⟨ ❝ C O R I N N E W Ö F F L I N ❞
Você nunca ouviu falar da princesa da família real da Suíça? Ela se chama Corinne Skadya Wöfflin, é veterana e cursa o ensino superior em Avalon. Ouvi dizer que ela tem 22 anos, se identifica como cisgênero feminino e foi escolhida por Sekhmet (panteão egípcio). Sem querer puxar o saco, mas acho que ela é muito parecida com Willa Fitzgerald.
MALDIÇÃO DE SEKHMET: Hator, como também pode ser chamada, é a contraparte da fera Sekhmet, e a deusa concedeu a sua scion a mesma maldição da qual ela própria esteve incumbida. Hodiernamente, contudo, a deidade exerce sobre sua scion o mesmo papel que seu pai, Rá, exerceu sobre ela em tempos antigos. A aura de violência e fúria parece tomar a suíça de tal maneira que, ainda que não perceba, os dentes se tornam mais afiados e as unhas, por sua vez, garras. A sede por sangue é tanta que Corinne só consegue saciá-la com litros do mais puro e brilhante sangue azul, seja por necessidade, seja por simples e pura diversão —— ela nunca parou tempo suficiente para pensar. Enquanto a fração do poder concedido lhe acomete, o próprio corpo da loira se transforma de humano para algo animalesco, de forma que é difícil identificar que, debaixo de todo o vermelho que vê no momento, existe a criatura sedenta por destruição de sempre. Há de se deixar estritamente claro que não se trata de algo que Corinne saiba exatamente como lidar, tampouco o que engatilha a reação. Fato é que, sempre que acorda, o caos está instalado e, por mais que a loira simplesmente adore a situação —— uma nova maneira de redecorar, na pior das hipóteses ——, foram poucas as vezes em que Sekhmet lhe deu a permissão para tal, depois de perceber o estrago que sua scionprovocou. Segundo a deusa, há regras muito bem definidas, tanto para ela própria, quanto para sua protegida, e matar inocentes sempre lhe pareceu a regra mais ridículade todas. Que tipo de ser humano é inocente atualmente, com exceção de Hedda? De humor volátil, Corinne, todavia, pode desencadear efeitos menores de violência no decorrer de seu cotidiano.
CURA: Não que lhe pareça muito usual, mas a habilidade de se curar sempre foi algo o qual Corinne respeitou, desde pequena. Como deusa da medicina, era de se imaginar que Hathor não deixaria que sua scion caísse em batalha facilmente e, de fato, Corinne nunca caiu em uma —— até mesmo porque nunca participou. A habilidade, contudo, só abarca a si própria, e, caso seja altruísta o suficiente, apenas aqueles a quem a suíça deixe sorver o líquido escarlate. Tonturas e enjoos são corriqueiros e indomáveis, todavia, quando a princesa está se sentindo tão solícita e, verdade seja dita, não é algo que aconteça muitas vezes. Adepta à venenos e remédios controlados, a própria Wöfflin se medica para que seu sangue perca as propriedades curativas, de forma que não fiquem tentados a sangrá-la para curar outros.
OLHAR DE PENITÊNCIA: Sekhmet nasceu da raiva de Rá. A fúria encarnada em forma de deidade leonina foi capaz de dizimar vilarejos e ultrapassar a barreira do compreensível enquanto em sua busca por vingança. Vingança, entretanto, muitas vezes pode ser confundida com justiça e, por esse motivo, Corinne tem o péssimo hábito de encarar outros nos olhos, a dor de ter os membros dilacerados passando para a pessoa com a qual mantém contato —— sendo este necessário para que a loira consiga minimamente causar o efeito desejado. De moral torta e nada ética, a suíça usa de seus próprios meios para punir aqueles que acha serem dignos de tal, mas os efeitos não duram mais do que um piscar de pestanas, e tampouco tem consequências externas. Tudo se trata de uma batalha mental, e a loira tem certa prática nisso. Ninguém, pelo menos, voltou a desafiá-la uma segunda vez depois de breves olhares inocentes.
