MONOMANIA, imagine Nanami
Sinopse: Pareceu-lhe patético que uma única mudança na rotina caseira seguida fielmente a anos tenha criado raízes tão profundas, mas Nanami não podia controlar e lutava contra tais sentimentos tão fracamente que mal parecia, de fato, uma luta. Ele só queria mais de você. Mas as raízes que pensou brotarem dentro do coração, na verdade o estava perfurando de fora. E era impossível escapar.
Avisos: Diferença de idade/age gap, comportamento suspeito , leve stalk Palavras: 12k
O dia estava lindo lá fora. Céu claro, clima ameno e poucas maldições para combater.
Dentro de uma das casas bem cuidadas daquele bairro tranquilo, porém, havia um homem parado em uma cadeira de madeira, olhando fixamente para o café da manhã que ele mesmo havia preparado com nada além de um zumbido estático no ouvido e uma dormência nos membros.
Ao desviar ligeiramente o olhar para o pão quentinho e recém comprado, Nanami passou a mão no rosto em frustração. Hoje ele faz trinta e quatro anos, uma data que deveria ser especial de alguma maneira, mas que não exala nada diferente do usual, aumentando aquele sentimento persistente de vazio que a alguns anos o homem vinha sentindo.
O loiro adora pão e, ainda assim, não sente vontade alguma de comer a baguete nem o pão australiano da padaria que abriu recentemente no centro que tanto estava com vontade de provar. A mesa está posta com mais comida do que é necessário e o cheiro de café recém coado permeia o ar, mas o feiticeiro de repente sente mais vontade de beber aquele vinho caro esperando uma ocasião especial que nunca chega do que o suco ou o café – e são apenas oito da manhã.
Do que adianta pegar folga no aniversário se tudo que há em casa é o mesmo de sempre? Itadori mandou uma mensagem alegre o parabenizando. Gojou disse pra ele ir num bar beber para variar e não ficar isolado num dia desses.
Ele queria não ter se importado com o comentário brincalhão, que em vista da verdade, soou ácido. Talvez Nanami deva voltar atrás nessa decisão de tirar uma folga extra. Ou beber e ler algo até dormir pelo resto do dia; sim, beber soa tão melhor agora. Ele já se sente dormente, mas a mente corre com pensamentos inquietos e a bebida certamente vai resolver isso.
Entretanto, no exato momento em que o loiro se levanta prestes a ir de acordo com a segunda opção, escuta a campainha tocar. Desde a morte de Haibara, seu amigo de juventude, nunca mais recebeu uma visita sequer e não havia nenhuma entrega a caminho, então naturalmente estranhou e de cenho franzido foi até a porta, abrindo-a lentamente.
O brilho do sol iluminou a casa obscurecida por cortinas fechadas na sala em conceito aberto, que sobrevivia apenas com a iluminação artificial do lustre da copa. E em frente aos raios solares, uma mulher; a mesma jovem que se mudou para a casa em frente a dele na noite anterior com um barulho irritante de caminhão que o fez observar da janela do quarto com irritação de minuto em minuto.
Você parecia nova demais para morar sozinha, visto que o loiro não localizou mais ninguém com você, mas Kento evitou se intrometer. Devia ser só uma garota riquinha e mimada que quis sair cedo da casa dos pais – uma teoria que se mostrou levemente soberba quando você exibiu um sorriso simpático e subiu as mãos, que carregavam um bolo pequeno e bem decorado apesar de obviamente amador, já com uma fatia generosa faltante.
“Bom dia, vizinho.” Você exclamou, estendendo o bolo para mais perto do homem que se mantinha na porta como uma barreira que a impedia de observar o lado de dentro. “Espero não estar incomodando…”
“Ainda não.” Ele murmurou, olhando para o bolo com ceticismo.
“Ah, então deixa eu me apressar!” Você sorriu apesar da grosseria. “Eu me mudei ontem a noite e fui fazer um bolinho para comemorar. Mas não tenho ninguém pra compartilhar, então… Pensei em dividir, já que não vou dar conta de comer isso tudo sozinha. Então, erm, vai querer?” Disse, levantando o bolo até quase tampar seu rosto.
Os olhos castanhos dele aumentaram um pouco de tamanho. Seu bolo é coberto por chantilly branco e enfeitado com rosas tortas azuis nas laterais. Dá pra ver que foi caseiro, mas considerando o horário de sua mudança, Nanami se perguntou até que horas você estava cozinhando.
