Este artigo foi publicado originalmente em inglês por Edward A. Beach no Ecole. Como qualquer material do meu arquivo pessoal, ele está disponível para ser enviado na íntegra por e-mail.
Relevo votivo representando Deméter e Triptólemo | Elêusis, século IV a.C.
PS: Eu traduzi o Hino Homérico a Deméter na íntegra, e você pode lê-lo aqui.
Os Mistérios de Elêusis, realizados anualmente em honra de Deméter e Perséfone, eram as celebrações rituais mais sagradas e reverenciadas da Grécia Antiga. Foram instituídos na cidade de Elêusis, a cerca de 22 quilômetros a oeste de Atenas, possivelmente já no início do período micênico, e continuaram por quase dois mil anos. Grandes multidões de fiéis de toda a Grécia (e, mais tarde, de todo o Império Romano) se reuniam para fazer a peregrinação sagrada entre as duas cidades e participar das cerimônias secretas, geralmente consideradas o ápice da religião grega. Com a expansão do cristianismo, os Mistérios foram condenados pelos primeiros padres da Igreja; contudo, os ritos persistiram por mais centenas de anos e exerceram considerável influência na formação dos primeiros ensinamentos e práticas cristãs.
Nossas fontes de informação sobre os Mistérios de Elêusis incluem as ruínas do santuário local; numerosas estátuas, baixos-relevos e cerâmicas; relatos de escritores antigos como Ésquilo, Sófocles, Heródoto, Aristófanes, Plutarco e Pausânias — todos iniciados — bem como os relatos de comentaristas cristãos como Clemente de Alexandria, Hipólito, Tertuliano e Astorias, são bastante conhecidos. Apesar de todas essas evidências, a verdadeira natureza dos Mistérios permanece envolta em incerteza, pois os participantes, com notável consistência, honraram seu juramento de não revelar o que acontecia no Telesterion, ou santuário interno do Templo de Deméter. Violar esse juramento de segredo era um crime capital. (Ésquilo, por exemplo, certa vez temeu por sua vida por ter chegado perto demais de revelar verdades proibidas.) Por essas razões, os estudiosos de hoje precisam se basear em evidências circunstanciais e inferências, o que resulta na ausência de consenso sobre o que de fato ocorreu ou não. Assim, por vezes seremos obrigados a avaliar provisoriamente hipóteses alternativas, sem sempre chegar a conclusões definitivas.
Antecedentes Históricos e Influências Interculturais
Elêusis não era o único lugar na Grécia que apresentava festivais anuais em honra a uma deusa dos grãos e à renovação anual da vida. Rituais semelhantes eram característicos de muitos centros da antiga civilização do Mediterrâneo oriental, incluindo ilhas tão ao norte quanto Samotrácia, tão a leste quanto Chipre e tão ao sul quanto Creta. Em todas essas regiões, havia cultos a uma ou outra Grande Deusa da vida, da fertilidade e da colheita, cujo culto envolvia ritos secretos de purificação e iniciação. Em Pilos (costa ocidental da Messênia), por exemplo, uma antiga tabuleta menciona ritos anuais em honra a um par de deusas envoltas em um véu, que eram conduzidas em uma procissão formal com grande pompa e solenidade até o mar para se lavarem e se purificarem. Na costa oeste da Ásia Menor, as cidades-estado gregas praticavam o culto à deusa frígia Cibele já no século VII a.C. Conhecida entre os gregos principalmente como a Grande Mãe, ou simplesmente como Meter, esta deusa da natureza e da fertilidade, originalmente estrangeira, foi associada desde cedo a Reia ou à própria Deméter. De fato, segundo alguns estudiosos, "Deméter e Cibele eram apenas formas locais da Grande Mãe, cultuadas sob diversos nomes por toda a Grécia".
No início deste século, Foucault teorizou, com base em declarações de autores clássicos, bem como na descoberta de figuras e pequenos artefatos egípcios em alguns sítios micênicos, que o culto a Deméter na Grécia derivou originalmente, total ou parcialmente, do Egito. Outro indício que corrobora essa hipótese são os notáveis paralelos entre o mito de Ísis (especialmente na versão apresentada por Plutarco em sua obra Ísis e Osíris) e o de Deméter. Entre os detalhes desses paralelos, encontram-se episódios em ambas as histórias envolvendo príncipes infantis que quase alcançam a imortalidade — mas não completamente — pelas mãos das respectivas deusas.
Com base nessas correspondências, Foucault e seus seguidores concluíram que os Mistérios de Elêusis devem ter se originado no Egito. Contudo, o fato de as ruínas do santuário em Elêusis aparentemente datarem de séculos anteriores ao próprio Hino, e de as escavações não terem desenterrado artefatos egípcios desse período, milita contra essa hipótese. Por outro lado, visto que sabemos que colonos e mercenários gregos se estabeleceram no Baixo Egito já no século VII a.C., é razoável supor que essas deusas da fertilidade gregas e egípcias já tivessem começado a influenciar os cultos umas das outras e a se misturar na mente dos fiéis, talvez por meio de influências cretenses. Ainda não há consenso sobre isso e o assunto continua sendo alvo de intenso debate.
