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Pluto no Hard Club? Não fico sozinho em casa, não! | Reportagem Completa
Manel Cruz, uma instituição do rock português | mais fotos clicar aqui
Efetivamente até novembro de 2025 abordamos os Pluto em reportagens por duas vezes: na atuação deles no Rock no Rio Febras em julho e no concerto que deram no Lustre em Braga em outubro. Pessoalmente somente estive no Rock no Rio Febras. “Não há duas sem três” e o headLiner lá se governou por este bem conhecido ditado popular.
Como uma performance numa sala fechada com todas as condições para um som condizente à sublime qualidade da banda optei por seguir até ao Hard Club nesta passada sexta-feira dia 12 de dezembro.
Nessa noite os Pluto deram mais um concerto integrado na celebração dos 20 anos de ‘Bom Dia’, esse seu mítico e único álbum até ao momento. Um disco incontornável da história do rock português, na opinião de muita gente, sou um dos que comunga dessa ideia. Tudo indica que a banda portuense regressará às edições discográficas em 2026.
20 anos de 'Bom Dia' na sala principal do Hard Club | mais fotos clicar aqui
Numa jornada em que a Sala 2 recebeu também concerto, nomeadamente dos espanhóis Carolina Durante, mais ou menos à mesma hora, a movimentação era notória numa noite em que as pessoas chegavam aos eventos mais tarde devido a termos tido uma sexta-feira algo invernosa.
Aprazado para as 21:30h, a atuação dos Pluto só teve o seu início às 21:52h. Por acaso até fui um dos primeiros a entrar na Sala 1 do complexo situado no Mercado Ferreira Borges pouco depois das 21h. A espera foi serena por entre conversas amistosas. A principal sala do Hard Club não registou lotação esgotada contudo esteve bem preenchida por fãs devotos com predominância em idades entre os quarenta e cinquenta anos. Houve também fãs mais jovens, pois claro.
Manel Cruz (voz e guitarra), Peixe (guitarra), Eduardo Silva (baixo) e Ruca (bateria) são quatro magníficos. Diga-se, em abono da verdade, são devotos ao seu ‘Bom Dia’ e recusam-se a prestar uma performance de baixa qualidade. Já os vi diversas vezes e é com convicção que o afirmo.
Pluto na sala principal do Hard Club | mais fotos clicar aqui
Tal como já vi em ocasiões anteriores, os Pluto ficaram alinhados na horizontal em palco: Peixe à esquerda e Ruca à direita, isto quem vê a banda da plateia. No meio ficam Manel do lado do guitarrista e Eduardo do lado do baterista.
As músicas novas “Coisas Delas” e “Sonhos Nunca Pedem Licença” foram interpretadas e é fantástico vê-los a tocarem temas novos, dois ainda nem sequer editados. Eles regressaram em 2023, 20 anos depois com “Túnel”, single marcou mesmo o retorno oficial, digamos assim. Esta foi a canção de abertura do concerto.
"Bem-vindo a ti", a quarta do alinhamento, marcou o momento de subida de ânimos com uma performance altamente rockeira.
Já em "A vida Dos Outros" o público vibrou intensamente e no final desta aconteceu o momento da praxe: Cruz tirou a sua t-shirt no final da interpretação.
Momento de comunhão dos 4 magníficos | mais fotos clicar aqui
Manel esteve altamente divertido e até arrancou gargalhadas ao pessoal com as suas explicações de que os temas eram “sobre estar sozinho em casa carente", algo que repetiu durante a noite. Fica a dúvida no ar, será que o rapaz da audiência que acertou em cheio no significado do queria dizer o mítico vocalista recebeu o seu prémio? (risos).
Os quatro em cima do palco estavam a desfrutar, como é-lhes reconhecido, e os sorrisos deles são como o algodão, não enganam. A boa disposição era também reinante, até mesmo qual Cruz incita o público “e salta peixe allez allez". O público entrou na onda e o guitarrista acedeu à brincadeira.
Em "Quadrado" o vocalista Manel cantou cara a cara com os fãs da primeira fila, algo que retomou em seguida durante "Lição de Adição". Um dos momentos áureos da noite aconteceu com a performance de "Só Mais Um Começo", a vitalidade da banda era quase palpável. A atuação seguia sólida com todos os fãs a deleitarem-se com o concerto.
Fãs em êxtase | mais fotos clicar aqui
"Sonhos nunca pedem licença", uma das tais inéditas ainda não editadas, proporcionou um momento diferenciado: num ritmo mais suave, mesmo em jeito de balada.
Foi preciso chegar ao tema “Prisão”, a última antes do encore, para vermos Peixe sem chapéu. Saíram do cenário e reentraram um minuto depois. Terminaram a noite com “Algo Teu” e “Certas Coisas”. Mais uma noite bastante satisfatória proporcionada pelo coletivo portuense cuja atuação teve o seu término às 23:15h.
Manel Cruz fez questão de referir que"enquanto vocês vieram, nós vamos também". Acredito eu que os fãs de Pluto, igualmente de Manel Cruz enquanto instituição do rock português, dificilmente se vão cansar de os ver ao vivo. Algo que se estende também naturalmente a outra banda de Manel, os Ornatos Violeta. Ao que parece também este seu projeto terá novo álbum em breve, provavelmente também no decurso de 2026.
Peixe sempre em grande estilo | mais fotos clicar aqui
Fico a aguardar por esses novos registos discográficos e respetivos concertos de apresentação. Com toda a certeza os concertos serão ocasiões a marcar presença e os novos temas serão de audição indispensável.
Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Vítor Neves @ vitor_m_neves (Instagram)
Especial: Foco headLiner com Mão Cabeça | Festival Emergente 2025
Aproveitamos o facto de sermos Media Partners do Festival Emergente para entrevistarmos bandas que vão tocar no festival. Escolhemos uma banda por cada dia do evento portanto serão três artigos 'Foco headLiner aos Talentos Emergentes' especiais. A primeira banda abordada são os Mão Cabeça.
Eles vão atuar no primeiro dia, na sexta-feira, dia 26 de dezembro, no programa da noite na BOTA (Base Organizada da Toca das Artes) situada nos Anjos em Lisboa. Este local será a base do evento nesta edição de 2025, um espaço dinâmico, com sala de concertos, bar, terraço exterior e diversos outros espaços de estar. Um dos pontos a realçar é a sua acústica fabulosa.
O evento vai realizar-se nos dias 26, 27 e 28 de dezembro no qual o foco são mesmo os talentos emergentes nacionais.
Toda a informação pode ser consultada aqui.
~ Biografia (até ao momento) dos Mão Cabeça
O projeto Mão Cabeça nasce, de forma definitiva, em 2021 nos subúrbios de Lisboa como uma espécie de “filho da pandemia”. Desde então, a palavra tem sido o principal motor da criatividade. Vestem a farda das canções em português onde as letras marcantes navegam entre o barulho e a calma, a melancolia e o medo, tangentes à ironia que quer dizer a verdade, num combate sonoro entre o caos e a introspeção.
André Boa-Nova (bateria), Gonçalo Gil (voz e teclas/piano), Frederico Nogueira (baixo) e Pedro Castro (guitarra) decidem comprometer-se a abraçar o projeto e a levá-lo para a frente.
‘Onde Moram Os Casos Perdidos’ em 2023 marcou a estreia discográfica da banda. Dos 5 temas que estão incorporados neste álbum o destaque vai para “Nódoa” e “Alecrim”, os singles de estreia deste projeto.
A 9 de maio de 2025 surgiu o segundo EP apelidado de ‘Mão Quente’. De ressalvar que esta foi uma edição de autor. As canções deste registo discográfico mais recente foram produzidas e gravadas pelo Francisco Marques (Next Level Productions) e a mistura e masterização ficaram a cargo do Filipe Adubeiro (Low Wave Studios).
Este foi um lançamento mais elaborado, com mais cuidado a diversos níveis tais como na composição, na produção e até mesmo na divulgação do disco.
Eles têm também tocado ao vivo e já passaram por locais marcantes. Em julho deste ano tocaram no Maus Hábitos da Cidade Invicta e poucos dias após a aparição nortenha atuaram no palco WTF Clubbing do NOS Alive. Outra performance bem significativa foi a participação no ciclo de programação NEXT promovido pelo Festival Emergente. A banda mais votada, de entre 16 atuações, seria a vencedora para participar no Emergente. A escolha recaiu precisamente nos Mão Cabeça, uma seleção feita pelo público.
Este 2025 foi um ano bem profícuo e extremamente produtivo para os Mão Cabeça. O seu caminho ainda é curto, no entanto, este quarteto demonstra vontade em fazer boa música em português dando-a a conhecer nos palcos lusitanos de norte a sul.
~ Entrevista aos Mão Cabeça
headLiner (Edgar) - A história dos Mão Cabeça começa a desenhar-se em 2018 contudo só oficialmente tem o seu arranque em 2021. Qual foi o clique definitivo para seguirem caminho?
Mão Cabeça (Gonçalo Gil) - De facto, o primeiro vislumbre daquilo que viria a ser Mão Cabeça surgiu ainda em 2018, até com outros músicos na formação da banda, mas esse arranque não pegou. Depois da pandemia estávamos todos com muita sede de criar e de fazer música nova. Fomos todos fáceis de convencer. Bastou uma troca de chamadas a lançar o desafio, um café para assentar ideias, apresentar os elementos que não se conheciam e pôr em pratos limpos que Mão Cabeça seria um projeto a abraçar com seriedade, dedicação e compromisso. O nome já estava escolhido e foi consensual, portanto o clique definitivo nem esperou pelo primeiro ensaio.
headLiner (Edgar) - Para quem não vos conhece, o que pode esperar musicalmente ao ir procurar a vossa discografia?
Mão Cabeça (Gonçalo Gil) - Musicalmente acho que podem esperar sinceridade. Nenhum de nós é um virtuoso e por isso alimentamo-nos das nossas falhas, fazemo-nos valer das nossas limitações. É o que acaba por impulsionar a criatividade, tentando fazer mais com menos. Muitas vezes procuramos o barulho e acabamos a cantar a calma. Temos tido tendência para uma sonoridade mais melancólica e introspetiva. Talvez a principal força motriz da nossa música seja a palavra, por isso podem esperar letras que, à partida, terão um papel principal nas canções.
headLiner (Edgar) - Tocaram no NOS Alive este ano. Uma das maiores montras musicais do país. Querem partilhar connosco algumas das emoções do dia da atuação?
Mão Cabeça (Gonçalo Gil) - Emoções foram mesmo muitas. Talvez a começar pelo pânico que se instalou nos quatro quando nos apercebemos que iria mesmo acontecer e que durou até à hora do concerto.. Em cima do palco conseguimos disfrutar e divertir-nos naquele que sabíamos ser um momento único. Satisfeitos com o que apresentámos, depois da atuação, restou aproveitar o dia e, mais aliviados, ver concertos, conhecer pessoal fantástico, fazer entrevistas e colher histórias insólitas. Foi um dia um bocado surreal e uma experiência incrível.
headLiner (Edgar) - Depois dos EPs ‘Onde Moram os Casos Perdidos’ de 2023 e ‘Mão Quente’ de 2025, o que estão a planear para 2026? Continuar a mostrar a vossa música ao vivo e levar a mais gente a vossa música?
Mão Cabeça (Gonçalo Gil) - Queremos, sem dúvida, chegar a mais gente e tocar ao vivo é sempre a melhor forma de o fazer. No palco as canções ganham outra verdade e outra energia e é onde conseguimos mostrar um pouco de nós, para além da música. Em 2026 queremos também poder dedicar tempo a música nova, temos muitas ideias na gaveta à espera de ganhar a forma daquilo que gostaríamos que fosse o nosso primeiro longa duração.
headLiner (Edgar) - O Festival Emergente dedica-se a potenciar os talentos emergentes do panorama nacional. Sem dúvida uma missão pertinente e importante para o desenvolvimento de artistas à procura do seu espaço, como é o vosso caso. Contem-nos um pouco como foi a vossa presença nas Sessões NEXT? Qual a vossa expetativa para essa participação?
Mão Cabeça (Gonçalo Gil) - Num tempo em que se assiste cada vez mais ao encerramento de espaços importantes para que projetos emergentes tenham um palco, iniciativas como o Festival Emergente são uma luz ao fundo do túnel e têm sempre a nossa grande admiração e carinho. É um Festival que tem vindo a ganhar um espaço muito importante no meio e é uma montra fantástica para bandas como a nossa. Por isso, quando recebemos o convite para participar nas sessões NEXT ficámos muito contentes por poder, acima de tudo, passar a pertencer à comunidade Emergente, onde já passaram tantos projetos que admiramos. Queríamos estar à altura do desafio. Saber que o concerto seria na BOTA também nos deixou muito felizes, pois voltaríamos a um dos palcos onde nos sentimos melhor.
headLiner (Edgar) - Foram a banda mais votada pelo público de entre as 8 sessões realizadas. O que representa terem sido os vencedores das Sessões NEXT?
Mão Cabeça (Gonçalo Gil) - Termos sido os mais votados, num leque de tantos e tão bons artistas, representa principalmente a responsabilidade de garantir que a escolha do público foi acertada. Dá-nos uma grande motivação e agradecemos muito a quem esteve nesse concerto e votou em nós, possibilitando a nossa entrada no cartaz do Emergente.
headLiner (Edgar) - Quais são as vossas expetativas para esta participação no Festival Emergente?
Mão Cabeça (Gonçalo Gil) - Por já conhecermos a organização do festival e os anfitriões da BOTA, sabemos que sabem como fazer-nos sentir em casa, por isso estamos bastante tranquilos. O alinhamento do concerto será repensado para um set mais pequeno onde tentaremos entregar o nosso melhor em pouco tempo. E acreditamos que o convívio com toda a gente, a partilha do dia e do palco com os outros artistas e bandas, com quem acabamos por criar relações e partilhar experiências, será o ponto alto. Estamos muito entusiasmados!
### ‘Foco headLiner aos Talentos Emergentes’ é uma rubrica iniciada em 2016 com o intuito de dar ênfase a projetos musicais, tanto em formato banda como artistas a solo, cujo selo de “talento emergente” é perfeitamente ajustado. ###
Kate e Ed: estes “Cool Kids” mimaram fãs portuenses com uma noite intimista e sentimental | Reportagem Completa
Catarina Salinas a incrível voz dos Best Youth | mais fotos clicar aqui
27 de março de 2015 é a data oficial da edição discográfica de ‘Highway Moon’ pelos Best Youth. A dupla portuense regressou aos palcos neste final do ano para a comemoração dos 10 anos desse lançamento e pensou em diversas vertentes. Uma delas trata-se do novo feitio físico deste álbum, agora surge em vinil pela primeira vez. Esta reedição esteve à venda no concerto portuense e teve bastante saída, vários fãs levaram embora uma recordação extra com dedicatórias bonitas e personalizadas.
