Na tentativa de fazer uma homenagem à fotografia, decidi contar a trajetória de todos os empregos que tive até finalmente conseguir descobrir o que queria ser quando crescesse. Dos empregos mais peculiares aos super maçantes, dos efêmeros aos mais banais. Todos construíram a minha verdadeira carreira de vida e me guiaram para ter um olhar mais apurado para o mundo.
Comecei aos 17 vendendo agendas da Tribo. Achava que como eu curtia, todos iriam curtir também. Vendi duas, uma pra mim e uma pra minha mãe. O resto virou presente de aniversário e de Natal. E esse foi o primeiro sinal de que eu era uma péssima vendedora.
Ainda não convencida que não levava vocação pro negócio, parti para minha primeira experiência de trabalho de gente grande aos 18, como vendedora da loja Cantão (na época em que ainda era acessível para meninas adolescentes da classe média, como eu). O tempo de três meses de experiência foi o suficiente pra perceber que aquela não era a minha, então me despedi das colegas descoladas de trabalho, com algumas peças de roupas ótimas, um tamanco preto nos pés e mochila jeans nas costas, claro. E o salário ó!
Como o cool da época era trabalhar em loja do shopping e eu ainda não estava 100% convencida de que eu não tinha talento algum para vendas, aceitei o convite de trabalhar na primeira Levi’s que iria abrir em Aracaju. Éramos obrigados a escolher – e pagar - uma calça jeans e pelo menos duas blusas pra trabalhar. Era super sincera com os clientes e dizia na lata quando a roupa não ficava legal. Saí de lá um mês depois pegando a diferença das roupas que comprei. Caia fora e levi’sua sinceridade com você, querida.
Aos 19 dei um grande reviravolta na minha vida e decidi largar curso de comunicação na UFS, amigos espetaculosos, vida boa na casa da mamãe com carro, comida e roupa lavada pra me aventurar nos EUA. Ah, foi aí que a minha biografia profissional adquiriu volume... O meu primeiro emprego durou um dia. Vi no jornal um anúncio que perguntava se eu gostava de trabalhar com arte, gente legal, ao ar livre e sem pressão. “Claro!”, eu respondi. Na verdade, o trabalho era pra vender quadros com mensagens motivacionais pelos estabelecimentos da cidade. Perfeito para mim que não tinha o dom de vender, estava com o inglês enferrujado, não conhecia nada na cidade dirigia um Fox 91 caindo aos pedaços. Após ser expulsa de vários estabelecimentos que não permitiam a entrada de ambulantes, ter apelado pra um velhinho na rua dizendo que era brasileira e que precisava muito vender pelo menos uma porra de um quadro, o carro quebrou no meio do estacionamento de um lugar que eu não sabia qual era. Resultado da doce experiência: o dono da empresa teve que interromper a malhação dele pra consertar o trambolho do carro e eu poder ir pra casa para nunca, nunca, nunca mais voltar. Meu irmão chorava toda vez que eu contava essa história, tadinho.
Depois dessa excêntrica experiência, resolvi arranjar um emprego sério e que me pagasse bem. Fui trabalhar como coladora oficial de adesivos na fábrica de bicicletas da Specialized. 87 mexicanos, 23 vietnamitas, 4 coreanos e eu. A mexicana de 107 anos (só de tempo na empresa) que trabalhava ao meu lado não gostava de mim. Não sei se era porque eu passava muito tempo estourando plástico bolha ou se porque os hermanos me achavam simpática, mas ela tocou o terror pra que eu saísse daquele emprego dos meus sonhos. Um dia, ao me ver sentada na grama comendo uma marmita fria junto com meus colegas specializados, pensei para mim: sou cidadã americana, falo inglês fluente e não preciso dessa merda! Então ergui minha cabeça, abracei os poucos amigos que ali fiz e segui sem olhar pra trás. A mexicana e eu demos graças a Deus. Mas até hoje quando vejo uma bike da Specialized por aí não consigo conter o pensamento: será que aquele adesivo foi colado por mim?
Mais um trauma adquirido, chegou a hora de fazer algo que eu realmente gostava. O do que eu gostava na época? Cinema. Ah, então vou trabalhar num cinema, claro! Mas como no meu CV não tinha nada que demonstrasse que eu era apta para trabalhar num cinema, resolvi dar uma mentidinha de leve e dizer que já havia trabalhado no Cinemark de Aracaju. E funcionou. Meu salário reduziu drasticamente e fui obrigada a tirar o meu piercing pra parecer uma pipoqueira mais alinhada, mas no dia em que fui aprovada pra trabalhar no Century 16 eu era a pessoa mais feliz do mundo. Comecei como mera pipoqueira, mas a minha ambição me levou além. Depois virei caixa, logo já assumia o café inteiro sozinha e até ganhei prêmio de melhor funcionária do mês. Mas eu ainda queria mais. Eu queria chegar à sala de projeção. E um belo dia, me chamaram pra treinar lá em cima. Fiquei tão nervosa que arranhei dois filmes inteiros por colocar a película no lugar errado, mas por sorte só levei uma bela de uma chamada do gerente geral Lombardi (só o vi essa única vez) e fui promovida para gerente projecionista. Foi o ápice da minha carreira em terras norte-americanas. Não tinha tempo pra ir ao banheiro, mas já ganhava o dobro do salário desde que entrei. Eu usava terninho preto, montava os filmes, assistia-os antes de todo mundo, tinha pipoca de graça, refrigerante à vontade e status. Estava com 20 anos and living The American Dream.
Meses depois tudo mudou de novo e eu já estava morando em outra cidade americana, descobrindo outro dom: o de fazer bons drinks. Após frequentar um curso de bartender num bar perto de casa, o professor e dono do estabelecimento gostou tanto de mim que me contratou pra trabalhar duas noites por semana lá. Como eu ainda não tinha idade pra beber legalmente, ele liberava apenas umas Smirnoff Ices com Blue Curaçao pra eu ficar legal. E assim ficávamos: eu, ele e Diana Krall cantando Cry me a River, all night long. E quanto mais eu tomava aquela bebidinha azul, mais rios eu chorava... Eram noites escuras e vazias aquelas.
Na mesma época eu fui chamada pra assumir outro balcão do lado desse bar, mas num estabelecimento com um perfil diferenciado e bem mais animado. Este oferecia corpos femininos nus e dançantes para entreter velhos solitários, casados frustrados e brasileiros quebrados. Comecei como bartender servindo refri, sucos e energéticos (já que a lei do bairro não permitia álcool e periquitas avulsas no mesmo ambiente), mas depois consegui dois dias como garçonete e aí foi que consegui ver de perto como a parada funciona. No começo ficava nervosa e cheguei a derramar red bull no colo de um dos telespectadores, mas para a minha sorte ele estava tão entretido que nem notou. Depois fui tirando de letra e passei a recusar ofertas para dançar nua na mesa às gargalhadas e intimava gorjetas sem embaraço. Com o tempo, consegui manejar com maestria o ato de servir a bebida do cliente enquanto ele administrava um par de seios plastificados na cara. Foi a época em minha vida que mais vi pernas e bocas abertas. Foi memorável. E sempre que conto essa experiência profissional as pessoas riem. Né?