Clã encerram em beleza comemoração dos 10 anos de Banhos Velhos | Reportagem
A agenda de 4 meses comemorativa dos 10 anos dos Banhos Velhos teve uma programação de excelência na sua vertente musical. Passaram pelas Caldas das Taipas artistas como Manel Cruz, JP Simões, Noiserv e David Bruno além de bandas como os Sensible Soccers e Clã.
Além de música a programação também incluiu cinema, tertúlias, visitas guiadas aos banhos velhos e oficinas de escrita criativa. A programação foi organizada, como habitualmente, pela Cooperativa Taipas Turitermas com o apoio do Município de Guimarães. A história dos Banhos Velhos pode ser vista num documentário disponível aqui.
A equipa do headLiner marcou presença nos concertos de Manel Cruz (ver reportagem aqui), de David Bruno (ver reportagem aqui), de Noiserv, Sensible Soccers e dos Clã (A resenha deste último da banda de Manuela Azevedo poderá ser lida um pouco mais abaixo).
O público, seguindo as regras de segurança // Foto de Ricardo Martins @ Grua
Fui testemunha de concertos que percorreram as variadas fases do desconfinamento e por isso tiveram de seguir determinadas exigências emanadas pela DGS. A organização fez a sua parte cumprindo com as regras vigentes a cada momento. Todos os concertos decorreram muito bem e em perfeita segurança. Aproveito aqui, em nome do headLiner, para felicitar os 10 anos dos Banhos Velhos e por terem levado a cabo uma edição tão ambiciosa em tempos incertos. Tudo correu bem pelo que foi uma bela vitória.
O fim da programação aconteceu no passado sábado, dia 18 de setembro, com o concerto dos Clã. A banda nortenha oriunda de Vila do Conde e Porto tem já quase 30 anos de existência, tal marco será atingido no próximo ano. São responsáveis por alguns dos maiores êxitos das últimas décadas da música nacional.
Antes do início do concerto no Polidesportivo das Taipas, aconteceu mesmo ali ao lado no parque de lazer, uma festa comício cujo início ocorreu por volta das 19h e terminou perto das 22h com uma adesão de algumas centenas de pessoas. Causou alguns incómodos, especialmente ao público fora das Taipas desconhecedor desse evento, provocando dificuldade em estacionar e dificultando a chegada atempada ao Polidesportivo.
Panorâmica do Polidesportivo das Taipas // Foto de Ricardo Martins @ Grua
Passada a confusão com pessoas em sentidos contrários, umas a saírem do evento político e outras rumo ao concerto, lá ficaram reunidas as condições para a entrada do sexteto com Manuela Azevedo (voz), Hélder Gonçalves (baixo e voz), Miguel Ferreira (teclados e voz), Pedro Biscaia (teclados), Pedro Santos (guitarra) e Pedro Oliveira (percussão). 20 minutos depois das 22 horas os Clã entraram em palco para uma viagem vertiginosa na Montanha Russa da discografia da banda.
“Sinais” e “Tudo No Amor”, canções frescas do álbum ‘Véspera’ de 2020, foram os primeiros temas tocados. Deste recente trabalho discográfico foram apresentados 7 dos 10 temas que o compõem.
Manuela Azevedo em diversas ocasiões fez questão de ressalvar as parcerias com autores das letras dos temas que iam tocar: Samuel Úria ("Canção de Água Doce"), Aurora Robalinho ("Na Sombra"), Capicua ("Armário"), Sérgio Godinho ("Tudo No Amor”) ou Carlos Tê (”Pensamentos Mágicos”), este último o primeiro colaborador da banda sendo já uma parceria de longa data. Todos mereceram uma efusiva salva de palmas por parte do público.
A vocalista Manuela Azevedo esteve multo comunicativa explicando coisas relativas às canções e revelou-se feliz por estar presente neste concerto. A sua voz contínua incrível e a sua energia intacta. Um gosto enorme em vê-la em cima de um palco com tanta vitalidade, aliás, algo que se aplica a todos os elementos em palco mesmo aos membros mais recentes.
A formação completa dos Clã // Foto de Ricardo Martins @ Grua
Apesar de todos estarem sentados, as pessoas demonstraram-se efusivas e participativas, colaborando para um ambiente mais normal de concerto. Estiveram cerca de 300 pessoas, o máximo que um evento dos Banhos Velhos registou este ano.
Antes de tocarem “Jogos Florais”, Manuela explicou que as interpretações desta noite eram numa “Forma mais crua, mais intimista… Mais caseirinha”. Realmente o concerto foi tocado numa espécie de semi eléctrico. Em junho passado vi os Clã na Casa das Artes de Famalicão e aí o concerto teve um apontamento mais rockeiro, digamos assim. Portanto vi duas versões do espetáculo e ambas as experiências foram óptimas.
Manuela e Hélder, dueto em Sopro do Coração” // Foto de Ricardo Martins @ Grua
A montanha russa levou-nos a recordar temas épicos como “Carrossel Dos Esquisitos”, “H2Omem”, “G.T.I.”, “Sexto Andar” e “Dançar na Corda Bamba”. Um dos momentos mais bonitos foi a interpretação de “Sopro do Coração” só com Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves em palco, um dos temas incontornáveis da banda.
Depois de mais um momento bem efusivo do público com uma merecida ovação à banda os 6 músicos regressaram para o encore tendo tocado duas canções separadas por 20 anos: “Lado Esquerdo”, a canção favorita de Manuela Azevedo do álbum ‘Lustro’ de 2000 e “Pensamentos Mágicos” do álbum ‘Véspera’ de 2020. Um final de concerto apoteótico e em beleza no comemorar de uma das mais incríveis bandas portuguesas. Foi igualmente um encerrar dos 10 anos da programação de Banhos Velhos e ficamos a aguardar com expetativa pela continuação do excelente trabalho realizado até ao momento.
Texto: Edgar Silva
Fotografia: Ricardo Martins @ Grua (a quem agradecemos a disponibilização das fotos)
Pluto no Hard Club? Não fico sozinho em casa, não! | Reportagem Completa
Manel Cruz, uma instituição do rock português | mais fotos clicar aqui
Efetivamente até novembro de 2025 abordamos os Pluto em reportagens por duas vezes: na atuação deles no Rock no Rio Febras em julho e no concerto que deram no Lustre em Braga em outubro. Pessoalmente somente estive no Rock no Rio Febras. “Não há duas sem três” e o headLiner lá se governou por este bem conhecido ditado popular.
Como uma performance numa sala fechada com todas as condições para um som condizente à sublime qualidade da banda optei por seguir até ao Hard Club nesta passada sexta-feira dia 12 de dezembro.
Nessa noite os Pluto deram mais um concerto integrado na celebração dos 20 anos de ‘Bom Dia’, esse seu mítico e único álbum até ao momento. Um disco incontornável da história do rock português, na opinião de muita gente, sou um dos que comunga dessa ideia. Tudo indica que a banda portuense regressará às edições discográficas em 2026.
20 anos de 'Bom Dia' na sala principal do Hard Club | mais fotos clicar aqui
Numa jornada em que a Sala 2 recebeu também concerto, nomeadamente dos espanhóis Carolina Durante, mais ou menos à mesma hora, a movimentação era notória numa noite em que as pessoas chegavam aos eventos mais tarde devido a termos tido uma sexta-feira algo invernosa.
Aprazado para as 21:30h, a atuação dos Pluto só teve o seu início às 21:52h. Por acaso até fui um dos primeiros a entrar na Sala 1 do complexo situado no Mercado Ferreira Borges pouco depois das 21h. A espera foi serena por entre conversas amistosas. A principal sala do Hard Club não registou lotação esgotada contudo esteve bem preenchida por fãs devotos com predominância em idades entre os quarenta e cinquenta anos. Houve também fãs mais jovens, pois claro.
Manel Cruz (voz e guitarra), Peixe (guitarra), Eduardo Silva (baixo) e Ruca (bateria) são quatro magníficos. Diga-se, em abono da verdade, são devotos ao seu ‘Bom Dia’ e recusam-se a prestar uma performance de baixa qualidade. Já os vi diversas vezes e é com convicção que o afirmo.