Catarina Salinas e Ed Rocha Gonçalves prepararam também concertos especiais para as duas metrópoles lusitanas. Estive no primeiro deles na sala do CCOP - Círculo Católico dos Operários do Porto localizado na Rua do Duque de Loulé, bem pertinho da Batalha. Este concerto aconteceu na última quinta-feira dia 4 de dezembro. O anúncio de sala esgotada surgiu a pouco mais de 30 minutos da hora aprazada para o início do concerto mesmo quando dei entrada para o hall do CCOP. Sem dúvida algo merecido para o duo em noite de celebração caseira.
Catarina e Ed, o duo Best Youth | mais fotos clicar aqui
A publicação de ‘Highway Moon’, na altura da sua estreia, mereceu um feedback extremamente positivo, inclusive além-fronteiras. Agora, com toda a propriedade, resolveram tocá-lo na íntegra dando aos temas uma roupagem fresca, fazendo jus aos originais o que permite que se mantenham essenciais e intemporais. Tal como referiu Ed durante o concerto fizeram uma adaptação à forma como tocam hoje em dia.
A dream pop dos Best Youth advém de uma confluência de indie com sonoridades eletrónicas com um sui generis toque retro aonde a voz de Catarina mantém-se sempre resplandecente sendo sensual, irresistível e impecável. Já Ed é o maestro: compõe e produz imaginando a voz de Kate. Em palco ele toca guitarra e trata dos sintetizadores. Catarina mais do lado esquerdo, às vezes serpenteava o palco. Já Ed quando tocava guitarra ficava ao lado da sua parceira, mudava de posto quando fazia as necessárias incursões para trás até local aonde estavam os sintetizadores.
Gonçalves extremamente bem aprumado com um fato negro, por dentro uma camisa branca e com uns sapatos esmerados. Já Salinas com um vestido num tom branco sujo e uma gargantilha a dar-lhe aquele toque essencial de realce.
Catarina na voz Ed nos sintetizadores | mais fotos clicar aqui
Primeiros temas interpretados de forma suave, num debute bem consistente e plenamente intimista: as primeiras três foram “Sunbird”, “Fanatic” e “Melt”. As primeiras palmas mais efusivas surgiram ao quarto tema “Black Eyes”.
Noite lotada em que houve crianças com os seus pais, pelo menos uma delas bem na frente. Já o restante público era bem heterogéneo demonstrando que a música dos Best Youth é ouvida e apreciada por diferentes faixas etárias. Fãs que fizeram questão de mostrar o carinho pela banda durante a performance.
Uma noite em que tiveram muitos amigos e “muitas caras conhecidas” na plateia, por exemplo, João Salcedo e Nena d’ Os Azeitonas ou Jorge Romão dos GNR. Estas são três caras conhecidas do público geral contudo a noite foi familiar pois eles também contaram com amigos anónimos. Realmente foi mesmo isso, uma noite intimista, sentimental e familiar. Uma noite saborosa.
Ed na guitarra e voz | mais fotos clicar aqui
Um dos momentos mais intimistas entre o duo e deles com o público aconteceu em "Infinite Stare". Já em “Red Diamond” a decoração luminosa esteve a preceito. Abanamos a anca em “Renaissance” com Catarina e a primeira parte do concerto terminou com a fantástica “Mirrorball”. Estava assim fechada a comemoração de 10 anos de ‘Highway Moon’ com agradecimento especial às pessoas responsáveis pelo disco, muitas das quais presentes.
"Está a ficar calor" dizia Kate. Estava um calorzinho bom na sala como complemento delicioso à vibe que sentíamos emanada do palco e pelo feeling caloroso que os temas nos faziam sentir.
Salinas fez questão de referir que nunca tinham tocado ao vivo a maioria das canções de‘Highway Moon’, o que acrescentou uma camada extra de novidade a esta apresentação.
Durante alguns momentos eles saíram e voltaram com a questão "Vamos continuar a dançar?". Foi mesmo uma pergunta retórica, todos queríamos mais. Foi então altura para a secção “Best Of” numa fase em que estávamos em fase “Out of Time”. Podíamos estar ali até altas horas da madrugada a desfrutar da discografia dos Best Youth. Outro dos temas destacados nesta fase, "Midnight Rain", claramente.
A postura sensual de Catarina | mais fotos clicar aqui
A curveball da noite surgiu antes do momento da "fantochada de sair". A pedido de uma pessoa do público, Catarina acedeu a tocarem um pouco de “Last Page”. Apesar de Ed ter ficado um pouco surpreendido, saiu-se de forma positiva na sua guitarra elétrica.
Para o encore foram interpretadas as inevitáveis “Cool Kids” e “Nightfalls” num fecho perfeito de noite.
Salinas e Gonçalves com a sua postura em palco deixam transpor e “transpirar” na interpretação dos temas uma onda sensual, são uma espécie de inevitável pitada de sal. O sorriso bem largo de satisfação de Catarina e a coolness de Ed ao fazer com que tudo corra pelo melhor faz ter um respeito ainda maior por eles.
Oxalá que a dream pop destes dois “Cool Kids” continue em modo de reinvenção sempre com o alto astral que nos têm proporcionado durante a sua carreira.
Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui
A intimidade e à vontade de Ed e Catarina em palco | mais fotos clicar aqui
Texto:
Edgar Silva
Noiserv e a sua “onda da Nazaré” musical no Teatro Aveirense | Reportagem Completa
Concentração total de Noiserv | Foto: Joana Magalhães @ grafonola_ig
Aproveitei este último sábado, dia 29 de novembro, para uma rara viagem num intercidades, sou utilizador mais regular de comboios urbanos na região norte. Rumei até Aveiro para uma visita familiar e uma estreia no Teatro Aveirense. O mote foi assistir ao concerto de David Santos com o seu projeto musical Noiserv.
A visita a Aveiro aconteceu três dias depois da atuação no Centro Cultural de Belém em Lisboa e uns dias antes da atuação na Casa da Música no Porto, terá lugar precisamente a 6 de dezembro.
Já sigo a carreira de Noiserv há mais de 15 anos, a primeira vez que o vi ao vivo foi em 2010 em Santo Tirso num festival giríssimo que lá se fazia apelidado de St Culterra. Acontecia no Parque da Rabada, agora conhecido como Parque Urbano Sara Moreira. Infelizmente o festival cessou em 2023, salvo erro, porém teve umas quantas edições bem catitas em que recebeu nomes internacionais como Shout Out Louds ou The Chameleons e nacionais como Mão Morta ou o já referido Noiserv.
David Santos em palco com o seu projeto Noiserv | Foto: Joana Magalhães @ grafonola_ig
Desde então, esse já longínquo ano de 2010, continuei a acompanhar as suas edições discográficas e vendo alguns dos seus concertos. Também já o vi no Vodafone Paredes de Coura, em Guimarães, nas Caldas das Taipas, em Famalicão, em Cabeceiras de Basto e agora somei Aveiro em 2025
David Santos durante o concerto deste sábado referiu que ‘7305’, título deste seu mais recente registo discográfico editado no passado dia 17 de outubro de 2025, refere-se a soma dos dias de 20 anos que leva de carreira. Efetivamente já o sigo praticamente desde o seu início, o tempo efetivamente voa.
A capacidade total do Teatro Aveirense, cerca de 600 lugares sentados, não esteve lotada. Com a plateia esgotada, e o balcão bem composto, local aonde fiquei. Público heterogéneo, conhecedor do percurso do músico, deu para perceber bem isso e que assistiu com imensa atenção aplaudindo efusivamente cada tema.
Projeções vídeo foram uma das novidades| Foto: Joana Magalhães @ grafonola_ig
A sala é simpática, bem confortável e com uma instalação sonora que proporcionou um som de bastante qualidade. Só achei a sua estética interior um bocadinho aborrecida, já o exterior do edifico é impactante. Trata-se, sem dúvida, de um excelente equipamento numa cidade que tem apostado bem em termos culturais.
Como de habitual Noiserv esteve a solo revelando a capacidade de “homem-orquestra”, demonstrando a mestria no manejar dos vários instrumentos que tem ao seu dispor como, por exemplo, os teclados e a guitarra clássica. Vital é também a sua loop station, indispensável para criar as suas diversas camadas sonoras através dos seus loops.
Intenso jogo de luzes | Foto: Joana Magalhães @ grafonola_ig
Como óbvio ‘7305’ teve horas de imenso destaque, no entanto, a setlist percorreu diversos temas marcantes da sua carreira. Foram 16 temas interpretados durante cerca de 1 hora e 30 minutos, sem direito a encore. Para 20 anos de carreira ele podia ter tocado 20 temas, parecia-me uma opção natural e temas incríveis à disposição é coisa que não lhe falta.
Logo na abertura, às 21:37h, seguiram-se dois temas novos: “20 . 27 . A long journey in a little train to Poland” e “20 . 25 . Resumidamente”. O primeiro, como o próprio músico referiu, teve inspiração numa viagem à Polónia e a uma visita aos campos de concentração. Uma deslocação que o marcou imenso.
Nova "roupagem" cénica de Noiserv | Foto: Joana Magalhães @ grafonola_ig
O artista lisboeta esteve sempre bastante comunicativo e bem-humorado, tal como é seu apanágio. Ainda não o vi ao vivo de outra forma. Tão comunicativo que às vezes se perdia um pouco nas suas ideias. Foram interlúdios extremamente preciosos e divertidos. São já a sua imagem de marca e indispensáveis.
Pela primeira vez vi um concerto de Noiserv com uma imensa evolução em termos de cenografia. A caixa de luz quadrada tem agora uma adaptação numa versão bem mais larga num formato retangular em que tem 6 leds à frente e outros 6 atrás da sua “estação de serviço”. A parte traseira é fechada por painéis transparentes tendo desse lado, na parte de fora, 5 focos de luz segmentados na horizontal.
A ideia das live cams tem continuidade, desta vez com mais câmaras. Imagens ao vivo foram aparecendo em alguns temas dando um enfoque a diversos pormenores, por exemplo, ao trabalho de pés que o artista efetua. Outra novidade é no aspeto visual com o uso de projeções vídeo dando um impacto mais completo e funcionaram complementarmente a um jogo de luzes bem colorido e fortíssimo. Tudo funcionou extremamente bem e Noiserv não ficou perdido lá no meio de tanta ocorrência.
Live cams em ação | Foto: Joana Magalhães @ grafonola_ig
David Santos percorreu praticamente toda a sua discografia. De 2010, 2013 e 2014 ouvimos, por exemplo, “Mr. Carousel”; “Don't Say Hi If You Don't Have Time for a Nice Goodbye” e “This Is Maybe the Place Where Trains Are Going to Sleep At Night”.
Já de 2016 tocou “Dezoito” e de ‘Uma Palavra Começada por N’, disco lançado em 2020, interpretou “Neutro” e “Sem Tempo”.
Além dos que já mencionei, Noiserv também tocou de ‘7305’, por exemplo, “20 . 08 . A fearless party between a kid and his own thoughts”; “20 . 20 . Um dia como tantos outros” e “20 . 16 . A casa das rodas quadradas”. Nos originais de álbum estas canções contam com as colaborações vocais de Surma, A Garota Não e Milhanas como o músico contou.
As novas faixas soaram extremamente bem e toda a montagem visual dão certo. Resultam num espetáculo com uma pitada de carácter cinematográfica bastante agradável, a sua música ajuda claramente a tal. A única coisa que pode elevar a experiência deste concerto seria ter os convidados deste disco recente, em palco. Quem sabe, num futuro próximo.
Introspeção de Noiserv a cantar | Foto: Joana Magalhães @ grafonola_ig
Agradecimento final à Joana Magalhães pela simpatia e disponibilização das fotos para esta reportagem.
Novo single dos Traz os Monstros, “Pilates”, em estreia | Exclusivo headLiner
Os Traz os Monstros são atualmente um quarteto formado por Xavier de Sousa (guitarra/voz), Rui Bastos (teclados/voz), Rafael Borges (baixo/voz) e Artur Correia (bateria/caixa de ritmos/voz).
Nascidos em 2021, no rescaldo pandémico, por Xavier de Sousa e Fábio Matos em versão duo ainda gravaram 'Demos Para o Papá e a Mamã', o primeiro EP em 2021, antes de Fábio ter de abandonar o projeto. Já praticamente a solo Xavier editou 'Demos para o papá e a mamã Vol. II' em 2022, EP que conta ainda com alguma colaboração de Fábio. O projeto evoluiu e atualmente conta com mais três elementos e segue firme rumo a 2026 para a edição de um novo trabalho discográfico.
Os Traz os Monstros são descritos na sua génese como “filhos da quarentena” e “resultado de uma esquizofrenia coletiva”, surgem com uma estética crua e visceral, onde o post-rock, rock psicadélico e o rock alternativo se cruzam com referências poéticas e de intervenção. O seu universo bebe tanto da sombra beat e punk de Ginsberg ou Patti Smith como da linguagem direta e popular de José Mário Branco, B Fachada, Nerve ou até Quim Barreiros - um cruzamento improvável que se torna assinatura.
Este quarteto é uma banda emergente de Coimbra já tocado na Festa do Avante! nomeadamente na edição deste ano. Maus Hábitos em Vila Real, BOTA em Lisboa, Cave Avenida em Vila Real, Amparro99 no Porto e Buraco em Ovar são alguns dos locais aonde já atuaram, entre 2023 e 2025.
Nesta sexta-feira, dia 28 de novembro, é a vez do regresso ao Porto no Bar Woodstock 69 como convidados dos João Pedro e Os Almendras.
Fotos promocional dos Traz os Monstros
Sobre “Pilates”:
O tema surge como o primeiro avanço para o futuro longa duração da banda e afirma, desde o primeiro segundo, o universo que lhes é próprio: poesia abrasiva, crítica social, humor negro e uma entrega vocal que parece mais desabafo do que interpretação.
Assente numa produção densa e minimalista, “Pilates” expõe a crueza e os contrastes da periferia contemporânea, onde a procura de auto-melhoramento convive com a violência estrutural, a alienação e o quotidiano apertado das cidades. A música privilegia a palavra e a proximidade da voz, aproximando-se do rap no fluxo e da spoken poetry na intenção, mantendo sempre a intensidade emocional que tem marcado o percurso do projeto. A banda cita influências que vão de José Mário Branco à urgência lírica da contracultura, numa canção que se assume “arte enquanto denúncia, catarse e resistência”.
Capa do single “Pilates” dos Traz os Monstros
Ao mesmo tempo, num gesto característico do projeto, o discurso sério encontra o sarcasmo e a autoironia: “Pilates” apresenta-se como “suplemento sonoro de proteína concentrada”, ideal para “rebentar colunas na pista ou estourar séries no ginásio”, com efeitos secundários que variam entre “poses no espelho” e o impulso incontrolável de explicar a todos o que é um “hip thrust”. Entre crítica e caricatura, o tema desmonta a cultura da performance e da autoimagem, expondo tanto as suas ilusões como as suas tensões sociais.
