Tudo bem por aí? Espero que estejas bem e em paz. Aqui, como a senhora deve saber, estamos tentando seguir com a vida, com os sonhos, as risadas e as lutas diárias. Hoje é dia das mães aqui, um dia que não era muito feliz pra senhora porque sempre era o dia que você lembrava que também era filha de uma mãe incrível e não podia celebrar esse dia ao lado dela, como eu não posso mais celebrar ao seu. Há alguns anos atrás, você estaria chegando da missa correndo, meu pai estaria acendendo a churrasqueira, som alto e a expectativa da família reunida de novo. Tiraríamos muitas fotos, eu faria um texto no facebook pra te dizer o que dizia todos os dias quando eu ia dormir: eu te amo, mãe; você ia vir me abraçar emocionada depois de ler e ali eu iria ganhar um abraço forte que nunca mais tive a oportunidade de sentir. Hoje faz sol lá fora, está bem quente, seco, estamos enfrentando tempos difíceis em relação ao clima, mas hoje esse sol me lembra que ainda estamos aqui, vivos, apesar da dor e desse buraco imenso que ficou nas nossas vidas. Eu sinto muito por não poder te ter aqui pessoalmente, por não ouvir sua risada, por não fazer minhas piadinhas com você e as nossas fofoquinhas noturnas. Eu sinto por não poder vibrar com você as minhas conquistas, mas eu sei que você tá vendo e tá dando pulos de alegria daí. Eu sigo daqui, mãe. Sigo sonhando porque você me ensinou que sonhar é de graça, e pra sonhar a gente tem que sonhar grande mesmo. Sigo daqui buscando realizar as metas, sigo entrando nos espaços de cabeça erguida, sabendo chegar e sabendo sair, sem pisar em ninguém e tentando não deixar ninguém pisar em mim. Eu sei que a senhora sabe que eu sou meio coração mole, que eu penso demais, que eu sou ansiosa demais, radical demais, intensa demais, mas tenho tentado pesar a intensidade, ás vezes eu consigo. Com o passar do tempo, tenho pensando sobre o quanto eu te santifiquei, te coloquei em um lugar humanamente impossível de alcançar, quis te orgulhar e ser uma filha ideal assim como eu te desenhei ideal, me machuquei muito nesse percurso, me podei muito nesse caminho, não queria ser um motivo de frustação, e foi a senhora quem me salvou dessa encenação. Mais uma vez, como no dia 25/10/1999, você me deu à luz num hospital ao dizer que eu deveria ser livre, me amar e amar quem eu quisesse. Minha liberdade não deveria estar nas suas mãos, mas você viu o que eu fiz e antes de partir para outro plano, ainda que sem entender e concordar, me deu a liberdade de viver, me deu a vida. Eu nasci duas vezes, mamãe, no primeiro e no último dia ao seu lado. Eu nasci de você. Obrigada pela sua generosidade, pela oportunidade de ter vivido ao seu lado, de ter sido bem mais que sua filha, sua amiga e sua companheira. Eu te amo com todo o meu coração e pra sempre vou te amar, até depois do fim da minha vida.