Muitos estudiosos hoje defendem a visão de que o culto a Deméter provavelmente se originou na Tessália ou na Trácia. Eles baseiam essa conclusão em parte em referências de Homero e outros autores antigos a alguns templos evidentemente pré-dóricos dedicados a Deméter nas cidades tessálias de Termópilas, Piraso e Ferai; em parte em certas ligações etimológicas que conectam palavras-chave nos ritos de Deméter a dialetos pré-helênicos do norte. Outros estudiosos apontam que Deméter pode ser a mesma deusa "Dameter", mencionada brevemente em tabuletas em Linear B de Pilos, datadas de aproximadamente 1200 a.C. Essa evidência sugere que o culto a Deméter pode, afinal, ter se originado no sul do Peloponeso. Mas, em todo caso, independentemente de o culto específico de Deméter em Elêusis ter se originado no norte ou no sul da Grécia, os inegáveis paralelos com o culto às deusas dos grãos em outras partes da região do Mediterrâneo oriental apontam para contatos frequentes e para a fertilização cruzada de ideias religiosas.
Os rituais mais intimamente relacionados aos Mistérios de Elêusis eram as chamadas "Tesmofórias" (de thesmoi, que significa "leis", e phoria, "portadora", em referência à deusa como "portadora da lei"). Esses ritos eram celebrados exclusivamente por mulheres em toda a Grécia durante o mês de Pyanepsion (final de outubro), sendo sua característica principal o sacrifício de um porco, o sacrifício usual às divindades ctônicas. Os gregos atribuíam poderes especiais aos porcos devido à sua fertilidade, à potência e abundância de seu sangue e, talvez, por sua extraordinária capacidade de desenterrar tubérculos e brotos subterrâneos. Acreditava-se que misturar sua carne com as sementes de grãos aumentaria a abundância da colheita do ano seguinte. As cerimônias incluíam jejum e purificação, uma descida ritualizada ao submundo e o uso de magia simpática para trazer de volta a vida das garras da morte. De forma semelhante, os Mistérios de Elêusis também reverenciavam os porcos e seus rituais envolviam a lavagem e o sacrifício de leitões sagrados a Deméter (embora isso ocorresse nas praias de Pireu, perto de Atenas, e não na própria Elêusis). As numerosas correspondências sugerem que os Mistérios de Elêusis eram semelhantes às Tesmofórias e talvez compartilhassem as mesmas origens históricas.
O Hino a Deméter, com 495 versos, é a obra canônica associada aos Mistérios de Elêusis. Embora tradicionalmente atribuído a Homero, provavelmente foi escrito um pouco mais tarde, no século VII a.C.. O hino narra a história de Deméter e Perséfone (a Donzela), de como foram separadas quando Hades raptou Perséfone em sua carruagem enquanto ela colhia flores em um prado e a levou consigo para o submundo. A história continua com Deméter, inconsolável com a perda da filha, procurando-a por todo o mundo em vão. Finalmente, com a ajuda de Hécate e Hélio, ela soube do rapto da filha e descobriu, além disso, que este havia sido previamente aprovado pelo próprio Zeus.
Neste ponto, a narrativa introduz um longo interlúdio (linhas 95 a 300) para explicar como Deméter chegou a Elêusis e estabeleceu seu culto ali. Ao mesmo tempo, o episódio estabelece suas credenciais como a portadora da imortalidade para a humanidade: Quando a deusa percebeu o papel dos outros olímpicos em sua desgraça, ela abandonou sua forma divina e partiu disfarçada de uma velha cretense. Finalmente, ela chegou a Elêusis e sentou-se junto a um antigo poço (o Poço da Donzela, que mais tarde figuraria de forma proeminente nos Mistérios), com o coração transbordando de tristeza. Nesse momento, ela foi abordada pelas quatro belas filhas de Celeu, um chefe local, que se tornaram suas amigas e a apresentaram à sua mãe, Metaneira. Metaneira ficou tão impressionada com a postura digna da velha que lhe ofereceu o cargo de ama de leite para seu próprio filho pequeno. Deméter aceitou e, sob seus cuidados, a criança prosperou maravilhosamente bem. O que os mortais não sabiam, porém, era que Deméter estava secretamente tratando o bebê com uma série de práticas místicas. Todas as noites, enquanto o palácio dormia, ela ungia seus membros com ambrosia e o colocava no fogo. A criança poderia ter se tornado imortal se o procedimento tivesse continuado; mas, infelizmente, Metaneira espionou Deméter certa noite e, quando o menino foi colocado nas chamas, gritou de medo. Diante disso, a deusa indignada interrompeu o tratamento, revelou-se em toda a sua majestade divina e exigiu que um templo fosse construído em sua honra. Lá, ela ensinaria ao povo seus ritos especiais. E com essa promessa, Deméter desapareceu.