Com “Pilates”, os Traz os Monstros reforçam a aposta numa expressão que recusa a neutralidade e prefere a fricção: entre o riso e a cicatriz, o ginásio e a rua, o músculo e a ferida. Uma nova etapa que antecipa um álbum onde a banda promete continuar a transformar inquietação em canção e desconforto em verdade artística.
O single e o videoclipe encontram-se já disponíveis em todas as plataformas digitais. "Pilates" foi gravada por João Freitas no Estúdio Cedofeita, misturada e masterizada por Rui Garcia Costa (Ruca), Pé Em Triste.
Ouçam via headLiner em estreia total o single “Pilates”:
Festival Emergente 2025 na BOTA em Lisboa nos dias 26, 27 e 28 de dezembro
Na foto Vitória Vermelho com a sua banda em participação nas Sessões Next
A 7ª edição do Festival Emergente vai acontecer próximos nos dias 26, 27 e 28 de Dezembro no espaço BOTA (Base Organizada da Toca das Artes), um espaço bem conhecido da cidade de Lisboa e que garante todas as condições para um evento de muita qualidade, tal como nas edições anteriores.
O Festival Emergente conta, mais uma vez, com o apoio do headLiner como Media Partner.
O Festival Emergente é, desde a sua primeira edição, o “festival da nova geração da música portuguesa” independente. Um festival centrado naquilo que melhor define a música emergente nacional: a profusão de sonoridades muito diversas e ecléticas, que por sua vez resultam de uma enorme diversidade de misturas entre o indie-rock, a música tradicional, a música eletrónica de dança, o jazz e a música autoral cantada em português.
Um cartaz cheio de talento, em resultado de um Open Call Super Emergentes fortíssimo em que, mais uma vez, esta nova geração de músicos superou todas as expectativas e tornou a seleção extremamente difícil. Neste 2025 a organização recebeu 134 candidaturas, atingido um novo record no historial do evento. Foram mais 42 do que em 2024.
O Festival Emergente abriu mais duas slots para os Super Emergentes. Inicialmente estavam apenas previstos 9 escolhas. Da música experimental, passando pela eletrónica, pela pop e pop-rock, pelo rap até ao Punk-Rock, mas também das misturas às reinvenções disto tudo. Assim, os 11 nomes selecionados, por ordem alfabética, foram:
ADORO PROTOCOLO
Beatriz Madruga
canalzero
FALCONA
LESMA
MANGUALDE
MARKZS
mokina
PARQUE IMPÉRIO
ROADKILL
RT-FACT
A seleção foi da responsabilidade de um júri formado por um conjunto de profissionais do meio musical: músicos, produtores, radialistas, jornalistas, managers e bookers, todos eles verdadeiros melómanos e amantes da música, que asseguram a exigente tarefa de fazer a melhor seleção a cada ano.
Aos nomes Super Emergentes selecionados através do Open Call 2025, junta-se por votação do público a banda MÃO CABEÇA, vencedora das Sessões NEXT. Realizaram-se 8 sessões no total.
O cartaz é complementado com convidados. Os artistas a solo/bandas já previamente anunciados: INÓSPITA, MALVA, DIVÃ, bbb hairdryer, Chat GRP eos MДQUIИД.. Vão tocar dois convidados por dia, um na abertura e outro para fecho de jornada. Serão 18 concertos ao longo dos 3 dias do festival: 6 concertos por dia, divididos em duas sessões: 3 concertos à tarde e 3 concertos à noite.
LINE-UP COMPLETO DO FESTIVAL EMERGENTE 2025:
1º DIA - 26 Dezembro *
Na parte da tarde: INÓSPITA, RT-FACT e canalzero
Na parte da noite: mokina, MÃO CABEÇA e DIVÃ
1º DIA - 27 Dezembro *
Na parte da tarde: MALVA, MARKZS e ROADKILL
Na parte da noite: LESMA, MANGUALDE e Chat GRP
1º DIA - 28 Dezembro *
Na parte da tarde: bbb hairdryer, FALCONA e Beatriz Madruga
Na parte da noite: ADORO PROTOCOLO, PARQUE IMPÉRIO e MДQUIИД.
* Com destaque as bandas a concurso
Os bilhetes estão à venda online em BOL / Toca das Artes de forma faseada.
Até 30 de novembro: venda limitada de passes a 36€
De 1 a 14 de dezembro: venda limitada de bilhetes diários a 18€.
De 15 de dezembro até ao último dia do festival: venda de bilhetes por sessões de 3 concertos (tarde e noite) a 12€ / sessão.
O passado murmura nas ruas de Guimarães, o futuro ressoa no Mucho Flow - o contraste de dois mundos inseparáveis | Reportagem Completa
Zack Borzone, o vocalista dos YHWH Nailgun | Foto: João Octávio Peixoto
Nos grupos de amigos alargados, é raro encontrar um consenso que una todos em torno das mesmas melodias. No meu, não é exceção. Há quem se encante com o Vodafone Paredes de Coura e Primavera Sound Porto, e quem se perca nos horizontes do Waking Life ou do Draaimolen — dois universos que raramente se cruzam. Uma vez por ano, porém, dá-se o milagre: a comunhão acontece, fiel e luminosa, no bonito Mucho Flow.
A cidade medieval de Guimarães, que nesta altura do ano se cobre de folhas amarelas, vê as árvores despirem-se e o frio entranhar-se nas suas paredes de pedra, criando o cenário perfeito para o regresso a esta terra que parece vestir-se a rigor para o Halloween.
CCVF, uma das casas que recebeu o Mucho Flow | Foto: João Octávio Peixoto
E, voltando ao que realmente nos trouxe ao berço de Portugal, esse contraste musical a que o Mucho Flow já nos habituou continua a atrair públicos dos mais diversos espectros sonoros, projetando o futuro no presente — e este ano não foi exceção.
Durante três dias, o festival foi palco de descobertas, de consagrações há muito anunciadas, de estreias entusiasmantes e de inquietações criativas. Aqui, não há cabeças de cartaz — algo que o próprio grafismo do cartaz deixa claro — apenas palcos que se moldam a cada som, conduzindo-nos numa deriva pelas várias salas e ruas que unem as coordenadas da cidade.
Dia 0 - Quinta-feira, 30 de outubro
Quinta-feira. O peso da semana ainda faz-se sentir, e a noite, apressada, cai cedo sobre a cidade. No ar, o frio anuncia o princípio do inverno, e há algo de melancólico na forma como o dia se despede. Ao contrário do ano passado, a sexta-feira não guardará o tão ansiado feriado — e por isso, este “dia zero” carrega um sabor agridoce.
Por um lado, o amanhã traz consigo o regresso à rotina, como se nada tivesse acontecido, por outro, o presente pede entrega. O cartaz ergue nomes que exigem presença, atenção e corpo inteiro.
Sassy 009
Entre eles — Sassy 009, nome que ecoa como promessa e a antecipar o seu disco 'Dreamer +' a ser editado no próximo ano.
A indie pop da norueguesa Sunniva Lindgård traz camadas de DIY tornando-se um projeto bem pessoal. No palco montado em cima do grande palco do auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), estava Sunniva com o seu hoodie meio desleixado acompanhada pela sua voz e o seu baixo, enquanto na bateria estava Elias Tafjord e nos teclados/sintetizadores estava acompanhada por Markus Anskau.
A voz melancólica de Sassy 009 flutuava sobre batidas firmes e ritmadas, mas nem isso bastou para incendiar a sala — preenchida, sim, mas longe de estar cheia. Aqui e ali, alguns corpos deixavam-se embalar, cabeças moviam-se num leve transe, mas o momento nunca chegou a tocar o verdadeiro nirvana.
Sassy 009 vista pelo público | Foto: João Octávio Peixoto
Grande parte da setlist revelou-se inédita para o público, possivelmente composta por temas ainda por editar. Ainda assim, foi possível ouvir faixas como “Are You Still a Lover”, “Wannabee” ou a contagiante “Maybe on Summer”. Entre as mais aguardadas estava “Tell Me”, o recente single partilhado com Blood Orange e incluído no novo disco, mas Sassy 009 acabou por deixar o tema fora do alinhamento da noite.
Mesmo sem alcançar momentos de euforia coletiva, Sassy 009 conseguiu criar um ambiente imersivo, envolto em melancolia e eletrónica pulsante. Entre temas ainda por editar e momentos de pura delicadeza vocal, a artista norueguesa mostrou por que continua a ser uma das vozes mais singulares da cena alternativa. O público, embora contido, pareceu partilhar da mesma curiosidade — a de descobrir, ao vivo, o rumo que o novo disco irá tomar. Uma atuação breve, mas intensa, que deixou no ar a sensação de que o melhor ainda está para vir.
Vista lateral do CCVF em Sassy 009 | Foto: João Octávio Peixoto
HiTech
O Mucho Flow já nos habituou a apresentar cartazes repletos de nomes que passam despercebidos ao público menos atento mas é precisamente essa curadoria que convida à descoberta e à surpresa. Um desses casos — e um dos nomes que mais aguardávamos nesta edição — foi o trio HiTech. O horário de atuação, quinta-feira à 1h da manhã, acabou por não beneficiar a experiência, admito, mas ainda assim resultou numa das performances mais enérgicas e envolventes do grupo de DJs, produtores e rappers.
O trio — King Milo, Milf Melly e 47Chops — entrou em palco com uma energia contagiante, prontos para fazer dançar até quem, poucas horas depois, teria de enfrentar o despertador das nove da manhã. Os ritmos frenéticos e as batidas cruas, mas irresistivelmente dançáveis, do ghettotech — esse som eletrónico nascido nos subúrbios de Detroit no início dos anos 2000 — incendiaram a sala e puseram em movimento as poucas centenas que resistiram ao avançar da madrugada.
Editado a 23 de Maio deste ano, 'HONEYPAQQ Vol.1' foi o mote para o regresso a Portugal depois de uma passagem no OUT.FEST em 2023.
King Milo dos HiTech | Foto: João Octávio Peixoto
Com malhas como “SPANK!” e “TAKE YO PANTIES OFF” — esta última adornada pela voz etérea de Georgie Riley —, o trio transformou a sala numa celebração pura, onde ninguém conteve o sorriso. A energia era tão contagiante que, a certa altura, um dos membros desceu até à frente do público, partilhando, entre gargalhadas e cumplicidade, a sua garrafa com o líquido dos deuses. Já levados por esse impulso, houve espaço para twerks, movimentos atrevidos e improvisos de dança que se espalhavam pelo espaço, transportando-nos para as intensas e vibrantes festas underground de Detroit, sentindo cada batida pulsar tanto no chão da sala do CCVF como no peito.
Por entre este festão, ainda ecoou “Paper Planes” de M.I.A., e, num instante, até os poucos céticos da sala se deixaram levar, entregando-se por completo à energia contagiante dos HiTech. Queríamos mais: mais calor, mais suor, mais corpos a vibrar juntos, e um horário diferente que nos permitisse sentir cada BPM pulsar nas veias e dançar lado a lado com eles até que a madrugada desaparecesse.
HiTech num ângulo do meio da plateia | Foto: João Octávio Peixoto
Quando a noite finalmente se despediu do CCVF, ficou no ar a sensação de que o primeiro dia do Mucho Flow tinha cumprido o seu papel: surpreender, desafiar e deixar-nos com vontade de mais. Entre a introspeção melancólica de Sassy 009 ao caos luminoso dos HiTech, o festival voltou a provar que o risco é a sua maior força.
Dia 1 - Sexta-feira, 31 de outubro
Ainda nos encontrávamos na ressaca da noite zero do Mucho Flow, e o dia de trabalho parecia arrastar-se num compasso lento. Aqui e ali houve tempo para recuperar forças — forças essas que já estavam reservadas para o segundo dia do festival.
Chegámos à garagem do Teatro Jordão quando Lauren Duffus já se encontrava em palco, e uma das primeiras coisas que se fez notar foi a clara melhoria da acústica da sala, agora totalmente coberta por longas cortinas pretas que lhe davam um ar mais íntimo e envolvente.
TRACEY
Quase se pode falar em duas partes bem distintas na performance de TRACEY. Para quem aterra pela primeira vez na página de Spotify do duo londrino, é fácil criar expectativas de uma sessão clubbing pronta para fazer suar e perder o público no jogo de luzes. Mas não foi bem assim. A primeira metade do concerto revelou-se surpreendentemente contida — uma introdução sóbria e melancólica, com temas como “Take Care” e “When I Choose To Be Here With You”, canções quase confessionais que pareciam sussurrar mais do que gritar.
TRACEY numa visão do meio da plateia | Foto: João Octávio Peixoto
A temperatura da sala mantinha-se fria, e os espaços vazios entre corpos ainda se faziam sentir na pele. O público parecia observar mais do que viver. Mas para os mais desatentos, a segunda parte de TRACEY foi uma reviravolta total. O duo trocou o minimalismo pela energia bruta, virando o disco — literalmente — e trazendo à superfície a pulsação clubbing que muitos esperavam.
Foi aí que “Sex Life”, o tema que incendiou pistas de dança durante o verão, assumiu o protagonismo passando também por "Sleazy". Com ecos de um dubstep renascido e batidas atrevidas, o subsolo do Teatro Jordão transformou-se num verdadeiro clube noturno — luzes a pulsar, corpos finalmente em movimento, e uma sensação coletiva de libertação.
Quando o último som se dissipou na penumbra da garagem, ficou um silêncio curioso . TRACEY tinham deixado o público entre o fascínio e a confusão, como quem sai de uma viagem que muda de rota a meio, mas acaba por chegar a um destino inesperadamente certo. O duo despediu-se sem grandes gestos, mas com a certeza de ter deixado marca: entre o intimismo frágil do início e a libertação clubbing do final, construíram um arco que mais do que um concerto, foi uma metamorfose.
TRACEY | Foto: João Octávio Peixoto
Infinity Knives + Brian Ennals
Quem esteve na edição do ano passado lembra-se bem dos Two Angry Blackmen — não só um dos concertos mais intensos do Mucho Flow, mas também um dos grandes momentos de 2024. Este ano, o produtor Infinity Knives e o rapper Brian Ennals fizeram-me reviver, ainda que de forma diferente, essa mesma energia crua e incendiária. Na bagagem traziam 'A City Drowned in God’s Black Tears', o disco lançado este ano.
A atuação começou de forma densa, quase cinematográfica — batidas graves que pareciam subir do chão, samples que se misturavam com ruído, e a voz de Brian Ennals a cortar o ar como uma lâmina. A cadência das rimas era crua, urgente, carregada de ironia e raiva, mas também de uma lucidez desconcertante. Ao fundo, Infinity Knives manipulava os controladores e o teclado com gestos precisos, alternando entre o caos e o controlo absoluto. As paredes da garagem vibravam, e o público, ainda estático nos primeiros minutos, começou a ceder à intensidade — cabeças a abanar, corpos a balançar, olhares a procurar cumplicidade.