O caminhão da mudança chegou às onze. Deve ter levado horas…
E apesar da vontade imediata de negar e voltar à própria autopiedade, Nanami se forçou a pensar que era altruísta da parte dele aceitar a oferta tanto para valorizar seu esforço quanto para que se sinta bem-vinda à vizinhança.
Certamente não porque, coincidentemente, hoje é o aniversário dele e no fundo o feiticeiro desejava passar fazendo algo, qualquer coisa que fosse além daquilo que sempre fazia.
Estava exausto da responsabilidade. Da solidão.
“Certo, obrigado.” Disse, abrindo mais a porta e se movendo para o lado de maneira quase mecânica após uma pausa significativa onde sua expressão não mudou. Você apenas sorriu mais com a permissão e entrou, nada afetada pela personalidade aparentemente estóica de seu vizinho.
“Eu ia deixar o bolo todo com você, mas comer juntos é uma idéia boa.” Comentou, constrangendo levemente o homem pela suposição adiantada. Ainda assim, ele apenas acenou e grunhiu baixinho. “Que bom que tenho um vizinho tão convidativo.”
Ótimo.
Agora Nanami estava sob a pressão de, de fato, ser um bom anfitrião.
“Quer algo para beber? Suco, café?” Questionou mecanicamente, a voz e feições tão inalteradas quanto sempre, enquanto se via indo até as cortinas para abri-las. O ambiente se iluminou agradavelmente enquanto você ia deixar o bolo na mesa, fazendo Nanami arquear uma sobrancelha com sua movimentação natural.
“Um pouco de água.” Murmurou, observando-o iluminar o ambiente antes de voltar a atenção para a mesa. “Atrapalhei seu café da manhã, não é? Posso voltar outra hora.”
“Não, pode se sentar. Já volto com a água.” Ele disse, balançando a cabeça suavemente e indo até a geladeira duas portas.
Enquanto se sentava, espiou o mais velho curiosamente. “Cê tem uma casa bem grande pra quem mora sozinho.” Comentou, para o qual Namami franziu o cenho e se virou com uma jarra de água, indo pegar copos e talheres. “Algum motivo especial?”
Era tão óbvio assim que ele morava sozinho?
“Talvez o mesmo que você.” Disse, ríspido. Você nem ligou.
“Aposto que não, minha geladeira tem menos que metade da capacidade de armazenamento da sua.” Sorriu enquanto o loiro se sentava à sua frente, estendendo um prato com garfo e faca antes de despejar água no copo.
Você imediatamente começou a cortar o bolo, pronta para servir ao maior a fatia generosa.
“Acho inteligente deixar os bens adquiridos antes de formar uma família.” Ele murmurou, aceitando o prato com uma mão após deslizar a água em sua direção, omitindo o fato de que estava começando a lidar com o fato de que jamais iria se casar. “E você?”
Seu sorriso se demorou enquanto bebia a água, cantarolando.
“Hmm, você estava quase certo.” Disse, apoiando o queixo na mão. “Sempre quis ter um cão, mas eu morava em apartamento e eles precisam de bastante espaço. Meus pais jamais deixariam, então aqui estou eu.”
Nanami cantarolou, tomando a iniciativa de começar a comer.
“Não vi nenhum animal ainda.” Seu sorriso se alargou com a declaração.
“Estava espionando minha casa?” Brincou.
“Sua mudança.” Corrige com o garfo a centímetros de distância da boca. “Estava atrapalhando meu sono. Obviamente fiquei curioso e irritado.” Com isso, ele comeu, certo de que agora você quem ficaria constrangida – não foi o caso.
Nanami achou sua personalidade despojada ligeiramente irritante até aquele momento, mas então você riu suavemente apesar da crítica dele e seus olhos brilharam ao olhá-lo comer sem nem tocar na própria fatia, e a irritação se esvaiu como num passe de mágica ao perceber que estava ansiosa para saber o que ele achou.
“Justo, mudança essa hora da noite… Um saco. Acho que comecei irritando todo mundo.” Cantarolou entre risadinhas. “Mas eu acabei de me mudar, tenho muito pra organizar antes de procurar um cachorro ainda fora que primeiro preciso ver se consigo conciliar a faculdade com a mudança, claro.” Voltou ao assunto, finalmente dando a primeira garfada. “Mas e aí? O que achou do bolo, já posso abrir uma confeitaria?”
