⟨ ❝ P A B L O B O R B Ó N ❞
Biografia
Maquiavel uma vez disse que é melhor que você seja temido a ser odiado, haja vista que um monarca temido é mais poderoso que o amado; o amor é passageiro, mas o medo permanece entranhado nas pessoas de tal forma que jamais pensariam em se debelar contra o governo em questão. A assertiva não poderia estar mais errada, contudo: vários foram os governos que caíram sob a égide de inúmeras revoluções após um período grande de descontentamento com o medo, com a censura e a falta de comunicação entre soberano e súditos. A Casa Araganza y Borbón ressurgiu das cinzas após a Terceira Guerra Mundial, disposta a rever os erros que cometera em reinados prévios, disposta a negociar com líderes das camadas populares e, principalmente, a dividir o poder quase absoluto do rei com o povo em si —— afinal, toda a soberania pertencia a eles, ao fim e ao cabo.
Enrico foi o responsável por todas as mudanças. Transformou a Espanha falida em um antro de pesquisas pioneiras, em um paraíso àqueles que desejassem uma vida digna e que não denegrissem a imagem que formava. A economia passou a funcionar novamente, e o Estado se agigantou a medida em que construía escolas e hospitais a fim de atender a população mais carente. Evidente que nem tudo era maravilhoso como vendiam, mas o decreto informando que a Espanha passaria a ser uma monarquia constitucionalista fez com que o povo se sentisse representado. Tudo parecia andar bem, e era assim que Enrico desejava ser visto: como um bom rei, não como o carrasco que levara o país à guerra, pobreza e miséria, seu avô. Havia de existir uma maneira para que o seu mundo e uma melhor forma de vida aos súditos se coadunassem, e, ao que tudo indicava, depois de muitas tentativas diplomáticas e muitas noites sem dormir, descumprindo seus deveres matrimoniais, estava funcionando.
Nesse contexto positivo, a rainha Joana descobriu que estava grávida; a corte se encheu de alegria, nobres pareciam felizes com a mudança nos paradigmas, especialmente porque, ao que tudo indicava, seus cofres não poderiam estar mais cheios —— o turismo era vasto para diversas das regiões espanholas, e as exportações só faziam aumentar. As cores da Família Real enfeitaram as ruas de Madrid por meses antes de seu nascimento, e pode-se dizer que Pablo foi querido, tanto pelos súditos, quanto pelos nobres. A maré boa, contudo, não tardou a desandar, e Enrico fez o possível para manter o país nos eixos; nada parecia funcionar da forma que deveria, e apenas Pablo fora capaz de manter os olhos das classes mais pobres, como uma bela distração, enquanto ele recorria a medidas mais drásticas.
Um joguete no jogo estatal, uma criança não poderia ter a mínima capacidade de discernir o que era certo ou errado. Pablo gostava da atenção, ao menos de início, um pequeno bebê risonho que se sentia mais do que feliz em estar rodeado pelo mais doce amor de todos; pela mais exímia admiração. Ele era o herdeiro de Juan Enrico de Araganza y Borbón, e só poderia existir bondade naquela criatura. Mal sabiam que, enquanto o filho era usado como uma distração, Joana fazia questão de tomar a propriedade dos nobres menos influentes no intuito de equilibrar as contas. Seriam eles reconhecidos como ladrões, eventualmente, mas a grande maioria dos súditos jamais levantariam um dedo para machucar aqueles que arriscaram um dos seus para salvarem a grande maioria; simples ética, escolha política. Enquanto outros reis favoreciam as camadas mais elitizadas, parecia ser a principal preocupação dos Araganza o amor de seu país.
Pablo era uma criança risonha, inteligente e matreira, capaz das mais diversas peripécias. Desde pequeno, a veia política não parecia ter se manifestado da forma com a qual Enrico e Joana gostariam, mas havia tempo para que desenvolvesse aquele talento. A Espanha em que viviam só se sustentaria caso houvessem mais reinados como o de Enrico, que até então não tinha desmoronado, apesar da pressão nobiliárquica para que tomassem medidas não tão adoráveis. Aos seis anos, quando a irmã com quem passaria a se ver muito mais ligado nos anos vindouros, estava prestes a nascer, os sonhos começaram. Primeiramente, vulcões, sussurros, rugidos e martelos ressoando ao fundo; então, o som do vento, a adrenalina e o gosto de metal na boca ao sentir a joia roubada enquanto fugia.