Infinity Knives | Foto: João Octávio Peixoto
O rap de Brian Ennals era um murro ritmado, e a eletrónica de Infinity Knives dava-lhe corpo — uma arquitetura sonora que oscilava entre o sagrado e o apocalíptico. Cada faixa soava como uma declaração, um protesto, uma catarse.
Durante o concerto, foram ouvidos temas do álbum mais recente da dupla, 'A City Drowned in God’s Black Tears' — por exemplo “The Iron Wall” e “Sometimes, Papi Chulo” —, que serviram de eixo à sua performance. Neste registo, a crítica política surge com toda a força: Na letra de “The Iron Wall”, apontam-se nomes como Benjamin Netanyahu e Donald Trump («Netanyahu is the new Hitler», «Donald Trump – you a rapist and you know it») e realçam-se as questões do imperialismo, da guerra e da violência sistémica. Ao longo do set, essas referências foram intercaladas com batidas eletrónicas, momentos de catarses rítmica e instantes de introspeção. A performance não foi só musical — foi também política, provocadora e consciente.
Brian Ennals num ângulo do meio da plateia | Foto: João Octávio Peixoto
O 2º dia do Mucho Flow trouxe-nos primeiro a metamorfose clubbing e emocional de TRACEY, depois a descarga política e incandescente de Infinity Knives + Brian Ennals, que transformou a garagem do Teatro Jordão num epicentro de ritmo e manifesto. À saída, ainda com o corpo a vibrar e as luzes a piscar na memória, percebia-se nos rostos um misto de exaustão feliz e leve incredulidade. O festival seguia em frente — e nós, com ele — prontos para mais um mergulho no desconhecido.
Dia 2 - Sábado, 01 de novembro
O Mucho Flow nunca se deixou por reger por rótulos musicais, e diria que este ano foi um desses anos que tal foi mais saliente. Contudo, este último dia do festival trouxe-nos uma dose extra de rock, nas suas mais variáveis vertentes.
YHWH Nailgun
Há uns dias, o algoritmo do Instragram levou-me até a um vídeo partilhado por Joe Talbot, vocalista e figura magnética dos Idles, onde se via um registo live dos YHWH Nailgun. Talbot escrevia por cima — “blew my tiny mind. Go dig ’em live, you won’t regret it.” — e aquela frase ficou a ecoar.
A curiosidade acendeu-se no instante. E assim que chegámos ao Mucho Flow, fomos escavar esse som ao vivo. Entre luzes pulsantes e ruído a rasgar o ar, testemunhámos mais uma das estreias do festival. Vieram carregados do seu primeiro disco, '45 Pounds', e deixaram-no cair no palco como quem lança uma granada sonora.
Os YHWH Nailgun confirmaram essa energia inquieta que atravessava todo o festival. Bastou o alinhamento das luzes no Teatro Jordão para que o ar da sala ganhasse uma espécie de tensão elétrica, como se alguém estivesse a carregar uma mola invisível. Quando a banda entrou, não houve apresentação nem cerimónia — apenas um jorro de som que cortou o silêncio como uma lâmina quente no frio do outono.
Zack Borzone, vocalista dos YHWH Nailgun | Foto: João Octávio Peixoto
A bateria, liderada por Sam Pickard, foi o primeiro corpo a ganhar forma: golpes secos, repetidos, quase mecânicos, que funcionavam como um farol dentro da tempestade sonora que se aproximava. Por cima disso, linhas de guitarra e sintetizador surgiam e desapareciam como vultos — nunca totalmente definidas, sempre prestes a escapar. Havia momentos em que o palco parecia mais um laboratório do que um espaço de performance, com cada músico a explorar o limite entre ruído, groove e colapso.
Zack Borzone, vocalista do grupo, movia-se como se estivesse a travar uma luta invisível com o próprio ar, lançando a voz para o teto do teatro como um sinal de emergência. Não era apenas cantar — era exorcizar. Cada frase nascia da garganta como se viesse acompanhada de luz estroboscópica. A intensidade não era teatral; era física, quase táctil, como se o som empurrasse o público alguns centímetros para trás.
Sam Pickard dos YHWH Nailgun | Foto: João Octávio Peixoto
Quando chegou “Sickle Walk”, o ambiente mudou de repente. O público foi puxado para dentro daquela espiral de ruído controlado, uma espécie de redemoinho que parecia nascer do chão. As paredes do teatro vibraram com um grave que não se ouvia tanto quanto se sentia no estômago. A música avançava sem dar espaço para pensar, apenas para sentir — como se cada camada fosse uma porta que se abria para um túnel ainda mais fundo.
A música foi se dissipando, mas a vibração permaneceu, como se cada pessoa levasse consigo um fragmento daquele tumulto luminoso. Foi um daqueles concertos que não se esgota no momento — continua a acompanhar-nos, silenciosamente, enquanto caminhamos para fora da sala e voltamos à noite fria do exterior da CCVF.
Visão de palco do meio da plateia durante YHWH Nailgun | Foto: João Octávio Peixoto
These New Puritans
O Mucho Flow sempre se caracterizou por trazer os headLiners de amanhã, mas houve um nome que fugiu a essa regra: os These New Puritans. A banda britânica conta já com uma extensão discografia, datada desde 2008 com 'Beat Pyramid', e agora em 2025 trouxeram-nos o muito aclamado, o incrível 'Crooked Wings'.
Quando entraram em palco, trouxeram consigo uma gravidade silenciosa que alterou imediatamente o ar da sala. A luz baixa recortava a figura de Jack Barnett, quase imóvel, como se estivesse a medir o espaço antes de o deixar vibrar. Os primeiros acordes ergueram-se devagar, num cruzamento de vibrafone, eletrónica espessa e um piano que ressoava como uma muralha antiga atravessada por corrente elétrica. A voz grave abriu caminho por entre as camadas metálicas e pulsantes, criando um ambiente que oscilava entre o cerimonial e o futurista.
Jack Barnett dos These New Puritans| Foto: João Octávio Peixoto
O público, que até então se distribuía em murmúrios e passos soltos, rapidamente foi absorvido pela atmosfera. Alguns mantinham-se imóveis, como se tivessem sido apanhados pela intensidade hipnótica de “Industrial Love Song”; outros fechavam os olhos, deixando que os sinos, as máquinas e o piano os arrastassem para dentro de um lugar que parecia existir algures entre ruínas antigas e laboratórios luminosos. Quando “Bells” ecoou pelo espaço, houve uma espécie de respiração coletiva — um momento em que todos perceberam que estavam diante de algo meticulosamente construído, mas emocionalmente bruto. No final, ninguém aplaudiu de imediato; houve, primeiro, um silêncio denso, como se fosse preciso regressar ao corpo antes de bater palmas. E só depois, lentamente, veio a ovação, de um concerto.
These New Puritans | Foto: João Octávio Peixoto
O último dia do Mucho Flow terminou como um eco prolongado do próprio festival: feito de contrastes que dificilmente poderiam coexistir noutro lugar. Depois do caos luminoso dos YHWH Nailgun e da solenidade futurista dos These New Puritans, a cidade parecia respirar de outra forma. As ruas húmidas refletiam as luzes como pequenas veias a pulsar no centro histórico, e o público dispersava-se devagar ainda a tentar decifrar o que tinha ouvido.
Havia nos rostos uma mistura de exaustão feliz e silêncio partilhado, como se cada pessoa carregasse consigo uma parte do festival. E foi nesse intervalo entre o silencio da cidade e a noite fria, enquanto caminhava pela calçada em direção ao São Mamede para gastar os últimos cartuchos, que me veio um possível título para esta reportagem - O passado murmura nas ruas de Guimarães, o futuro ressoa no Mucho Flow: o contraste de dois mundos inseparáveis.
Texto: Luis Silva
Fotografia: João Octávio Peixoto - joctaviop (Instagram) // Fotos Oficiais Mucho Flow
Casa da Música tremeu com Travo e MДQUIИД. em noite bem explosiva | Reportagem Completa
Hallison, o baterista dos MДQUIИД e Gonçalo Ferreira, o vocalista/guitarrista dos Travo | mais fotos clicar aqui
Este ano a programação do Misty Fest iniciou-se no passado dia 2 de novembro com duas bandas do meio underground lusitano. Viveu-se, nessa noite de domingo, na Sala 2 da Casa da Música com os Travo e os MДQUIИД. uma noite verdadeiramente explosiva.
A dupla jornada começou com Travo, um início mais lento e mais atmosférico que rapidamente tornou-se num ambiente mais “pesado” e mais “agressivo”. A música destes bracarenses é uma mistela de rock psicadélico inspirado nos anos 70, krautrock e uma pitada de stoner. Eles fornecem algo de novo ao panorama nacional da música alternativa e realmente não é para todos os públicos.
Nuno Gonçalves na bateria e Gonçalo Carneiro na guitarra, ambos dos Travo | mais fotos clicar aqui
O pessoal ficou mais ativo a partir do terceiro tema. As luzes muito epiléticas deram um retoque extra ao poder elétrico deste quarteto.
Gonçalo Ferreira é o músico que dá a voz a estes Travo e revela-se com imensa valentia e expressões faciais inesquecíveis . Ele também toca guitarra com bastante expressividade. Como habitualmente Gonçalo Carneiro, na guitarra e nos sintetizadores, esteve também bastante elétrico. Já David Ferreira (baixo) e Nuno Gonçalves (bateria) foram mais sóbrios e menos expansivos.
Visão do palco durante a performance dos Travo | mais fotos clicar aqui
A paisagem psicadélica criada pelos Travo foi irresistível e fez com que toda a gente balanceasse o corpo.
MДQUIИД. entraram em palco já com o público praticamente em ponto de rebuçado depois de uma performance bastante generosa dos Travo. Logo na fase inicial o pessoal deu-se generosamente ao mosh, aos saltos… Alguns crowdsurfers também mostraram-se corajosos. Fãs com uma atitude mais desprendida e pujante como habitualmente acontece nos concertos deste projeto.
João na guitarra e José Rego, o baixista convidado, ambos dos MДQUIИД.| mais fotos clicar aqui
Um concerto bastante particular pois marcou estreia no Porto de José Rego, como baixista convidado e que saiu-se bastante bem. Uma presença distinta do Tomás Brito (baixista da formação original e atualmente em pausa), com uma linguagem corporal completamente diferente. João Cavalheiro na guitarra e Halison Peres na bateria completam o trio.
O som dos MДQUIИД. tem um travo hipnótico intensamente bizarro para uma banda que explora universos musicais em redor do krautrock e techno industrial. Aqueles acordes hipnóticos, por entre um som bastante denso, são extremamente irresistíveis e provocam uns pezinhos de dança bem marotos. Daí que sejam um projeto extremamente diferenciado no panorama europeu, já extravasou o nosso Portugal há bastante tempo.
A Fuzz Records já “capturou” os MДQUIИД. e o single mais recente “misfit” já foi editado por esta editora de alcance planetário. Estará na forja um álbum novo provavelmente…
Visão do palco durante a performance dos MДQUIИД. | mais fotos clicar aqui
A noite terminou com a Sala 2 da Casa da Música transformada numa pista de dança, se fosse uma discoteca, o nome ideal para o local teria de ser Kosmische Musik.
Uma noite explosiva e triunfante por duas incríveis bandas nacionais.
Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui
Visão do palco durante a performance dos MДQUIИД. | mais fotos clicar aqui
Texto:
Aitor Amorim e Edgar Silva (auxilio com texto genérico)
Novo single de Toni!, "Bota Amarela", em estreia | Exclusivo headLiner
TONI! surge da força de António Castelo, que enfrenta os desafios do mundo através de melodias nostálgicas e ritmos dançantes, transmitindo esperança a todos que o ouvem. Este é um projeto nascido em Castelo Branco em 2023.
Podem já ter visto este artista noutras andanças. António Castelo faz parte da banda ao vivo de Galeria Incerteza dando uma ajudinha no sintetizador e nas vozes.
O primeiro single, "FESTA", chegou em março de 2023, seguido do EP de estreia 'Insónias' editado em abril de 2024. Em 2025, neste mês de novembro, surge "Bota Amarela". Um tema que satiriza a pressão social de encontrar o "amor da vida", dando continuidade ao tom ingénuo do projeto.
Foto promocional de Toni!
Sobre "Bota Amarela":
Após o lançamento do primeiro EP 'Insónias' — nascido de um período de frustração, ruturas e procura de direção — TONI! regressa com "Bota Amarela". Este é um single que troca a catarse pela ironia bem-humorada. Se antes queria pôr toda a gente a dançar enquanto escondia o peso das suas histórias, agora ri-se delas, transformando a dor em sátira e libertando-se da necessidade de
romantizar o que já passou.
Na tensão entre o desejo de conexão e a importância de saber estar só; na forma como a pressa em preencher vazios pode levar a decisões por impulso; e no papel inesperado da “criança interior” nas nossas escolhas diárias, "Bota Amarela" não é crítica nem lição de moral — é um convite a abraçar a imperfeição, a rir das nossas contradições e a valorizar o que já temos, em vez
de viver na ânsia do que falta.
Capa do single "Bota Amarela" de TONI!
Seguindo a mesma onda do pop funky que o EP trouxe, o single introduz melodias desconfortáveis e um espírito caricatural que reforça a mensagem. O videoclipe acompanha essa energia, transformando situações que podiam ser dramáticas em histórias leves e divertidas.
Este single fará parte do próximo trabalho discográfico, provavelmente um Extended Play, cuja edição está pensada para 2026.
Ouçam via headLiner em estreia total o single “Bota Amarela”:
"What Do I Think?" – Hamilton Leithauser no Outsite Mouco: uma experiência a repetir “A 1000 Times” | Reportagem completa
Hamilton Leithauser finalmente em nome próprio no Porto | mais fotos clicar aqui
Hamilton Leithauser, artista norte-americano com procedência em Washington e vivência atual em Nova Iorque, entrou para o meu léxico musical em “contramão” ao resto do pessoal. A maioria reconhece-o como o audacioso vocalista dos The Walkmen entre 2000 e 2013, já eu só o passei a seguir mais afirmativamente com o debute da sua carreira em nome próprio na sequência do hiato da banda.
No formato a solo reapareceu com ‘Black Hours’, álbum de estreiaem 2014 e que contém temas sonantes como "I Don’t Need Anyone" ou "11 O’Clock Friday Night". Seguiram-se momentos fortes e emocionantes como, por exemplo, "A 1000 Times" ou "Isabella", temas inseridos, respetivamente, nos álbuns ‘I Had a Dream That You Were Mine’ de 2016 (resultante de uma maravilhosa parceria com Rostam Batmanglij) e ‘The Loves of Your Life’ de 2020.