Depois que os eleusinos construíram seu templo para Deméter, ela permaneceu lá, lamentando a ausência da filha e recusando-se a se reunir aos outros deuses no Monte Olimpo. Além disso, ela se recusou a fazer as sementes germinarem na terra escura, e todo o mundo começou a sofrer com a fome. Até mesmo os deuses sofreram com a falta de oferendas e sacrifícios. Zeus enviou Íris e outros deuses para intercederem por ela, mas Deméter não cedeu. Finalmente, o rei dos deuses enviou Hermes ao Hades, suplicando ao senhor do submundo que entregasse Perséfone e a devolvesse à sua mãe. Hades concordou a contragosto, mas primeiro fez com que Perséfone provasse um pequeno pedaço de comida — uma única semente de romã — o suficiente para garantir, por uma espécie de simetria divina, que ela sempre passasse um terço de cada ano com ele (durante o inverno). E assim Perséfone pôde deixar o submundo e retornar à luz, onde finalmente se reuniu com sua mãe.
O poema termina com uma invocação às duas deusas e uma promessa de ricas recompensas aos seus devotos, tanto nesta vida quanto na próxima:
Feliz é aquele entre os homens na Terra que viu estes mistérios; mas aquele que não foi iniciado e que não participou deles, jamais terá tanta sorte depois da morte, na escuridão e na penumbra… Bem-aventurado é aquele entre os homens na Terra a quem elas amam livremente…
(linhas 480-87, Evelyn-White 323)
Apenas aqueles que falavam grego e não haviam derramado sangue (ou haviam sido purificados posteriormente) eram elegíveis para participar dos rituais em Elêusis. Cada novo iniciado, conhecido como "mystes", recebia instruções e orientações preliminares de um padrinho experiente, ou "mystagogos", que geralmente pertencia a uma das famílias mais importantes de Elêusis. Um mystes que retornava uma segunda vez a Elêusis para ser iniciado nos mais altos níveis do conhecimento esotérico era conhecido como epoptes.
Havia também numerosos funcionários sacerdotais ligados aos procedimentos: o Hierofante, ou Sumo Sacerdote, presidia as partes mais misteriosas e solenes do ritual. Somente ele tinha o direito de entrar na câmara secreta do Anaktoron, onde os sagrados Hiera, ou objetos de culto, eram guardados. A Alta Sacerdotisa de Deméter compartilhava com o Hierofante a responsabilidade principal de presidir os Mistérios. Acredita-se que ela assumia o papel de Deméter em um drama sagrado que reencenava a angústia da deusa e sua busca desesperada por Perséfone. A maioria dos estudiosos também acredita que a Alta Sacerdotisa se juntava ao Sumo Sacerdote na realização de um ieros gamos, ou casamento sagrado de significado simbólico. As Hierofântides eram duas das principais assistentes femininas do Hierofante, que desempenhavam um papel importante no drama e nas cerimônias de iniciação. As Sacerdotisas Panageis, também conhecidas como "abelhas", eram auxiliares celibatárias cuja função precisa permanece desconhecida. Possivelmente, eles desempenharam um papel no transporte da Hiera na majestosa procissão de Elêusis a Atenas e de volta. O Dadouchos, segundo homem na hierarquia depois do Hierofante, era o portador da tocha, que desempenhava um papel importante nas iniciações. Somente ele em Elêusis tinha a autoridade para remover a mancha da impureza dos aspirantes que haviam derramado sangue humano. Ele e sua assistente, a Dadouchousa, provavelmente também eram responsáveis pelos efeitos de iluminação no Telesterion durante as cerimônias. O Hieorokeryx era o arauto oficial, cuja voz imponente convocava os iniciados ao silêncio para que os Mistérios começassem. Finalmente, o Sacerdote no Altar presidia os sacrifícios de animais e outras oferendas às duas deusas.
A celebração dos Mistérios em Elêusis era um evento elaborado que se estendia por nove dias no mês de Boedromion (final de setembro). Para cada dia, havia uma série prescrita de ações rituais que os iniciados deveriam seguir na ordem correta.
Um dia antes do festival propriamente dito, uma grande multidão de participantes se reunia em Elêusis e seguia com grande pompa até o santuário de Deméter na ágora ateniense. No dia seguinte, 15 de Boedromion, o festival propriamente dito começava com uma declaração formal na ágora, anunciando o evento e convidando os iniciados a participar. De 16 a 18 de Boedromion, os iniciados desciam individualmente ao mar, cada um carregando um leitão para purificação e sacrifício. (Aqui, a conexão com as Tesmofórias, outra celebração ritual de Deméter que incluía o sacrifício de um porco, é mais evidente.) Também havia grandes sacrifícios em honra da cidade de Atenas e de outras instituições públicas.
