Sou uma bagagem maior do que você seria capaz de sustentar. Se me calo, é porque minhas palavras carregam um peso que poucos suportariam. O que tenho a dizer raramente soa como música aos ouvidos de alguém. Minha presença, ainda que serena, é uma tempestade silenciosa. Não chega fazendo ruído; chega alterando, imperceptivelmente, a arquitetura das coisas. Sei dos abalos que isso provoca. Por isso me recolho. Abro os olhos apenas para aqueles que reconhecem. Abro os ouvidos para a melodia das estrelas e para a voz dos ancestrais que ainda nos acompanham na travessia. E abro a boca somente quando o coração encontra algo que mereça nascer em palavra. A solidão não me tornou fria. Tornou-me inteira. Protegeu minha sombra das luzes alheias que, por arrogância ou ignorância, tentaram apagá-la antes que ela pudesse florescer. Deixem-me em paz. Deixem-me só. Não busco reconhecimento naqueles que enxergam a realidade por um único prisma. Não busco companhia entre os que fazem do ruído um refúgio e desconhecem o valor do silêncio. Tampouco desejo permanecer onde energias dissonantes perturbam minha própria frequência, porque, sempre que percebo um descompasso entre mim e o mundo, ainda sou eu quem primeiro se culpa. E a culpa, embora já não reine soberana, retorna às vezes como uma lâmina fria atravessando as noites de lua cheia. Há um coração pulsando dentro de mim que ainda estou aprendendo a reconhecer. Há uma voz que me chama de algum lugar invisível, embora eu ainda não consiga distingui-la com clareza. Então surgem as sombras. Não para me destruir, mas para abrir as portas do meu próprio abismo. Ninguém alcança o paraíso sem antes atravessar o próprio umbral. Ninguém contempla a luz sem antes encontrar os próprios demônios. O verdadeiro terror nunca esteve nas sombras, mas na forma como nos ensinaram a temê-las. Romantizam a existência. Dizem que nascemos e morremos da mesma maneira, como se entre um instante e outro não existisse o poder da transformação. Impõem um destino definitivo, como se fôssemos incapazes de recriar a nós mesmos. Recuso-me a aceitar essa sentença. Talvez por isso eu escolha o silêncio. Não por ausência de voz, mas porque há verdades que ainda não encontraram ouvidos capazes de acolhê-las. E, talvez, porque eu já tenha dito mais do que o mundo estava disposto a escutar.
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