Este ano Leithauser regressou às edições discográficas com ‘This Side of the Island’, no passado mês de março. Este é o seu motivo para vir à Velha Europa para uma digressão que começou na passada quinta-feira em Lisboa. Aproveitei a segunda data, ocorrida no Porto na passada noite de Halloween (31 de outubro) no Outsite Mouco, para conhecer auditivamente ao vivo estas novas canções. Uma ocasião indispensável num concerto esgotado com meses de antecedência.
Hamilton Leithauser voz e expressão sempre efusivas | mais fotos clicar aqui
Nos dias antecedentes aproveitei para relembrar os meus encontros festivaleiros com Hamilton, na sua versão a solo em 2014 no Vodafone Paredes de Coura e em 2017 no NOS Primavera Sound. Já em 2023, também em Coura, teve lugar uma catarse introspetiva com o seu coletivo The Walkmen entretanto ressurgidos. Durante a performance a memória do artista estava incerta na sua interação com o púbico quando e aonde tinha já estado pelo norte…
Antes do grande momento da noite a primeira parte foi pontificada por uma atuação de Jo Alice. A cantautora nasceu em Faro, pai de origem francesa e mãe anglo-irlandesa. Passou a sua juventude entre o sul de Portugal e a costa oeste da Irlanda e essa multiculturalidade permitiu-a dominar vários idiomas fluentemente. Já em 2017 começou a sua carreira musical em Los Angeles.
Jo Alice na sua estreia no Porto | mais fotos clicar aqui
Esta artista algarvia fez a sua entrada a solo e logo nos primeiros instantes que a sua voz ecoou deu para perceber a sua belíssima voz no tema de entrada em “Something”. Além de cantar também tocou guitarra.
Para o segundo tema, “That’s No Way”, já contou com a companhia de parceiro na bateria, neste caso foi Stephen Patterson. Ele que foi o produtor do primeiro LP de Jo. Atualmente é o baterista que acompanha Hamilton Leithauser por isso também o vimos mais tarde em palco.
Nesta sua primeira vez no Porto Jo, apresentou-se com saltos bem altíssimos, demonstrou um estilo ligeiramente a fazer lembrar Julien Baker.
Stephen Patterson na bateria | mais fotos clicar aqui
Já com a sala praticamente lotada, atuou durante 30 minutos, deixou um belíssimo cartão-de-visita da sua valia. "Que agradável surpresa" frase dita por alguém do público numa das pausas entre canções causou-lhe um sorriso bem corado. Efetivamente assim o foi.
A noite de Jo foi bem especial pois contou logo, na primeira fila, com uma amiga que já não via há imenso tempo. Certamente o terrível transito que encontrou será uma memória que se desfazerá.
“Não costumo falar muito em palco por isso estar a correr bem” afirmou Alice já na fase final da sua atuação. Terminou a solo, já sem Patterson, tendo interpretado “One Of Those” e “Ne Me Quite Pas”, a única que cantou em francês.
Jo Alice, uma algarvia de gema | mais fotos clicar aqui
A voz de Hamilton Leithauser tem qualquer coisa que me deixa intrigado e fascinado, é aquele tom de rouquidão incerta e profunda com aquele timbre tipicamente de quem vive na América do Norte. Agora num concerto em nome próprio e numa sala fechada a experiência prometia ser amplificada a um patamar diferenciado. Ele contou com a sua banda: Stephen Patterson na bateria, Matt Oliver na guitarra e Gregory Roberts no baixo. Um trio de músicos oriundo do Texas, nos Estados Unidos da América.
“Happy Halloween” disse Hamilton logo de entrada precisamente nas suas primeiras palavras, logo aí expressou-se como um bom norte-americano o faria. Efetivamente esta tradição tem muita força no seu país. Também não deixou de dizer que era um “prazer estar de volta ao Porto”.
Perspetiva do palco em noite lotada | mais fotos clicar aqui
"Fist of Flowers" e "Ocean Roar" abriram o concerto no Outsite Mouco. Duas do mais recente álbum ‘This Side of the Island’. Dos 9 temas que compõem este registo discográfico foram interpretadas 7, além da faixa que dá nome ao disco, as outras foram: "What Do I Think?", "Knockin' Heart", "Off the Beach" e “Happy Lights”.
Fãs famintos e deliciados na frontline, desta vez sem "fosso" para os fotógrafos, por isso literalmente colados ao palco mesmo debaixo do olhar do músico norte-americano. Notei a presença de bastantes fãs femininas a deleitarem-se com as canções cantando-as ponto a ponto.
Leithauser utilizou duas guitarras: uma “com marcas de guerra” já notoriamente muito utilizada e também outra bastante charmosa da marca Rickenbacker. Ele que esteve extremamente conversador, fornecendo vários antecedentes e histórias sobre diversos temas.
Hamilton Leithauser também um mestre da guitarra | mais fotos clicar aqui
Por exemplo, na introdução a "In a Black Out" afirmou ser um “música obscura” adequada para o Halloween. Disse também que os seus filhos já não querem a sua companhia na famosa tradição Trick or Treats (doçura ou travessuras traduzindo para português). Este tema faz parte de ‘I Had a Dream That You Were Mine’, o álbum que produziu com Rostam e que foi editado em setembro de 2016. Disco bastante abordado, obviamente o ponto áureo de toda atuação surgiu com uma canção deste registo, nomeadamente “A 1000 Times”. Foi fascinante ouvir este incrível tema tendo sido interpretado de forma bem generosa vocalmente por Hamilton, não é um tema fácil, e cantado a plenas vozes pelos fãs. Evidência da sua importância: foi o mais filmado da noite.
A setlist foi quase igual à do concerto de Lisboa. No Porto tivemos direito a "You Ain't That Young Kid", um tema que não era tocado há bastante tempo.
Em"The Bride's Dad" houve também direito a contexto, de forma resumida, Leithauser explicou que foi inspirada numa situação real vivenciada de perto por si num casamento. O pai da noiva não fora convidado, apareceu no "copo de água", tendo sido expulso após ter protagonizado uma cena musical em que estava totalmente bêbado.
Hamilton Leithauser sempre muito gestual | mais fotos clicar aqui
O concerto foi assim, repleto de contexto aos temas por parte de Hamilton Leithauser de maneira bastante descontraída. A última introdução levou o músico a recuar até à sua juventude. Aos seus 16 anos: em roupa interior ia de piscina em piscina em Washington. Nesses percursos seguia no seu carro bêbado, ao ser parado pela polícia teve a fortuna de safar-se de ser multado.
Num encore absolutamente requisitado terminou com “Happy Lights” e “Room For Forgiveness”. Fiquei com a sensação de que poderia ver Hamilton Leithauser ao vivo 1000 vezes e não ficaria entediado em nenhuma das ocasiões. A única pena da noite foi não terem interpretado “Alexandra” e que até estava na setlist.
Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui
Matt Oliver na guitarra | mais fotos clicar aqui
Texto:
Edgar Silva
Os Pluto espelharam o seu inegável talento no Lustre | Reportagem completa
Pluto na Sala dos Espelhos do Lustre | mais fotos clicar aqui
Na noite de 25 de outubro, a Sala de Espelhos do Lustre, em Braga, transformou-se num espaço de celebração e nostalgia com os 20 anos de 'Bom Dia', o álbum que consagrou os Pluto como uma das bandas mais singulares do rock português. Esta formação é composta por Manel Cruz (voz e guitarra), Peixe (guitarra), Eduardo Silva (baixo) e Ruca (bateria).
O ambiente intimista e a luz difusa da Sala de Espelhos receberam um público multigeracional: desde quem viveu o disco na altura do lançamento até aos que o descobriram mais tarde, todos aguardavam em silêncio expectante até que os primeiros acordes ecoaram.
Manel Cruz, o intrépido vocalista dos Pluto | mais fotos clicar aqui
O concerto abriu com “Túnel” e “Entre Nós”, mergulhando de imediato o público na energia característica da banda. Seguiram-se “O 2 Vem Sempre Depois” e “Bem-vindo a Ti”, mantendo o ritmo e a intensidade. Momentos de introspeção surgiram com “Sexo Mono” e “A Vida dos Outros”, antes do crescendo emocional de “Convite”, “Coisas Dela”, “Segue-me à Luz” e “Líderes e Filhos”. “Quadrado”, “Lição de Adição”, “Só Mais um Começo”, “Sonhos Nunca Pedem Herança” e “Prisão” levaram a viagem sonora a novos patamares, explorando a riqueza e a profundidade do universo Pluto.
Após uma breve saída do palco, a banda regressou para oferecer ao público momentos especiais com “Algo Teu” e “Certas Coisas”, fechando o concerto com uma comunhão perfeita entre músicos e público, cantada em coro e sentida intensamente por todos.
Peixe e Manel em plano principal | mais fotos clicar aqui
Visualmente, a performance foi igualmente memorável: as reflexões da Sala de Espelhos, entre brilho metálico e nevoeiro azul, multiplicavam gestos e expressões, transformando cada enquadramento num eco visual da própria música. Entre luz e sombra, silêncio e intensidade, os Pluto mostraram que, mesmo 20 anos depois, ‘Bom Dia’ mantém-se fresco, urgente e essencial. Em Braga, provou-se mais uma vez que há discos que nunca envelhecem.
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A banda junta em plena comunhão pela sua música | mais fotos clicar aqui
Texto: Ricardo Costa
Fotografia: Ricardo Costa @ ricardojosecosta (Instagram)
À “vontade, vontadinha” os showcases abriram totalmente o “Appetite” musical – Dia 2 do Sonus Art | Reportagem completa
Desire Haze em palco | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
A tarde de sábado 11 de outubro nada teve de semelhante com o sábado anterior de Sonus Art Fest em 2024. Nessa ocasião Guimarães foi presenteada com uma avalanche de uma chuva bastante intensa e persistente. A reportagem de 2024 do festival pode ser recordada aqui.
Agora em 2025 finalmente pude presenciar os concertos dos showcases nos Jardins da Fraterna numa tarde de outono com sabor a gelado de verão.
No edifício coberto que tem ao lado os Tanques da Fraterna foi possível visitar a outra vertente artística do evento: uma exposição com elementos de pintura, de fotografia e vídeo de diversos autores. A identidade visual do Sonus Art Fest 2025 e o seu processo criativo esteve também exposta.
Ambiente durante a tarde de showcases | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Trata-se, sem dúvidas, de uma vertente bem explorada e que deve ser de visita obrigatória para todos os festaleiros. Tem entrada gratuita assim tal como os showcases musicais ocorridos no espaço aberto mesmo ao lado.
Daphné Chenel é uma cantautora oriunda de Paris e foi a primeira a atuar a partir das 17 horas num clima relaxado e caloroso. Trouxe a Guimarães o seu indie-folk e a sua voz bastante dócil e suave com aquele timbre bem docinho de sotaque francês, ela que cantou na sua língua natural e em inglês. Teve também uma ligeira incursão no português.
Daphné tem uma forte ligação a Portugal devido a ter-se radicado no nosso país durante alguns anos nomeadamente em Lisboa. A estada na capital lisboeta já lhe proporcionou uma atuação em regime de primeira parte num concerto de Anna B Savage realizada pela ZDB.
Visão do palco durante a atuação de Daphné Chenel | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Ao piano versou sobre várias temáticas como, por exemplo, sobre depressão. Outro tema foi a saudade, como disse em bom português. Chenel também tocou guitarra elétrica e acústica.
‘Mue’, editado em 2023, é o seu trabalho discográfico de estreia, tem inspirações lisboetas. Explorou devidamente esse disco, uma das faixas que não faltou foi "Les dégâts", a primeira canção que lançou, sobre rutura amorosa. Curiosamente surgiu na altura em que deixou o piano e passou às guitarras. Outras interpretadas foram, por exemplo, "Désolée mon amour" ou "Les Vagues".
Realce igualmente para a nova canção intitulada "Alice" sobre a sua avó portuguesa. Refrão "estou aqui à tua porta" cantado de forma bem percetível pese embora os receios da artista.
O público ajudou a artista com coros bem afinados e a matiné folkiana revelou-se extremamente simpática e agradável e teve continuidade com o artista seguinte.
Daphné Chenel ao piano e na guitarra | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Na sequência tivemos FeMa..Este é o nome artístico de Diogo Félix. Deu os passos iniciais no seu percurso musical em 2021 com o lançamento dos primeiros singles. Em 2022 “uma palavra chamada folha” é o seu debute nas edições discográficas, apesar deste EP ter título em português é cantado em inglês.
Após uma pausa de um ano, FeMa. recriou-se e aproximou-se da sua identidade artística, visível no single “Vontade, vontadinha”, lançado em 2024, acompanhado por um teledisco que introduziu o seu mundo natural e imaginário. Este tema foi interpretado na fase final da sua atuação e mereceu a atenção devida do público com o auxílio nos coros.
FeMa. no seu regresso a Guimarães | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Músico oriundo de Alcobaça, na voz e guitarra, apresentou-se em modo duo com Camila Romão, ela que ocupou-se da guitarra (de imensos efeitos) e do sintetizador. O artista esteve de regresso a Guimarães depois de uma passagem pelo CAAA. FeMa. afirmou adorar a cidade nortenha e boa sua “boa onda” não tenho a menor dúvida disso mesmo.
Um dos seus principais temas “Verde Mar”, editado em fevereiro deste ano, foi interpretado de maneira muito bonita e singela. Uma atuação de acordo com o clima prazeroso da tarde e bem adequada à vibe de quase final de tarde.
Camila Romão no apoio a FeMa. | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Já com o ocaso no horizonte surgiram os Desire Haze, banda de indie rock do Porto. A banda, que se agrupou em 2023, é composta pela vocalista e guitarrista Laura Olim, pelo guitarrista João Matos, pelo baixista Hugo Machado e pelo baterista Mateus Pereira. Tiveram Sam Akpro e a sua banda a espreitarem a sua performance, eles que iriam subir ao palco na parte noturna da programação.
Algumas das suas referências musicais incluem artistas como Angel Olsen e PJ Harvey, e bandas como The Cure e Slowdive. Curiosamente a vocalista Laura fez-me lembrar o jeito de Angel Olsen no modo de abordar o microfone e de manejar a guitarra.
Ainda sem álbum editado, promessa feita em 2024 e que tem sendo vindo adiada, a performance foi pontificada pelos singles “Still water”, “Did I go blind” e “Still Water”. São boas referências para o som porreirinho deste projeto. Já editadas e disponíveis nas plataformas online de streaming.
Mateus e Hugo dos Desire Haze | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
“Smile to a stranger” e “Unlost unfound” foram outras das faixas interpretadas, soaram-me bastante bem. Aguardo portanto por esse álbum para novas considerações sobre estes Desire Haze. Deixaram um gostinho bom no ouvido. Tiveram a maior presença de público deste segmento de três atuações.