Miw é um felino um tanto quanto exótico, resultado da mistura entre um guepardo e um leão, de forma que não se trata de um animal pequeno —— pode ser classificado como um guepardo, entretanto. Nascido junto a sua scion, a personalidade não poderia ser mais antagônica do que a própria. Medroso, manhoso e ridiculamente carinhoso, Miw não parece dividir a mesma alma que Corinne, e a língua afiada, pouco censurada e intrigante da suíça não deixa que se minta sobre o assunto. Todavia, sempre que a loira está em perigo, o animal lhe auxilia —— não antes de uma lição de moral. Pode-se dizer, de certa forma, que Miw se trata da consciência extracorpórea de Corinne, e a loira nunca negou exatamente tal pensamento, vez que parecem existir tantos esquemas em sua cabeça que a consciência precisou tomar rumos diferentes, e o guepardo foi o pobre coitado a hospedá-la. Dessa forma, é cauteloso, e muito mais bondoso do que sua scion, os olhos felinos se enchendo de lágrimas a cada absurdo que pode ver. De pelagem curta, cerrada e não muito macia, a cor do pelo equipara-se ao entardecer, e o daemon sempre exibe uma coleira de prata no pescoço, o símbolo da Casa Real Wöfflin destacado no pingente espalhafatoso.
A Esfera de Corinne é algo extremamente mutável em questão de aparência, e mesmo forma. Pode se tratar de uma tiara, um brinco banhado à mais pura prata, ou mesmo um anel cravejado de diamantes. Fato é que Sekhmet não desejava que a scion sofresse caso descobrissem do que se tratava a sua relíquia, portanto pediu a seu marido, Ptah, que fabricasse, com suas mãos habilidosas, artefato tão mutável que jamais descobririam. Sabe-se, contudo, que a única das semelhanças entre as formas de sua Relíquia é que sempre se trata de algo prata. Em que se pese o fato de utilizar diversas jóias combinando de acordo com seus estilos, Corinne sempre parece feliz em manter o piercing de orelha na cartilagem esquerda, ou, quando não a tem em posse do artefato, sempre parece carregar dardos, que mais se parecem agulhas afiadíssimas, de forma a prender o cabelo corriqueiramente, ou até mesmo ameaçar pessoas atrevidas de forma um tanto quanto mais violenta.
No Antigo Egito, faraós eram a representação dos deuses, seus receptáculos na Terra, capazes de atos dos mais graciosos e terríveis para manter o controle de seu povo. Corinne certamente se encaixava na última das definições. Não que desejasse de fato fazê-lo quando pequena, mas, hodiernamente, a situação cambiara de forma tão assustadora que estava disposta a se tornar um monstro —— um monstro esculpido pelo próprio Rá, se assim fosse necessário. Ao terminar de enterrar o corpo, entretanto, dirigiu um breve sorriso para o sol, a cabeça levantando-se infimamente enquanto os olhos eram fustigados pela claridade excessiva. Miw estava por perto, mas se recusava a falar consigo, e Skadya teve que suspirar alto algumas vezes antes de bufar, por fim, revirando os próprios olhos com irritação pouco escondida. Os primórdios de sua própria existência ligaram Corinne àquele momento, e apenas Sekhmet poderia entende-la em caso tão afoito —— afinal, fora a própria a entidade quem lhe incumbiu da função de trazer justiça aos que desrespeitavam seu soberano. Sabia agora, contudo, que sua história estava muito mais entrelaçada com a dos pais do que pensara inicialmente.
Segundo filho de uma dinastia tão tradicional e exemplar quanto a búlgara, Nikolai não conseguiria ascender ao trono sem que o irmão falecesse antes. Impiedoso, cruel e nada agradável, a aura sombria parecia persegui-lo em cada um de seus víveres, especialmente quando engatava em conversas diplomáticas com membros do conselho particular de seu irmão mais velho, o rei, e futuro pai de Manon. Rafaela, por sua vez, recebera as responsabilidades da coroa suíça inesperadamente, fruto de uma das aventuras de Rabastan —— o herdeiro por direito. Em contrapartida ao mais velho, a rainha era rígida, fiel aos seus dogmas e, sobretudo, herdara de seu pai a inesperada habilidade de enregelar os ossos do mais bravo dos homens com apenas um olhar. Escolheu seu marido com base em critérios frios e beneficiários ao povo suíço. Não precisava de subjetivismo enevoando o pensamento —— sabia o quanto poderia ser parcial quando se deixava levar, e não queria repetir o desastre com o irmão ——, e Nikolai foi o sortudo escolhido. Apresentava características das mais desenvoltas dentre os candidatos, e, ainda que não fosse facilmente controlável, ao menos ela teria alguma noção do que ocorria na Bulgária, país desejado pela Suíça há décadas.