Nanami arqueou a sobrancelha e conteve os lábios para não sorrir com sua pequena brincadeirinha.
“Pode, se treinar mais um pouco. Pela aparência, não esperava que fosse chocolate amargo. Achei que ia ser dolorosamente doce.” Comentou, dando outra garfada.
“Então você é do tipo que julga pelas aparências, hein. Que feio, vizinho.” Você brincou, sorrindo ainda mais.
E pela primeira vez naquela manhã, e em um bom tempo, Nanami se permitiu sorrir também, dando de ombros.
“Pode se servir, aliás. Fique à vontade.” Ele murmurou, apontando para o lado com alguns pães, geleias, molho de salsicha, café e suco.
Você gargalhou com a visão da fartura, se permitindo pegar a jarra de suco intocada.
“Nem parece que você mora sozinho, esse café da manhã está com um clima de aniversário, isso sim!”
Nanami abaixou a cabeça, mastigando lentamente enquanto te observava se servir. Seu sorriso é radiante e de maneira quase irritante o lembra da energia de Satoru e Yuji. Ainda assim, o barulho pareceu aquecer a angústia que o percorria mais cedo e a visão se mostrou estranhamente agradável. Compartilhar café da manhã com alguém… Será que a futura esposa dele iria sorrir tanto quanto você?
“Que engraçado você comentar. Achei mesmo muita coincidência sua visita.” Nanami disse, se recostando. “É meu aniversário.”
“Não brinca!” Você exclamou, se inclinando sobre a mesa. “Meu deus, feliz aniversário, érh…’
Parou, e Kento riu anasalado ao perceber que estavam sentados à mesa compartilhando uma pequena refeição sem nem saberem o nome um do outro.
“Nanami Kento.” Em retribuição, deu a ele seu nome também.
“É um prazer e novamente, feliz aniversário, Kento. Espero não estar atrapalhando seus planos, sério. Eu vou embora se for o caso, sem problemas–” comentou, já se levantando com o prato pela metade.
E talvez fosse o prato incompleto, ou quem sabe outra coisa, que fez o feiticeiro grau um te parar tão rapidamente.
“Não.” Disse ele, olhando-a intensamente. “Eu não tenho nenhum plano e você já trouxe o bolo, então fica pra comer.”
Lentamente, você voltou ao seu lugar, o olhar torcido pela compreensão.
“Oh. Isso é meio triste.” Murmurou, para o qual Namami assentiu.
“Muito.”
“Quer almoçar comigo, então? Tenho uns pães de alho caseiro lá em casa.”
“.... Pão de alho é minha comida preferida.” Você riu com a maneira dele concordar com sua oferta.
“Ótimo, outra coincidência!” O loiro não pode evitar sorrir levemente com sua constatação.
Depois disso, o dia passou como um borrão. Você estava animada e parecia ansiosa em tornar o dia agradável para Nanami. Ele não se incomodou com sua pena e não conseguiria se ofender nem se quisesse, afinal, suas divagações deram ao loiro uma sensação aconchegante no peito. Sua culinária não era excelente, mas era boa o suficiente. O pão de alho estava gostoso e enquanto comia e te escutava divagar sobre o que planejava para sua nova casa, Nanami se viu imaginando ensinar você a receita dele.
Como amigos. Talvez não fizesse mal ter uma boa amizade novamente. O mundo já não era mais tão perigoso assim e ter uma companhia que não fosse do trabalho… Foi diferente. Foi bom.
E foi somente na hora do jantar que Nanami se viu sozinho de novo, rodeado por aquele mesmo silêncio tortuoso. O ambiente claro de sua casa bem iluminada deu espaço a cômodos escuros, alguns até vazios demais. As caixas que haviam para desempacotar na sua sala de estar e em cima do seu pequeno sofá pareceram muito mais aconchegantes que o cômodo mobiliado e polido.
