Era uma noite de inverno qualquer, estava em torno de 6ºC naquele cidade serrana. Uma leve névoa, porém aconchegante e misteriosa, grande característica de Caxias do Sul. Fazia pelo menos 4 anos que não visitava meu pai, era férias, estava no último ano do curso de Letras. Teria que fazer companhia para meus avós, tentava me comunicar com o famoso Talian (uma mistura de português com italiano) mas era algo impossível para pessoas sãs. Pelo menos como um ótimo tortei que a minha nona preparou, antes de sair para aquela noite. Uma série de assassinatos andou acontecendo nos últimos 6 meses. 3 pessoas morreram. Todas as vítimas eram encontradas em pipas de vinhos, nos lugares mais aleatórios, como na antiga casa rosa, outra M.A.E.S.A e a ultima nos trilhos do trem. Caxias andava tão violenta ultimamente, mas o interessante é que não era assalto e nem estupros, era diversão. Um serial killer solto na pérola das colônias. Muito folclore surgiu ali, alguns diziam que eram os fantasmas da família Eberle, alguns os antigos índios que ocupavam a região quando chegaram os primeiros italianos. Apenas crendice daquela cidade, mas nada me impedia de sair à noite. Por mais que fosse perigoso, precisava ver gente. Aquela cidade respirava o Blues, não era surpresa ter tantos músicos bons. Aquela noite no Mississipi, me apaixonei, por um erro. Dedos ágeis da qual não perdia o ritmo, nem o charme. Olhos azuis, rosto fino e magra. Seu cabelo era descolorido, combinava perfeitamente com o baixo fender de cor creme. Interessante era a troca de olhares entre eu e ela. Após terminar, ela sentou em meu lado no balcão, já se passava das 2 da manhã. Olhava com o canto do olho, parecia tímida, bem mais que eu. Queria chamar a sua atenção, não sabia como, nem como começar um assunto interessante. Mas graças ao meu instinto que acompanha desde a infância de falar palavras aleatórias. -Oi, você toca baixo? - Minhas mãos soavam. Engoli a seco. Mas eu precisava ouvir a sua voz. Eu precisava saber quem era ela. -Pareceu um pouco obvio. - Bebeu um gole de sua cerveja artesanal. - Prazer Helena. -Prazer, meu nome é Zara. -Como a marca de roupa? -Minha mãe é costureira. -Ah entendi. Minha mãe é historiadora, sei como é. - Chamou uma garçonete, da qual a conhecia muito bem. - Uma pinta pra minha amiga fashion. Aquilo me deixou envergonhada, queria morrer a partir daquele momento. Sair correndo para um cartório e trocar meu nome. Amo minha mãe, mas não era legal sair com um nome de roupa por aí. Deve ser por isso que nunca tive um relacionamento sério, talvez não era o preconceito sobre a minha bissexualidade, era só o nome. Foram uma, duas e algumas a mais. Maldito foi Homero, a amaldiçoar todas as Helenas com Íliada. Assim foi, aqueles presentes de gregos me fizeram perder a consciência. Quando eu vi. Estava com ela e ela comigo, em seu apartamento, ouvindo Queen, porque a voz do Freddy era incrível. Só queria mais e mais, saciar a minha sede daquela sangria. Daquele jeito. Foi uma noite incrível, de poucas lembranças, curta com um grande prazer. Lembro das 8 da manhã marcando naquele despertador retro. Dia e hora. Lembro de sentir que deveria ir para casa, talvez estavam preocupados. Ela dormia. Parecia estar exausta. Levantei e vesti. Deixei um bilhete e sai. Voltei para casa e esperei por sua mensagem. Depois de horas em cima do meu T.C.C. me levantei para ir ao banheiro. Meu pai dormia no sofá com a televisão ligada. Estava no noticiário da qual falava sobre a queda na produção agrícola devido ao frio. "Mais um assassinato é confirmado em Caxias do Sul". Olhei rapidamente para a tela, se aproximei e levantei o volume. Meu pai ameaçou acorda-se, mas continuou a dormir. A notícia era extensa, foi encontrado uma mulher dentro de mais uma pipa. Dessa vez na antiga vinícola dos trilhos, da qual não lembro o nome. Da qual eu estava a li perto, ontem à noite. Lá no fundo, algo me dizia que eu estava sendo uma presa fácil.