Ontem à noite vi no jornal a notícia de que o médico Roger Abdelmassih foi liberado para cumprir pena no conforto de sua casa. Assim pelo nome é meio difícil mesmo, deixa eu clarear pra vocês:
Roger foi condenado ao equivalente a 181 anos de prisão por 48 estupros de 37 pacientes. Após 3 anos de regime fechado, os advogados dele afirmaram que ele deveria ter um habeas corpus concedido já que seu estado de saúde era precário. Roger, há cerca de uma semana atrás foi liberado do regime fechado e segue cumprindo pena em seu apartamento de luxo em São Paulo. Agora (acredite se quiser), os advogados do ex-médico buscam indulto humanitário e dizem que irão perseguir o perdão da pena.
Não sei pra vocês, mas pra mim, isso soa completamente absurdo...e comum.
Esse homem estuprou 37 mulheres. 37. Trinta-e-sete.
Posso parecer muito cruel, mas não acredito que ele deva passar nem mais um segundo em liberdade. E, muito menos, que merece qualquer tipo de “humanidade”. Ele foi humano quando abusou dessas mulheres? Ele concedeu a elas algum tipo de liberdade enquanto as violava (algumas mais de uma vez)? Ele se sensibilizou com as doenças que elas tinham ou viriam a ter depois de serem estupradas? Ele julgou como “calamitosa” a situação das mulheres após ele as violar? Ele se preocupou com o tratamento médico que essas mulheres foram realizar quando o procuraram antes de as estuprar? Ele ficou tão “profundamente abalado” e “emocionado” quanto as 37 mulheres ficaram depois que ele as assediou?
Nós estamos tão acostumados com essa situação ABSURDA que nem nos revoltamos mais. Roger é um exemplo drástico (apesar de muito real) de situações cotidianas no cenário brasileiro. Milhares de mulheres são estupradas diariamente no Brasil. Centenas delas são adolescentes. Dezenas delas são crianças. Poderia ser você, poderia ser sua irmã, poderia ser sua mãe, poderia ser sua filha. Poderia...e ainda pode. Enquanto a situação da indiferença, da impunidade, do machismo velado e da negação persistirem, esse cenário nunca irá se alterar. Enquanto a mídia não der destaque, a justiça não for efetiva, as mulheres não se unirem e as pessoas não se pronunciarem, nada disso irá mudar.
O machismo de cada dia se esconde nos detalhes e nas entrelinhas, desde uma piadinha de um colega de trabalho, desde um olhar asqueroso na rua, desde um beijo forçado, desde uma propaganda de cerveja, desde um salário menor, desde um “elogio” desnecessário, desde um vestuário pseudo único pra mulheres na televisão...até um estupro. Ou melhor, 48. Até quando nós seremos OBRIGADAS a viver em uma sociedade que julga, subestima, se aproveita e abusa continuamente mulheres todos os dias? Até quando uma Maísa chorar em um programa de audiência por conta de um Dudu é irrelevante? Até quando uma Isamara ser assassinada por um Sidnei vai ser aceito? Até quando uma Renata é incendiada por um Jeferson e a gente nem se lembra mais? Até quando uma Juliana leva mais de 3 tiros por um Roberto e não nos mobilizamos? Até quando um Anderson vai espancar até a morte uma Gabrielly e seremos passivos quanto à isso? Até quando vai ser comum um Gustavo estrangular uma Verônica porque não aceitou o fim do relacionamento? Até quando vamos estar acostumados ao assassinato de uma Lucilene por um Geraldo com golpes de facão?
Eu digo, por mim, que BASTA!
Não podemos mais sucumbir a essa cultura machista e a essa cultura do estupro. Precisamos lutar. Precisamos nos unir!
Mesmo que seja uma conversa com um colega que fez uma piadas machista, ou participar de uma passeata em prol das mulheres, ou espalhar cartazes pela rua divulgando um pensamento mais humano e menos preconceituoso, ou falar com suas amigas e organizar um movimento, ou se voluntariar em uma ONG que suporta essa causa...qualquer coisinha é válida! Não vamos deixar que esse preconceito de gênero continue a nos engolir.