Na cozinha, ele preparou o jantar e encarou a torta por alguns minutos antes de começar a comer lentamente, com garfadas despretensiosas até abandonar o prato pela metade. Depois de jogar a comida fora e guardar as panelas, Nanami abriu uma garrafa de whisky, certo de que vinho não teria álcool o suficiente para nublar a solidão, a vida da qual se privou, os amigos que perdeu e nem os traumas que a profissão rendia. Era tudo demais, então tentou se distrair no quarto lendo com a garrafa do lado e o copo no colo, aliviando os próprios sentimentos com a ardência na garganta – e por mais que odiasse admitir, a leitura era constantemente pausada por um olhar curioso para a janela que dava de frente a sua. Por algumas horas, não viu nada além de escuridão por entre a janela aberta, mas por volta das onze da noite a luz acendeu e Nanami curiosamente a observou perambular pelo quarto antes de se sentar na quina da cama, onde ele conseguia vê-la, e pareceu ficar longos minutos no celular na mesma posição, pois toda vez que ele olhava, ainda estava lá.
Por fim, irritado com o próprio comportamento intrusivo, o homem foi e fechou a própria cortina.
Na manhã seguinte, seu bolo ainda estava lá, e depois daquela também. Havia algo em devolver o apoio que o incomodava, e acabar com a fatia restante, de alguma forma, parecia errado.
Ele não sabia o porquê disso. Nem porque estava constantemente olhando na direção de sua janela por entre as cortinas – talvez pela normalidade abrupta que tão de repente veio acompanhada com sua presença? A vida dele é corrida, tinha que ser só isso, uma admiração por algo que jamais teria.
Você nunca foi pedir a base do bolo de volta e uma semana depois, começou a sair cedo de casa.
Não que ele prestasse atenção, foi só uma coincidência que o loiro estivesse indo exorcizar uma maldição bem a tempo de te ver sair de casa com uma mochila nas costas.
“Vizinho! Bom dia!” Exclamou ao vê-lo, mas não parou de caminhar. Nanami, por sua vez, parou de caminhar ao ouvir sua voz, mesmo que tivesse te visto primeiro e fingido não ver.
“Bom dia.” Acenou de volta, vendo seu sorriso aumentar por cima do ombro antes de voltar a caminhar. O homem observou sua figura se afastando por alguns segundos até sair do transe vazio e sem pensamentos reais no qual se enfiou e, balançando a cabeça, voltar a caminhar até o endereço enviado pelos superiores.
Não foi tão coincidência assim que Nanami tenha saído cedo de casa para regar cactos decorativos na frente de casa na manhã seguinte. Vê-la sair de casa e acenar despertou no loiro um novo propósito, e antes que pudesse evitar, Nanami estava regando cactos toda manhã.
Era um momento fugaz, mas que o dava mais energia para começar o dia. Uma ação despretensiosa e sem real significado além da mais pura educação e boa convivência entre vizinhos, e ainda assim, Kento começou a fantasiar.
Ele sempre quis casar e ter uma vida estável e segura. Não é como se imaginasse isso com você, claro, apenas uma amizade mais profunda, com mais visitas como aquela primeira, que lhe desse vislumbres da felicidade caseira com a qual ele sempre sonhou. Mas sem amor, ou casamento;
Afinal, você é jovem demais.
Kento se deu conta, na verdade, que não sabia sua idade. Uma coçeira se formou atrás da orelha, chata, insistente, e por um milésimo de segundo o loiro se perguntou se haveria algum documento seu dentro de casa naqueles horários em que você está fora.
Mas que idéia idiota. Ele jamais faria isso.
E naquele mesmo instante, enquanto passava as mãos calejadas no rosto em frustração, o sino da campainha soou como uma manifestação do próprio desejo internalizado, fazendo-o tensionar os ombros largos e olhar na direção da madeira com o vinho esquecido na mesa de centro.
Um segundo toque o fez se levantar com um grunhido, mas ao abrir a porta com a mesma expressão estóica de sempre, deu de cara com seu sorriso cativante e meio nervoso, como quem não sabia se era uma boa hora. Bastou para os muros que ele estava tentando subir tijolo a tijolo na própria cabeça cedessem completamente.
“Oi, vizinho!” Você o cumprimentou levantando ambas as mãos, cada uma com um recipiente verde diferente; um azeite, e um pote de azeitona. Nanami nada fez além de inclinar a cabeça e, em confusão, arquear a sobrancelha loira.
“Boa tarde.”
“Eu sei, estranho, né?” Você riu sem graça. “Ganhei isso aqui na faculdade, mas eu odeio azeitona. Cê quer?”
Só então o homem notou a única alça pendendo frouxamente em seu ombro e o suor em sua testa, sinalizando a caminhada debaixo do sol. Esticando lentamente as mãos, Nanami sentiu a mente normalmente calma e composta correr com infinitos pensamentos e possibilidades, das quais duvidava que teria tempo para sanar.
