Inspire, ninguém é normal.
Palavras de orientação e consolo para o coração:
Desejo que você sempre busque aqui - em você - , orientação e sabedoria para qualquer situação em sua vida. Pois, onde estiver o teu tesouro, também estará o teu coração!
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Brinquedos no sótão
Uma vez me contaram sobre energias e como elas funcionam em nosso campo. Algumas vezes permanecem intactas, enlaçadas, como aquele nó cego no seu tênis favorito. Outras vezes, nem tanto, é apenas como uma falha na conexão, e por mais que você queira conectar, reconectar ou desligar o seu modem, ela, simplesmente, não se propaga normalmente.
Nossas vidas estão em constante colisão. Agora pisamos em areias movediças da ilusão, antes brincávamos e nos arriscávamos em aventuras surreais onde, em nossa vasta imaginação, tudo era divertido, perigoso e como heróis, sairíamos todos prontos para outra. E essas energias eram como cometas colidindo na terra; a nossa terra. Aquela terra que somente nossas energias reinavam, circulavam e voavam como águias no céu. Mas esse tempo passa, e alguns brinquedos ficam velhos, chatos, esquecidos e muitas vezes, deixados num sótão por lembrarem de brincadeiras e momentos que nos ferem. E essa energia fica escassa, fraca e presa em prateleiras internas.
Antes, nos atirávamos ao mistério, ao desconhecido, como num pique-esconde e os nossos corações serviam como alerta de perigo. Apesar disso, saíamos vitoriosos, quase como a realeza pois essa conquista era nossa. E queríamos sentarmos juntos à nossa mesa. Porém, aprendemos da pior forma que dividir e se conectar não é o tipo de brincadeira que esperam de nós. E assim, a poeira vem, em sua dança quase invisível, se acolhe e encolhe dentro daquele espaço vazio e ali, agora confortável e quente, fica por um bom tempo.
Como brinquedos no sótão, nem todos os ideais se concretizam e nem tudo que acreditávamos era de verdade o que queríamos;
Como brinquedos no sótão, nem tudo que é certo ou que éramos terá o mesmo valor que tinha;
Como brinquedos no sótão, há certos momentos em que apenas a memória pode curar feridas abertas e corações partidos;
Como brinquedos no sótão, para abrir certas portas, por mais que machuque e você se sinta inválido, há de fechar aquelas que você nunca pensou que fecharia;
São esses tempos raros, ansiosos, desgastados e irados que nos levam para dentro do nosso sótão. E afogados, distantes e perdidos em nós mesmos é onde começaremos novamente. E lá, essa energia se fortalecerá como antigamente.
Como brinquedos no sótão, é apenas relembrando de momentos, erros, falhas, e pedaços quebrados que evitaremos novos devaneios. Pois, apesar das aparências, do tempo de uso e decadência, há algo único e vívido ali dentro. As energias como a fé se apresentam de formas sútis quase como nas entrelinhas. É assim que se manifestam, é assim que tudo se intensifica. E com o passar da jornada lembraremos com um sorriso simples de que nem tudo precisa se esvanecer sem nenhum motivo e que tudo bem se, naquele momento, nem tudo fizer sentido e que, sim, vale a pena correr esse risco.
Afinal, como aqueles brinquedos; as brincadeiras e as energias foram em sua própria conta e risco que tudo aquilo se manifestava e por um breve momento fez total sentido.
Despedida (uma homenagem a Rubem Braga)
Rubem Braga tem uma crônica muito famosa, onde diz:
“....É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.”
Despedidas. Separação. Confusão. Meias palavras. Muitas palavras. Há várias formas de falar, porém, nunca sabemos descrever exatamente o que, no fim, aconteceu. Somente foi. Somente saiu. Escapuliu, escafedeu-se. E assim, de uma hora para outra, o que era cheio, simplesmente ficou vazio. Aquela canção que você cantava não completa tanto assim mais o meu dia. O que era meu e seu, agora é somente meu ou, quem sabe, somente seu. Será que é somente seu? Não tinha aquela música que cantava “O nosso amor se transformou em “bom dia”?
Enfim, não faz tanto sentido pensar. O que foi, foi. Sem glória, mas, no fundo; talvez, uma certa humilhação. É uma pequena cicatriz, um souvenir. Daqueles que não gostamos de pegar, mas só tem aquele ali no fundo, então, foi o que sobrou. Olhamos e sem mais, nem menos, o guardamos na estante da vida. Mais um para a coleção, essa mal definida e com vai e vem com um ticket só para partida; porém, quando pensamos, tem ali uma certa beleza escondida.
É como li uma vez: “Finding beauty in negative spaces”. É isso mesmo. Achar beleza em espaços negativos. Daqueles dos quais, normalmente, não prestamos tanta atenção. As coisas acontecem tão rapidamente, porém, nesses pequenos e curtos espaços irônicos da vida, parece que a nossa visão está à procura deles e, então, “click”, eles fazem total sentido. E quem sabe talvez não era bom pensar um pouco antes descartar e dar um fim? Afinal, tinha algo de belo antes de se tornar apenas um ordinário souvenir. Talvez a despedida seja mais do que apenas vazios “bom dia”, talvez tenha algo que devemos enxergar mais. Frear esse relógio, reler velhos poemas ou rever antigas fotografias. Talvez seja mais do que likes e dislikes ou séries românticas na Netflix. Talvez seja encarar de frente algo que sempre fugimos, talvez seja dizer o que não foi dito. Talvez seja trabalhar o tempo para o seu próprio benefício. Há tantos pregamentos sobre tempo, mas nós realmente nos atentamos a isso? Ou só falamos, falamos , não dizemos nada e encaramos o celular novamente?
No começo é difícil, muito doloroso. Não queremos pensar, não queremos olhar ou mexer naquilo. É como um quarto bagunçado ou um banheiro sujo. Por mais que queremos ignorar, fingir que não existe, aquele cheiro permanece e de cinco em cinco minutos vem te lembrar, é quase como um amigo a te provocar: “Ei, tô aqui ainda, viu?” E, por fim, quando não há mais porquê guardar ou apertar contra o peito, é o momento de levantar e deixar ir.
Sozinhos, como quando aprendemos a sair para vida. Dá medo, é doloroso, você se sente ridículo, desagradável, irritante, infantil e pensa em até desistir; porém, é somente você que pode por fim nisso. E quem sabe não achar a tal da glória ali? Como quando fazemos uma descoberta única.
São, enfim, aprendizados. E, sim, uma forma de despedida. É como tirar a casca da ferida, é como fechar a porta e encontrar a sua saída, é como sentir orgulho de que tudo acabou de uma forma inesperada e esquisita, é saber perdoar e ver que não é preciso tanto ódio assim, e que aquele souvenir não estará escondido senão à vista; mas, vem cá: Não é era assim que tudo deveria seguir?