Uma linguagem para os aflitos
Já repararam que nas biografias de artistas as perturbações da mente são muito comuns? Que boa parte deles preferia a companhia das palavras de poetas mortos do que de gente? O que tornava a presença de versos e prosa, romance e canções mais desejáveis do que as pessoas? A partir disso, o que podemos aprender sobre a lida com as aflições da alma?
Quem já teve a alma afligida sabe que palavras precisas, definições cruas ajudam muito pouco o coração aflito. Além disso, quase nada dizem sobre como cada pessoa experimenta o sofrimento. Descrever, por exemplo, sintomas físicos, como taquicardia, sensação de sufocamento, suor excessivo, não diz do mistério e do que há de incalculável numa crise de ansiedade. O lugar-comum, estereotipado, só faz desnudar a ignorância perante as aflições.
Há um tipo de linguagem mais sensível para os aflitos, a linguagem metafórica. Ela não atua como uma pintura realista ou uma câmera fotográfica, não tem a pretensão de oferecer uma cópia fiel daquilo que os aflitos experimentam com todo o seu ser. As figuras de linguagem tampouco funcionam como explicações; são como janelas, abertas para nuances, que convidam um olhar atento e uma postura reflexiva.
No livro “A depressão de Spurgeon”, Zack Eswine escreve:
“Sem isso [sem a metáfora], oferecemos band-aids para ossos quebrados e loção tópica para hemorragia interna. Descrevemos em tons pastéis a chocante respiração cinza de uma ofegante ansiedade” (p. 99).
Se queremos encontrar uma linguagem adequada às nossas angústias, penso que devemos reconhecer o dom das metáforas. Se pudermos caminhar ao lado de um sofredor, devemos aprender a apreciar expressões metafóricas. Não pressupor saber sobre as aflições do outro, mas, talvez, perguntar “o que essas palavras significam para você?”. Esteja interessado em conhecer o universo do outro. Deixe que a linguagem para os aflitos te ensine a caminhar.