“Por que a faculdade distribuiria isso?”
“Não foi a faculdade!” Riu enquanto os dedos claros e marcados por finas cicatrizes entrelaçaram frouxamente sua mão, completamente alheia ao arrepio que percorreu a espinha do mais velho ao sentir a maciez das pontas de seus dedos e o roçar de suas unhas. “A gente reuniu uma galera pra fazer trend do tiktok, uma de tirar o nome às cegas de um chapéu, e dar algo pra essa pessoa com a inicial do seu nome. Eu caí com a Alexandra, o valor mínimo era cem reais, e ela achou muito engraçado me dar azeite porque tá caro. Palhaçada, né?”
Kento reprimiu o sorriso, apesar de não entender metade dos seus termos.
“Um presente horrível.” Concordou.
“Espero que você pelo menos faça um bom proveito! Nem perguntei se gosta.”
“Adoro azeitona.”
Você então sorriu, e algo em Nanami estalou. Parecia que estava prestes a terminar a conversa, e não é o que ele queria.
“Mas o que é trend?” Se apressou em dizer, interrompendo você no processo.
Você arqueou a sobrancelha, e seu rosto ficou em branco por um segundo. Aqueles dois segundos que ficou em silêncio sem sorrir, apenas olhando para ele como se visse através da pele e carne, fez o loiro estremecer novamente antes do coração apertar dolorosamente.
“Eu nem sei explicar…” Começou devagarinho, desviando o olhar. “É uns vídeos bobos que um monte de gente faz porquê tá na moda.”
“Entendi.” Ele acenou, parado como uma muralha à sua frente. “Você deve ser jovem…” Murmurou o mais velho, sentindo o coração bater dolorosamente rápido.
“Acabei de entrar pra faculdade. Terminei a escola ano passado.” Riu sem graça, coçando a nuca sem encarar o loiro. “Mas e você, quantos anos você têm?”
“Trinta e quatro.” Disse ele, o tom desanimado não lhe passando despercebido.
Um sentimento ruim começa a se formar no peito do homem. Insuficiência.
“Eu nunca iria imaginar.” Sorriu sem jeito, meio que tentando animar o loiro. Ele apenas franziu o cenho, então você mordeu levemente uma pelinha solta do lábio inferior. “Você não parece ter tudo isso. Não que trinta e quatro seja muito!” Se apressou em se corrigir após perceber a própria gafe, os olhos arregalados enquanto gesticulava com as mãos.
Os ombros de Kento caíram um pouco mais.
“Obrigada. Eu vou guardar isso aqui.”
“Ah, certo. Ok.” Você deu um passo para trás, certa de que havia acabado de piorar o dia do mais velho. “Tchau, foi mal o incômodo a essa hora!”
“Incômodo algum.”
Em resposta, você apenas sorriu e se virou, correndo para a própria casa enquanto Nanami suspirava pesadamente.
“Tudo isso, hein?” Murmurou baixinho para si mesmo, fechando a porta e indo guardar o azeite e a azeitona sem prestar muita atenção no caminho familiar da própria casa. “Onde diabos estou com a cabeça?”
Entretanto, não importava o que o homem tentasse dizer a si mesmo, o juízo nunca ficava muito tempo na mente nublada pelo trágico frio da existência solitária, onde a única faísca de calor, que crescia cada dia mais, eram os vislumbres de você na rua, através da sua janela e, ocasionalmente, na frente da casa dele com conversas sempre breves demais para o gosto do mais velho, que seguia se perguntando como alguém tão nova já morava só.
Ainda assim, as pequenas informações jogadas acendiam o fogo dentro dele como gasolina.
Às vezes Nanami te vê dançando sozinha em casa, quando está caminhando para alguma missão e a vê pela janela da sala. Sua música está sempre alta o bastante para ele ouvir de longe.
Seu gosto musical o agrada não porque é algo que ele escuta, e sim porque te faz mover-se tão alegremente.
Você também sempre tira os finais de semana para cuidar com mais afinco da pequena hortinha que rapidamente começou a brotar. Talvez quisesse ter uma horta maior um dia?
Às vezes Nanami tirava fotos de você caminhando até a faculdade logo cedo, ou entrando na sua casa pela tarde. Ele notou que você não saia depois disso; Seus pais provavelmente bancam sua moradia.
