Na varanda, ao fim da manhã, repetia o gesto diário de regar os vasos. Cuidava o melhor que sabia ou podia das plantas que teimavam morrer, mas que substituía com a mesma rapidez. Eternizava assim aquele momento. Um gesto repetido, um gesto planeado, um gesto que re-vivia agora enquanto personagem principal, quando antes era apenas um figurante que tudo via através da janela. Os vasos feitos de uma argila trabalhada abrigavam as sucessivas flores que lhes eram depositadas à sua guarda. O regador de metal que em tempos brilhava aos raios matinais, encontrava-se agora gasto, sujo, baço. Perdido na lembrança ensopava a terra cuidadosamente adubada, abrigo último da esperança, molhando os dedos dos pés que descalços o alertavam do erro obrigando-o a encher mais uma vez o regador que tilintava em protesto. Atrás dele, seguia a memória, que exasperada ralhava nas suas costas - "Estou farta! Outra vez a regar?! Assim morrem-me as flores todas. Casmurro do homem." - impossibilitado de a ouvir, abria a torneira. Na dependência do gesto, na dependência da lembrança, criava a sua própria própria bolsa de ar que tragava com o desespero de um afogado. A aflição de se encontrar em frente ao espelho e ver o Capanga que foi, que era, que apenas ela soube domar e cuidar com amor terno, vivia no seu peito, na boca do estômago como uma leve pressão sempre presente. Precisava de a manter a ela e às malditas flores que teimavam morrer. Fechou a torneira. - "Porra homem! Não soubesse eu o amor que me tens e atormentava-te as noites como atormentas as pobres flores.". #jorge #capanga #republica #retornado (em Baloiço da Serradela - Vieira do Minho) https://www.instagram.com/p/CjX0tIzDt88/?igshid=NGJjMDIxMWI=














