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Seu Menino
Fui andando até o meu carro, número de estacionamento 202, cuidados por conta do porteiro. Tem um cigarro ai, ele me perguntou; disse que fumar faz mal. Ele acatou com sutileza e me xingou mentalmente. A beleza de um porteiro viciado. Fiquei com pena, dei meia volta e dei-lhe um cigarro, bem cheinho, pra compensar; obrigado, ele me disse. Eu gostava demasiadamente das minhas manhãs, principalmente porque Seu Menino sempre ficava ali, pedindo um cigarro. Eu sempre dava um cigarro do bolso, fumava também feito um condenado, nada podia fazer. Tentava avisar que fazia mal, até para mim mesmo, mas só recebia alguns xingamentos internos, seja de quem fosse.
O meu carro estava no estacionamento 202, mas o Seu menino estava do meu lado. É um belo dia, ele dizia, e voltava a fumar o cigarrinho, até queimar os lábios; até não sentir os dedos dos pés e, talvez, assim enfrentar mais um dia, até a sua volta no turno da noite. Eu fumava junto a ele; é um belo de um dia, eu respondia sempre, com o cigarro na boca e na mente fadiga, por todos os pensamentos que eu viria a ter. Seu menino gostava da vida dele de porteiro. Eu gostava da minha vida de ir até o carro do 202. Como eram boas aquelas manhãs para fumar.
-Se tiver mais um cigarro, me dê algum... Ele falava, antes de eu ir embora, querendo sugar até a última gota da minha generosidade matinal. - Sempre tem mais um, Seu menino. E dava-lhe nas mãos um cigarro, um troféu, um prêmio por aguentar ver meu carro toda noite, me aguentar calado todas as manhãs. Para descansar em paz quando cegasse em casa, já cansado de uma noite de trabalho. Seu menino agradecia, fumava, esperava que eu fosse embora a qualquer momento. Era tranquilo aquele Seu menino; eram tranquilas aquelas manhãs até o estacionamento 202.
-Qualquer dia meus cigarros vão acabar, sabe. Eu respondia, como em despedida, prestes a dar meu suspiro final; prestes a me metamorfosear no novo eu, o eu carrancudo pós-manhãs fumantes. E Seu Menino, com toda a sua sabedoria acumulada de porteiro de prédio, meu porteiro de prédio, guardador de carros, fumador de cigarros roubados; ouvidor mor das tristezas alheias, respondia: - É, mas ai tu compra mais ali na esquina.
Odeio o fato de ficar tão dependente de você :/
Não sei porque ainda insisto em nós dois, não sei porque ainda tenho esperança de que um dia você volte pra mim. Mas sei lá, tem uma coisa em você que não me deixa desistir, talvez seu sorriso, ou talvez seus olhos, ou talvez o simples fato de ter planejado morrer do seu lado e não ter pensando em outra coisa a não ser ficar com você. Pode me chamar de criança, falar que eu não cresci, que eu preciso me amar, nada disso vai adiantar porque eu te prometi que ia cuidar de você enquanto eu vivesse, e eu não costumo descumprir minhas promessas, é menina, eu não vou desistir.