Contraíram matrimônio após as negociações se darem, e, dois anos depois, Nikolai foi apresentado ao povo suíço como o consorte da rainha —— papel nada desejável pelo príncipe, diga-se de passagem, mas Rafaela lhe permitiu certas vantagens que o fizeram se manter quieto diante da presença de sua esposa e soberana. Após a confirmação da gravidez do primeiro herdeiro, foi-lhe permitido que partisse para o país de origem, no intuito de comunicar as boas novas, e manter os olhos abertos diante de qualquer uma das manifestações do povo. Estranhamente, na mesma época, a princesa Manon nasceu, poucos meses de diferença separando a búlgara da suíça da qual o relato se trata. Fato era que ambas não poderiam ser mais diferentes, mesmo em tempos remotos. Corinne parecia uma verdadeira adepta da discórdia, vez que não só suas babás, como também a própria mãe pareciam enervadas com as risadas agudas que a loirinha dava a cada cena deprimente. Não interessava à Rafaela criar uma filha da maneira carinhosa com a qual Wilhelmina a criou. Oh, não de fato. A rainha tinha outras prioridades em mente, e manter o labor como governante ao mesmo tempo da maternidade simplesmente a estava enlouquecendo. Após o nascimento de Hedda, quando Corinne tinha meros três anos, a loira não se lembraria das palavras desmembradas que os lábios entoaram à beira do berço da mais nova, mas Nikolai nunca se esqueceria. A suíça mais velha praticamente rosnava palavras de descontentamento ante a presença de ser tão minúsculo que, agora, tirava toda a atenção da mãe para o corpo diminuto. Por tudo que se importava, a irmã podia morrer como estava predestinada, mas o pai lhe impediu antes que pudesse fazer qualquer coisa. Um tapa no rosto, e Rine jazia no chão, chorando como se sua vida dependesse disso. Depois disso, o silêncio tomou sua mente, e só voltaria a si horas depois, já dentro de um trem rumando à Berna —— longe o suficiente da corte suíça para que a princesa não oferecesse risco à recém-nascida. Naquela mesma noite, Nikolai passaria a doutrina-la, e isso incluía o amor pela irmã, a quem deveria proteger ——- seria ela a responsável por alianças futuras, afinal.
À tenra idade, Skadya não era considerada uma criança normal, mas, de novo, sua genética não a deixava mentir. Era a prole amaldiçoada por uma mente diabólica e pouco racional, ainda que a mãe e o avô tivessem sido agraciados com racionalidade extrema, destinada à glória ou à ruína —— com sorte, à glória, se dependesse de seu pai. Rafaela não deveria ter deixado a educação de Corinne sob os cuidados de seu marido, mas tudo lhe pareceu muito mais estratégico e benéfico do que mantê-la por perto. A menina causava intriga e desconforto por onde quer que passasse e, ainda que os olhos esverdeados e as madeixas aloiradas lhe conferissem aparência angelical, verdadeiro demônio parecia se apossar da suíça enquanto gritava pelos corredores, brincadeiras cada vez mais perigosas machucando àqueles que estavam por perto. Não mais estava em suas mãos, entretanto. Tinha Hedda com quem se preocupar, e Corinne estaria segura com o pai.
As aulas dos conteúdos mais diversos começavam às sete, e a princesa deveria acompanhar o pai nos mais diversos compromissos nobiliárquicos, aprendendo a se portar como uma nobre desde pequena para que não o envergonhasse. Três palavras equivocadas, e receberia três correadas quando chegassem em casa. Cinco, e não dormiria antes do corpo sofrer com as mais diversas escoriações. Não que funcionasse muito, era verdade, mas Nikolai logo descobriu o que chamava a atenção de sua amada filha. Vantagem, poder e um toque de crueldade pintalgavam cada um dos seus desejos, cada vez mais insaciáveis, e o consorte tratava de alimentá-los, tomando, é claro, um custo da alma da filha. A cada desejo realizado, a insanidade parecia transgredir limites na psique da outra, especialmente por conta das habilidades paternas. Alimentava-se dos sonhos e da satisfação incontrolável da mais nova, e o maior deles era o pequeno país de onde ele próprio viera. Bulgária —— a terra prometida, onde ela subjugaria todos aqueles que se voltaram contra o pai em prol de seu irmão mais velho. Àquele ponto, ele já tinha conseguido a atenção da princesa, e ela seria a rainha capaz de tomar o controle, coisa que nem mesmo ele conseguira. Evidentemente, não seria nada mais do que um peão em suas mãos, mas não precisava saber disso.