Pluto na sala principal do Hard Club | mais fotos clicar aqui
Tal como já vi em ocasiões anteriores, os Pluto ficaram alinhados na horizontal em palco: Peixe à esquerda e Ruca à direita, isto quem vê a banda da plateia. No meio ficam Manel do lado do guitarrista e Eduardo do lado do baterista.
As músicas novas “Coisas Delas” e “Sonhos Nunca Pedem Licença” foram interpretadas e é fantástico vê-los a tocarem temas novos, dois ainda nem sequer editados. Eles regressaram em 2023, 20 anos depois com “Túnel”, single marcou mesmo o retorno oficial, digamos assim. Esta foi a canção de abertura do concerto.
"Bem-vindo a ti", a quarta do alinhamento, marcou o momento de subida de ânimos com uma performance altamente rockeira.
Já em "A vida Dos Outros" o público vibrou intensamente e no final desta aconteceu o momento da praxe: Cruz tirou a sua t-shirt no final da interpretação.
Momento de comunhão dos 4 magníficos | mais fotos clicar aqui
Manel esteve altamente divertido e até arrancou gargalhadas ao pessoal com as suas explicações de que os temas eram “sobre estar sozinho em casa carente", algo que repetiu durante a noite. Fica a dúvida no ar, será que o rapaz da audiência que acertou em cheio no significado do queria dizer o mítico vocalista recebeu o seu prémio? (risos).
Os quatro em cima do palco estavam a desfrutar, como é-lhes reconhecido, e os sorrisos deles são como o algodão, não enganam. A boa disposição era também reinante, até mesmo qual Cruz incita o público “e salta peixe allez allez". O público entrou na onda e o guitarrista acedeu à brincadeira.
Em "Quadrado" o vocalista Manel cantou cara a cara com os fãs da primeira fila, algo que retomou em seguida durante "Lição de Adição". Um dos momentos áureos da noite aconteceu com a performance de "Só Mais Um Começo", a vitalidade da banda era quase palpável. A atuação seguia sólida com todos os fãs a deleitarem-se com o concerto.
Fãs em êxtase | mais fotos clicar aqui
"Sonhos nunca pedem licença", uma das tais inéditas ainda não editadas, proporcionou um momento diferenciado: num ritmo mais suave, mesmo em jeito de balada.
Foi preciso chegar ao tema “Prisão”, a última antes do encore, para vermos Peixe sem chapéu. Saíram do cenário e reentraram um minuto depois. Terminaram a noite com “Algo Teu” e “Certas Coisas”. Mais uma noite bastante satisfatória proporcionada pelo coletivo portuense cuja atuação teve o seu término às 23:15h.
Manel Cruz fez questão de referir que"enquanto vocês vieram, nós vamos também". Acredito eu que os fãs de Pluto, igualmente de Manel Cruz enquanto instituição do rock português, dificilmente se vão cansar de os ver ao vivo. Algo que se estende também naturalmente a outra banda de Manel, os Ornatos Violeta. Ao que parece também este seu projeto terá novo álbum em breve, provavelmente também no decurso de 2026.
Peixe sempre em grande estilo | mais fotos clicar aqui
Fico a aguardar por esses novos registos discográficos e respetivos concertos de apresentação. Com toda a certeza os concertos serão ocasiões a marcar presença e os novos temas serão de audição indispensável.
Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Vítor Neves @ vitor_m_neves (Instagram)
Kate e Ed: estes “Cool Kids” mimaram fãs portuenses com uma noite intimista e sentimental | Reportagem Completa
Catarina Salinas a incrível voz dos Best Youth | mais fotos clicar aqui
27 de março de 2015 é a data oficial da edição discográfica de ‘Highway Moon’ pelos Best Youth. A dupla portuense regressou aos palcos neste final do ano para a comemoração dos 10 anos desse lançamento e pensou em diversas vertentes. Uma delas trata-se do novo feitio físico deste álbum, agora surge em vinil pela primeira vez. Esta reedição esteve à venda no concerto portuense e teve bastante saída, vários fãs levaram embora uma recordação extra com dedicatórias bonitas e personalizadas.
Catarina Salinas e Ed Rocha Gonçalves prepararam também concertos especiais para as duas metrópoles lusitanas. Estive no primeiro deles na sala do CCOP - Círculo Católico dos Operários do Porto localizado na Rua do Duque de Loulé, bem pertinho da Batalha. Este concerto aconteceu na última quinta-feira dia 4 de dezembro. O anúncio de sala esgotada surgiu a pouco mais de 30 minutos da hora aprazada para o início do concerto mesmo quando dei entrada para o hall do CCOP. Sem dúvida algo merecido para o duo em noite de celebração caseira.
Catarina e Ed, o duo Best Youth | mais fotos clicar aqui
A publicação de ‘Highway Moon’, na altura da sua estreia, mereceu um feedback extremamente positivo, inclusive além-fronteiras. Agora, com toda a propriedade, resolveram tocá-lo na íntegra dando aos temas uma roupagem fresca, fazendo jus aos originais o que permite que se mantenham essenciais e intemporais. Tal como referiu Ed durante o concerto fizeram uma adaptação à forma como tocam hoje em dia.
A dream pop dos Best Youth advém de uma confluência de indie com sonoridades eletrónicas com um sui generis toque retro aonde a voz de Catarina mantém-se sempre resplandecente sendo sensual, irresistível e impecável. Já Ed é o maestro: compõe e produz imaginando a voz de Kate. Em palco ele toca guitarra e trata dos sintetizadores. Catarina mais do lado esquerdo, às vezes serpenteava o palco. Já Ed quando tocava guitarra ficava ao lado da sua parceira, mudava de posto quando fazia as necessárias incursões para trás até local aonde estavam os sintetizadores.
Gonçalves extremamente bem aprumado com um fato negro, por dentro uma camisa branca e com uns sapatos esmerados. Já Salinas com um vestido num tom branco sujo e uma gargantilha a dar-lhe aquele toque essencial de realce.
Catarina na voz Ed nos sintetizadores | mais fotos clicar aqui
Primeiros temas interpretados de forma suave, num debute bem consistente e plenamente intimista: as primeiras três foram “Sunbird”, “Fanatic” e “Melt”. As primeiras palmas mais efusivas surgiram ao quarto tema “Black Eyes”.
Noite lotada em que houve crianças com os seus pais, pelo menos uma delas bem na frente. Já o restante público era bem heterogéneo demonstrando que a música dos Best Youth é ouvida e apreciada por diferentes faixas etárias. Fãs que fizeram questão de mostrar o carinho pela banda durante a performance.
Uma noite em que tiveram muitos amigos e “muitas caras conhecidas” na plateia, por exemplo, João Salcedo e Nena d’ Os Azeitonas ou Jorge Romão dos GNR. Estas são três caras conhecidas do público geral contudo a noite foi familiar pois eles também contaram com amigos anónimos. Realmente foi mesmo isso, uma noite intimista, sentimental e familiar. Uma noite saborosa.
Ed na guitarra e voz | mais fotos clicar aqui
Um dos momentos mais intimistas entre o duo e deles com o público aconteceu em "Infinite Stare". Já em “Red Diamond” a decoração luminosa esteve a preceito. Abanamos a anca em “Renaissance” com Catarina e a primeira parte do concerto terminou com a fantástica “Mirrorball”. Estava assim fechada a comemoração de 10 anos de ‘Highway Moon’ com agradecimento especial às pessoas responsáveis pelo disco, muitas das quais presentes.
"Está a ficar calor" dizia Kate. Estava um calorzinho bom na sala como complemento delicioso à vibe que sentíamos emanada do palco e pelo feeling caloroso que os temas nos faziam sentir.
Salinas fez questão de referir que nunca tinham tocado ao vivo a maioria das canções de‘Highway Moon’, o que acrescentou uma camada extra de novidade a esta apresentação.
Durante alguns momentos eles saíram e voltaram com a questão "Vamos continuar a dançar?". Foi mesmo uma pergunta retórica, todos queríamos mais. Foi então altura para a secção “Best Of” numa fase em que estávamos em fase “Out of Time”. Podíamos estar ali até altas horas da madrugada a desfrutar da discografia dos Best Youth. Outro dos temas destacados nesta fase, "Midnight Rain", claramente.
