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Despedida (uma homenagem a Rubem Braga)
Rubem Braga tem uma crônica muito famosa, onde diz:
“....É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.”
Despedidas. Separação. Confusão. Meias palavras. Muitas palavras. Há várias formas de falar, porém, nunca sabemos descrever exatamente o que, no fim, aconteceu. Somente foi. Somente saiu. Escapuliu, escafedeu-se. E assim, de uma hora para outra, o que era cheio, simplesmente ficou vazio. Aquela canção que você cantava não completa tanto assim mais o meu dia. O que era meu e seu, agora é somente meu ou, quem sabe, somente seu. Será que é somente seu? Não tinha aquela música que cantava “O nosso amor se transformou em “bom dia”?
Enfim, não faz tanto sentido pensar. O que foi, foi. Sem glória, mas, no fundo; talvez, uma certa humilhação. É uma pequena cicatriz, um souvenir. Daqueles que não gostamos de pegar, mas só tem aquele ali no fundo, então, foi o que sobrou. Olhamos e sem mais, nem menos, o guardamos na estante da vida. Mais um para a coleção, essa mal definida e com vai e vem com um ticket só para partida; porém, quando pensamos, tem ali uma certa beleza escondida.
É como li uma vez: “Finding beauty in negative spaces”. É isso mesmo. Achar beleza em espaços negativos. Daqueles dos quais, normalmente, não prestamos tanta atenção. As coisas acontecem tão rapidamente, porém, nesses pequenos e curtos espaços irônicos da vida, parece que a nossa visão está à procura deles e, então, “click”, eles fazem total sentido. E quem sabe talvez não era bom pensar um pouco antes descartar e dar um fim? Afinal, tinha algo de belo antes de se tornar apenas um ordinário souvenir. Talvez a despedida seja mais do que apenas vazios “bom dia”, talvez tenha algo que devemos enxergar mais. Frear esse relógio, reler velhos poemas ou rever antigas fotografias. Talvez seja mais do que likes e dislikes ou séries românticas na Netflix. Talvez seja encarar de frente algo que sempre fugimos, talvez seja dizer o que não foi dito. Talvez seja trabalhar o tempo para o seu próprio benefício. Há tantos pregamentos sobre tempo, mas nós realmente nos atentamos a isso? Ou só falamos, falamos , não dizemos nada e encaramos o celular novamente?
No começo é difícil, muito doloroso. Não queremos pensar, não queremos olhar ou mexer naquilo. É como um quarto bagunçado ou um banheiro sujo. Por mais que queremos ignorar, fingir que não existe, aquele cheiro permanece e de cinco em cinco minutos vem te lembrar, é quase como um amigo a te provocar: “Ei, tô aqui ainda, viu?” E, por fim, quando não há mais porquê guardar ou apertar contra o peito, é o momento de levantar e deixar ir.
Sozinhos, como quando aprendemos a sair para vida. Dá medo, é doloroso, você se sente ridículo, desagradável, irritante, infantil e pensa em até desistir; porém, é somente você que pode por fim nisso. E quem sabe não achar a tal da glória ali? Como quando fazemos uma descoberta única.
São, enfim, aprendizados. E, sim, uma forma de despedida. É como tirar a casca da ferida, é como fechar a porta e encontrar a sua saída, é como sentir orgulho de que tudo acabou de uma forma inesperada e esquisita, é saber perdoar e ver que não é preciso tanto ódio assim, e que aquele souvenir não estará escondido senão à vista; mas, vem cá: Não é era assim que tudo deveria seguir?