Mais um projeto a demonstrar que a cena musical portuense está a fervilhar. Uma fase positiva em que bandas como estes Desire Haze ou outras como os Marquise, Sadhäna ou Nunca Mates o Mandarim têm a surgido de forma orgânica e com bastante qualidade.
O guitarrista João Matos dos Desire Haze | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Rachid Amado Fakhre é o artista responsável pelo projeto Skydaddy. Ele que fez parte do projeto Spang Sisters e agora com as lides nas suas mãos pretende criar algo mais íntimo.
Apresentou-se na garagem do Teatro Jordão tendo feito a sua apresentação a solo. Mais tarde entraram os restantes três elementos, alguns dos melhores músicos de Londres. Contou com Francesca Brierley no piano/voz secundária e outros dois elementos. O baterista também tocou violino e teve também um baixista.
Houve um momento bem particular em que Skydaddy interpretou um tema instrumental sobre o Líbano, o seu país natal. “Lebanon Rising” foi interpretada por Fakhre na guitarra clássica com o apoio de violino.
Skydaddy, o projeto a solo de Rachid Amado Fakhre | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
“His Masterpiece” e “Stonehenge” foram outras duas interpretadas. Para o final ficou “That Morning”, uma canção que aprecio imenso. Interpretada de forma fantástica soou imensamente bem.
Com o seu registo folk açucarado deixou-nos com um cartão-de-visita expressivo após uma performance descontraída e bastante agradável.
Skydaddy com a sua banda | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Sam Akpro é um inglês proveniente de Peckham no sul de Londres e transportou-nos para o seu imaginário sonoro profícuo resultante de uma miscelânea de punk, pop, psicadélico e rap verdadeiramente distintiva. Trouxe-nos a sua banda constituída por um elemento responsável pela eletrónica, outro pelo baixo, um na guitarra e mais um na bateria. Akpro forneceu-nos a sua voz.
‘Evenfall’, álbum de estreia editado em março de 2025, retém enorme influência da fase da vida em que Akpro trabalhava num pub em período noturno. Foram os temas incluídos nesse registo discográfico os principais neste concerto em Guimarães, tais como “Baka”, “City Sleeps” ou “Gone West”.
A energia descontrolada no último tema que interpretaram quebrou completamente o ciclo de uma performance bastante morna ao fim de cerca de 40 minutos.
Sam Akpro na sua estreia em Guimarães | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Para mim a atuação mais destacada da noite foi a dos Folly Group. Quarteto britânico formado por Sean Harper: voz e baterista; Louis Milburn: voz e guitarra; Tom Doherty: baixo e Kai Akinde-Hummel: bateria e percussão.
Este projeto existe desde 2019 e têm por inspiração base os Gorillaz e os Massive Attack. Esse ponto de partida é vital para a mescla de Punk e Rock Progressivo que proporcionam amplificada por Sean, Kai e Louis. Este trio proporcionou uma grande robustez aos seus temas dado que todos fez uso dos seus recursos vocais e por vezes ao mesmo tempo.
Em palco os Folly Group | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Com a entrada dos Folly Group às 23:38h deu para perceber que estávamos com a casa muito bem composta e com bastante animação. Esta performance foi bastante bem recebida pelo público. Apenas com um álbum editado, ‘Down There!’ em 2024, naturalmente o foco recaiu neste registo discográfico. Não faltaram na setlist temas como “Strange Neighbour” ou “Fashionista”, só para citar dois dos mais ouvidos nos streamings. “Bright Night”, “Four Wheel Drive” e “I’’ll Do What I Can” também foram escutados pelo público no Sonus.
Referir para a loucura em “I Raise You”, a última faixa interpretada. Em que o guitarrista veio para o meio do público. Com alas bem abertas, a seu pedido, foi uma espécie de insanidade temporária. Um encerramento apropriado para uma performance em crescendo.
Kai Akinde-Hummel dos Folly Group | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Os Yard são um trio irlandês formado por Emmet White: voz/beats, George Ryan: sintetizadores/beats e Daniel Malone: guitarra. Oriundos de Dublin trouxe o seu eletro-punk até ao Sonus Art numa estreia vimaranense bastante eletrizante e portentosa. Até demais direi eu, creio que o som foi colocado num patamar elevado, bem além do aconselhado para o espaço.
Foi neste concerto final que, provavelmente, atingiu-se o pico de público de todo o festival.
A energia do vocalista passou para a plateia e para os imensos corpos dançantes. Essa vitalidade começou logo durante “Trevor”, a primeira faixa que os irlandeses tocaram. Teve sequência em temas seguintes como “Appetite”, “Essential Tremor” ou “Slumber”.
Emmet White dos Yard | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Esta performance marcou o encerramento do Sonus e revelou-se sonoramente ao nível de uma rave party. Inclusive ao nível do jogo de luzes. Quase literalmente Yard a “partirem pedra” e para a pedrada ser ainda de um nível psicadélico mais elevado, a voz de Emmet estava enfeitada de um reverb em tom raivoso.
Tinha alguma expetativa para a atuação dos Yard porém confesso que, definitivamente, não entraram para as minhas memórias futuras nem para o meu radar musical.
Daniel Malone dos Yard | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Para fecho de reportagens e como conclusão referir algumas notas:
- sinceramente não sei se dois dias são um bom encaixe para o festival, acho que prefiro um sábado mais intenso e com escolhas bem definidas para um tarde e uma noite bem fortíssimas.
- sobre os showcases: 45 minutos para cada concerto é demasiado tempo, com as mudanças são praticamente 3 horas. Revela-se um pouco entediante para quem quer checkar as novidades sem stress e posteriormente ir jantar com serenidade. Talvez 30 minutos seja um tempo máximo ajustado.
Visão do público durante os Yard | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
O Sonus Art Fest está cada vez mais com uns ares profissionais e o potencial que demonstraram até agora deve ser reconhecido à organização.
Agradecimento final para a organização do Sonus Art Fest pela sua simpatia e por me ter acolhido tão bem no evento. Igualmente pela disponibilização das fotos utilizadas nesta reportagem.
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Sérgio Monteiro @ sergiommonteiro (Instagram)
// Fotos Oficiais Sonus Art Fest
Hey “Babe”: “Deixa Arder” com Alien Chicks e Humana Taranja – Dia 1 do Sonus Art | Reportagem completa
Humana Taranja em palco| Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Em 2022 emergiu o Sonus Art Fest numa empreitada ousada por Pedro Carvalho, Filipe Carvalho e João Lemos. Estes três jovens empreendedores são os responsáveis pela Revista Sound e igualmente os fundadores deste festival artístico. Um evento que vai além da música, embora este seja o seu foco principal. Proporciona também espaço físico a jovens criadores. Estes ganham assim, deste modo, uma plataforma para exporem a sua criatividade em áreas diversas que vão da fotografia, ao design ou pintura, só para citar alguns exemplos.
O sucesso foi a nota dominante das primeiras edições e para tal contribuiu imenso a estreia em território nacional dos Deadletter em 2023 e a presença dos Maruja em 2024. Ambas as formações britânicas estão agora destinadas a palcos de maior relevância já que estão a abandonar o estatuto de talento emergente rumo a um patamar superior.
Agora em 2025 o festival fez um “salto de fé” com a passagem a dois dias. O Sonus Art Fest realizou-se a 10 e 11 de outubro, respetivamente, as últimas sexta-feira e sábado.
Efervescência do público durante os Opus Kink | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Na primeira noite o acesso foi-se fazendo aos poucos e poucos. A primeira atuação da noite iniciou-se às 21:34h com a dupla brasileira Felipe Vaqueiro & Sophia Chablau.
Felipe Vaqueiro (Tangolo Mangos) e Sophia Chablau (Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo) conheceram-se em 2023 e lançaram, no início de 2025, um compacto de duas músicas numa empreitada conjunta entre as editoras Selo RISCO do Brasil e Cuca Monga de Portugal.
A união destes dois músicos brasileiros tem gerado algum buzz no meio alternativo pelo que a digressão que ambos fizeram por diversas localidades de Portugal neste mês de outubro tenha sido bem recebida.
"Boa noite. Goodnight." disse Sophia logo após a sua na entrada de maneira bem relaxada e a boa vibe do duo manteve-se até final da atuação. Ainda com pessoas a chegarem ao recinto, o público mantinha-se um pouco recuado ao palco. A pedido de Chablau o pessoal chegou-se à frente e a partir desse momento rolou um clima mais intimista.
A dupla Felipe Vaqueiro & Sophia Chablau | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Felipe e Sophia apresentaram o seu trabalho discográfico ‘HANDYCAM’ editado bem recentemente, no primeiro dia deste mês de outubro. Estes temas deambulam entre letras cantadas ora em inglês ora em português. As vozes desta dupla mesclam-se perfeitamente bem e demonstraram um à vontade genuíno e bem cúmplice.
Sophia Chablau tocou guitarra e piano, já Felipe Vaqueiro atuou de chinelo e tocou somente guitarra. Ela do lado esquerdo e ele do lado direito. Destaque para a interpretação de “Canção de retorno”, uma canção que a artista brasileira dedicou à sua amiga Yara Ktaishe oriunda da Síria.
Vaqueiro fez questão de fazer publicidade, em diversas ocasiões, ao diverso merch à venda no local durante o concerto. Peças bem giras e que certamente são e serão do agrado de muitos fãs.
Sophia e Felipe em palco | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Pelo meio, entre outras, ficou “Já Não Me Sinto Tão Só” antes do encerramento com a canção extremamente expressiva “Cinema Brasileiro”. Apreciei imenso esta minha estreia com esta dupla vinda do Brasil, prometem fazer coisas bem giras e este disco de estreia é a prova disso mesmo.
A fazer lembrar as noites Malfeito em Fafe, em cima do sistema de som junto ao palco existiram umas caixas de cartão recortadas com o nome das bandas. Durante a atuação de cada banda somente surgia iluminada a caixa com o seu nome. Deu um efeito cénico engraçado porém retirava um pouco de visibilidade a quem poderia querer espreitar o concerto de lado.
Perspetiva de Sophia em palco | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Humana Taranja são uma jovem banda, da margem sul, especificamente do Barreiro e entraram para a sua atuação às 22:42h com “Longe” como tema de abertura.
Os elementos são: Guilherme Firmino (guitarra e voz) David Yala (guitarra), Filipa da Silva Pina (teclado e voz), Marta Inverno (baixo e coros) e Afonso Ferreira (bateria). Reencontrei este cinco destemidos músicos quase um ano depois da minha primeira vez com eles. O primeiro impacto no Maus Hábitos do Porto em novembro de 2024 foi fantástico pelo que até eu me auto estranho ter demorado tanto tempo.
“O nosso técnico diz que é a melhor cidade do mundo” Firmino referia-se a Guimarães pois claro. Miguel Gomes, conhecido como Chinaskee já conhece extremamente bem a cidade e efetivamente tem as melhores referências pelas suas constantes passagens pela Cidade Berço. Oxalá os Humana Taranja repitam também a visita.
Filipa e Guilherme dos Humana Taranja em destaque | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
A seguir a “Banho Quente” e “Copo de Vinho” surgiu “Casa”, um tema que não tocavam há algum tempo como referiu Guilherme. Gosto muito destes Humana Taranja, têm temas incríveis e a sua postura em palco é bastante assertiva e pertinente. Deram o melhor de si e mereciam um espaço com uma acústica 100% decente para um usufruto ao máximo da sua discografia.
Antes de "Guerra" aquele anúncio meio tímido da existência de merch à venda. Comprei uma t-shirt com o registo ao seu álbum 'EUDAEMONIA', um dos melhores de 2024. Com toda a certeza o ouvirei mais algumas vezes.
Guardados para o encerramento ficaram “Deixa Arder” e “Podem Entrar”, a fase mais enérgica e elétrica de todo o concerto. A banda do Barreiro com toda a certeza conquistou novos fãs.
Humana Taranja em palco | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Já de Londres tivemos os Alien Chicks, um nome que retive para interações futuras. Era a formação que mais queria escutar desta primeira noite de Sonus Art Fest. A expetativa confirmou-se e prezei imensamente a sua performance.
Trio formado por Josef Lindsay na voz principal/guitarra, Stefan Parker-Steele no baixo/voz secundária e Martha Daniels na bateria. Martha deu logo nas vistas na sua entrada com um outfit encarnado mais ousado. Já Josef escolheu uma t-shirt azul estilizada do clube de futebol italiano Nápoles e o nome de Maradona nas costas. Stefan não foi visualmente o mais impactante porém foi, sem margem para dúvidas, o mais irrequieto dos três.
Chegaram a Guimarães com “Illuminati” lançado pouquinhos dias antes. Este é o seu mais recente single e foi mesmo a faixa de abertura desta performance vimaranense.
Josef e Martha dos Alien Chicks | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Na bagagem trouxeram também o único EP editado, em maio deste ano apelidado ‘Forbidden Fruit’. Faixas como “Say Fish”, “Babe” ou “Mr Muscle” fizeram parte de um alinhamento que soou incrivelmente portentoso.
Finalizaram com os temas “Candlestick Maker” e “27 Stitches” tendo ficado pelo meio “Steve Buscemi” ou “Qwerty”, só para citar mais duas.
Nesta estreia total em Portugal os Alien Chicks deram muito bem conta de si. O seu estilo organizadamente caótico, tanto em termos musicais como visuais, deixou-me com “água na boca”. Para mim foi a melhor atuação da noite, quer dizer, a que maior impacto teve em mim.
Stefan Parker-Steele dos Alien Chicks | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
A segunda formação inglesa, de uma série a atuar no Sonus foram os Opus Kink, um sexteto oriundo de Brighton. Liderados pelo frontman e guitarrista Angus Rogers encerraram a primeira noite do evento em belo estilo. Confesso que não foi a minha atuação preferida da noite, questão de gosto pessoal no que diz respeito à sua sonoridade. Devo afirmar, de forma assertiva, que eles conseguiram “capturar” a atenção e vibração a maioria das pessoas, público este que esteve bastante ligado e participativo durante toda a performance.
Além de Angus, também Sam Abbo (baixo e voz secundária), Jed Morgans (saxofone), Jazz Pope (teclado, sintetizador e voz secundária) e Jack Banjo Courtney (trompete) surgiram alinhados na horizontal na parte frontal do palco. Atrás ficou o baterista Fin Abbo.
Opus Kink em palco | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Baixo bem pronunciado e instrumentos de sopro a darem o “pontapé” sedutor aos temas com muitas referências de jazz e punk. Efetivamente uma miscelânea “indie post punkish jazzy” soturna bem apimentada de forma sedutora pelo saxofone e trompete.
"I’m A Pretty Showboy” o single mais recente editado no passado dia 7 deste mês, foi devidamente exposto. Já "St. Paul of the Tarantulas" foi uma das tocadas na fase final da performance, fase em que houve um momento apoteótico em roda-viva após uma espécie de ritual de estilo religioso.
