B Fachada revive o espírito do rock de garagem em “Sozinho no Róque”.
No seu segundo álbum homónimo, de 2011, editado pela Mbari, B Fachada (Bernardo Fachada) abre com uma canção que é ao mesmo tempo homenagem e despedida ao rock mais cru e juvenil. “Sozinho no Róque” é o tema que dá o tom a um disco cheio de ironia, melancolia e observação fina da condição suburbana portuguesa.
Com uma guitarra distorcida e um ritmo direto, a faixa transporta-nos para “noutro tempo, noutra configuração”, onde o narrador se dedicava em corpo e alma ao *róque*, grafia fonética que já denuncia o tom descontraído e caseiro do artista. Tocava só distorção, entretinha as raparigas com “letras de pressão”, gravava cassetes antigas e partia a noite pelas garagens do Monte Abraão, subúrbio lisboeta que serve de cenário real a esta pequena epopeia rockeira.
A letra mistura nostalgia com autocrítica bem-humorada. “Sozinho no róque”, ganha um sabor agridoce: a solidão do rock já não é apenas a do miúdo na garagem, mas também a do adulto que guarda essa versão de si mesmo como uma relíquia.
Produzida pelo próprio B Fachada em parceria com Eduardo Vinhas, a canção destila o ADN do artista: letras inteligentes, cheias de rimas naturais e referências quotidianas, entregues numa voz que oscila entre o coloquial e o poético. Não é por acaso que Fachada se tornou uma das figuras mais respeitadas da música independente portuguesa dos últimos anos: consegue falar de puberdade, garagens desertas e camisas dos anos 90 com a mesma leveza com que outros falam de grandes temas.
Quinze anos depois do lançamento (o álbum saiu em finais de 2011), “Sozinho no Róque” continua a soar fresco. É um hino discreto aos que um dia sonharam ser estrelas do rock de cave e hoje, entre preocupações adultas, ainda sentem aquela comichão na ponta dos dedos quando ouvem uma boa distorção. 🎸
Tio B magistral (como sempre) e Cachupa Psicadélica uma surpresa refrescante - Sonoridades 2025 (1ª parte) | Reportagem Completa
B Fachada, um dos mais sui generis artistas nacionais | Foto: Município de Santo Tirso
A oitava edição do Sonoridades ocupou novamente o Centro Cultural Municipal de Vila das Aves, tal como nas edições anteriores. Este ano aconteceu entre os dias 1 e 4 de maio. O início deu-se na quinta-feira, dia 1 de maio, aproveitando o feriado nacional em que se celebrou o Dia do Trabalhador.
A organização esteve ao encargo, como vem sendo hábito, da Câmara Municipal de Santo Tirso. Já a direção artística e produção coube à 1bigo – Artistas e Eventos, promotora também responsável pelo evento em anos transatos.
Este ano, pela primeira vez, o Sonoridades teve apoio do headLiner como Media Partner. O headLiner já tinha estado presente em ocasiões anteriores: nos quatro concertos realizados em 2024 e em dois na edição de 2023.
Dia 1 de maio – Cachupa Psicadélica
Ambiente bastante sereno na meia hora antecedente ao concerto de abertura do Sonoridades em 2025. A sala esteve bem composta e a maioria do público chegou mesmo em cima das 18:30h, horário previsto para o arranque do concerto de Cachupa Psicadélica. Foi bom regressar a este auditório tão acolhedor. Apesar de ser pequeno, reúne condições ideais para uma experiência bem apreciativa.
Lula's, o responsável pelo projeto Cachupa Psicadélica | Foto: Município de Santo Tirso
Este ano, pela primeira vez, houve bilhética online através de um dos sites nacionais mais conhecidos na venda de ingressos. Devido a isso, igualmente pela primeira vez, teve-se de respeitar o lugar do bilhete.
Cachupa Psicadélica é o projeto de Luís Gomes conhecido também por Lula's. O artista é originário de Cabo Verde da Ilha de São Vicente.
Ele que entrou em palco para uma introdução a solo. Mais tarde teve a colaboração de Renato no baixo e de Henrique Silva na bateria eletrónica e teclados. Este último é o fundador dos Acácia Maior.
