Bia Maria emanou vibrações positivas, já os Miss Universo ficaram aquém da expetativa - Sonoridades 2025 (2ª parte) | Reportagem Completa
Bia Maria proporcionou uma incrível matiné | Foto: Município de Santo Tirso A oitava edição do Sonoridades ocupou novamente o Centro Cultural Municipal de Vila das Aves, tal como nas edições anteriores. Este ano aconteceu entre os dias 1 e 4 de maio. O início deu-se na quinta-feira, dia 1 de maio, aproveitando o feriado nacional em que se celebrou o Dia do Trabalhador.
A organização esteve ao encargo, como vem sendo hábito, da Câmara Municipal de Santo Tirso. Já a direção artística e produção coube à 1bigo – Artistas e Eventos, promotora também responsável pelo evento em anos transatos.
Este ano, pela primeira vez, o Sonoridades teve apoio do headLiner como Media Partner. O headLiner já tinha estado presente em ocasiões anteriores: nos quatro concertos realizados em 2024 e em dois na edição de 2023.
Dia 3 de maio – Miss Universo
Tal como na noite transata, o concerto tinha o início aprazado para as 22 horas. Neste sábado registou-se uma boa casa pese embora o mau tempo e as abundantes propostas culturais em cidades da região como, por exemplo, A Garota Não no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães ou os aniversários de Theatro Circo e gnration em Braga com diversa oferta musical de qualidade insuspeita e com acesso gratuito.
André Ivo e Afonso Branco são a dupla por detrás do projeto Miss Universo. Apresentaram-se com mais três músicos em palco.
Afonso e André: os Miss Universo | Foto: Município de Santo Tirso Começaram a atuação com o pé esquerdo já que Afonso não tinha a sua “maquinaria” toda bem afinada. Por isso mesmo houve necessidade de aguardar alguns momentos para que tudo tivesse devidamente certo. Achei a introdução vocal demasiado longa e até algo aborrecida. Provavelmente isso fez-me ficar um pouco desinteressado e acabou por “desligar” a minha boa expetativa para o resto.
A maioria do público desfrutou da atuação, parece-me que sabia ao que ia. A autocrítica que posso fazer é que se calhar esperava outra coisa e por isso é que fiquei um pouco desapontado.
Quando vejo uma banda a “sacar” de versões quando têm temas originais para tocar deixa-me logo de “pé atrás”, especialmente quando lançam essas versões logo ao terceiro tema. Os Miss Universo interpretaram “Roda Viva” um tema de Chico Buarque logo tão cedo no alinhamento e ainda por cima com Branco a cantar com sotaque brasileiro. Mais adiante fizeram uma versão pop dançante de “O Navio Dela” de Manel Cruz. Não fiquei minimamente impressionado por nenhuma das interpretações.
Miss Universo em versão banda de 5 elementos | Foto: Município de Santo Tirso “Estamos Entregues aos Bichos” e “Ser Português”, singles de proeminência deste projeto, foram as únicas interpretações às quais até achei piada e apreciei minimamente. Já os outros temas foram tocados quase em regime de “banda de baile”. Achei demasiada florida a estética sonora para os temas. Curiosamente o jogo de luzes foi, em diversas ocasiões, uma espécie de arco-íris. Se calhar até foi propositado…
Fiquei apresentado a ‘Manifesto do Jovem Moderno’ ao vivo, este que é o disco de estreia desta dupla. Em modo de balanço final não fiquei “ligado” à estética musical dos Miss Universo. Não deitei a toalha ainda ao chão. Quiçá o futuro possa desdizer-me…
Dia 4 de maio – Bia Maria
Como tem sido norma neste evento o último concerto fica reservado para o domingo com debute ao final da tarde, normalmente às 18:30 horas. Como em outras ocasiões as coletividades da terra foram chamadas para fazerem parte. Desta vez o Grupo Coral de Vila das Aves respondeu ao repto e participou no concerto de Bia Maria.
Beatriz Pereira, nascida e criada em Ourém, tem como nome de palco Bia Maria e fez a sua estreia no Centro Cultural Municipal de Vila das Aves. Dos artistas do cartaz deste Sonoridades em 2025, era esta a presença que mais ansiava assistir. A tal não é alheia a situação do último álbum ‘Qualquer Um Pode Cantar’ ter sido eleito como um dos melhores do ano de 2024.
Bia Maria em versão trio com o Grupo Coral de Vila das Aves | Foto: Município de Santo Tirso Embora a sala de espetáculos não tivesse registado casa cheia, teve um número bem apreciável de pessoas. A participação do Grupo Coral trouxe mais alguma gente, sobretudo pessoas de gerações maduras. O concerto teve o seu começo às 18:34 horas e alongou-se por mais de uma hora de duração.
