04 Did you miss me?
Eu já estava cansada de caminhar na escuridão daquela mata. Eu só conseguia enxergar o que a luz da lua me permitia, e isso não era muita coisa. Muitas vezes acabei tropeçando em troncos e me arranhando em galhos pela mata. Eu estava caminhando sem nenhum senso de direção, esperando que pudesse encontrar Kristen e a salvar de qualquer coisa que pudesse acontecer. Eu estava perdida, quase desistindo, quando escutei um grito agudo ecoar entre as árvores. Comecei a correr na direção do grito e então meu corpo esbarrou em algo. Algo não, alguém. Senti meu corpo cambalear e então caí de costas no chão úmido.
- Você tem algum tipo de problema na cabeça, garota? – Ele vociferou, claramente irritado.
- Ótimo! Agora que você está aqui pode me ajudar a encontrar Kristen. Escutei gritos vindos daquela direção – apontei para frente, logo levantando e ficando de frente com o garoto.
- Você realmente tem sérios problemas, Melanie! – ele me pegou e me jogou sobre seu ombro, minha cabeça caindo e ficando quase de cara com sua bunda.
- Você caminhava pela rua mostrando a bunda desse jeito? – perguntei e escutei sua risada alta – Shiu! Vão nos escutar!
- Vão te escutar, Melanie. – ele deu um tampa em minha bunda – EU ESTOU MORTO, ESQUECEU? – gritou e eu levei um susto.
- Cala a boca, idiota! Você tá indo na direção errada!
- Ninguém vai salvar ninguém – ele sussurrou.
- Justin, você não pode simplesmente esperar que eu deixe uma amiga minha correr risco de morrer, sendo que eu posso fazer algo pra ajudar. – comecei a socar suas costas – Me coloca no chão!
Justin me soltou no chão de forma brusca e então segurou meus dois braços com força, me puxando para perto de si.
- O que você vai fazer pra ajuda-la, Melanie? – ele me encarou sério – Me diga seu plano e então eu te ajudo a salvar sua amiga. – ele esperou que eu respondesse algo, mas a questão é que eu não tinha plano algum – Como eu pensei!
- Justin – minha voz se perdeu e então escutei mais um grito, só que estava mais distante.
- Olha meu tamanho, Melanie, e eles conseguiram me matar. – ele ainda me segurava forte – Imagina o que eles podem fazer com você!
- Como você acha que vou me sentir sabendo que minha amiga morreu e não fiz nada pra ajuda-la? Como você quer que eu fique?
- Você nem conhecia ela antes de chegar nesse acampamento, Melanie – ele murmurou, claramente perdendo a paciência comigo.
- Pode até ser, mas eu já a considero como minha amiga! E eu tenho uma parcela de culpa por ela estar na situação em que está – baixei minha cabeça.
- Por quê?
- Na festa eu que a induzi a beber tanto... Se ela estivesse sóbria o suficiente não teria sido arrastada para a morte – sussurrei.
- Não é porque se sente culpada que tem que correr em direção à morte – ele soltou meus braços e aproximou seu rosto do meu, segurando meu queixo e o levantando, me obrigando a olhar em seus olhos, que mesmo na escuridão tinham aquele tom âmbar de mel.
Justin tinha passado a noite comigo, com medo de que eu tentasse ir atrás de Kristen mais uma vez. Ficamos em silêncio até que eu dormisse, apenas escutando o som da nossa respiração. Por mais que Justin não respirasse realmente, ele ainda inspirava e expirava o ar de forma automática, apenas um reflexo do que ele foi um dia.
Acordei com Suzan e Julie gritando e esmurrando a porta do meu quarto.
- Hoje tem atividade em grupo, Mel! – Julie gritava – Vai ser divertido!
Levantei da cama e olhei em volta, procurando por Justin, mas ele já não estava mais. Fui até a porta e a abri, encontrando minhas duas amigas sorridentes.
- Vamos, vamos! – Suzan entrou no quarto – Coloque uma roupa confortável, garota! Você está na nossa equipe! – ela batia palmas, como uma legítima treinadora.
- Calma, gente! Posso pelo menos tomar um banho? – peguei minha toalha e saí do quarto. A pior coisa na estrutura desse acampamento é que não tinha banheiro em nenhuma das cabanas. Os banheiros pareciam com os vestiários da escola. Atravessei a meia lua e logo cheguei ao banheiro. Tirei minha roupa e a deixei no chão, que estava todo sujo de terra já que era impossível não sujar.
Tomei um banho rápido e então me enrolei na toalha. Quando tateei no pequeno gancho que havia fora do box não encontrei minhas roupas. Droga! Eu tinha esquecido!
- Oie! Tem alguém aqui? – coloquei a cabeça pra fora do box procurando por alguém no vestiário, mas eu estava sozinha. Pensei em colocar minhas roupas que estavam no chão, mas quando as juntei percebi que eram caso perdido, todas embarradas. Calcei meus chinelos e parei na porta do vestiário, respirei fundo e caminhei em direção à minha cabana. Caminhava normalmente, tentando não chamar a atenção pra garota que caminhava pelo acampamento apenas de tolha e cabelos molhados.
- Você fica linda assim – sua voz me assustou, já que não tinha visto ele se aproximar.
- Sei que você prefere sem a toalha, Math – falei sem o olhar, com os olhos vidrados na minha cabana que cada vez estava mais próxima. Amém!