No quinto dia do festival (19 de Boedromion), os participantes seguiam em procissão formal de Atenas de volta a Elêusis, carregando os hiera sagrados, bem como uma estátua do deus-menino Iacos. A última divindade, que personificava os gritos de exultação que os participantes emitiam periodicamente, foi identificada com Dioniso pelo menos desde os tempos de Sófocles. Essa identificação constitui evidência prima facie de uma conexão muito significativa entre os Mistérios Dionisíacos e Eleusinos. Contudo, o ponto permanece controverso.
Os iniciados então descansavam, purificavam-se e mantinham um jejum parcial ou completo. Acredita-se que quebravam o jejum ao cair da noite bebendo uma bebida especial conhecida como "kykeon", composta de farinha e água misturadas com folhas frescas de hortelã-pimenta (a mesma bebida que Deméter bebia, como narrado no Hino, versos 210-11). Obviamente, o grão na bebida era um símbolo de Perséfone, a deusa eterna que morre, vai para o subterrâneo e depois volta à vida.
Os estudiosos divergem amplamente sobre o significado do kykeon. Alguns sustentam que ele devia ter um caráter sacramental, envolvendo uma comunhão com o espírito da divindade ou a sua assimilação. Por outro lado, Mylonas duvida que tivesse qualquer significado "místico" desse tipo, embora reconheça que beber o kykeon era um "ato de lembrança religiosa" que envolvia "a observância de um ato da Deusa". Mesmo nessa interpretação mais moderada, a semelhança com a Eucaristia cristã é notável.
Quanto à composição da bebida, geralmente se concorda que ela não continha álcool, visto que o Hino afirma expressamente que Deméter não bebia vinho. Contudo, foi sugerido que poderia haver uma mistura de outros ingredientes intoxicantes. Joseph Campbell, por exemplo, especulou que os grãos de trigo poderiam conter pequenas quantidades de ergot, um alucinógeno natural frequentemente encontrado em produtos à base de cereais. Essa hipótese, no entanto, torna-se menos plausível devido à natureza extremamente volátil das infecções por ergot (como no fogo de Santo Antônio), que teriam sido difíceis, senão impossíveis, de controlar com segurança.
Quando os mystai entravam nos recintos sagrados do Telesterion, talvez lhes fosse exigido proferir uma senha especial, ou "synthema", para confirmar sua prontidão em participar dos ritos. Clemente de Alexandria relatou o conteúdo de tal synthema da seguinte forma: "Jejuei; bebi o kykeon; peguei algo do kiste [um relicário cilíndrico]; tendo cumprido minha tarefa, coloquei na cesta e da cesta para o kiste". Essas palavras obscuras, porém sugestivas, deram origem a uma infinidade de interpretações imaginativas; contudo, os estudiosos divergem quanto à confiabilidade do testemunho de Clemente.
O que acontecia em seguida nas cerimônias permanece oculto sob véus de segredo piedosamente imposto. A maioria dos estudiosos acredita, com base nos testemunhos de Clemente de Alexandria e Tertuliano, que os Mistérios compreendiam três componentes principais, conhecidos como deiknymena ("coisas mostradas"), legomena ("coisas ditas") e dromena ("coisas feitas"). Já discutimos aspectos dos dois primeiros e retornaremos a eles mais adiante. Quanto aos dromena, acredita-se que incluíam uma reencenação ritual da história de Deméter e Perséfone, incluindo o rapto desta última por Hades; a dor de Deméter; sua longa e desesperada busca pela deusa falecida por todo o mundo; a angústia de todas as criaturas vivas enquanto a fome e a morte as consumiam. Muito provavelmente, os iniciados obtinham um senso de participação direta no sofrimento de Deméter ao procurá-la e invocar sua filha nos mesmos recintos sagrados que, segundo a tradição, testemunharam esses eventos. Finalmente, talvez iluminado por um súbito clarão de tochas, teria havido o momento jubiloso da ressurreição de Perséfone, ao emergir do submundo e retornar aos braços amorosos de sua mãe. A intensidade dramática desse espetáculo, provavelmente intensificada pela música e pelos cânticos de invocações aos deuses, certamente teria criado um espetáculo inspirador, cuja memória os iniciados guardariam para o resto de suas vidas.
Foucart propôs, com base em uma passagem de Plutarco (citada por Temístio e preservada em Estobeu), que, além de representar a separação e o reencontro das duas deusas, os Mistérios também podem ter conduzido os iniciados por regiões infernais sombrias, com imagens horríveis e formas fantasmagóricas, a fim de recriar um presságio sinistro do que aguarda os não iniciados. Então, como Foucart também sugere, representações subsequentes de uma vida após a morte paradisíaca na companhia das deusas e outros iniciados teriam produzido uma profunda sensação de alívio e renascimento espiritual. Outros pesquisadores contestaram esse cenário, alegando que as ruínas de Elêusis não incluem vestígios de instalações cênicas, câmaras subterrâneas ou qualquer maquinaria teatral que seria necessária para recriar a experiência de uma viagem ao submundo. Contudo, a ausência de equipamentos cênicos completos certamente não exclui a possibilidade de representações dramáticas, de alguma forma, de um "mundo inferior" — alcançadas por meio de um uso criterioso da escuridão, do som e da atmosfera. (Além disso, muito poderia ter sido feito com adereços e cenários de madeira, que, obviamente, teriam desaparecido com o tempo.) A hipótese de Foucart, embora especulativa, não pode ser descartada.