Apesar de um problema técnico que acabou por pausar o concerto, quando tudo retornou a estar devidamente afinado, os Opus Kink retomaram com uma pinta como nada se estivesse passado. Atuação sólida e positiva destes britânicos.
Apesar de ter-se notado que a casa não esteve lotada registou-se uma cifra de público em número apreciável. Não olvidar que esta foi a primeira edição com dois dias, a primeira vez que houve sexta-feira no Sonus Art Fest. São os novos caminhos do evento e oxalá que, aos poucos e poucos, ganhe uma maior relevância pois claramente o merece.
Angus e Jack dos Opus Kink em palco | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Agradecimento final para a organização do Sonus Art Fest pela sua simpatia e por me ter acolhido tão bem no evento. Igualmente pela disponibilização das fotos utilizadas nesta reportagem.
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Sérgio Monteiro @ sergiommonteiro (Instagram)
// Fotos Oficiais Sonus Art Fest
Há uma luz que acende a genialidade de Mark Williams Lewis | Reportagem Completa
Mark William Lewis com o seu projeto a solo no Porto | mais fotos clicar aqui
RCA - radio clube agromonte - é um espaço no Porto que abriu em 2024 e que aos poucos tem ganho o seu espaço e relevância na cena cultural da cidade. Entre um bar que serve cervejas artesanais, uma piscina vazia que se transforma em venue de concertos, passando pela loja de discos Music & Riots até à pequena sala de concertos, o RCA tem de facto trazido uma nova dinâmica à zona da Boavista com uma seleção musical muito interessante.
No passado dia 21 de outubro entramos pela 2ª vez na pequena mas acolhedora sala de espetáculos, a 1ª vez num contexto headLiner. O motivo foi Mark William Lewis, o artista londrino como uma voz singular no panorama musical contemporâneo. Oriundo de Stamford Hill, Londres, editou o seu álbum de estreia de longa-duração, 'Living', em 2023. Em Setembro de 2025, edita pela A24 Music (ramificação da conhecida produtora A24) o álbum 'Mark William Lewis' (autointitulado), marcando-se como o primeiro artista desta casa não ligado a bandas-sonoras.
Mark William Lewis, artista já confirmado no Primavera Sound de Barcelona em 2026 | mais fotos clicar aqui
Com ele trouxe Ashley Plomer, cantor-compositor, produtor e intérprete oriundo do Reino Unido. Depois de emergir da cena experimental e DIY de Sheffield, mudou-se para o sudeste de Londres, onde lançou digitalmente seus singles de estreia "Tankfull" e "Shame 2" em 2024.
Pouco passou das 21h daquela terça-feira fria, quando o artista subiu sozinho ao palco apenas a fazer-se acompanhar da sua guitarra. Em seu redor estava um conjunto de microfones, um triângulo a flutuar por cima da bateria, quase como se Ashley estivesse a ser consumido pelo material. Muito desta ilusão óptima deve-se às pequenas dimensões do palco, compactando tudo em poucos metros quadrados.
Pouco falou durante a sua performance de pouco mais de 30 min, e reduzido apenas à sua voz, despido de qualquer reverb ou autotune, tocou os dois singles apresentados já ao mundo digital, assim como "Billiard God" ou "Stolen Valour". Ouvindo os temas lançados digitalmente "Shame 2" e "Tankful" temas cantados de seguida, "inspiram-se no emo, no metal progressivo, na paisagem sonora e nas longas óperas televisivas de Robert Ashley.", contudo a experiencia ao vivo reduz-se a bonitas canções de "apenas" a uma voz imperfeitamente bonita e à sua subtil guitarra, não trazendo toda a sua complexidade e texturas músicas para a cena ao vivo.
Ashley Plomer com o seu projeto a solo no Porto | mais fotos clicar aqui
A verdade é que à hora marcada a sala coberta de painéis acústicos de madeira e cortiça, já se encontrava praticamente lotada, vendo poucos vazios entre as poucas centenas de pessoas que esgotaram a bela sala do RCA.
Já consumo há alguns anos concertos de mais pequenas dimensões, em dias de semana, na cidade do Porto, e é de salientar a excelente moldura humana que se deslocou para ver Mark Williams, perspectivando um futuro de muito sucesso ao cantor britânico. Mas já lá vamos.
A pausa entre Ashley Plomer e o concerto de Mark Williams Lewis serviu para passar novamente no bonito bar do RCA, pegar numa das muitas cervejas artesanais, enquanto de fundo rodava o vinil de Mount Kimbie, 'Love What Survive'.
O bar começou a esvaziar levando-nos também para a sala que, agora sim, encontrava-se completamente esgotada. Entramos na sala já com o calor humano a sobrepor-se a noite fria de Outubro, enquanto ao de leve soava Laaraji no sistema de som.
Aguardávamos pacientes, quando vemos a banda a sair bem por detrás do publico, percorrendo as centenas de pessoas ate atingiram o palco. Poderia fazer parte da performance, mas não, era mesmo por ali que os artistas faziam a sua entrada, trazendo uma camada imprevisível (pelo menos de quem assiste pela 1a vez um concerto naquela sala).
Mark William Lewis trouxe banda para este concerto portuense | mais fotos clicar aqui
A acompanhar Mark Williams Lewis estava uma guitarra bem junto ao seu peito e a cair nos seu ombros uma harmónica, mesmo como uma estrela de rock à antiga fazendo lembrar os primórdios de Neil Young ou de Bob Dylan. Perante sim estavam dois microfones, que mais tarde ao longo do seu concerto, acabamos por nos aperceber que um deles era para a sua voz e outro para a sua fiel harmonica.
A acompanhá-lo no baixo estava já uma cara conhecida do público, Ashley Plomer. Antes de começar o concerto, Mark Williams disse que aquele seria um concerto especial não só pelo facto de ali entre nos, se encontrar a avó de Ashley, como também era o aniversário de James, guitarrista e trompetista que acompanhava-o em palco.
Um dos elementos da banda de Mark William Lewis | mais fotos clicar aqui
Em apresentação estava o bem aclamado disco homónimo editado este ano. E foi com "Socialising" desse mesmo disco que iniciou o concerto e mais de 1h, na aquela sala que apresentava uma acústica e qualidade de som como pouco visto. A voz grave e imponente, contrastava com a beleza leve da sua harmónica tocada em uníssono com a sua guitarra, e ver aquela figura de cabeça rapada lá ao fundo, fez-nos adorar cada momento.
O som atmosférico e introspectivo, indie e ambiental marcado com texturas sonoras complexas e de uma melancolia profunda era audível em cada cabeça que deambulavam ao som de musicas como "Cold Paris Vogue" musica do seu EP de 2022, "Painkillers" ou "Ugly".
Foi interessante perceber, que apesar de um dos grandes motivos desta estreia em Portugal de Mak Williams é a apresentação do seu mais recente disco, o artista percorreu a sua discografia sem nenhuma ordem aparente. Mesmo para os fãs mas acérrimos tornou-se dificil de prever a próxima música da setlist.
Perspetiva do público | mais fotos clicar aqui
"Seventeen" para "Pleasure Is Everything" até transitarem para um momento bem bonito em que começaram a jamar entre si mostrando uma cumplicidade bem bonita... até começarem a serem audíveis os acordes tão característicos de "Petals", um dos singles e músicas mais esperadas pelas centenas de pessoas.
Não havia letras na ponta da língua como um concerto pop cheio de pulseiras fluorescentes, mas havia uma que sala que transpirava de corpos levemente dançáveis e de coração cheio.
Um concerto bem longo (não de uma maneira depreciativa) mas de facto não esperávamos que um artista de apenas dois LPs e outros dois EPs, tenha apresentado um concerto de perto de 1h20, com poucas pausas, pouco improviso e debitando aquilo que faz melhor.
O concerto aproximou-se do fim, já bem para lá das 23h00, terminando com "Anyone" faixa do seu mais recente mixtape editado este ano 'Sparkles 22-24', e diria que foi uma escolha peculiar pois trata-se de um trabalho discográfico bem mais escondido e não tao popular do artista britânico, mas que requer desde já uma audição bem atenta - apenas disponível no Bandcamp.
Mark William Lewis em estreia na radioclube agramonte | mais fotos clicar aqui
Marquem este nome, Mark Williams Lewis, não só por ter esgotado por completo na sua estreia em Portugal numa fria terça-feira à noite, mas também porque há uma certa luz que recai no ambiente escuro, introspetivo e experimental que tornam o seu som em algo único.
Socialising
Cold Paris Vogue
Painkillers
Ugly
Seventeen
Pleasure Is Everything
Petals
Still Above
Recente Future
Skeletons Coupling
Spit
Little Wonder
Silver Moon
Ecstatic Heads
Tomorrow Is Perfect
Anyone
Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui
Texto:
Luís Silva
Fotografia:
Ana Lourenço @ blackphant.stage (Instagram)
Bad Tomato apresentaram ‘BITE’ na FNAC dos Armazéns do Chiado | Reportagem completa
Manuel Casanova, o vocalista dos Bad Tomato | mais fotos clicar aqui
No passado dia 10 de Outubro, os Bad Tomato apresentaram-se na FNAC dos Armazéns do Chiado para um concerto especial, num registo mais intimista e em regime de showcase. Apesar de não se reunir uma grande multidão desde o início, quem passava pelo espaço não ficava indiferente: a curiosidade era evidente, e muitos acabavam por parar, ouvir... e ficar até ao fim. A energia da banda e a autenticidade da sua música conseguiram captar a atenção de todos os que, por acaso ou intenção, se cruzaram com o concerto.
O ambiente foi descontraído e próximo, marcado pela ligação espontânea entre a banda e o público. A sonoridade dos Bad Tomato, aliada à sua presença em palco, criaram uma atmosfera acolhedora e honesta, onde cada música era recebida com atenção e entusiasmo. Foi um daqueles momentos em que a música fala mais.
Jantonio Silva, o vocalista dos Bad Tomato | mais fotos clicar aqui
Esta formação lisboeta é composta por Manuel Casanova (vocalista e guitarrista), Jantonio Silva (baterista) e Miguel Albino (guitarrista) e são ainda bem recentes no panorama nacional alternativo.
Editaram o EP de estreia ‘BARK’ em outubro de 2024, nele expunham a energia crua e dançável da banda. Um ano depois estão a regressar com ‘BITE’, um EP que revela a versão mais reflexiva e complexa desta banda. Este novíssimo trabalho foi produzido pela própria banda entre os estúdios Black Sheep e Pontiac e contou com a colaboração de Guilherme Correia dos Hause Plants. Nesta atuação na FNAC ele participou e deu uma ajudinha ao trio.
Nesse showcase lisboeta deram realce aos singles “Get Up (Now)” e “Rain”, ambos incluídos na edição discográfica mais recente editado precisamente nesse dia da performance na FNAC.
Bad Tomato em palco com a colaboração de Guilherme Correia | mais fotos clicar aqui
Os Bad Tomato vão tocar em mais locais para mostrarem a boa valia do seu projeto, eles que descrevem o seu som sendo de ritmos urbanos com energia post-punk. Mais datas de concerto em breve.
Estes três rapazes têm imenso potencial trazerem-nos ainda mais música de qualidade. Está prometido um LP para 2026. Resta, por agora, escutar os incríveis temas que já fazem parte da sua discografia e vê-los ao vivo numa ocasião em breve.
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Manuel e Miguel dos Bad Tomato | mais fotos clicar aqui
Texto:
Catarina Santos e Edgar Silva
A grandiloquência do mestre dos Pés de Roque-Enrole e seus convidados no Coliseu do Porto | Reportagem completa
Samuel Úria, o cicerone da noite | mais fotos clicar aqui
A estreia de Samuel Úria, em nome próprio, no Coliseu de Lisboa teve lugar no passado dia 11 de outubro. Menos de uma semana após essa empreitada extremamente bem-sucedida, pelo feedback que pude ler na imprensa nacional, fui com uma expetativa um pouquinho mais elevada até ao Coliseu Porto Ageas nesta última sexta-feira, dia 17 de outubro.
Este foi um retorno do tondelense aos palcos portuenses depois da atuação a 1 de outubro de 2024 no Teatro Sá da Bandeira em que o headLiner também esteve presente e cuja reportagem pode ser lida aqui.
Úria não deixou os seus Pés de Roque Enrole por pernas alheias. Esta foi a minha estreia num concerto do artista em espaço fechado. Era algo que já ansiava há algum tempo, provavelmente anos até. Depois do gostinho que foi a sua atuação no Vodafone Paredes de Coura na edição deste ano (cuja reportagem pode ser lida aqui) a oportunidade demonstrou-se na verdade imperdível.
Samuel Úria com banda e coro | mais fotos clicar aqui
Esta performance foi também a sua estreia absoluta no Coliseu da terra pátria da francesinha. Diga-se, para fazer justiça a esta noite, a performance foi toda ela uma bela iguaria musical abrilhantada pelos seus incríveis convidados.
A sala transpira imponência, efetivamente é sempre um marco relevante na carreira de qualquer artista atuar neste local de cultura portuense. Pessoalmente foi também excitante regressar, especialmente por ter ainda visto poucos concertos neste Coliseu Porto Ageas. Este local de concertos não é daqueles que frequento amiúde.
A sala foi-se compondo com aquela azáfama benigna de sexta-feira e intrépida vontade de assistir ao evento. Horário previsto não foi cumprido, às 21:35h ainda entravam pessoas. Não foi registada lotação esgotada, no entanto, esteve uma bela moldura humana. As zonas abertas foram a plateia (lugares sentados), tribuna e camarotes.
Samuel Úria a dar tudo, como sempre | mais fotos clicar aqui
Às 21:38h a encantadora maratona de 2 horas e 20 minutos teve início com “1998” para uma performance em que "tudo é melhor no Porto", Samuel puxou a exigência ao seu máximo para si e todos os presentes.
'2000 A.D.' é último álbum do artista, lançado em 2024, e a faixa que dá título a esse registo discográfico foi a segunda a ser servida na noite. Um tema bem porreiro e que soou muito bem por entre passos apressados de pessoas que ainda procuravam o seu lugar.
Houve um agradecimento especial de Úria a Miguel Guedes, o vocalista dos Blind Zero, “pela inspiração”. Ele que recordou que a banda portuense tocou na sua festa de finalistas. Como nota relevante referir que Guedes é atualmente o diretor do Coliseu Porto Ageas.
Samuel Úria em momento mais sério | mais fotos clicar aqui
Houve várias memórias, ao longo do espetáculo, que Samuel Úria partilhou com os seus fãs: uma delas foi a de um concerto há 15 anos num Hard Club no Mercado Ferreira Borges ainda em obras finais e com bastidores em estado de estaleiro. Recordou que alguns dos companheiros de coro também lá estiveram com ele. A performance foi também isto, a partilha de momentos no Porto, uma cidade bastante relevante na sua vida pessoal e profissional.