"O álamo junto do portão tem um vigor e uma pureza que me fazem bem pela manhã, como se toda manhã, ao abrir a janela, eu visse uma jovem imensa, muito clara, de olhos muito verdes, de pé, sorrindo para mim." Trecho da crônica "Árvore" de Rubem Braga, publicada em 19 de abril de 1955. #ilustration #ilustração #rubembraga #arvore #rarodeoliveira https://www.instagram.com/p/CMvgJgPnQbY/?igshid=1g0mv6ah4jdv7
Coisas Antigas - Crônica de Rubem Braga de 1957. Vocês já conheciam? #rubembraga #literaturanacional #coisasantigas #cronicasdocotidiano #culturageral #escritacriativa #lerfazbem #lerporprazer (em São Paulo, Brazil) https://www.instagram.com/p/CI9VK16JM--/?igshid=15t2xfmmns9eh
Muitas vezes, a única coisa que se precisa é de uma boa companhia. Partindo do princípio de que você deve ser a melhor companhia de si mesmo, uma boa companhia demanda ser no mínimo melhor do que estar sozinho. Gosto do título desta coletânea de crônicas justamente por me provocar esse pensamento e o convite a partilhar a solidão da leitura. Da reunião de autores falando sobre cotidianos distantes, separei um trecho da introdução de #HumbertoWerneck em que #FernandoSabino e #RubemBraga, dois ilustres cronistas brasileiros, protagonizam uma anedota digna de, por que não, uma boa crônica. (em Copacabana, Rio de Janeiro) https://www.instagram.com/p/CFVdkTTMZvF/?igshid=1li91dves1cx1
Encontro
Com atenção não seria difícil descobrir pequenas mudanças: os cabelos mais claros, e entretanto com menos luz e vida; a boca pintada com um desenho diferente, e o batom mais escuro. Impossível negar uma tênue, fina ruga – quase estimável. Mas naquele instante, diante da antiga amada que não via há muito tempo, não eram essas pequenas coisas que intrigavam o seu olhar afetuoso e melancólico. Havia certa mudança imponderável, e difícil de localizar – a voz ou o jeito de falar, o tom ao mesmo tempo mais desembaraçado e mais sereno?
E mesmo no talhe do corpo (o pequeno cinto vermelho era, pensou ele, uma inabilidade: aumentava-lhe a cintura), na relação entre o corpo e os membros havia uma sutil mudança.
Sim, ela estava mais elegante, mais precisa em seu desenho, mas perdera alguma indizível graça elástica do tempo em que não precisava fazer regime para emagrecer e era menos consciente de seu próprio corpo, como que o abandonava com certa moleza, distraída das próprias linhas e dos gestos cuja beleza imprevista ele fora descobrindo devagar, com uma longa delícia.
Por um instante, enquanto conversava com outras pessoas presentes assuntos sem importância, ele tentou imaginar que impressão teria agora se a visse pela primeira vez, se aquela imagem não estivesse, dentro de seus olhos e de sua alma, fundida a tantas outras imagens dela mesma perdidas no espaço e no tempo. Não tinha dúvida de que a acharia muito bonita, pois ela continuava bela, talvez mais bem vestida; não tinha dúvida mesmo de que, como da primeira vez que a vira, receberia sua beleza como um choque, uma bênção e um leve pânico, tanto a sua radiosa formosura dá uma vida e um sentido novo a qualquer ambiente, traz essa vibração especial que só certas mulheres realmente belas produzem. Mas de algum modo esse deslumbramento seria diferente do antigo – como se ela estivesse mais pessoa, com mais graça e finura de mulher, menos graça e abandono de animal jovem.
O grupo moveu-se para tomar lugar em uma mesa no fundo do bar. Ele andou a seu lado um instante (como tinham andado lado a lado!) mas não quis sentar, recusou o convite gentil, sentia-se quase um estranho naquela roda. Despediu-se. E quando estendeu a mão àquela que tanto amara, e recebeu, como antigamente, seu olhar claro e amigo, quase carinhoso, sentiu uma coisa boa dentro de si, uma certeza de que nem tudo se perde na confusão da vida e que uma vaga mas imperecível ternura é o prêmio dos que muito souberam amar.