Curiosamente, Wilamowitz e Kerényi usaram o mesmo argumento sobre a ausência de instalações teatrais, câmaras subterrâneas e assim por diante para contestar até mesmo a teoria predominante sobre a encenação da história de Deméter e Perséfone. Segundo esses estudiosos, a suposição de que a dromena em Elêusis assumiu a forma de uma peça teatral é absurda. Mas isso não significa que eles necessariamente negariam a ocorrência de quaisquer representações dramáticas. Em vez disso, Kerényi propõe que a dromena pode ter sido uma dança sagrada, talvez semelhante às danças labirínticas com cordas que eram realizadas na ilha de Delos. Por meio de gestos estilizados e movimentos rituais nos quais os próprios iniciados participavam, teria sido possível evocar uma profunda sensação, até mesmo de transe, de união com o divino.
Outra controvérsia diz respeito à questão de saber se um ieros gamos, ou Casamento Sagrado, também estava presente nesses ritos. Existem três ou quatro indícios circunstanciais, a maioria deles originários das declarações dos primeiros Padres da Igreja, que foram usados para inferir a existência de um ieros gamos: (1) Segundo Clemente de Alexandria, Deméter era às vezes chamada de "Brimo" (a Poderosa, a Furiosa), por causa de sua ira contra Zeus; (2) Hipólito de Roma (século III) relata que "À noite, em Elêusis, [o Hierofante], aparecendo em meio a muitas fogueiras, proclama o grande e secreto mistério, dizendo: 'A Santa Brimo deu à luz uma criança sagrada, Brimos', isto é, a poderosa (f.) [deu à luz] o poderoso (m.)"; (3) Astério de Amaseia (século IV), em uma diatribe contra os rituais bárbaros e obscenos dos pagãos, fez as seguintes perguntas retóricas: "Não são o ápice e a culminação de sua religião aqueles Mistérios de Elêusis, cujas vaidades o povo da Ática, e de fato toda a Grécia, se reúne para celebrar? Não existe naquele lugar uma câmara subterrânea escura [catabasion], onde o Hierofante se encontra a sós com a Alta Sacerdotisa? Não se extinguem então as tochas, e não acreditam as vastas multidões que é para sua própria salvação o que esses dois fazem juntos na escuridão?"; (4) Em seu comentário sobre o Timeu de Platão, Proclo Diádoco (século V) relata o seguinte: "Nas cerimônias de Elêusis, eles gritavam, erguendo os olhos para os céus, 'chove' [hye], e então, baixando-os para a terra, 'sejam fecundos' [kye]".
Com base nessas evidências, muitos pesquisadores concluíram que alguma forma de Casamento Sagrado provavelmente ocorria nos Mistérios e que essa cerimônia culminava no nascimento (ou renascimento) simbólico de um filho. Há várias propostas sobre quem poderia ter sido essa criança: possivelmente Iaco, a divindade tutelar cuja estátua acompanhava as deusas gêmeas na peregrinação de Atenas a Elêusis; Pluto, o deus da riqueza que, segundo Hesíodo e Homero, surgiu da união de Deméter e do mortal Iásion de Creta; Dioniso-Zagreus, uma divindade cretense que, de acordo com a tradição órfica, era filho de Perséfone e Zeus; Triptólemo, um antigo príncipe de Elêusis muito representado em vasos e urnas; ou até mesmo a própria Perséfone. Talvez, de fato, a "criança" represente uma fusão mística e a identificação de todos esses.
Milonas, no entanto, seguido por Brumfield, nega que tenha ocorrido qualquer Casamento Sagrado ou o nascimento de uma Criança Sagrada. Os argumentos de Milonas são complexos demais para serem discutidos aqui em detalhes, mas, em essência, são: (1) que Clemente misturou e confundiu elementos dos cultos frígio, órfico e até mesmo alexandrino com os Mistérios de Elêusis; (2) que Hipólito não poderia ter tido qualquer informação sobre o que realmente foi dito nas cerimônias mais esotéricas de Elêusis, preenchendo, portanto, as lacunas em seu conhecimento com frases plausíveis de sua própria invenção; (3) que Astério chegou tarde demais na história para ter tido acesso a dados confiáveis e, além disso, escrevia para um público que também não possuía conhecimento de primeira mão; (4) que as palavras alegadas por Próclo como sendo um segredo inefável ("hye, kye") não poderiam tê-lo sido, visto que estavam inscritas à vista de todos em um poço ao lado do Portão de Dipylon, em Atenas. A principal preocupação de Milonas ao longo de seu livro é evitar o que ele concebe como o "erro" da teocrasia, a mistura de divindades distintas e tradições religiosas. Se isso é sempre um "erro", no entanto, é algo questionável — uma questão à qual este artigo retornará adiante.