Por meses, os sonhos se tornaram cada vez mais desconexos, e não havia sequer uma lógica dentro deles; partes não se interligavam, ele se sentia enjoado sempre que mudando de cenário e, mais que isso, sentia medo do que estava por vir. Não falara nada sobre com os pais; àquela altura, pareciam muito preocupados com problemas maiores, e não seria ele quem os iria interromper. Fato era que Pablo estava ficando completamente insano. Não conseguia dormir, comer ou mesmo brincar como antigamente; mesmo as lições de Estado tiveram que ser suspensas. Simplesmente não conseguia se concentrar. A criança risonha se tornou em alguém que permanecia com os olhos vidrados na maior parte do tempo, que temia qualquer contato físico e que, acima de tudo, tornava-se cada vez mais propenso a tomar as joias de uma das duquesas que permanecia na corte, inerte a qualquer tentativa de que a roubassem. Ao mesmo tempo, o interesse por mecânica no geral o ligava muito mais aos mecânicos que permaneciam no palácio para consertarem algum carro quebrado.
Aos sete, sua magia devia ter surgido, mas a decepção nos olhos dos pais trouxe um tipo de dor tão forte no herdeiro que sequer podia mensurar em palavras; na noite do seu aniversário de dez anos, Pablo cedeu aos instintos, mas não havia como voltar atrás, de toda forma. Ainda que Hefesto tivesse ganho a disputa de forma limpa, Hermes trapaceara, inserindo no garoto as piores características que poderia ter: ele simplesmente não podia evitar, detestava perder jogos, e, em especial, desafios. Pablo fora um desses e, por anos, disputaram em sua cabeça, desregularam um menino que poderia ser o futuro da Espanha até que nada mais restasse senão uma sombra do que um dia já fora. Hefesto o reclamou após o furto, ainda que preferisse não o fazer, pois causava vergonha em ter um protegido com atributos tão detestáveis, mas estava longe de ser o tipo de deus que simplesmente descartaria alguém que lhe poderia ser útil.
Via potencial no príncipe, e o usaria. Ao invés de ir para Avalon por cinco anos, foi mandado para um lugar especial, onde aprendeu a fazer o que deveria para conseguir os artefatos de Hefesto, tão caros ao deus e que há tanto estavam perdidos ou irrecuperáveis. Pablo seria o seu coringa, e, treinado, seria capaz de fazer seu trabalho na Terra. Assim o fez, e o moreno cresceu um tanto quanto disciplinado dentro da academia oculta, as técnicas de sabotagem e os ensinamentos, cada vez mais aflorados pela habilidade excepcional com armas, assim como a inteligência no que tangia à tecnologia no geral. Aos quinze anos, entretanto, o pai decidiu que já era hora de voltar à Avalon, lugar do qual jamais deveria ter saído, mas Hefesto possuía planos diferentes para o menino.
Não demorou para que burlasse as regras da escola, saindo na surdina para atender a mais um dos destinos longínquos do deus, em busca de um objeto do qual não fazia ideia do que fosse —— talvez aí o gosto pelo diferente tenha surtido efeito no Araganza; passou a pesquisar do que se tratavam, e tudo pelo que se interessava não tardava a se tornar uma obsessão.
Atualmente, ainda estudando em Avalon, os poderes parecem ter se aflorado de melhor forma, mas não é como se estivesse livre para fazer o que deseje com estes; serve a um senhor, e apenas a um. Quando requerido, ou simplesmente quando precisa, Pablo burla a segurança, acolhendo a noite como sua parceira temporária.
Personalidade
Arrogante pode ser uma das principais palavras que definem Borbón. Ele realmente sabe do que é capaz, e, não raro, tende a aumentar os seus feitos, ainda que esconda os ilícitos da melhor forma que pode, de forma que pode se tornar a pessoa mais irritante com a qual se conviver. Não só por conta disso, mas pelos seus muitos outros defeitos, Pablo prefere se isolar na maior parte das vezes; as máquinas são muito mais simples do que o ser humano, do que se relacionar com pessoas, e não com objetos —— veja bem, ele realmente o pode fazer, e Gretta é apenas uma de suas mais trágicas confidentes. Os anos de guerra entre Hermes e Hefesto fizeram com que sua cabeça se tornasse um campo de batalha, e talvez por conta disso Pablo deseje se ver longe de assuntos políticos —— algo simplesmente o diz que a violência psicológica é pior do que a física, e ele a prefere mil vezes, tanto é que sua vida se resume a picos de adrenalina. Os relacionamentos são vagos e passageiros, os quais pode chegar a contar nos dedos; apesar da personalidade ladina —— um dos presentesde Hermes ——, simplesmente não consegue agir normalmente perto de pessoas no geral. A cleptomania tende a torna-lo perigoso, e é exatamente por isso que não trabalha apenas para Hefesto; assim que sente a urgência por tomar algo que não é seu, usa de suas habilidades, mas nem sempre consegue o efeito desejado.
De poucos sorrisos e menos ainda demonstrações de afeto, Pablo ansia por adrenalina como um viciado em heroína ansia por mais uma dose, que pode acabar sendo fatal. De humor afiado, convicções nem tão corretas e um temperamento deveras quente, pode-se dizer que Pablo é tudo o que Hefesto esperaria que um protegido fosse, e ainda mais.