A postura sensual de Catarina | mais fotos clicar aqui
A curveball da noite surgiu antes do momento da "fantochada de sair". A pedido de uma pessoa do público, Catarina acedeu a tocarem um pouco de “Last Page”. Apesar de Ed ter ficado um pouco surpreendido, saiu-se de forma positiva na sua guitarra elétrica.
Para o encore foram interpretadas as inevitáveis “Cool Kids” e “Nightfalls” num fecho perfeito de noite.
Salinas e Gonçalves com a sua postura em palco deixam transpor e “transpirar” na interpretação dos temas uma onda sensual, são uma espécie de inevitável pitada de sal. O sorriso bem largo de satisfação de Catarina e a coolness de Ed ao fazer com que tudo corra pelo melhor faz ter um respeito ainda maior por eles.
Oxalá que a dream pop destes dois “Cool Kids” continue em modo de reinvenção sempre com o alto astral que nos têm proporcionado durante a sua carreira.
Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui
A intimidade e à vontade de Ed e Catarina em palco | mais fotos clicar aqui
Texto:
Edgar Silva
Noiserv e a sua “onda da Nazaré” musical no Teatro Aveirense | Reportagem Completa
Concentração total de Noiserv | Foto: Joana Magalhães @ grafonola_ig
Aproveitei este último sábado, dia 29 de novembro, para uma rara viagem num intercidades, sou utilizador mais regular de comboios urbanos na região norte. Rumei até Aveiro para uma visita familiar e uma estreia no Teatro Aveirense. O mote foi assistir ao concerto de David Santos com o seu projeto musical Noiserv.
A visita a Aveiro aconteceu três dias depois da atuação no Centro Cultural de Belém em Lisboa e uns dias antes da atuação na Casa da Música no Porto, terá lugar precisamente a 6 de dezembro.
Já sigo a carreira de Noiserv há mais de 15 anos, a primeira vez que o vi ao vivo foi em 2010 em Santo Tirso num festival giríssimo que lá se fazia apelidado de St Culterra. Acontecia no Parque da Rabada, agora conhecido como Parque Urbano Sara Moreira. Infelizmente o festival cessou em 2023, salvo erro, porém teve umas quantas edições bem catitas em que recebeu nomes internacionais como Shout Out Louds ou The Chameleons e nacionais como Mão Morta ou o já referido Noiserv.
David Santos em palco com o seu projeto Noiserv | Foto: Joana Magalhães @ grafonola_ig
Desde então, esse já longínquo ano de 2010, continuei a acompanhar as suas edições discográficas e vendo alguns dos seus concertos. Também já o vi no Vodafone Paredes de Coura, em Guimarães, nas Caldas das Taipas, em Famalicão, em Cabeceiras de Basto e agora somei Aveiro em 2025
David Santos durante o concerto deste sábado referiu que ‘7305’, título deste seu mais recente registo discográfico editado no passado dia 17 de outubro de 2025, refere-se a soma dos dias de 20 anos que leva de carreira. Efetivamente já o sigo praticamente desde o seu início, o tempo efetivamente voa.
A capacidade total do Teatro Aveirense, cerca de 600 lugares sentados, não esteve lotada. Com a plateia esgotada, e o balcão bem composto, local aonde fiquei. Público heterogéneo, conhecedor do percurso do músico, deu para perceber bem isso e que assistiu com imensa atenção aplaudindo efusivamente cada tema.
Projeções vídeo foram uma das novidades| Foto: Joana Magalhães @ grafonola_ig
A sala é simpática, bem confortável e com uma instalação sonora que proporcionou um som de bastante qualidade. Só achei a sua estética interior um bocadinho aborrecida, já o exterior do edifico é impactante. Trata-se, sem dúvida, de um excelente equipamento numa cidade que tem apostado bem em termos culturais.
Como de habitual Noiserv esteve a solo revelando a capacidade de “homem-orquestra”, demonstrando a mestria no manejar dos vários instrumentos que tem ao seu dispor como, por exemplo, os teclados e a guitarra clássica. Vital é também a sua loop station, indispensável para criar as suas diversas camadas sonoras através dos seus loops.
Intenso jogo de luzes | Foto: Joana Magalhães @ grafonola_ig
Como óbvio ‘7305’ teve horas de imenso destaque, no entanto, a setlist percorreu diversos temas marcantes da sua carreira. Foram 16 temas interpretados durante cerca de 1 hora e 30 minutos, sem direito a encore. Para 20 anos de carreira ele podia ter tocado 20 temas, parecia-me uma opção natural e temas incríveis à disposição é coisa que não lhe falta.
Logo na abertura, às 21:37h, seguiram-se dois temas novos: “20 . 27 . A long journey in a little train to Poland” e “20 . 25 . Resumidamente”. O primeiro, como o próprio músico referiu, teve inspiração numa viagem à Polónia e a uma visita aos campos de concentração. Uma deslocação que o marcou imenso.
Nova "roupagem" cénica de Noiserv | Foto: Joana Magalhães @ grafonola_ig
O artista lisboeta esteve sempre bastante comunicativo e bem-humorado, tal como é seu apanágio. Ainda não o vi ao vivo de outra forma. Tão comunicativo que às vezes se perdia um pouco nas suas ideias. Foram interlúdios extremamente preciosos e divertidos. São já a sua imagem de marca e indispensáveis.
Pela primeira vez vi um concerto de Noiserv com uma imensa evolução em termos de cenografia. A caixa de luz quadrada tem agora uma adaptação numa versão bem mais larga num formato retangular em que tem 6 leds à frente e outros 6 atrás da sua “estação de serviço”. A parte traseira é fechada por painéis transparentes tendo desse lado, na parte de fora, 5 focos de luz segmentados na horizontal.
A ideia das live cams tem continuidade, desta vez com mais câmaras. Imagens ao vivo foram aparecendo em alguns temas dando um enfoque a diversos pormenores, por exemplo, ao trabalho de pés que o artista efetua. Outra novidade é no aspeto visual com o uso de projeções vídeo dando um impacto mais completo e funcionaram complementarmente a um jogo de luzes bem colorido e fortíssimo. Tudo funcionou extremamente bem e Noiserv não ficou perdido lá no meio de tanta ocorrência.
Live cams em ação | Foto: Joana Magalhães @ grafonola_ig
David Santos percorreu praticamente toda a sua discografia. De 2010, 2013 e 2014 ouvimos, por exemplo, “Mr. Carousel”; “Don't Say Hi If You Don't Have Time for a Nice Goodbye” e “This Is Maybe the Place Where Trains Are Going to Sleep At Night”.
Já de 2016 tocou “Dezoito” e de ‘Uma Palavra Começada por N’, disco lançado em 2020, interpretou “Neutro” e “Sem Tempo”.
Além dos que já mencionei, Noiserv também tocou de ‘7305’, por exemplo, “20 . 08 . A fearless party between a kid and his own thoughts”; “20 . 20 . Um dia como tantos outros” e “20 . 16 . A casa das rodas quadradas”. Nos originais de álbum estas canções contam com as colaborações vocais de Surma, A Garota Não e Milhanas como o músico contou.
As novas faixas soaram extremamente bem e toda a montagem visual dão certo. Resultam num espetáculo com uma pitada de carácter cinematográfica bastante agradável, a sua música ajuda claramente a tal. A única coisa que pode elevar a experiência deste concerto seria ter os convidados deste disco recente, em palco. Quem sabe, num futuro próximo.
Introspeção de Noiserv a cantar | Foto: Joana Magalhães @ grafonola_ig
Agradecimento final à Joana Magalhães pela simpatia e disponibilização das fotos para esta reportagem.
O passado murmura nas ruas de Guimarães, o futuro ressoa no Mucho Flow - o contraste de dois mundos inseparáveis | Reportagem Completa
Zack Borzone, o vocalista dos YHWH Nailgun | Foto: João Octávio Peixoto
Nos grupos de amigos alargados, é raro encontrar um consenso que una todos em torno das mesmas melodias. No meu, não é exceção. Há quem se encante com o Vodafone Paredes de Coura e Primavera Sound Porto, e quem se perca nos horizontes do Waking Life ou do Draaimolen — dois universos que raramente se cruzam. Uma vez por ano, porém, dá-se o milagre: a comunhão acontece, fiel e luminosa, no bonito Mucho Flow.