Bia Maria esteve com uma aura e uma presença incrível em palco. Nem mesmo um ligeiro deslize na fase inicial na interpretação de um tema a desconcentrou. Até acho que essa situação a fez estar bem mais compenetrada para todo o restante da performance.
Ela foi extremamente faladora, revelou-se mesmo uma comunicadora nata, com uma abordagem muito simpática, explicando algum contexto das suas canções bem como fazendo rasgados elogios ao Grupo Coral de Vila das Aves. A artista chegou a Vila das Aves no dia anterior para afinar presencialmente os últimos detalhes.
Bia Maria uma das jovens cantoras mais talentosas do panorama nacional | Foto: Município de Santo Tirso A artista está a recrear a experiência pelo país com outros coletivos e efetivamente com resultados fortemente positivos. Realmente ela dá corpo ao “Qualquer Um Pode Cantar” de forma literal, reunindo à sua volta um espírito fortíssimo de comunidade e partilha.
“Nódulos + Micronódulos + Afonia” foram interpretadas em sequência. São das três canções do seu mais recente álbum 'Qualquer Um Pode Cantar’. Bia fez questão de referir a participação das Sopa de Pedra no tema “Micronódulos”.
O coro do Grupo Coral de Vila das Aves participou mais vivamente em 5 temas, os dois primeiros foram “Roupa Velha” e “O Corpo”. Efetivamente estiveram a altura da ocasião e deram um contributo giro.
Bia Maria fez-se acompanhar de Samuel Louro na percussão/guitarras e Alberto Hernández nas guitarras (clássica e elétrica). Ela própria, além do uso da sua belíssima voz, tocou viola e utilizou sintetizador. Já o seu repertório, de punho firme de cantautora, assenta em sonoridades inspiradas no fado, no pop e na bossa nova com um cunho firme no canto popular como ponto de partida.
O cenário deu maior impacto ao concerto | Foto: Município de Santo Tirso O concerto teve diversos momentos, sendo que a Bia, tocou também canções a solo incluindo música não editada. Entre alturas mais alegres, houve também ensejos a músicas tristes e melancólicas como foi o caso de “Glícinia”. Outros mais animados como em “Para os Meus Amigos” no qual o público foi também ele um coro.
Tal como em concertos anteriores a decoração cénica foi expressiva e claramente pensada para a integração de coros por detrás deste formato trio.
A fase final do concerto foi mais festiva e edificante com uma tripla interpretação onde os elementos do Grupo Coral tiveram uma participação relevante. Para o encerramento ficaram “Aconchegos de Um Sujeito”, “Marcha da Paridade” e “Qualquer Um Pode Cantar”. Temas vividos pelo público de forma alegre e muito participativa por entre coros e palmas. A artista disse até, de forma divertida, que o tema que dá nome ao álbum, tem o “refrão mais fácil da história da humanidade”. Era apenas uma forma de apelar à participação sendo que as pessoas não se fizeram rogadas.
Samuel Louro e Bia Maria | Foto: Município de Santo Tirso Bia Maria afirmou também que cantar em coro e em conjunto tem o poder de mudança e realmente é uma constatação pertinente em tempos tão estranhos em que é necessário que as pessoas estejam mais sintonizadas umas com as outras.
Para mim, este último concerto do Sonoridades em 2025, foi o mais cativante e que melhores sensações provocou em mim. A minha estreia com a artista oriunda de Ourém teve nota extremamente positiva. Irei querer repetir a experiência num futuro breve.
Notas finais
Em jeito de balanço deixo as minhas felicitações à organização pela alta qualidade do evento no qual proporcionaram excelentes condições aos artistas para realizarem as suas performances bem como condições de conforto para o público num Centro Cultural bem acolhedor. Três euros foi o valor do bilhete diário, simplesmente irrisório, perante tanta qualidade apresentada.
Agradecimentos especiais ao senhor Sérgio Neto da 1bigo e ao pessoal da frente de casa pela ajuda preciosa para que eu tivesse todas as condições para a realização desta reportagem. Um último agradecimento ao Município de Santo Tirso pela cedência e permissão dos registos fotográficos.
O Sonoridades apresentou novamente um cartaz apelativo este ano e mais uma vez pode-se dizer que foi um sucesso. A nível organizativo nada a apontar e espero que o Município de Santo Tirso continue a apostar no evento. Trata-se de uma oferta cultural ímpar para um concelho que necessita destas afirmações culturais.
O merecido aplauso no final da atuação | Foto: Município de Santo Tirso Texto: Edgar Silva Fotografia: Município de Santo Tirso / Fotos Oficiais