Cachupa Psicadélica em formato trio | Foto: Município de Santo Tirso
Lula's fez questão de frisar ter feito muitas milhas “para curtir” com o público em Vila das Aves. Notou-se que estava feliz pela presença. Ele que envergava uma T-shirt de Scuru Fitchadu, conhecido músico do panorama nacional. Este artista marcou presença, fez parte da comitiva.
O artista cabo-verdiano esteve muito comunicativo, com pequenas introduções e dizendo também o nome dos temas. ‘Último Caboverdiano Triste’ de 2015 e ‘Pomba Pardal’ de 2019, os únicos discos editados foram focados. Verificaram-se igualmente surpresas na parte final do concerto, mais à frente isso será abordado.
Houve também temas novos, como “Sinfonia de Uma Nova Merda”, interpretada logo na abertura. O prometido foi devido e a Vila das Aves ouviu canções novas cuja edição é esperada ainda no decurso de 2025.
Lula's com boa disposição, para dar e vender | Foto: Município de Santo Tirso
Seguiram-se “Tornado Bispo” sobre o livre arbítrio, algo que o músico acredita fortemente, e “3/4 de Bô” acerca da relação do homem cabo-verdiano com a bebida.
O ritmo estava a chegar a um ponto mais preciso no qual as pessoas já mexiam o corpo e ficavam embutidas do espírito musical dos Cachupa Psicadélica. O som tem rock tem punk só que é algo mais aprimorado com aquele cheirinho sonoro de crioulo (tal como as letras) em que as cadências são de agitar os corpos à moda africana.
Henrique e Jhon proporcionaram o momento surpresa | Foto: Município de Santo Tirso
Dos temas já existentes foram também interpretados "Atê Dming", uma canção que versa sobre saudade, e "Lambê Lambê". Durante estas interpretações o público foi mais vibrante tendo até colaborado com palmas e expressões sonoras de agrado.
“Catá Borré” e “Paris – Marselha” foram duas pistas da discografia que há-de ser editada em breve.
Na parte final do concerto compareceu o brasileiro Jhon Douglas tendo colaborado nos temas de Cachupa Psicadélica de forma vocal. Além disso, Jhon em conjunto com Henrique, apresentaram o seu novo projeto: ARAPUCAGONGON.
Jhon o convidado especial e que deu tudo | Foto: Município de Santo Tirso
Nota de registo para o artista oriundo do Brasil, voltará ao Centro Cultural de Vila das Aves no próximo dia 17 de maio com o seu projeto a solo.
Esta foi a minha primeira experiência com este projeto e sai bastante satisfeito, mais do que contava.
Dia 2 de maio – B Fachada
O compositor, multi-instrumentista e produtor Bernardo Fachada fez a sua estreia no auditório do Centro Cultural Municipal de Vila das Aves com sala esgotada com mais de 24h de antecedência. A única atuação com lotação esgotada no certame deste ano. B Fachada já é possuidor de uma carreira de respeito no panorama musical nacional sendo por isso fácil de entender a adesão em grande.
B Fachada, um dos mais incríveis cantautores de Portugal | Foto: Município de Santo Tirso
Boa música entoava nos minutos prévios como, por exemplo, a "Renaissance" dos Best Youth por entre o frenesim da ocupação dos lugares e o burburinho das conversas que ressoava pela sala. Forte presença de um público adulto jovem num equilíbrio entre mulheres e homens.
Salvo erro, esta foi a terceira vez que vi o artista de Coimbra ao vivo. Acabou por ser surpreendente, foi a primeira em que desfrutei de uma atuação de Fachada totalmente ao piano. Não fez uso de instrumentos de cordas, nem de reverb ou de “caixinha” com batidas pré-gravadas. Somente voz natural e piano, num registo bem diferente das minhas experiências anteriores.
Ele que confessou, logo no início, que a "a viagem custou muito com chuva" porém demonstrou-se satisfeito por ver a sala preenchida e em modo festivo levantando os polegares dizendo “espetacular”.