A cidade medieval de Guimarães, que nesta altura do ano se cobre de folhas amarelas, vê as árvores despirem-se e o frio entranhar-se nas suas paredes de pedra, criando o cenário perfeito para o regresso a esta terra que parece vestir-se a rigor para o Halloween.
CCVF, uma das casas que recebeu o Mucho Flow | Foto: João Octávio Peixoto
E, voltando ao que realmente nos trouxe ao berço de Portugal, esse contraste musical a que o Mucho Flow já nos habituou continua a atrair públicos dos mais diversos espectros sonoros, projetando o futuro no presente — e este ano não foi exceção.
Durante três dias, o festival foi palco de descobertas, de consagrações há muito anunciadas, de estreias entusiasmantes e de inquietações criativas. Aqui, não há cabeças de cartaz — algo que o próprio grafismo do cartaz deixa claro — apenas palcos que se moldam a cada som, conduzindo-nos numa deriva pelas várias salas e ruas que unem as coordenadas da cidade.
Dia 0 - Quinta-feira, 30 de outubro
Quinta-feira. O peso da semana ainda faz-se sentir, e a noite, apressada, cai cedo sobre a cidade. No ar, o frio anuncia o princípio do inverno, e há algo de melancólico na forma como o dia se despede. Ao contrário do ano passado, a sexta-feira não guardará o tão ansiado feriado — e por isso, este “dia zero” carrega um sabor agridoce.
Por um lado, o amanhã traz consigo o regresso à rotina, como se nada tivesse acontecido, por outro, o presente pede entrega. O cartaz ergue nomes que exigem presença, atenção e corpo inteiro.
Sassy 009
Entre eles — Sassy 009, nome que ecoa como promessa e a antecipar o seu disco 'Dreamer +' a ser editado no próximo ano.
A indie pop da norueguesa Sunniva Lindgård traz camadas de DIY tornando-se um projeto bem pessoal. No palco montado em cima do grande palco do auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), estava Sunniva com o seu hoodie meio desleixado acompanhada pela sua voz e o seu baixo, enquanto na bateria estava Elias Tafjord e nos teclados/sintetizadores estava acompanhada por Markus Anskau.
A voz melancólica de Sassy 009 flutuava sobre batidas firmes e ritmadas, mas nem isso bastou para incendiar a sala — preenchida, sim, mas longe de estar cheia. Aqui e ali, alguns corpos deixavam-se embalar, cabeças moviam-se num leve transe, mas o momento nunca chegou a tocar o verdadeiro nirvana.
Sassy 009 vista pelo público | Foto: João Octávio Peixoto
Grande parte da setlist revelou-se inédita para o público, possivelmente composta por temas ainda por editar. Ainda assim, foi possível ouvir faixas como “Are You Still a Lover”, “Wannabee” ou a contagiante “Maybe on Summer”. Entre as mais aguardadas estava “Tell Me”, o recente single partilhado com Blood Orange e incluído no novo disco, mas Sassy 009 acabou por deixar o tema fora do alinhamento da noite.
Mesmo sem alcançar momentos de euforia coletiva, Sassy 009 conseguiu criar um ambiente imersivo, envolto em melancolia e eletrónica pulsante. Entre temas ainda por editar e momentos de pura delicadeza vocal, a artista norueguesa mostrou por que continua a ser uma das vozes mais singulares da cena alternativa. O público, embora contido, pareceu partilhar da mesma curiosidade — a de descobrir, ao vivo, o rumo que o novo disco irá tomar. Uma atuação breve, mas intensa, que deixou no ar a sensação de que o melhor ainda está para vir.
Vista lateral do CCVF em Sassy 009 | Foto: João Octávio Peixoto
HiTech
O Mucho Flow já nos habituou a apresentar cartazes repletos de nomes que passam despercebidos ao público menos atento mas é precisamente essa curadoria que convida à descoberta e à surpresa. Um desses casos — e um dos nomes que mais aguardávamos nesta edição — foi o trio HiTech. O horário de atuação, quinta-feira à 1h da manhã, acabou por não beneficiar a experiência, admito, mas ainda assim resultou numa das performances mais enérgicas e envolventes do grupo de DJs, produtores e rappers.
O trio — King Milo, Milf Melly e 47Chops — entrou em palco com uma energia contagiante, prontos para fazer dançar até quem, poucas horas depois, teria de enfrentar o despertador das nove da manhã. Os ritmos frenéticos e as batidas cruas, mas irresistivelmente dançáveis, do ghettotech — esse som eletrónico nascido nos subúrbios de Detroit no início dos anos 2000 — incendiaram a sala e puseram em movimento as poucas centenas que resistiram ao avançar da madrugada.
Editado a 23 de Maio deste ano, 'HONEYPAQQ Vol.1' foi o mote para o regresso a Portugal depois de uma passagem no OUT.FEST em 2023.
King Milo dos HiTech | Foto: João Octávio Peixoto
Com malhas como “SPANK!” e “TAKE YO PANTIES OFF” — esta última adornada pela voz etérea de Georgie Riley —, o trio transformou a sala numa celebração pura, onde ninguém conteve o sorriso. A energia era tão contagiante que, a certa altura, um dos membros desceu até à frente do público, partilhando, entre gargalhadas e cumplicidade, a sua garrafa com o líquido dos deuses. Já levados por esse impulso, houve espaço para twerks, movimentos atrevidos e improvisos de dança que se espalhavam pelo espaço, transportando-nos para as intensas e vibrantes festas underground de Detroit, sentindo cada batida pulsar tanto no chão da sala do CCVF como no peito.
Por entre este festão, ainda ecoou “Paper Planes” de M.I.A., e, num instante, até os poucos céticos da sala se deixaram levar, entregando-se por completo à energia contagiante dos HiTech. Queríamos mais: mais calor, mais suor, mais corpos a vibrar juntos, e um horário diferente que nos permitisse sentir cada BPM pulsar nas veias e dançar lado a lado com eles até que a madrugada desaparecesse.
HiTech num ângulo do meio da plateia | Foto: João Octávio Peixoto
Quando a noite finalmente se despediu do CCVF, ficou no ar a sensação de que o primeiro dia do Mucho Flow tinha cumprido o seu papel: surpreender, desafiar e deixar-nos com vontade de mais. Entre a introspeção melancólica de Sassy 009 ao caos luminoso dos HiTech, o festival voltou a provar que o risco é a sua maior força.
Dia 1 - Sexta-feira, 31 de outubro
Ainda nos encontrávamos na ressaca da noite zero do Mucho Flow, e o dia de trabalho parecia arrastar-se num compasso lento. Aqui e ali houve tempo para recuperar forças — forças essas que já estavam reservadas para o segundo dia do festival.
Chegámos à garagem do Teatro Jordão quando Lauren Duffus já se encontrava em palco, e uma das primeiras coisas que se fez notar foi a clara melhoria da acústica da sala, agora totalmente coberta por longas cortinas pretas que lhe davam um ar mais íntimo e envolvente.
TRACEY
Quase se pode falar em duas partes bem distintas na performance de TRACEY. Para quem aterra pela primeira vez na página de Spotify do duo londrino, é fácil criar expectativas de uma sessão clubbing pronta para fazer suar e perder o público no jogo de luzes. Mas não foi bem assim. A primeira metade do concerto revelou-se surpreendentemente contida — uma introdução sóbria e melancólica, com temas como “Take Care” e “When I Choose To Be Here With You”, canções quase confessionais que pareciam sussurrar mais do que gritar.
TRACEY numa visão do meio da plateia | Foto: João Octávio Peixoto
A temperatura da sala mantinha-se fria, e os espaços vazios entre corpos ainda se faziam sentir na pele. O público parecia observar mais do que viver. Mas para os mais desatentos, a segunda parte de TRACEY foi uma reviravolta total. O duo trocou o minimalismo pela energia bruta, virando o disco — literalmente — e trazendo à superfície a pulsação clubbing que muitos esperavam.
Foi aí que “Sex Life”, o tema que incendiou pistas de dança durante o verão, assumiu o protagonismo passando também por "Sleazy". Com ecos de um dubstep renascido e batidas atrevidas, o subsolo do Teatro Jordão transformou-se num verdadeiro clube noturno — luzes a pulsar, corpos finalmente em movimento, e uma sensação coletiva de libertação.