Em todo caso, após a apresentação dos dromenos, o Hierofante se retirava sozinho para o Anaktoron (a câmara sagrada e secreta do Telesterion) e reaparecia com as Hiera, as relíquias mais misteriosas e sagradas de Deméter e Perséfone. Em todo o esplendor de sua dignidade sacerdotal, ele as revelava aos iniciados, que sem dúvida as aceitavam como objetos que as duas deusas haviam pessoalmente consagrado e transmitido à humanidade. Este momento culminante dos Mistérios era certamente o que inspirava os mais profundos sentimentos de reverência. Contudo, hoje não temos ideia do que realmente continham as Hiera. As teorias variam desde hastes de trigo cortadas, serpentes, pão especialmente abençoado, um falo estilizado ou vulva feminina (ou ambos), artefatos micênicos antigos ou estatuetas neolíticas. Em última análise, o que as Hiera eram fisicamente é talvez menos importante do que a forma como eram apresentadas e o espírito com que eram recebidas.
À medida que o festival chegava ao fim, os participantes dedicavam serviços especiais em honra dos mortos. Libações rituais eram derramadas no chão, com o líquido consagrado fluindo nas direções leste e oeste. Os iniciados (provavelmente exaustos a essa altura) retornavam então a Atenas individualmente ou em pequenos grupos. Não parece ter havido nenhuma procissão organizada. Este era um momento para reflexão e meditação.
Possíveis Conexões de Deméter/Perséfone com Outras Divindades
Entre as questões mais debatidas nos estudos acadêmicos está a de se os ritos realizados em honra de Deméter e Perséfone também incluíam conexões significativas com, ou referências a, outras divindades e cultos importantes. Essas conexões, se existissem, poderiam ter assumido a forma de atribuições explícitas de papéis simbólicos ou sacramentais a outros deuses e deusas nos rituais; alternativamente, poderiam ter sido sugestões implícitas, alusões indiretas a antecedentes históricos de outras tradições religiosas. Se a existência de conexões religioso-culturais de qualquer tipo pudesse ser determinada com certeza, isso afetaria nossa compreensão da natureza e do significado dos Mistérios de Elêusis; pois é um princípio geral nos estudos religiosos que as associações entre divindades são paralelas a associações semelhantes nos significados simbólicos atribuídos aos seus cultos.
O principal exemplo de uma conexão explícita, embora esotérica, entre as deusas de Elêusis e uma divindade de outra tradição cultual seria a associação ritual entre Deméter e Dioniso, pelo menos desde o século IV a.C. As evidências, neste caso, são bastante fortes. Sabe-se que essas duas divindades eram veneradas em Atenas e em outros lugares como "paredroi" [divindades parceiras]; é menos certo se esse status de parceria tinha algum significado mais profundo. Píndaro (século V a.C.) falou de Dioniso como o deus "dos cabelos esvoaçantes que está entronizado ao lado de Deméter". Os órficos, que eram amplamente influentes e tinham suas próprias celebrações de mistério, identificavam Dioniso-Zagreus como filho de Perséfone e Zeus. Os romanos reconheciam uma tríade composta por Ceres, Líber e Libera, onde Ceres correspondia a Deméter, Líber a Dioniso e Libera a Perséfone. Estêvão Bizâncio (século VI d.C.) registrou que os rituais em honra a Perséfone eram realizados "em imitação de acontecimentos dionisíacos". Há também uma quantidade considerável de evidências iconográficas, incluindo imagens em vasos gregos antigos da Ática e da Apúlia, que atestam uma presença dionisíaca proeminente em Elêusis.
Com base nessas e em outras evidências, Schelling sugeriu, já em meados do século XIX, que Dioniso e Iaco eram contrapartes masculinas de Deméter e Perséfone — que, na verdade, eram todos aspectos de uma única divindade! Neste século, Metzger propôs que Deméter, Dioniso e Perséfone juntos formavam uma espécie de trindade sagrada que presidia Elêusis. Deubner argumentou que episódios da vida de Dioniso provavelmente figuravam nas representações rituais em Elêusis. Harrison chegou a afirmar que "todo ou quase todo o seu significado espiritual [dos Mistérios de Elêusis] se devia a elementos emprestados do culto de Dioniso". Baring e Cashford seguem Harrison ao atribuir um papel fundamental a Dioniso em Elêusis. Kerényi faz o mesmo.
