r. Osvaldo de Caldas Brito (entre setas, com início nos fundos do presídio São José), d. 1950 / Acervo Biblioteca Central UFPA
"Nessa guerra entre gregos e troianos que foi a campanha de 1950, quanto mais se aproximava o dia da eleição, 3 de outubro, mais intenso o desvario dos contendores; depois do atentado fecal a Paulo Maranhão, do assassinato de Paulo Eleutério Filho, acontecimentos de repercussão nacional, sobreveio a tragédia que definiu o resultado das eleições: o assassinato do estudante Osvaldo de Caldas Brito, ocorrido no histórico Largo da Memória, ali na av. Nazaré com a trav. Quintino Bocaiúva.
Aconteceu que sob o comando do radialista Carlos Frias, uma trupe de artistas da Rádio Nacional percorria o Brasil em campanha para Eduardo Gomes, e aqui, claro, em favor de Assunção. Era a “Caravana da Vitória.” Proibidos pela polícia de uma segunda exibição no Teatro da Paz, Frias, a caminho de Manaus, prometeu que, na volta, rumo ao Sul, faria uma apresentação em local público.
Belém com seus 230 mil habitantes, na metade do século passado, conhecia os ídolos da Rádio Nacional – mais importante que a Globo de hoje – somente por fotografia e voz. Uns Poucos chegavam aqui nos festejos nazarenos, mas o chamado povão não tinha dinheiro para frequentar teatros. Televisão não era nem sonho. Então, como empresa difusora, estávamos entregues ao heroísmo da PRC – 5, que funcionava aos soluços, na dependência dos péssimos serviços da Pará Electric Co. Ltd., concessionária do fornecimento de energia elétrica.
Logo, contemplar a atuação de Jorge Veiga, Ademilde Fonseca, Adelaide Chiozzo, Isaurinha Garcia e outros, era espetáculo a não ser desperdiçado, inclusive por baratistas. Laércio Barbalho, o seu Laércio, baratista da gema com amigos entre os coligados, por exemplo, estava no local. Daí que o largo estava apinhado, mais gente do que no Baenão em dia de clássico Re x Pa. Entre os milhares de espectadores, centenas de estudantes com o entusiasmo e o alarido natural da idade. Osvaldo de Caldas Brito, aluno do Paes de Carvalho, presente.
Temendo o sucesso do showmicio, os baratistas escalaram a escória da polícia civil para tumultuar e impedir a realização do evento. Daí que delegados e investigadores circulavam nas imediações dando tiros, auxiliados por tropa do Corpo de Bombeiros. O povo, ainda que em desvantagem, não se intimidou e, com pau e pedras, enfrentou os esbirros do poder. Foi quando saiu da famosa Pensão Garrés, ali na beira do Largo, o lendário Jocelyn Brasil, coronel da Aeronáutica, que convocou um destacamento da Força para enfrentar os policiais-bandidos, agentes do Estado. O Corpo de patifes, digo, Bombeiros, logo rendeu-se, dizque [sic] por falta de munição…
Resultado da refrega, dezenas de feridos e uma vítima fatal: Caldas Brito, cuja identidade só se veio a saber no dia seguinte ao óbito.
Osvaldo era órfão de mãe, morava na trav. Joaquim Távora, 160, com uma tia, a saudosa d. Nair Zahluth, pessoa muito benquista de quantos a conheceram, eu inclusive.
Elcione, prima da vítima, futura primeira-dama e depois atuante deputada federal, aos 6 anos de idade, não tinha noção da tragédia que se abatera sobre sua família, Belém e o próprio Estado. Elza, irmã mais velha, falou à Folha Vespertina:
“Osvaldo sendo partidário da candidatura do general Assunção, queria ouvir suas palavras e vibrar com o povo…”. “A família Zahluth, sempre fora antibaratistas, em consequência do estado de descalabro da nossa administração e de todas as patifarias do governo…”
Isso é muita coisa na boca de uma inocente senhorinha, como o jornal a chamou. Evidente que plantaram os dizeres na boca da jovem entrevistada.
O assassinato, como previsível, rendeu manchetes de 1ª. página em todos os jornais do país. Os de Paulo Maranhão, ávidos para massacrar o inimigo, foram tomados de um delírio exasperante, descobriram até a identidade do homicida:
Foi Lamarão, informaram aos nossos jornais, o autor do tiro que vitimou o jovem estudante. O raquítico e asqueroso policial não teria todo escrúpulo em gabar-se publicamente da desumana façanha…
A verdade é que nunca se soube de onde partiu o tiro fatal.
A cidade em prantos, comoção geral, semelhante àquela provocada pelo assassinato de Severa Romana, no início dos 1900, erigida em santa pela crença popular. Estudantes, secundaristas e universitários, mobilizados, enterro de 1ª. classe, urna funerária luxuosa, adquirida mediante subscrição popular.
Antes das 17 horas daquele histórico 15 de setembro, que os estudantes de hoje desconhecem, o cortejo fúnebre partiu da trav. Joaquim Távora, todos a pé, milhares de estudantes e grande massa popular. Os políticos da Coligação presentes, Assumpção, Lopo de Castro, os líderes. Fumo nas vestes e velas acesas, seguiram pela Padre Eutíquio, avenida Tamandaré, rua Gama Abreu, Presidente Vargas (15 de Agosto), Nazaré, Magalhães Barata (av. Independência) José Bonifácio, até o cemitério de Santa Izabel. Quando o cortejo atingiu a praça Justo Chermont, os sinos da Basílica dobraram em finados, e um serviço de alto-falante irradiou a Ave Maria de Schubert (A Lacrimosa de Mozart, menos popular, seria mais apropriada). Por onde a procissão fúnebre passava, as pessoas choravam comovidas e acenavam um último adeus ao desditoso jovem, sacrificado no altar da estupidez erguido pela insanidade dos adultos. Ali, com ele, enterrou-se também a candidatura de Joaquim de Magalhães Cardoso Barata ao governo do Estado.
Do pranteado estudante 75 anos atrás, resta, em sua homenagem, a rua que leva seu nome: rua Osvaldo de Caldas Brito, bairro do Jurunas. Tem cerca de 1km de extensão, densamente povoada, possui um casario eclético concebido pela criatividade popular. Começa na orla do rio Guamá e termina nos fundos do Polo Joalheiro, ex- Presídio São José. Antes levava o nome do ilustre Augusto Montenegro".
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Os idos de 1950 e outros idos ~ Alcides Alcântara