Quando o último som se dissipou na penumbra da garagem, ficou um silêncio curioso . TRACEY tinham deixado o público entre o fascínio e a confusão, como quem sai de uma viagem que muda de rota a meio, mas acaba por chegar a um destino inesperadamente certo. O duo despediu-se sem grandes gestos, mas com a certeza de ter deixado marca: entre o intimismo frágil do início e a libertação clubbing do final, construíram um arco que mais do que um concerto, foi uma metamorfose.
TRACEY | Foto: João Octávio Peixoto
Infinity Knives + Brian Ennals
Quem esteve na edição do ano passado lembra-se bem dos Two Angry Blackmen — não só um dos concertos mais intensos do Mucho Flow, mas também um dos grandes momentos de 2024. Este ano, o produtor Infinity Knives e o rapper Brian Ennals fizeram-me reviver, ainda que de forma diferente, essa mesma energia crua e incendiária. Na bagagem traziam 'A City Drowned in God’s Black Tears', o disco lançado este ano.
A atuação começou de forma densa, quase cinematográfica — batidas graves que pareciam subir do chão, samples que se misturavam com ruído, e a voz de Brian Ennals a cortar o ar como uma lâmina. A cadência das rimas era crua, urgente, carregada de ironia e raiva, mas também de uma lucidez desconcertante. Ao fundo, Infinity Knives manipulava os controladores e o teclado com gestos precisos, alternando entre o caos e o controlo absoluto. As paredes da garagem vibravam, e o público, ainda estático nos primeiros minutos, começou a ceder à intensidade — cabeças a abanar, corpos a balançar, olhares a procurar cumplicidade.
Infinity Knives | Foto: João Octávio Peixoto
O rap de Brian Ennals era um murro ritmado, e a eletrónica de Infinity Knives dava-lhe corpo — uma arquitetura sonora que oscilava entre o sagrado e o apocalíptico. Cada faixa soava como uma declaração, um protesto, uma catarse.
Durante o concerto, foram ouvidos temas do álbum mais recente da dupla, 'A City Drowned in God’s Black Tears' — por exemplo “The Iron Wall” e “Sometimes, Papi Chulo” —, que serviram de eixo à sua performance. Neste registo, a crítica política surge com toda a força: Na letra de “The Iron Wall”, apontam-se nomes como Benjamin Netanyahu e Donald Trump («Netanyahu is the new Hitler», «Donald Trump – you a rapist and you know it») e realçam-se as questões do imperialismo, da guerra e da violência sistémica. Ao longo do set, essas referências foram intercaladas com batidas eletrónicas, momentos de catarses rítmica e instantes de introspeção. A performance não foi só musical — foi também política, provocadora e consciente.
Brian Ennals num ângulo do meio da plateia | Foto: João Octávio Peixoto
O 2º dia do Mucho Flow trouxe-nos primeiro a metamorfose clubbing e emocional de TRACEY, depois a descarga política e incandescente de Infinity Knives + Brian Ennals, que transformou a garagem do Teatro Jordão num epicentro de ritmo e manifesto. À saída, ainda com o corpo a vibrar e as luzes a piscar na memória, percebia-se nos rostos um misto de exaustão feliz e leve incredulidade. O festival seguia em frente — e nós, com ele — prontos para mais um mergulho no desconhecido.
Dia 2 - Sábado, 01 de novembro
O Mucho Flow nunca se deixou por reger por rótulos musicais, e diria que este ano foi um desses anos que tal foi mais saliente. Contudo, este último dia do festival trouxe-nos uma dose extra de rock, nas suas mais variáveis vertentes.
YHWH Nailgun
Há uns dias, o algoritmo do Instragram levou-me até a um vídeo partilhado por Joe Talbot, vocalista e figura magnética dos Idles, onde se via um registo live dos YHWH Nailgun. Talbot escrevia por cima — “blew my tiny mind. Go dig ’em live, you won’t regret it.” — e aquela frase ficou a ecoar.
A curiosidade acendeu-se no instante. E assim que chegámos ao Mucho Flow, fomos escavar esse som ao vivo. Entre luzes pulsantes e ruído a rasgar o ar, testemunhámos mais uma das estreias do festival. Vieram carregados do seu primeiro disco, '45 Pounds', e deixaram-no cair no palco como quem lança uma granada sonora.
Os YHWH Nailgun confirmaram essa energia inquieta que atravessava todo o festival. Bastou o alinhamento das luzes no Teatro Jordão para que o ar da sala ganhasse uma espécie de tensão elétrica, como se alguém estivesse a carregar uma mola invisível. Quando a banda entrou, não houve apresentação nem cerimónia — apenas um jorro de som que cortou o silêncio como uma lâmina quente no frio do outono.
Zack Borzone, vocalista dos YHWH Nailgun | Foto: João Octávio Peixoto
A bateria, liderada por Sam Pickard, foi o primeiro corpo a ganhar forma: golpes secos, repetidos, quase mecânicos, que funcionavam como um farol dentro da tempestade sonora que se aproximava. Por cima disso, linhas de guitarra e sintetizador surgiam e desapareciam como vultos — nunca totalmente definidas, sempre prestes a escapar. Havia momentos em que o palco parecia mais um laboratório do que um espaço de performance, com cada músico a explorar o limite entre ruído, groove e colapso.
Zack Borzone, vocalista do grupo, movia-se como se estivesse a travar uma luta invisível com o próprio ar, lançando a voz para o teto do teatro como um sinal de emergência. Não era apenas cantar — era exorcizar. Cada frase nascia da garganta como se viesse acompanhada de luz estroboscópica. A intensidade não era teatral; era física, quase táctil, como se o som empurrasse o público alguns centímetros para trás.
Sam Pickard dos YHWH Nailgun | Foto: João Octávio Peixoto
Quando chegou “Sickle Walk”, o ambiente mudou de repente. O público foi puxado para dentro daquela espiral de ruído controlado, uma espécie de redemoinho que parecia nascer do chão. As paredes do teatro vibraram com um grave que não se ouvia tanto quanto se sentia no estômago. A música avançava sem dar espaço para pensar, apenas para sentir — como se cada camada fosse uma porta que se abria para um túnel ainda mais fundo.
A música foi se dissipando, mas a vibração permaneceu, como se cada pessoa levasse consigo um fragmento daquele tumulto luminoso. Foi um daqueles concertos que não se esgota no momento — continua a acompanhar-nos, silenciosamente, enquanto caminhamos para fora da sala e voltamos à noite fria do exterior da CCVF.
Visão de palco do meio da plateia durante YHWH Nailgun | Foto: João Octávio Peixoto
These New Puritans
O Mucho Flow sempre se caracterizou por trazer os headLiners de amanhã, mas houve um nome que fugiu a essa regra: os These New Puritans. A banda britânica conta já com uma extensão discografia, datada desde 2008 com 'Beat Pyramid', e agora em 2025 trouxeram-nos o muito aclamado, o incrível 'Crooked Wings'.
Quando entraram em palco, trouxeram consigo uma gravidade silenciosa que alterou imediatamente o ar da sala. A luz baixa recortava a figura de Jack Barnett, quase imóvel, como se estivesse a medir o espaço antes de o deixar vibrar. Os primeiros acordes ergueram-se devagar, num cruzamento de vibrafone, eletrónica espessa e um piano que ressoava como uma muralha antiga atravessada por corrente elétrica. A voz grave abriu caminho por entre as camadas metálicas e pulsantes, criando um ambiente que oscilava entre o cerimonial e o futurista.
Jack Barnett dos These New Puritans| Foto: João Octávio Peixoto
O público, que até então se distribuía em murmúrios e passos soltos, rapidamente foi absorvido pela atmosfera. Alguns mantinham-se imóveis, como se tivessem sido apanhados pela intensidade hipnótica de “Industrial Love Song”; outros fechavam os olhos, deixando que os sinos, as máquinas e o piano os arrastassem para dentro de um lugar que parecia existir algures entre ruínas antigas e laboratórios luminosos. Quando “Bells” ecoou pelo espaço, houve uma espécie de respiração coletiva — um momento em que todos perceberam que estavam diante de algo meticulosamente construído, mas emocionalmente bruto. No final, ninguém aplaudiu de imediato; houve, primeiro, um silêncio denso, como se fosse preciso regressar ao corpo antes de bater palmas. E só depois, lentamente, veio a ovação, de um concerto.