Mesmo que Dioniso tenha de fato ocupado uma posição nas festas de Elêusis, alguns argumentariam que ele assumiu essa função apenas em sua condição de deus patrono do drama e do esplendor teatral, e não por qualquer papel constitutivo nos Mistérios de Elêusis propriamente ditos. Nesse caso, ele poderia ter sido mais análogo a um diretor de palco divino ou a um cenógrafo do que a um intérprete ritualístico ou objeto de culto por direito próprio. De qualquer forma, Milonas descarta a maioria das fontes antigas como confusas quanto à participação de Dioniso. Ele insiste que Dioniso não teve nenhum papel significativo nos Mistérios de Elêusis propriamente ditos, embora admita que "na época romana, [Iaco] era confundido com Baco e Dioniso". Frank compartilha da opinião de Milonas de que Dioniso não desempenhou um papel importante em Elêusis.
A questão é obviamente espinhosa, mas, na opinião deste autor, o conjunto das evidências aponta para uma correlação definida entre Dioniso/Iaco e Deméter/Perséfone, pelo menos no período posterior e provavelmente já no século VI a.C. Tal correlação, se verdadeira, teria influenciado significativamente a experiência dos Mistérios e os aproximado de uma congruência sincrética de significado com os Mistérios Dionisíacos e Órficos.
Controvérsias Hermenêuticas Subjacentes
Já mencionamos a existência de inúmeras controvérsias a respeito do conteúdo exato dos eventos em Elêusis. Muitas das respostas, sem dúvida, se perderam irremediavelmente em meio a milênios de segredo. Contudo, o debate mais profundo diz respeito não tanto ao conteúdo, mas ao significado espiritual dos Mistérios. Nestes parágrafos finais, resumirei brevemente esse debate contrastando duas abordagens hermenêuticas quase diametrais: a de Milonas e a de Kerényi.
O objetivo central do livro de Milonas é desvendar a verdadeira natureza das atividades em Elêusis, removendo escrupulosamente quaisquer falsas sobreposições originárias de contextos ou tradições alheias. Em particular, como vimos, ele deseja combater a tendência ao sincretismo religioso, ou "teocrasia", a mistura indiscriminada de divindades antigas e suas características. É por essa razão que Milonas resiste à ideia de que Dioniso tivesse presença no culto de Deméter e Perséfone; Por isso, ele nega qualquer paralelismo mitológico ou ritual entre os Mistérios Órficos e Eleusinos; por isso, recusa-se a admitir a possibilidade de uma identificação mística entre Reia e Deméter ou entre Deméter e Perséfone; por isso, desconsidera o testemunho de Clemente de Alexandria e de muitos outros; por isso também, duvida de uma qualidade sacramental na ingestão do kykeon.
Mílon reconhece que, em seu zelo por recuperar os Mistérios em sua pureza original, ele está desconsiderando as opiniões de numerosas autoridades que levam mais a sério a possibilidade de associações históricas e religiosas muito antigas entre as divindades cultuadas em Elêusis e as de outros centros de culto no mundo antigo. Mílon sente a necessidade de rejeitar tais hipóteses porque elas alimentam a noção não verificada (e talvez inverificável) de que as ideias religiosas brotam de impulsos e necessidades transculturais profundamente enraizadas na psique humana. Tratar essa noção como uma hipótese científica genuína, pensa ele, pode levar a uma aceitação acrítica de evidências altamente questionáveis. Uma citação servirá para ilustrar o método geral de interpretação de Mylonas. Em sua discussão sobre o possível papel de Dioniso em Elêusis, ele escreve:
… Como vimos, Dioniso não teve participação nos Mistérios de Elêusis e todas as referências à sua participação são posteriores e resultam de sua confusa equiparação com Iaco. Na tradição órfica tardia, segundo Guthrie, Dioniso parece ser equiparado a Eubuleu [um personagem secundário no mito de Deméter e Perséfone]. A conclusão de Guthrie baseia-se em evidências que provavelmente pertencem ao século III da nossa era, quando as tradições estavam confusas e a teocrasia tornou-se uma prática comum na literatura órfica.
Os tipos de perguntas e objeções que Mylonas levanta são importantes. Por meio de sua postura cética e metodologia cautelosa, ele prestou um serviço inestimável ao estudo das religiões antigas. Ao questionar as conclusões, por vezes simplistas, a que outros chegaram, ele nos alerta para a obrigação de sermos sempre críticos e vigilantes na pesquisa acadêmica.
A abordagem de Kerényi é completamente diferente. Embora não utilize o termo, ele evidentemente aceita a teocrasia como uma característica válida e incontornável das tradições religiosas vivas. Para ele, a fenomenologia das divindades e dos mitos envolve naturalmente conexões interculturais e dá origem a identificações "não científicas", aparentemente ilógicas. É por isso que ele admite, e até mesmo acolhe, a fusão de motivos dionisíacos com os de Deméter como aspectos complementares de uma única divindade, possivelmente hermafrodita; por isso que ele reconhece a influência das tradições órficas e de outras como forças poderosas e antigas que ajudaram a moldar o festival eleusino; Por que ele reconhece Reia, Cibele, Ártemis, Hécate e outras como manifestações coordenadas de uma figura arquetípica da Deusa implícita no espírito humano; por que ele aceita o testemunho dos Padres da Igreja e de outros observadores externos como indicações significativas, embora falhas, de verdades que eles próprios não conseguiam compreender; por que ele também concebe prontamente a possibilidade de que a psique de um místico devoto possa parecer fundir-se, por meio da comunhão sacramental, com o espírito da Deusa.
