Para uma adolescente que acabou de completar dezoito anos em uma cama de hospital até que eu estava bastante feliz. E não era pra menos, afinal eu estava podendo comemorar meus dezoito belos anos de vida. Viva.
Então você se pergunta “Oh, Melanie, o que aconteceu para você estar em uma cama de hospital?” e eu te conto a resumida história: “há uma semana atrás eu estava saindo com alguns amigos na agitada noite de Brooks, e depois de muita festa fomos terminar em um racha e eu, ótima motorista que sou quis competir, e eu iria ganhar se menos de um metro da linha de chegada não tivesse perdido o controle do carro e capotado. A última coisa que lembro depois de capotar o carro foi de ver meu irmão sorrindo pra mim, do outro lado de uma ponte, fazendo sinal com as mãos para que eu voltasse, e então acordei no hospital.”
Não foi um acidente terrível, não perdi nenhum pedaço do meu corpo, não virei um vegetal nem nada disso, mas mesmo assim todos estavam muito emocionados por eu ter sobrevivido, já que meu irmão morreu disputando um racha no dia do meu aniversário de quinze anos. Meu aniversário era uma mistura de tristeza e felicidade.
Minha mãe segurava o bolo em suas mãos e fungava, tentando conter o choro que com toda certeza viria em alguns segundos. Minha pequena irmã, Lily, segurava um grande pacote de presente em uma das mãos e na outra vários balões coloridos. Minhas duas melhores amigas sorriam com lágrimas nos olhos, não sendo tão fortes como minha mãe.
- Com quem será? Com quem será? Com quem será que a Mel vai casar? – as mulheres da minha vida cantavam em coro – Vai depender, vai depender, vai depender se alguém vai querer!
Elas deram risada da minha cara e então Lily se aproximou e me entregou o pacote de presente.
- Espero que você use sempre – ela sorriu brincalhona. Abri o embrulho e dentro do mesmo estava uma grande folha de papel escrito “Responsabilidade”. Lição de moral, que ótimo!
Sabia que não estava sendo uma filha totalmente responsável ou o melhor exemplo para minha irmã, mas eu simplesmente não conseguia evitar. Eu precisava me sentir livre de alguma forma.
Suzan e Julia não me deram presente algum, apenas um abraço em grupo e, sinceramente, foi o melhor presente que recebi.
- Você está horrorosa com esses curativos! – Julia disse – Espero que fique bem até o acampamento de verão.
- Não acredito que ainda insistem nisso!
O acampamento de verão era é uma tradição da Brooks High School para os formandos, e todo o verão a escola paga todas as despesas para o tal acampamento que tem a fama de ser um ambiente divertido e familiar para os jovens. Uma diversão moderada. Traduzindo: virgens sentados em volta de uma fogueira contando histórias sobre a loira do banheiro.
- Claro que insistimos, Mel! – agora foi a vez de Suzan se manifestar, jogando seu cabelo loiro para o lado – Nós estamos precisando disso, mulher! Em uma semana vamos estar no meio do mato nos divertindo como nunca!
- Com nossos amigos pernilongos, não é? – sorri irônica.
- Para de ser chata! Agora nós temos que ir, okay? O horário de visita tá acabando e precisamos terminar de acertar tudo pra você poder ir ao acampamento.
- Vamos, meninas? – minha mãe as chamou, e então logo todas se despediram de mim e fiquei sozinha naquele quarto de hospital deprimente.
Odiava ficar com muito tempo livre, porque assim eu tinha tempo para pensar na minha vida e inventar problemas que não existiam.
Foi inevitável pensar em meu irmão e na saudade que sinto dele. Ele estaria com vinte e dois anos de idade se não tivesse ido naquele racha com os amigos.
Christopher era mais que meu irmão velho, era meu melhor amigo, e a falta que ele faz é inexplicável.
- Você parece triste – uma menina careca, de aparentemente uns seis anos, estava ao lado da minha cama, segurando minha mão.
- Sinto saudade do meu irmão – senti uma lágrima escorrer e a menina sorriu.
- Ele também sente sua falta – ela estava pálida, com olheiras profundas.
- O que aconteceu com você?
- Câncer – ela sussurrou e baixou a cabeça.
- Sinto muito – apertei minha mão em volta da sua e então a porta do meu quarto se abriu, revelando o doutor Stevens, responsável por mim no hospital.
- Com quem você está falando, Melanie? – ele perguntou, claramente preocupado. Olhei para o lado procurando pela menina e ela não estava mais lá. Minha mão segurava o vazio.