These New Puritans | Foto: João Octávio Peixoto
O último dia do Mucho Flow terminou como um eco prolongado do próprio festival: feito de contrastes que dificilmente poderiam coexistir noutro lugar. Depois do caos luminoso dos YHWH Nailgun e da solenidade futurista dos These New Puritans, a cidade parecia respirar de outra forma. As ruas húmidas refletiam as luzes como pequenas veias a pulsar no centro histórico, e o público dispersava-se devagar ainda a tentar decifrar o que tinha ouvido.
Havia nos rostos uma mistura de exaustão feliz e silêncio partilhado, como se cada pessoa carregasse consigo uma parte do festival. E foi nesse intervalo entre o silencio da cidade e a noite fria, enquanto caminhava pela calçada em direção ao São Mamede para gastar os últimos cartuchos, que me veio um possível título para esta reportagem - O passado murmura nas ruas de Guimarães, o futuro ressoa no Mucho Flow: o contraste de dois mundos inseparáveis.
Texto: Luis Silva
Fotografia: João Octávio Peixoto - joctaviop (Instagram) // Fotos Oficiais Mucho Flow
Casa da Música tremeu com Travo e MДQUIИД. em noite bem explosiva | Reportagem Completa
Hallison, o baterista dos MДQUIИД e Gonçalo Ferreira, o vocalista/guitarrista dos Travo | mais fotos clicar aqui
Este ano a programação do Misty Fest iniciou-se no passado dia 2 de novembro com duas bandas do meio underground lusitano. Viveu-se, nessa noite de domingo, na Sala 2 da Casa da Música com os Travo e os MДQUIИД. uma noite verdadeiramente explosiva.
A dupla jornada começou com Travo, um início mais lento e mais atmosférico que rapidamente tornou-se num ambiente mais “pesado” e mais “agressivo”. A música destes bracarenses é uma mistela de rock psicadélico inspirado nos anos 70, krautrock e uma pitada de stoner. Eles fornecem algo de novo ao panorama nacional da música alternativa e realmente não é para todos os públicos.
Nuno Gonçalves na bateria e Gonçalo Carneiro na guitarra, ambos dos Travo | mais fotos clicar aqui
O pessoal ficou mais ativo a partir do terceiro tema. As luzes muito epiléticas deram um retoque extra ao poder elétrico deste quarteto.
Gonçalo Ferreira é o músico que dá a voz a estes Travo e revela-se com imensa valentia e expressões faciais inesquecíveis . Ele também toca guitarra com bastante expressividade. Como habitualmente Gonçalo Carneiro, na guitarra e nos sintetizadores, esteve também bastante elétrico. Já David Ferreira (baixo) e Nuno Gonçalves (bateria) foram mais sóbrios e menos expansivos.
Visão do palco durante a performance dos Travo | mais fotos clicar aqui
A paisagem psicadélica criada pelos Travo foi irresistível e fez com que toda a gente balanceasse o corpo.
MДQUIИД. entraram em palco já com o público praticamente em ponto de rebuçado depois de uma performance bastante generosa dos Travo. Logo na fase inicial o pessoal deu-se generosamente ao mosh, aos saltos… Alguns crowdsurfers também mostraram-se corajosos. Fãs com uma atitude mais desprendida e pujante como habitualmente acontece nos concertos deste projeto.
João na guitarra e José Rego, o baixista convidado, ambos dos MДQUIИД.| mais fotos clicar aqui
Um concerto bastante particular pois marcou estreia no Porto de José Rego, como baixista convidado e que saiu-se bastante bem. Uma presença distinta do Tomás Brito (baixista da formação original e atualmente em pausa), com uma linguagem corporal completamente diferente. João Cavalheiro na guitarra e Halison Peres na bateria completam o trio.
O som dos MДQUIИД. tem um travo hipnótico intensamente bizarro para uma banda que explora universos musicais em redor do krautrock e techno industrial. Aqueles acordes hipnóticos, por entre um som bastante denso, são extremamente irresistíveis e provocam uns pezinhos de dança bem marotos. Daí que sejam um projeto extremamente diferenciado no panorama europeu, já extravasou o nosso Portugal há bastante tempo.
A Fuzz Records já “capturou” os MДQUIИД. e o single mais recente “misfit” já foi editado por esta editora de alcance planetário. Estará na forja um álbum novo provavelmente…
Visão do palco durante a performance dos MДQUIИД. | mais fotos clicar aqui
A noite terminou com a Sala 2 da Casa da Música transformada numa pista de dança, se fosse uma discoteca, o nome ideal para o local teria de ser Kosmische Musik.
Uma noite explosiva e triunfante por duas incríveis bandas nacionais.
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Visão do palco durante a performance dos MДQUIИД. | mais fotos clicar aqui
Texto:
Aitor Amorim e Edgar Silva (auxilio com texto genérico)
"What Do I Think?" – Hamilton Leithauser no Outsite Mouco: uma experiência a repetir “A 1000 Times” | Reportagem completa
Hamilton Leithauser finalmente em nome próprio no Porto | mais fotos clicar aqui
Hamilton Leithauser, artista norte-americano com procedência em Washington e vivência atual em Nova Iorque, entrou para o meu léxico musical em “contramão” ao resto do pessoal. A maioria reconhece-o como o audacioso vocalista dos The Walkmen entre 2000 e 2013, já eu só o passei a seguir mais afirmativamente com o debute da sua carreira em nome próprio na sequência do hiato da banda.
No formato a solo reapareceu com ‘Black Hours’, álbum de estreiaem 2014 e que contém temas sonantes como "I Don’t Need Anyone" ou "11 O’Clock Friday Night". Seguiram-se momentos fortes e emocionantes como, por exemplo, "A 1000 Times" ou "Isabella", temas inseridos, respetivamente, nos álbuns ‘I Had a Dream That You Were Mine’ de 2016 (resultante de uma maravilhosa parceria com Rostam Batmanglij) e ‘The Loves of Your Life’ de 2020.
Este ano Leithauser regressou às edições discográficas com ‘This Side of the Island’, no passado mês de março. Este é o seu motivo para vir à Velha Europa para uma digressão que começou na passada quinta-feira em Lisboa. Aproveitei a segunda data, ocorrida no Porto na passada noite de Halloween (31 de outubro) no Outsite Mouco, para conhecer auditivamente ao vivo estas novas canções. Uma ocasião indispensável num concerto esgotado com meses de antecedência.
Hamilton Leithauser voz e expressão sempre efusivas | mais fotos clicar aqui
Nos dias antecedentes aproveitei para relembrar os meus encontros festivaleiros com Hamilton, na sua versão a solo em 2014 no Vodafone Paredes de Coura e em 2017 no NOS Primavera Sound. Já em 2023, também em Coura, teve lugar uma catarse introspetiva com o seu coletivo The Walkmen entretanto ressurgidos. Durante a performance a memória do artista estava incerta na sua interação com o púbico quando e aonde tinha já estado pelo norte…
Antes do grande momento da noite a primeira parte foi pontificada por uma atuação de Jo Alice. A cantautora nasceu em Faro, pai de origem francesa e mãe anglo-irlandesa. Passou a sua juventude entre o sul de Portugal e a costa oeste da Irlanda e essa multiculturalidade permitiu-a dominar vários idiomas fluentemente. Já em 2017 começou a sua carreira musical em Los Angeles.
Jo Alice na sua estreia no Porto | mais fotos clicar aqui
Esta artista algarvia fez a sua entrada a solo e logo nos primeiros instantes que a sua voz ecoou deu para perceber a sua belíssima voz no tema de entrada em “Something”. Além de cantar também tocou guitarra.
Para o segundo tema, “That’s No Way”, já contou com a companhia de parceiro na bateria, neste caso foi Stephen Patterson. Ele que foi o produtor do primeiro LP de Jo. Atualmente é o baterista que acompanha Hamilton Leithauser por isso também o vimos mais tarde em palco.
Nesta sua primeira vez no Porto Jo, apresentou-se com saltos bem altíssimos, demonstrou um estilo ligeiramente a fazer lembrar Julien Baker.