- Com roupa, sem roupa. De tolha ou sem toalha, prefiro você de qualquer jeito – o encarei e vi seu sorriso, que logo desapareceu. – Você está bem? Está estranha...
- Estou preocupada com o sumiço da Kristen, Math. – suspirei – E não sei se você percebeu, mas todo o acampamento me viu só de toalha – subi os degraus da minha cabana e logo abri a porta. Math ficou parado lá.
- Realmente preferia que só eu tivesse essa visão sua – um sorriso sacana tomou conta de seus lábios -, uma visão maravilhosa.
Eu estava sem paciência alguma para Mathew naquele momento. Sem paciência praquele seu jeito cafajeste de ser. Tudo bem que ele era realmente lindo – moreno, forte, sorriso de lado, cabelo arrepiadinho -, mas eu já não tinha saco para suas besteiras.
- Nos falamos depois, ok? – e fechei a porta na sua cara, suspirando mais uma vez.
- Não vejo nada de tão maravilhoso como ele fala – sua voz rouca me sobressaltou, fazendo com que eu desse um pulinho e colocasse a mão no coração.
- Isso é jeito de aparecer, garoto? – bufei, claramente irritada – Preciso me vestir....
- Fique à vontade – ele continuou deitado na minha cama, um olhar divertido.
- Justin, por favor! Tenho que me vestir pra essa gincana idiota! – comecei a catar alguma roupa na mala, segurando a tolha com uma mão.
- Hey! Não desmereça a gincana! – logo ele estava do meu lado – É uma das coisas mais divertidas do acampamento, você vai ver!
- Ótimo, então deixa eu me vestir, porque daqui a pouco a Suzan vai chegar aqui dando a louca como sempre.
- Que garota chata, puta que pariu! – e então ele desapareceu.
Vesti um short bem simples – ele era até um pouco velho -, uma regata branca e um vans. Era o mais confortável que eu tinha.
- Está atrasada! – Suzan gritou assim que me viu chegar no campo de atividades que tinha no acampamento. Ele era perto do lago, ao lado de uma rocha enorme, e nesse campo tinham várias estruturas de jogos, todas feitas com troncos de árvore, mas o que mais me chamou a atenção foram as duas tirolesas na rocha.
- Uma rainha nunca se atrasa! Vocês que chegaram cedo de mais – dei risada e ela me acompanhou.
- Você vai ter que ganhar todas as provas, Mel. – ela bateu palmas – Você é ótima!
- Acho que você tá me confundindo com outra pessoa, Suzan! – eu era péssima em qualquer tipo de esporte. O máximo que eu era boa era em corrida, mas também não era grande coisa.
Ficamos conversando por mais uns quinze minutos até que os supervisores chegaram no campo, explicando como iria acontecer a gincana.
Eram quatro equipes, e cada equipe deveria ser identificada por uma cor. Teríamos dez minutos para escolher a cor e um grito de guerra. Essa era a primeira prova.
- Equipe vermelha, qual o seu grito de guerra? – um dos coordenadores gritou.
- Rock that pussy! – todas nós gritamos, já que era uma equipe apenas de mulheres. O coordenador arregalou os olhos e logo depois caiu na gargalhada, em seguida fazendo a mesma pergunta para as outras três equipes.
A segunda prova foi a corrida no saco, e obviamente caí com a cara no chão umas quinhentas vezes. Nossa equipe, a Pussycat estava em segundo lugar, e em primeiro estava a equipe de Math, que da forma idiota que só eles podiam fazer deram o nome da equipe de Stifler’s.
Na terceira prova um representante de cada equipe deveria ir para a “mesa” – um tronco de árvore que servia como mesa – e travar uma batalha de braço. Escolhemos Brittany, uma monstra da minha turma no terceiro ano, e obviamente Math era o represente da equipe dele. Sua cara de decepção quando ganhamos foi a mais engraçada.
Na quarta prova fui escolhida para representar a equipe. Eu teria que me fazer de macaca – não literalmente – e me pendurar em barras de ferro, passando de uma em uma. Até hoje não sei o nome dessa brincadeira.
Respirei fundo e segurei na barra com as duas mãos. Senti meu braço doer já que sempre fui uma flácida e nunca fiz força, e logo senti duas mãos na minha cintura. Olhei para baixo e lá estava Justin segurando todo o meu peso. Segurei a próxima barra com uma das mãos e já não precisava fazer força nenhuma, mas fingi um pouco. Justin riu e faltando duas barras ele me soltou e senti todo o meu peso de novo.
- Vamos lá, macaquinha! – ele ria da minha cara e bufei, conseguindo passar as duas barras depois de um esforço enorme.
Depois de mais quatro provas foi confirmado o que eu já sabia: Pussycat vencedoras!
Nos juntamos e começamos a dançar de um jeito engraçado, dando risada uma da outra. Realmente a gincana não era tão chata como pensei e eu até tinha conseguido esquecer um pouco Kristen.
- Sentiu saudade? – uma voz sussurrou em meu ouvido. Olhei para trás e senti o sangue fugir, meu coração parar e então eu gritei. Kristen estava parada bem na minha frente, sua roupa toda rasgada, seu corpo todo cortado, cabelo desgrenhado. Ela sorria por entre os lábios cortados.











