de madeira quase todas iguais, sua rotina que nunca mudava, suas fachadas que escondiam mais do que mostravam. Tudo ali era conhecido demais. Repetido demais. E, de certo modo, sufocante.
— A oficina tá tranquila? — perguntei, num tom mais leve do que pretendia. Ele soltou um riso curto, mas não debochado, parecia mais um cansaço que aprendeu a se disfarçar de sarcasmo.
— Tranquila nunca foi uma palavra que combinou comigo, xerife… Mas tá viva. E só isso já é mais do que muita coisa por aqui. —O silêncio voltou a se acomodar entre nós, mas dessa vez ele parecia menos incômodo. Olhei pela janela, fingindo distração, mas, por dentro, algo se agitava. Havia um peso diferente naquele caminhão, e não era o do motor. Era o dele. Ou talvez fosse o meu.
E o que mais me incomodava… é que eu queria entender aquilo.