B Fachada, artista lusitano oriundo de Coimbra | Foto: Município de Santo Tirso
O tema “responso para maridos transviados”, uma adaptação do Padre Fontes, e “Questões de Moral” foram interpretadas na abertura. Deram o tom apropriado. Como disse o artista serviram para “medir a temperatura do público e das mãos”. Num ato semi rebelde atirou o caderno que tinha consigo em cima do piano para o fundo do cenário dizendo “deitei fora o alinhamento”.
O seu curioso timbre permanece intacto bem como aquele seu jeitinho bem desengonçado. A atuação prosseguiu com um público bem efusivo e a fruir imenso da ocasião, deu para notar a presença de alguns fãs mais vorazes.
Outras que não faltaram no alinhamento foram “Crus” e “Lambe-Cus”,canções que fizeram soltar na plateia alguns risinhos e sorrisos devido às suas letras bem sui-generis.
B Fachada num concerto inteiramente ao piano | Foto: Município de Santo Tirso
“Só Te Falta Seres Mulher”,a primeira canção que fez para piano,foi uma das que B Fachada fez questão de interpretar. “Tó-zé” e “Deus, Pátria e Família” foram outras duas escolhas. O artista deu privilégio à sua discografia mais antiga, especificamente do álbum homónimo de 2009 e a ‘B Fachada é Pra Meninos’ de 2010.
Fica, como nota final, o facto de ele ter falado pouco. Costuma ser bem mais expansivo quando comunica.
A performance de B Fachada foi bem bonita tendo durado cerca de uma hora e 10 minutos. Para quem aprecia o seu “cancioneiro” e esteve presente foi com toda a certeza uma noite bem aproveitada.
B Fachada sempre muito extrovertido | Foto: Município de Santo Tirso
Nota adicional
Estranhei a ausência de um outdoor (como quem diz em português painel publicitário) ao festival Sonoridades num ponto nevrálgico da Vila das Aves. Estou a pensar na Rua da Ponte Nova / Avenida de Poldrães, zona privilegiada e de passagem de intenso trânsito, entre o concelho de Guimarães e Santo Tirso.
Creio que seria uma boa ideia para a próxima edição do evento ter este acrescento para conhecimento das populações mais próximas do Centro Cultural.
Já na sede do concelho, mesmo à entrada de Santo Tirso, na bem conhecida Rotunda De Frádegas, esteve um outdoor em ponto privilegiado.
Lula's, Jhon e Henrique a proporcionarem momentos vibrantes | Foto: Município de Santo Tirso
Texto: Edgar Silva
Fotografia: Município de Santo Tirso / Fotos Oficiais
Dez anos não é muito mas também não é coisa pouca se o que estiver em causa for a oportunidade de celebrar um disco que se tornou um encontro de muitos amigos. Quando o Tiago Guillul lançou no início de 2008 o seu "IV", estavam em 15 canções um aglomerado de novos músicos que em comum tinha sobretudo a zanga com uma música portuguesa que parecia pouco lhes tolerar a língua. Os ilustres desconhecidos de então, além do Tiago, eram nomes como Samuel Úria, Manuel Fúria, João Coração, Bernardo Barata e Jorge Cruz (que trazia uma história mais antiga e mais complicada) - isto só para citar uma mão cheia. O engraçado é que, à medida que o "IV" alastrou, aumentou o número de amigos que se juntaram àquela estranha e animada caravana (e, sendo sinceros, o de inimigos também).
O B Fachada foi um deles. Apesar de ter o seu caminho anterior independente, meses depois teria o seu próprio disco pela FlorCaveira, "Viola Braguesa". Ora, numa reedição do "IV" que se deseja celebração rija, haverá espaço:- para o disco original remasterizado,- para um disco de sobras (porque o Tiago estava em híper-actividade na altura e de 30 canções gravadas escolheu apenas metade para o alinhamento final),- e para um disco das canções regravadas por amigos (que irão do Fachada ao Benjamim, passando pelo Jorge Cruz, Luís Severo, Filipe Sambado, Filipe da Graça, entre muitos outros).
Na FlorCaveira a amizade é um valor e por isso é especial que a primeira canção a ser lançada, desta edição que chegará em Setembro, seja agora a afachadada "Canção de Natal". O Verão está à porta? Então metam-lhe uma estrela no topo.