Stephen Patterson na bateria | mais fotos clicar aqui
Já com a sala praticamente lotada, atuou durante 30 minutos, deixou um belíssimo cartão-de-visita da sua valia. "Que agradável surpresa" frase dita por alguém do público numa das pausas entre canções causou-lhe um sorriso bem corado. Efetivamente assim o foi.
A noite de Jo foi bem especial pois contou logo, na primeira fila, com uma amiga que já não via há imenso tempo. Certamente o terrível transito que encontrou será uma memória que se desfazerá.
“Não costumo falar muito em palco por isso estar a correr bem” afirmou Alice já na fase final da sua atuação. Terminou a solo, já sem Patterson, tendo interpretado “One Of Those” e “Ne Me Quite Pas”, a única que cantou em francês.
Jo Alice, uma algarvia de gema | mais fotos clicar aqui
A voz de Hamilton Leithauser tem qualquer coisa que me deixa intrigado e fascinado, é aquele tom de rouquidão incerta e profunda com aquele timbre tipicamente de quem vive na América do Norte. Agora num concerto em nome próprio e numa sala fechada a experiência prometia ser amplificada a um patamar diferenciado. Ele contou com a sua banda: Stephen Patterson na bateria, Matt Oliver na guitarra e Gregory Roberts no baixo. Um trio de músicos oriundo do Texas, nos Estados Unidos da América.
“Happy Halloween” disse Hamilton logo de entrada precisamente nas suas primeiras palavras, logo aí expressou-se como um bom norte-americano o faria. Efetivamente esta tradição tem muita força no seu país. Também não deixou de dizer que era um “prazer estar de volta ao Porto”.
Perspetiva do palco em noite lotada | mais fotos clicar aqui
"Fist of Flowers" e "Ocean Roar" abriram o concerto no Outsite Mouco. Duas do mais recente álbum ‘This Side of the Island’. Dos 9 temas que compõem este registo discográfico foram interpretadas 7, além da faixa que dá nome ao disco, as outras foram: "What Do I Think?", "Knockin' Heart", "Off the Beach" e “Happy Lights”.
Fãs famintos e deliciados na frontline, desta vez sem "fosso" para os fotógrafos, por isso literalmente colados ao palco mesmo debaixo do olhar do músico norte-americano. Notei a presença de bastantes fãs femininas a deleitarem-se com as canções cantando-as ponto a ponto.
Leithauser utilizou duas guitarras: uma “com marcas de guerra” já notoriamente muito utilizada e também outra bastante charmosa da marca Rickenbacker. Ele que esteve extremamente conversador, fornecendo vários antecedentes e histórias sobre diversos temas.
Hamilton Leithauser também um mestre da guitarra | mais fotos clicar aqui
Por exemplo, na introdução a "In a Black Out" afirmou ser um “música obscura” adequada para o Halloween. Disse também que os seus filhos já não querem a sua companhia na famosa tradição Trick or Treats (doçura ou travessuras traduzindo para português). Este tema faz parte de ‘I Had a Dream That You Were Mine’, o álbum que produziu com Rostam e que foi editado em setembro de 2016. Disco bastante abordado, obviamente o ponto áureo de toda atuação surgiu com uma canção deste registo, nomeadamente “A 1000 Times”. Foi fascinante ouvir este incrível tema tendo sido interpretado de forma bem generosa vocalmente por Hamilton, não é um tema fácil, e cantado a plenas vozes pelos fãs. Evidência da sua importância: foi o mais filmado da noite.
A setlist foi quase igual à do concerto de Lisboa. No Porto tivemos direito a "You Ain't That Young Kid", um tema que não era tocado há bastante tempo.
Em"The Bride's Dad" houve também direito a contexto, de forma resumida, Leithauser explicou que foi inspirada numa situação real vivenciada de perto por si num casamento. O pai da noiva não fora convidado, apareceu no "copo de água", tendo sido expulso após ter protagonizado uma cena musical em que estava totalmente bêbado.
Hamilton Leithauser sempre muito gestual | mais fotos clicar aqui
O concerto foi assim, repleto de contexto aos temas por parte de Hamilton Leithauser de maneira bastante descontraída. A última introdução levou o músico a recuar até à sua juventude. Aos seus 16 anos: em roupa interior ia de piscina em piscina em Washington. Nesses percursos seguia no seu carro bêbado, ao ser parado pela polícia teve a fortuna de safar-se de ser multado.
Num encore absolutamente requisitado terminou com “Happy Lights” e “Room For Forgiveness”. Fiquei com a sensação de que poderia ver Hamilton Leithauser ao vivo 1000 vezes e não ficaria entediado em nenhuma das ocasiões. A única pena da noite foi não terem interpretado “Alexandra” e que até estava na setlist.
Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui
Matt Oliver na guitarra | mais fotos clicar aqui
Texto:
Edgar Silva
À “vontade, vontadinha” os showcases abriram totalmente o “Appetite” musical – Dia 2 do Sonus Art | Reportagem completa
Desire Haze em palco | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
A tarde de sábado 11 de outubro nada teve de semelhante com o sábado anterior de Sonus Art Fest em 2024. Nessa ocasião Guimarães foi presenteada com uma avalanche de uma chuva bastante intensa e persistente. A reportagem de 2024 do festival pode ser recordada aqui.
Agora em 2025 finalmente pude presenciar os concertos dos showcases nos Jardins da Fraterna numa tarde de outono com sabor a gelado de verão.
No edifício coberto que tem ao lado os Tanques da Fraterna foi possível visitar a outra vertente artística do evento: uma exposição com elementos de pintura, de fotografia e vídeo de diversos autores. A identidade visual do Sonus Art Fest 2025 e o seu processo criativo esteve também exposta.
Ambiente durante a tarde de showcases | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Trata-se, sem dúvidas, de uma vertente bem explorada e que deve ser de visita obrigatória para todos os festaleiros. Tem entrada gratuita assim tal como os showcases musicais ocorridos no espaço aberto mesmo ao lado.
Daphné Chenel é uma cantautora oriunda de Paris e foi a primeira a atuar a partir das 17 horas num clima relaxado e caloroso. Trouxe a Guimarães o seu indie-folk e a sua voz bastante dócil e suave com aquele timbre bem docinho de sotaque francês, ela que cantou na sua língua natural e em inglês. Teve também uma ligeira incursão no português.
Daphné tem uma forte ligação a Portugal devido a ter-se radicado no nosso país durante alguns anos nomeadamente em Lisboa. A estada na capital lisboeta já lhe proporcionou uma atuação em regime de primeira parte num concerto de Anna B Savage realizada pela ZDB.
Visão do palco durante a atuação de Daphné Chenel | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Ao piano versou sobre várias temáticas como, por exemplo, sobre depressão. Outro tema foi a saudade, como disse em bom português. Chenel também tocou guitarra elétrica e acústica.
‘Mue’, editado em 2023, é o seu trabalho discográfico de estreia, tem inspirações lisboetas. Explorou devidamente esse disco, uma das faixas que não faltou foi "Les dégâts", a primeira canção que lançou, sobre rutura amorosa. Curiosamente surgiu na altura em que deixou o piano e passou às guitarras. Outras interpretadas foram, por exemplo, "Désolée mon amour" ou "Les Vagues".
Realce igualmente para a nova canção intitulada "Alice" sobre a sua avó portuguesa. Refrão "estou aqui à tua porta" cantado de forma bem percetível pese embora os receios da artista.
O público ajudou a artista com coros bem afinados e a matiné folkiana revelou-se extremamente simpática e agradável e teve continuidade com o artista seguinte.
Daphné Chenel ao piano e na guitarra | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Na sequência tivemos FeMa..Este é o nome artístico de Diogo Félix. Deu os passos iniciais no seu percurso musical em 2021 com o lançamento dos primeiros singles. Em 2022 “uma palavra chamada folha” é o seu debute nas edições discográficas, apesar deste EP ter título em português é cantado em inglês.
Após uma pausa de um ano, FeMa. recriou-se e aproximou-se da sua identidade artística, visível no single “Vontade, vontadinha”, lançado em 2024, acompanhado por um teledisco que introduziu o seu mundo natural e imaginário. Este tema foi interpretado na fase final da sua atuação e mereceu a atenção devida do público com o auxílio nos coros.