O referido coro teve a colaboração de 8 pessoas: 5 mulheres e 3 homens. Todos eles fizeram a sua parte de maneira bem elegante. Fica o destaque para Joana Wagner, deixou o coro e passou a teclista no último tema no encore em "Um Adeus Português".
A banda, dotada de músicos de imensa tarimba, foi composta por: Jónatas Pires (voz, guitarra elétrica, guitarra acústica e harmónio indiano); Miguel Sousa (voz, teclado, guitarra acústica); Miguel Ferreira (voz e teclado); Silas Ferreira (voz, teclados e percussão); António Quintino (voz e baixo) e Tiago Ramos (voz,bateria e percussão).
Miguel Ferreira, conhecido também por fazer parte dos Clã | mais fotos clicar aqui
Miguel Ferreira (também conhecido por fazer parte dos Clã), um dos teclistas, na fila dianteira no primeiro set de palco, relevou-se o mais expedito. Sempre a vibrar imenso com os temas com o seu jeito gingão.
A primeira participação especial surgiu com Carol, a brasileira com “sotaque de Gaia”, em “Daqui para Trás” e “Essa Voz”. A voz de “fogo e de mel”, como apelidou Samuel, deixou o seu encantador contributo tal como todas as outras convidadas femininas. Foram elas, por ordem de entrada em cena, Margarida Campelo, Manuela Azevedo, Milhanas e Gisela João. Todas com vozes de timbres diferentes com um elo comum: vozes incríveis e marcantes do panorama nacional português.
Voltei a cruzar-me com Margarida Campelo, depois de a ter visto dois dias antes, em Riba De Ave num filme-concerto. Lá musicou com Bruno Pernadas o filme "It´s All True". Gosto muito desta artista e a sua voz em “Kuchisabishii” resultou bem numa altura em que o concerto precisava de um tema mais mexido. "Foi Aparecida" também com Campelo resultou num momento incrível de dueto.
Margarida Campelo como convidada especial | mais fotos clicar aqui
A grandiloquência do mestre dos Pés de Roque-Enrole foi também bem estridente no “Palco Punk”, o segundo cenário diferenciado da noite. Amigos de longa data, os elementos d’ As Velhas Glórias juntaram-se a Samuel nesse palco para destilarem frenético rock n' roll. “Era de Ouro” e “Grandiloquência Do Roque-Enrole” foram o momento sonoramente mais divergente da atuação, fundamental pois marcou de forma essencial uma fase vital do percurso musical de Úria.
Enquanto Samuel Úria abandonava o palanque rumo ao público o pano de boca desceu. No meio da plateia teve a companhia do coro em três temas. Em “Quem Me Acende a Voz”, com a ajuda do coro, tivemos uma ocasião vibrante.
Mudança para o centro da plateia | mais fotos clicar aqui
Já a conjuntura mais arrepiante teve lugar na sequência em que Manuela Azevedo colaborou. Com a sua entrada, a artista de Vila do Conde foi merecedora de uma ovação bem entusiástica e merecida.
Sequência com três temas: primeiro uma versão de "Canção de Água Doce" dos Clã, a duas vozes pois claro, Úria tocou ukelele. Depois surgiu “Carga de Ombro”, com a ajuda de Azevedo, num dos ensejos mais espetaculares da noite. Com coros e palmas por parte do público de forma bem afinada. Bem bonito realmente.
O que também foi extremamente simpático foi a afirmação de Manuela: "A casa dos Clã é tua". Surgiu na sequência das afirmações de Úria pela sua colaboração com diversos músicos daquela mítica banda.
Manuela Azevedo com uma voz pujante | mais fotos clicar aqui
No regresso ao palco surgiu o terceiro cenário diferenciado da noite. Foi tudo baralhado e os músicos/coro surgiram todos em posições diferentes aquelas do início do concerto. O que também mudou foi o letreiro que estava suspenso, passou de 2000 A.D. (estava colocado num dos patamares em palco) para Samuel Úria.
Em "Fusão", ainda com intervenção vocal de Manuela Azevedo, o público ficou elétrico e muitas pessoas ficaram de pé. Provavelmente algumas mais recatadas não se levantaram para não perturbarem as filas de trás, é o que dá ser plateia sentada…
O público que marcou presença revelou-se bastante heterogéneo (dos 8 aos 80) sendo bem maduro na sua maioria, forte presença de pessoas nas faixas etárias dos trintas, quarentas e cinquentas.
Azevedo e Úria durante "Fusão" | mais fotos clicar aqui
"A contenção" não faltou e em "Fica Aquém" o artista de Tondela testou os limites da sua voz. Dois momentos bastante apreciados pelo público.
Pelo meio ficaram as participações de Milhanas e Gisela João com as suas vozes “açucaradas”. Fica como destaque a interpretação de "Lenço Enxuto", num dos momentos áureos da noite em que a intérprete de Barcelos deu um apoio vocal bem firme.
No fecho desta noite extremamente bem passada tivemos um encore com quatro temas. Miguel Ferreira no teclado acompanhou Úria em “Graça Comum”. No encadeamento mais um belo momento de cumplicidade entre Tiago Guillul com o seu amigo de longa data Samuel. Ambos interpretaram “Beijas Como uma Freira”, faixa pertencente a Guillul feita em colaboração com “Os Lacraus”.
Gisela e Samuel em compenetração total | mais fotos clicar aqui
Antes de "Um Adeus Português", outro dos momentos mais significativos da noite, teve lugar durante “É preciso que eu diminua” em que praticamente toda a gente curtiu de pé bailando ao som deste incrível tema.
A discografia de Samuel Úria contém alguns dos melhores temas do universo musical lusitano dos últimos 20 anos. Um universo em que os blues, o punk, o rock e o gospel são estilos diferentes que convergem no imaginário do “mestre de nadinha” oriundo de Tondela.
O indelével traço musical de Samuel Úria e a sua relevância no contexto da música nacional ficaram, mais uma vez, devidamente fundamentadas nesta sua estreia no Coliseu Porto Ageas.
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As Velhas Glórias e Samuel Úria no "Palco Punk" | mais fotos clicar aqui
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Bruno Ferreira @ bjsf_photography (Instagram)
Gogol Bordello no Hard Club: alto festão literalmente “Pala Tute” (isto é mesmo para todos) | Reportagem completa
Eugene Hütz, o líder dos Gogol Bordello | mais fotos clicar aqui
Conhecidos como banda de “punk cigano” os Gogol Bordello regressaram a Portugal no passado fim-de-semana. Marcamos presença na performance na Cidade Invicta ocorrida em domingo de eleições (passado dia 12) no Hard Club. Ambos os concertos esgotaram, foi mesmo atuação a norte que teve o selo “sold out” alcançado rapidamente, a de Lisboa também esgotou só que muito depois.
Para esta atuação portuense, tal com a do dia prévio no Lisboa Ao Vivo, chegaram a estar escalados os Bob Vylan para as primeiras partes. A polémica à volta desta dupla britânica em julho passado devido a comentários menos favoráveis a Israel em pleno festival de Glastonbury levou à decisão do cancelamento da presença nos palcos nacionais em conjunto com os Gogol Bordello. A dupla de punk-rap acabou por fazer a sua estreia no passado dia 8 deste mês em Portugal num concerto no Lisboa Ao Vivo.
Na primeira parte os Split Dogs | mais fotos clicar aqui
Parece não havido chatices ou ressentimentos entre as bandas. Aliás a música dos Bob Vylan passou na instalação sonora nos momentos prévios à entrada dos Gogol Bordello e os Split Dogs, a banda que ficou encarregue da primeira parte do concerto, dedicou mesmo um dos temas aos seus conterrâneos britânicos. Ambas as bandas até partilham a mesma editora.
A banda de Bristol ainda não tinha entrado em palco e a Sala 1 do complexo Hard Club já encontrava-se extremamente bem preenchida. “Porto!!! Are you ready to rock??” ouviu-se várias vezes nos instantes prévios à entrada do quarteto e logo aí percebeu-se que o público iria estar “ligado” ao concerto.
A vocalista Harry Martinez fez lembrar Amy Taylor (Amyl and the Sniffers), destemida e corajosa, tanto pela indumentária utilizada como pela energia eletrizante que despendeu durante a sua performance.
A vocalista dos Split Dogs | mais fotos clicar aqui
Além da intrépida Harry há também Mil Martinez, o ousado guitarrista que bebeu uísque diretamente da garrafa durante a atuação, também fez uso dos seus recursos vocais bem como as despesas de comunicação com a audiência. Susie Boyle é a baixista e Chris Huggall o baterista.
‘Split Dogs’ de 2023 e o mais recente ‘Here To Destroy’, este já editado no decurso deste ano, foram devidamente apresentados. Um misto de temas de ambos os álbuns foi a escolha lógica. Foram cerca de 35 minutos extremamente intensos. Entrada com “Stay Tuned”, algo que o público cumpriu à risca. Pelo meio também tocaram “Prison Bitch”, “Monster Truck” ou “And What”, por exemplo. O ´último “soco” sonoro foi mesmo com “Punch Drunk”.
Split Dogs são um quarteto de punk rock ‘n roll e nesta atuação portuense deram muito boa conta de si. Realizaram uma performance musculada, de agrado do público tendo em conta as manifestações com bastante vitalidade.
Harry e Mil dos Split Dogs | mais fotos clicar aqui
A presença anterior dos Gogol Bordello em Portugal remontava a 2019 numa aparição no festival de Vilar de Mouros. Em 2018 apresentaram-se no North Music Festival ocorrido na Alfândega do Porto. São “velhos conhecidos” do público lusitano, sobretudo do nortenho.
Eugene Hütz, vocalista principal, é afamado por ter uma atitude bem intrépida e destemida em palco. Músico de origem ucraniana também tocou guitarra. Erica Mancini ocupou-se do acordeão/teclados e faz também uso da sua voz. Pedro Erazo, de origem equatoriana, além do charango, da marimba e a percussão também cantou, ele que foi uma força viva e puxou sempre pelo público. Leo Mintek é o guitarrista e também participou vocalmente. Gill Alexandre é o baixista. Sergey Ryabtsev é o violinista. Korey Kingston é o baterista e também percussionista. Esta é a formação atual deste projeto, ao longo dos anos os elementos têm mudado. Sergey e Erazo têm sido os fiéis escudeiros de Eugene nesta empreitada há mais tempo.
Entraram em palco às 22:18h, a pausa foi bem longa após desde o final da performance dos Split Dogs. Vale que a espera foi facilmente suportada por entre conversas cruzadas, boa disposição e uma playlist que incluiu música dos Puzzled Panther e dos Bob Vylan.
Pedro e Erica dos Gogol Bordello | mais fotos clicar aqui
Todos eles, sem exceção, demonstraram no Hard Club do Porto nesta passada noite de domingo a sua energia irrefreável e o irresistível cruzamento musical entre música cigana do leste europeu com influências folclóricas eslavas e punk rock.
Longos meses passaram desde que vi Linda Martini neste mesmo sítio, concerto esse ocorrido em fevereiro deste ano. Os torniquetes no WCs já funcionam e as pulseiras do sistema cashless são uma realidade incontornável. Algo que também se mantém é o aspeto climatérico a sala, com sala lotada o calor continua a ser intenso, quase ao nível de ser um adversário…
Já me mentalizei, dadas as novas circunstâncias deste espaço cultural, que não virei cá com muita regularidade. Os mais atentos certamente entenderão o que este fã de concertos rock, indie e alternativo está a referir-se.
Sergey dos Gogol Bordello | mais fotos clicar aqui
Regressando aos Gogol Bordello… Este é um projeto musical baseado em Nova Iorque desde 1999 o qual tem contado ao longo dos anos na sua formação artistas de várias nacionalidades com “backgrounds” bem diversos sendo que isso vem sendo espelhado na discografia da banda. A multiculturalidade tem surgido de forma natural.
Hütz, numa entrevista à NiT, afirmou que aquilo que mais gosta em Portugal é a vibe e que é um país muito cool. Realmente o líder deste projeto tem toda a razão: com fãs a utilizarem o merch bem bonito dos Gogol Bordello a “coolness” consegue ser superior. Nota de rodapé: o vestuário que estava à venda realmente era bem giro em que o amarelo era cor de destaque.
Público desde logo em êxtase com a entrada da banda. A energia que todos os elementos dispensaram foi de uma brutalmente incomensurável. À quarta canção, no caso "Immigrant Punk", já os corpos estavam mergulhados em suor e os copos voavam. A animação essa seguia à velocidade de cruzeiro.
Público desfrutando ao máximo da ocasião | mais fotos clicar aqui
Durante "My Companjera" a proximidade foi tanta que vi Eugene a cantar mesmo face a face com a primeira fila sem que ele tenha colocado um pé fora de palco. Tirando o baterista, todos os elementos mantiveram essa proximidade com o público constantemente, quase como forma de não deixar ninguém desarmar da fiesta.
Victoria Espinoza e Kay Bontempo dos Puzzled Panther participaram como convidadas especiais no concerto nos temas “Fire on Ice Floe” e “From Boyarka to Boyaca”. Elas deram o seu contributo de forma bem entusiasmada.
Um enorme mosh pit durante "I don't have time for idiots”, incitado por Eugene, foi vivido festivamente ao estilo “bonfire” à lá Bordello. Sem a fogueira pois claro. A quantidade de caras sorridentes, fãs a cantarolarem as letras em plena avidez de pulmões e a desfrutarem fez-me entender o porquê de ter arriscado a conhecer esta fiesta Gypsy Punk dos Gogol Bordello. Não é meramente um concerto, é toda uma performance simbiótica celebrativa da vida e da comunhão entre as pessoas.
Gogol Bordello sempre pertíssimo da frontline | mais fotos clicar aqui
No encore Hütz teve o seu momento privado a solo durante a interpretação de “Alcohol”. Sentado em cima de duas caixas encarou o público de frontalmente. Os outros elementos tiveram também os seus instantes de foco único, algo que resultou esplendorosamente e que dá o devido crédito a cada um deles.
“Wataka Wataka” e “Undestructable” foram os outros dois temas também interpretados no encore, já com banda completa. Quase duas horas depois tivemos um encerramento bonito e é bem como Eugene afirmou “são muitas músicas para tão pouco tempo”. Ficou aquela sensação de que poderíamos estar ali com a banda noite adentro sem nunca esmorecer o ânimo. Gogol Bordello é isto mesmo, desfrutar da vida, da música e das pessoas sem pensar em mais nada.
Parafraseando Eugene Hütz: Valeu! Valeu! Valeu!
Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui
Gogol Bordello com casa lotada no Hard Club | mais fotos clicar aqui
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Ana Lourenço @ blackphant.stage (Instagram)