Ao desenvolver essas ideias, Kerényi está ciente de que está propondo uma série de proposições arriscadas, pois está basicamente tratando como ligações altamente significativas — sintomáticas de processos psicoespirituais internos — o que muitos outros estudiosos descartariam como meros paralelos fortuitos, acréscimos acidentais ou interpolações posteriores. No entanto, Kerényi insiste que é preciso ser sensível ao significado dessas conexões aparentemente contingentes para que se possa recuperar a dinâmica interna dos mitos. A passagem a seguir transmitirá a essência de seu método hermenêutico. Ao falar da conexão entre as Erínias, deusas da retribuição moral, e a dualidade Deméter/Perséfone, Kerényi escreve:
Há duas maneiras de considerar conexões como essa entre as Erínias e os governantes do Submundo. Uma delas parte do estado disperso dos vários aspectos dos deuses e acredita em uma subsequente combinação mitológica deles, com o resultado de que a mitologia é entendida, na melhor das hipóteses, como uma atividade coordenativa e embelezadora da mente. Nossa maneira se opõe a essa. Começa com as ideias mitológicas, facilmente reconhecidas por sua riqueza original e multifacetada. A mitologia é então entendida como a criação de deuses pela mente, no sentido de que algo real e válido é trazido ao mundo. As realidades que se revelam são estágios em um processo de desdobramento (como um botão), e todo desdobramento tende, em última instância, à dissolução. O principal para nós não é esse estado final, nem as Erínias como espíritos de vingança, ou Deméter e Perséfone existindo independentemente lado a lado, mas a Deméter Erínia histórica que contém em si sua própria figura de Kore – Perséfone.
A virtude da abordagem de Kerényi reside na sua profunda percepção psicológica. Através de suas explorações das zonas limítrofes cujas associações inconscientes ligam as ideias religiosas, ele forneceu uma chave valiosa para a interpretação dos mitos.
William James observou certa vez que existem dois tipos de temperamentos acadêmicos: aqueles que temem acima de tudo o risco de confundir falsidades com verdades, e aqueles que temem ainda mais o risco de perder verdades potencialmente valiosas. Dependendo do tipo de disposição que se tenha, a preferência será pelo método hermenêutico de Milonas ou pelo de Kerényi. De qualquer forma, os Mistérios de Elêusis permanecerão entre os legados mais intrigantes e perenemente fascinantes do mundo antigo.
Considerações Finais e uma Proposta Final
Vimos que a escassez de dados concretos sobre os Mistérios de Elêusis é contrabalançada pela riqueza de teorias e hipóteses especulativas. Correndo o risco de contribuir para estas últimas, vale a pena considerar a possibilidade de que talvez não tenha existido um conjunto único de ensinamentos "secretos", mas sim uma série de conhecimentos esotéricos em desenvolvimento.
É sabido que os Mistérios perduraram por quase dois mil anos, período durante o qual o mundo grego evoluiu enormemente, tanto intelectual quanto religiosamente. Essa época testemunhou a transição do politeísmo tradicional de Homero e Hesíodo, passando pelos primórdios da filosofia científica em Tales, Pitágoras, Anaxágoras e outros, até os ápices do monoteísmo filosófico representados por Platão, Aristóteles e Plotino. Transformações semelhantes também ocorreram nos campos da literatura, da arte e da historiografia. Seria irrazoável, portanto, negar que também poderiam ter ocorrido mudanças correspondentes nos recintos sagrados do Telesterion. Sabemos que os maiores intelectos do mundo antigo testemunharam repetidamente o poder salvífico da participação nos Mistérios — por que, então, supor que esses ritos e ensinamentos secretos não teriam se adaptado aos tempos, de modo a conter alusões às mais profundas percepções espirituais de que seus devotos eram capazes?
Sem dúvida, os fenômenos externos dos rituais provavelmente mantiveram uma notável consistência formal ao longo dos milênios de sua prática, pois essa tendência conservadora é característica das religiões arcaicas em geral. Contudo, as interpretações dadas aos rituais pelos próprios participantes podem ter sofrido modificações substanciais ao longo do tempo. Em particular, parece plausível que uma propensão ao sincretismo e à teocrasia tenha se fundido com especulações filosóficas a partir do século IV a.C., dando origem a um novo tipo de misticismo religioso e talvez até mesmo contendo indícios de monoteísmo ou monismo panteísta.
Seria um exagero aprofundar essa linha de investigação, visto que não há evidências concretas que a sustentem. No entanto, há motivos para questionar se os ensinamentos esotéricos dos Mistérios de Elêusis não teriam contribuído, de certa forma, para preparar o terreno para o alvorecer da era cristã.