Aos oito anos, contudo, após uma das manifestações de Berna não ocorrer da forma mais suave possível, a menina não podia fazer nada além de observar enquanto a mãe lutava com os insurgentes por meio da própria voz (mesmo o olhar de Rafaela não era capaz de controlar as massas) e o pai, ao seu lado, mantinha-se quieto, os olhos impassíveis antes de receber saraivadas de ovos podres —— ao menos era isso o que dizia sua tutora à época, palavras que logo foram rebatidas com um singelo menear de cabeça antes de se esgueirar por debaixo da estrutura, a cabeça tentando arquitetar tramoias que calariam a boca dos malditos. Naquele dia, Berna teve o pior surto de violência da história. Não se sabe o que ocorreu ao certo. Muitas testemunhas alegam dizer que se tratava de um demônio ressurgido à Terra para julgar as almas; outras, que se tratava de um animal —— ninguém se atrevia a pensar que poderia ter sido a princesa a catalisadora de tamanho desastre. O único fato inconfundível recaía sobre o momento em que Corinne acordou, no dia seguinte. Lembrava-se apenas de imagens borradas, mas um sorriso tomou seu rosto ao escutar a voz melodiosa e ferina em sua cabeça. Sekhmet a apadrinhara, e lhe provera a força para enfrentar inimigos que estavam contra seu futuro reinado. Ela deveria ser a protetora da família real a partir de então, e servir única e exclusivamente à deidade egípcia, mas não se trataria de Skadya se seguisse as ordens à risca.
Miw compartilhava de cada um de seus momentos e, talvez por conta da proximidade, ele tenha ficado cada vez mais aterrorizado com o que a scion se transformou, desde então. Era incompreensível a forma como lidava com cada um de seus desafetos e, francamente, cruel como deixava a própria infantilidade e julgamento parcial liderar suas decisões. Fato era que Corinne não parecia bem, e nunca mais ficaria. A sede por sangue, herdada pelos antepassados, simplesmente parecia aumentar cada vez mais, dessa vez de maneira mais radical a medida em que crescia. A menina que antes brincava com as palavras, agora não só as usava para ferir, mas o próprio corpo, também. Feria, mutilava e brincava com o sentimento das pessoas, para então voltar os olhos para outro lugar, esquecendo-se quase imediatamente do que acabara de fazer. Jamais se esquecera, contudo, da promessa feita pelo pai quando ainda era pequena. Tratava-se de algo que desejava de maneira mais do que sufocante, e a loira conseguiria não só para si, mas para Hedda também —— os laços haviam se estreitado com o passar dos anos a ponto de ser a loira uma das únicas criaturas as quais Corinne era incapaz de machucar (não de propósito, pelo menos).
A cada uma das demonstrações de poder da suíça, contudo, Sekhmet rangia os dentes, misto de dissabor e orgulho pela protegida se portar da maneira, ainda que radical e insensata —— era sua imagem exata, de volta à Terra no intuito de gerar ao menos um mínimo de ordem. Não importava se a mensageira era falha, mas os fins que trazia consigo. Corinne era um mal necessário; um mal perigoso e ardiloso, gatuna e imprevisível, mas, de novo, ela própria escolhera a princesa por conta das razões.
Skadya não é alguém com quem você deseja cruzar uma vez, que dirá duas ou mais. Por detrás dos sorrisos dissimulados e falta de senso de espaço pessoal, a loira é uma verdadeira máquina de esquemas e tramas inconcebíveis à mente humana à primeira vista. Seria a perfeita estrategista caso não deixasse que a própria ansiedade a tornasse mais perigosa ainda, a imprevisibilidade sendo o maior de seus defeitos. Felina, cada um de seus movimentos é acompanhado de uma graça quase animalesca, comparável às acrobacias de Miw em busca de uma presa —— ou, sendo mais realista, brincando com o bife de avestruz que ele parece tanto gostar antes de saborear a carne crua. Pode-se dizer que a princesa é um tanto quanto agressiva, vez que a maior parte de seus desconfortos são gerados por ela própria —— o que poderia dizer se ama confusão? ——, recorrendo, quase imediatamente, à ironia e ao sarcasmo, além de demonstrações físicas de ameaças. Nada parece incrivelmente improvável para a suíça, entretanto, e a loira se considera uma verdadeira mestre na arte da dedução, ainda que esta não seja nem de longe a melhor de suas qualidades —— especialmente pelo fato de sempre errar nestas. Mesquinha, ainda que bem-humorada (verdade, o humor é o mais ácido de todos, mas ainda assim pode ser considerado um), Corinne gosta de brincar com as presas, tal como felinos da família de Miw. Portadora de uma memória um tanto quanto ruim, entretanto, são poucos os eventos dos quais realmente se lembra, e ainda menor a gama de situações das quais tem a mínima vontade de se rememorar. Adepta de comédias controversas, ridiculariza muitas das atividades das quais não tem interesse em participar e, além disso, não se trata de uma exímia dançarina, ainda que goste de ginástica no geral.