FeMa. no seu regresso a Guimarães | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Músico oriundo de Alcobaça, na voz e guitarra, apresentou-se em modo duo com Camila Romão, ela que ocupou-se da guitarra (de imensos efeitos) e do sintetizador. O artista esteve de regresso a Guimarães depois de uma passagem pelo CAAA. FeMa. afirmou adorar a cidade nortenha e boa sua “boa onda” não tenho a menor dúvida disso mesmo.
Um dos seus principais temas “Verde Mar”, editado em fevereiro deste ano, foi interpretado de maneira muito bonita e singela. Uma atuação de acordo com o clima prazeroso da tarde e bem adequada à vibe de quase final de tarde.
Camila Romão no apoio a FeMa. | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Já com o ocaso no horizonte surgiram os Desire Haze, banda de indie rock do Porto. A banda, que se agrupou em 2023, é composta pela vocalista e guitarrista Laura Olim, pelo guitarrista João Matos, pelo baixista Hugo Machado e pelo baterista Mateus Pereira. Tiveram Sam Akpro e a sua banda a espreitarem a sua performance, eles que iriam subir ao palco na parte noturna da programação.
Algumas das suas referências musicais incluem artistas como Angel Olsen e PJ Harvey, e bandas como The Cure e Slowdive. Curiosamente a vocalista Laura fez-me lembrar o jeito de Angel Olsen no modo de abordar o microfone e de manejar a guitarra.
Ainda sem álbum editado, promessa feita em 2024 e que tem sendo vindo adiada, a performance foi pontificada pelos singles “Still water”, “Did I go blind” e “Still Water”. São boas referências para o som porreirinho deste projeto. Já editadas e disponíveis nas plataformas online de streaming.
Mateus e Hugo dos Desire Haze | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
“Smile to a stranger” e “Unlost unfound” foram outras das faixas interpretadas, soaram-me bastante bem. Aguardo portanto por esse álbum para novas considerações sobre estes Desire Haze. Deixaram um gostinho bom no ouvido. Tiveram a maior presença de público deste segmento de três atuações.
Mais um projeto a demonstrar que a cena musical portuense está a fervilhar. Uma fase positiva em que bandas como estes Desire Haze ou outras como os Marquise, Sadhäna ou Nunca Mates o Mandarim têm a surgido de forma orgânica e com bastante qualidade.
O guitarrista João Matos dos Desire Haze | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Rachid Amado Fakhre é o artista responsável pelo projeto Skydaddy. Ele que fez parte do projeto Spang Sisters e agora com as lides nas suas mãos pretende criar algo mais íntimo.
Apresentou-se na garagem do Teatro Jordão tendo feito a sua apresentação a solo. Mais tarde entraram os restantes três elementos, alguns dos melhores músicos de Londres. Contou com Francesca Brierley no piano/voz secundária e outros dois elementos. O baterista também tocou violino e teve também um baixista.
Houve um momento bem particular em que Skydaddy interpretou um tema instrumental sobre o Líbano, o seu país natal. “Lebanon Rising” foi interpretada por Fakhre na guitarra clássica com o apoio de violino.
Skydaddy, o projeto a solo de Rachid Amado Fakhre | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
“His Masterpiece” e “Stonehenge” foram outras duas interpretadas. Para o final ficou “That Morning”, uma canção que aprecio imenso. Interpretada de forma fantástica soou imensamente bem.
Com o seu registo folk açucarado deixou-nos com um cartão-de-visita expressivo após uma performance descontraída e bastante agradável.
Skydaddy com a sua banda | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Sam Akpro é um inglês proveniente de Peckham no sul de Londres e transportou-nos para o seu imaginário sonoro profícuo resultante de uma miscelânea de punk, pop, psicadélico e rap verdadeiramente distintiva. Trouxe-nos a sua banda constituída por um elemento responsável pela eletrónica, outro pelo baixo, um na guitarra e mais um na bateria. Akpro forneceu-nos a sua voz.
‘Evenfall’, álbum de estreia editado em março de 2025, retém enorme influência da fase da vida em que Akpro trabalhava num pub em período noturno. Foram os temas incluídos nesse registo discográfico os principais neste concerto em Guimarães, tais como “Baka”, “City Sleeps” ou “Gone West”.
A energia descontrolada no último tema que interpretaram quebrou completamente o ciclo de uma performance bastante morna ao fim de cerca de 40 minutos.
Sam Akpro na sua estreia em Guimarães | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Para mim a atuação mais destacada da noite foi a dos Folly Group. Quarteto britânico formado por Sean Harper: voz e baterista; Louis Milburn: voz e guitarra; Tom Doherty: baixo e Kai Akinde-Hummel: bateria e percussão.
Este projeto existe desde 2019 e têm por inspiração base os Gorillaz e os Massive Attack. Esse ponto de partida é vital para a mescla de Punk e Rock Progressivo que proporcionam amplificada por Sean, Kai e Louis. Este trio proporcionou uma grande robustez aos seus temas dado que todos fez uso dos seus recursos vocais e por vezes ao mesmo tempo.
Em palco os Folly Group | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Com a entrada dos Folly Group às 23:38h deu para perceber que estávamos com a casa muito bem composta e com bastante animação. Esta performance foi bastante bem recebida pelo público. Apenas com um álbum editado, ‘Down There!’ em 2024, naturalmente o foco recaiu neste registo discográfico. Não faltaram na setlist temas como “Strange Neighbour” ou “Fashionista”, só para citar dois dos mais ouvidos nos streamings. “Bright Night”, “Four Wheel Drive” e “I’’ll Do What I Can” também foram escutados pelo público no Sonus.
Referir para a loucura em “I Raise You”, a última faixa interpretada. Em que o guitarrista veio para o meio do público. Com alas bem abertas, a seu pedido, foi uma espécie de insanidade temporária. Um encerramento apropriado para uma performance em crescendo.
Kai Akinde-Hummel dos Folly Group | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Os Yard são um trio irlandês formado por Emmet White: voz/beats, George Ryan: sintetizadores/beats e Daniel Malone: guitarra. Oriundos de Dublin trouxe o seu eletro-punk até ao Sonus Art numa estreia vimaranense bastante eletrizante e portentosa. Até demais direi eu, creio que o som foi colocado num patamar elevado, bem além do aconselhado para o espaço.
Foi neste concerto final que, provavelmente, atingiu-se o pico de público de todo o festival.
A energia do vocalista passou para a plateia e para os imensos corpos dançantes. Essa vitalidade começou logo durante “Trevor”, a primeira faixa que os irlandeses tocaram. Teve sequência em temas seguintes como “Appetite”, “Essential Tremor” ou “Slumber”.
Emmet White dos Yard | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Esta performance marcou o encerramento do Sonus e revelou-se sonoramente ao nível de uma rave party. Inclusive ao nível do jogo de luzes. Quase literalmente Yard a “partirem pedra” e para a pedrada ser ainda de um nível psicadélico mais elevado, a voz de Emmet estava enfeitada de um reverb em tom raivoso.
Tinha alguma expetativa para a atuação dos Yard porém confesso que, definitivamente, não entraram para as minhas memórias futuras nem para o meu radar musical.
Daniel Malone dos Yard | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
Para fecho de reportagens e como conclusão referir algumas notas:
- sinceramente não sei se dois dias são um bom encaixe para o festival, acho que prefiro um sábado mais intenso e com escolhas bem definidas para um tarde e uma noite bem fortíssimas.
- sobre os showcases: 45 minutos para cada concerto é demasiado tempo, com as mudanças são praticamente 3 horas. Revela-se um pouco entediante para quem quer checkar as novidades sem stress e posteriormente ir jantar com serenidade. Talvez 30 minutos seja um tempo máximo ajustado.
Visão do público durante os Yard | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest
O Sonus Art Fest está cada vez mais com uns ares profissionais e o potencial que demonstraram até agora deve ser reconhecido à organização.
Agradecimento final para a organização do Sonus Art Fest pela sua simpatia e por me ter acolhido tão bem no evento. Igualmente pela disponibilização das fotos utilizadas nesta reportagem.
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Sérgio Monteiro @ sergiommonteiro (Instagram)
// Fotos Oficiais Sonus Art Fest