Estrada Nova, 1944 / Arquivo Nacional
A política da boa vizinha americana implantou em Belém infraestruturas para além da base aérea de Val de Cans e o Casino-Hotel da Aeronáutica, que tinham como finalidade receber o transporte aéreo e alojar parte da tropa que ficaria estacionada na cidade. As melhorias urbanas também atingiram o bairro do Jurunas, exatamente a atual Av. Bernardo Sayão, ou Estrada Nova, ou ainda Estrada do SESP.
Após a instalação do contingente americano na cidade, este foi acometido de casos de malária. Somente na base aérea foram trinta casos, entre 111 militares americanos durante maio e junho de 1942. Pior estavam os acomodados no acampamento brasileiro, onde a incidência era de 506 casos por mil, entre abril e julho do mesmo ano.
Uma forma de controlar a epidemia seria drenando as áreas alagadas, local de reprodução do mosquito vetor. A ideia de reduzir o fluxo das águas para áreas de baixada vinha da década de 1930. Funcionários do Departamento Federal de Saúde elaboraram projeto que regularia as inundações e eliminaria os baixios com aterro. Ao mesmo tempo que isso acabaria com os mosquitos, expandiria a área habitável da zona sul de Belém.
Pelo esforço de guerra, o acordo Brasil-Estado Unidos previa a melhoria das condições sanitárias nos locais de produção de borracha (Amazônia) e de extração de ferro (Vale do Rio Doce). Assim é criado em 1942 o Serviço Especial de Saúde Pública (SESP). O SESP atuava principalmente em obras de saúde sanitária . De fato, em Belém, o objetivo era melhorar a salubridade das acomodações da tropa americana - e por tabela dos nativos também.
Ainda em 1943 foi iniciada a construção do dique que margearia o limite sul da cidade. Toda a área após o Arsenal de Marinha ainda era de floresta, alimentada pelos braços d’água do rio Guamá que adentravam nas baixadas. O serviço de engenharia aterrou os alagados e instalou o dique e as comportas. O enquadramento acima mostra poucas choupanas de palha no local com a mata ao fundo.
Conforme a placa comemorativa, a obra foi inaugurada em 14 de dezembro de 1944 pelo Interventor Magalhães Barata e o tenente-coronel John Yaegley, diretor assistente da Divisão de Saúde e Saneamento do Instituto de Assuntos Inter-Americanos.
As estruturas iniciavam na rua Triunvirato seguindo por 6 Km paralela a uma estrada de acesso. Com essa extensão o dique começaria na Cidade Velha e terminaria nas proximidades da UFPA. Como de se pode observar até hoje, exceto pelo trechos já concretados, há uma vala atravessando quase toda a Bernardo Sayão, que além de captar a água da chuva e o esgoto doméstico, serviria para canalizar as cheias do rio Guamá.
Nas edições de 26 e 28 de dezembro de 1951, o jornal O Liberal denuncia a falta de conservação da obra, que havia sido entregue à administração municipal e atiça um adversário político:
“Criminoso descaso da Prefeitura pela conservação do chamado dique do SESP - Não foram utilizadas as verbas municipais - Enquanto isso aumenta o sofrimento do povo que além da fome já não pode dormir tranquilamente
“Em toda a sua extensão e principalmente no perímetro compreendido entre a Praça Princesa Isabel e a rua Conceição, o chamado dique do SESP apresenta estado lastimável, tantos são os estragos que ele já apresenta, levando a prever que se não houver uma imediata providência por parte dos poderes públicos, dentre em breve muito mais agravada estará a situação sanitária da cidade (...)"
“A foto acima fixa um aspecto do estado lastimável a que foi reduzido o dique do SESP. Trata-se de um reflexo eloquente da incúria administrativa que predomina na Prefeitura de Belém, onde o sr. Lopo de Castro apenas pratica a mais sórdida politiquice de que temos notícia na crônica regional”
Dois anos depois, foi feita uma intervenção construtiva que aumentou a faixa que separava o dique da margem do rio. Esse aumento acabou por alargar a estrada de acesso, que viria a ser a avenida Benardo Sayão. Serviu também para estimular a ocupação (descoordenada) nos bairros do Jurunas, Condor e Guamá.
Em imagens aéreas (possivelmente da década de 1950), é visível o trecho da Bernardo Sayão entre a rua Oswaldo Brito e avenida Fernando Guilhon. É possível notar ligeiramente o dique - uma faixa escura - seguindo paralelo a uma faixa branca, que deveria ser sua proteção. A imagem é posterior às obras de melhoria, pois há uma larga faixa de rodagem em uso.
Ampliando a imagem, tem-se uma dimensão das áreas já habitadas. Pela margem do Rio Guamá, já há ocupações por trapiches e residências. No lado oposto, há também ocupações com residências e uma primitiva delimitação de quadras. Se de fato o objetivo era também povoar essa região de Belém, ele foi cumprido. Entretanto, pela distância do centro de cidade e condições precárias das habitações, os moradores desses bairros acabaram ganhando estigmas que permanecem até hoje.
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> O serviço especial de saúde pública e suas ações de educação sanitária nas escolas primárias
> Políticas internacionais de saúde na era era Vargas: o Serviço Especial de Saúde Pública
> Natureza da modificação e modificação da natureza: antropogênese da bacia hidrográfica da Estrada Nova, Belém (PA)
> Combatendo nazistas e mosquitos: militares norte-americanos no Nordeste brasileiro