Rubem Braga
O inventário
A lista é terrivelmente minuciosa; eu terei que apresentar, ao sair desta casa, tantos ganchos de pendurar roupa e tantos cinzeirinhos de cobre; que já que insisti pelo piano, tenho que me conformar com a presença de um enorme e sinistro meuble musiqueiro, onde se guardam velhos tangos e valsas. Meu amigo confere as coisas, de lista na mão e a velha vai repetindo os nomes e apontando os objetos, numa ladainha interminável; bocejo no meio de meu reino desordenado e precário; uma a uma terei de entregar um dia todas essas coisas de volta a esses velhos; e para eles são coisas de certo modo sagradas, como o longo contato de seus olhos e de suas mãos, coisas de suas vidas que incorporaram minutos e anos, lembranças, palavras, emoções.
Bocejo, depois fumo: nego-me a examinar, como eles gostariam, o detalhe de cada coisa, a minha indeferença parece que vagamente os ofende. Creio que sentem no fundo da alma um odeio deste estranho que vai morar em sua casa, com suas coisas; sou um intruso, o mais antipático dos intrusos, o intruso que paga o direito de ser intruso. E então eles ficam mais minuciosos, gastam meia hora para acrescentar na lista algumas coisinhas sem importância que tinham omitido, são avaros do que me alugam…
Partem. Chego à janela, vejo os que fecham com todo o cuidado o portão, e sorrio. Esses velhos são uns insensatos. Arrolaram centenas de cacarecos inúteis e se esqueceram do mais importante, do que me atraiu a esta casa, dos bens sem preço, que um vândalo poderia destruir, e entretanto, não estão no inventário, daqueles bens, que se sumissem, fariam esses dois velhos desfalecer de espanto e de dor; o que eles não compraram com dinheiro, com o longo amor, o longo, cotidiano carinho: as árvores altas, belas, ainda úmidas de chuva da noite, brilhando muito verdes, ao sol.
Rubem Braga
Crônica de Rubem Braga
5h43 17° #rubembraga , cronista capixaba que merece mais atenção, escreveu uma vez um texto que acho que se chamava "Eu e Bebu na hora neutra da madrugada". Sempre quis entender o que era #horaneutra No tempo em que li as primeiras crônicas do velho Rubem eu era uma pivete. Não cabia na minha cabeça juvenil que se poderia escrever a um #autor e perguntar-lhe coisas. Perdi a chance de saber direto da fonte. Cresci e várias vezes me peguei de #madrugada pensando o que era hora neutra. E depois o que era madrugada. 5h43 deve ser madrugada. Pra algumas pessoas ainda deve ser final de noite. Mas o que é ser neutro, quando se trata de "hora"? Meio-dia, hora quente. 22h, hora de paixão. 23h, hora de medo. Tudo invenções agora, exceto meio-dia, que mesmo no inverno há de ser a hora mais quente. Hoje acordei bem cedo. Porque acordei. Não acordei por nada não. Quando desperto, meus cães me pedem com os olhos o jardim. Então, vou até a porta e os liberto. Às vezes vou com eles. Em momentos escuros, evito (tenho medo de bichos. Sou uma covarde). Desta vez, fui. Porque me atraiu a #luz de fora. Havia o #céu escuro, mas querendo clarear. Havia ainda um resto de iluminação pública. Uma #estrela (ou #planeta) no alto e poucas luzes nos apartamentos distantes. Estava com blusa e não sentia frio. Não tinha medo de bichos. Meus cães andavam em lugares que eu nem enxergava. E não havia ruídos a me distrair. Estávamos quietos eu e esse cenário. Seria esse um momento neutro? Ainda vou me perguntar um montão o que é a hora neutra da madrugada. Vai ver eu tenho prazer em não ter essa resposta. Talvez nunca grite "eureka". Talvez Rubem Braga nem tenha ligado tanto pra isso. De todo modo, bom dia pra vocês. . . . #jardim #garden #castelpark #backyard #dawn #urbanscape #urbanchronicles #urbanlife . . . (Volto e meia pergunto "será uma estrela ou planeta". Laura já me ensinou várias vezes. Outro prazer a investigar: o da dúvida) https://www.instagram.com/p/BwZD6BMFi-R/?utm_source=ig_tumblr_share&igshid=em8q3ensrglr