Mesmo com as fotos na galeria do telefone, Kento só percebeu que estava caindo em direção ao fundo do poço quando a viu sair com as amigas pela segunda vez. Sua roupa mais curta que o normal o deixou alerta e as garotas barulhentas pareciam particularmente irritantes apressando você para pagar logo o Uber pois haviam meninos esperando.
Não que estivesse tentando julgar suas amizades. Ele só achava que daria uma companhia melhor, as garotas não pareciam se importar ou estarem dispostas a cuidar de você.
E talvez fosse a vontade de prezar por sua segurança, ou quem sabe o fato de que dessa vez haviam garotos envolvidos, que fez Nanami tirar o carro da garagem logo depois que avistou o motorista de aplicativo chegar.
Ele te seguiu naquela noite e cuidou de você de longe. Dentro do carro estacionado na rua de trás, ficou olhando você sentada na frente de um barzinho. Tirou fotos do seu sorriso, mesmo que borradas pela distância, e se recostou no banco enquanto assistia como você interagia com os outros, que tipo de coisa comia, bebia e tudo enquanto ansiava estar lá com você.
Em algum momento da noite, Nanami tirou os óculos escuros e coçou os olhos escuros. Quando olhou para cima novamente, ele pôde jurar que te viu desviando o olhar da direção onde ele estava estacionado a pelo menos duas horas.
Um arrepio frio lhe percorreu a espinha. Kento ficou olhando fixamente para você por mais dez minutos antes de sair com o carro sem dar seta, tentando passar o mais despercebido possível.
“Que tenha sido apenas minha cabeça fodida…” Grunhiu enquanto dirigia apressadamente pelas ruas do centro da cidade.
Nanami não dormiu bem aquela noite. Ficou acordado esperando você chegar e depois disso, o que já era tarde pros padrões do loiro, se revirou na cama em ansiedade.
O arrependimento borbulhando contra as costelas o fez ir atrás de whisky, e o álcool entorpeceu a culpa. O sono surgiu na quinta dose, então ele dormiu no sofá.
Fazia um tempo que Kento não bebia vinho, já que não parecia mais ser eficiente. Mas a alta dose alcoólica sempre cobrava seu preço; uma dor de cabeça infernal logo pela manhã.
Por que o único momento em que não sentia vontade de se entorpecer com bebida era quando estava arriscando a vida exorcizando maldições ou falando com você?
A frustração que o consumia era pior que qualquer outro sentimento. Pior até mesmo do que a dor de te encarar voltando da faculdade naquela tarde com o medo de ter sido pego na noite anterior martelando as costelas.
Você apenas sorriu e acenou, como sempre.
A semana passou tranquila depois disso, então Nanami bebeu menos. Mas tão rápido como o pico se foi, ele voltou; parecia uma piada cruel ter que ouvir o rapaz que dizia ser seu vizinho, mas que morava longe o bastante para Kento não saber quem é, te entregando todo animado uma focaccia.
Você odeia azeitona. Porque diabos ele estava te dando algo banhado em azeite e enfeitado com sua comida menos preferida? Enquanto regava parado o mesmo cacto por uns dois minutos seguidos, Nanami sentia-se cada vez mais irritado.
Você estava mesmo rindo e agradecendo por algo que nem gosta?
“Não, sério, relaxa! O pão tá lindo, nunca comi esse tipo.”
“Espero que esteja tão bom quanto a macarronada que você me levou no outro dia.”
Um estalo ecoou no bairro, e a postura já tensa de Nanami enrijeceu tanto quanto a de uma máquina, e de maneira tão prática quanto, ele se abaixou para pegar a alça quebrada do regador de plástico antes de caminhar para dentro de casa sem nem olhar para trás, inconscientemente batendo a porta.
Você levou algo para esse cara. Os dois devem conversar. Ser amigos, talvez mais.
Os pensamentos já não pareciam coerentes.
A mão de Nanami apertou a peça já quebrada, as veias evidentes saltando ainda mais enquanto ele deixava o utensílio cair e se jogava no sofá, a cabeça doendo, o corpo tenso a ponto de estalar – Só sentiu tamanha emoção anos atrás, quando lutou com o cara dos milagres.
Todo o corpo dele ardia em chamas. Ele queria que aquele cara sumisse da sua vida, e daria um jeito de fazer isso.
Por isso as mãos estavam manchadas de vermelho.
Sob o escrutínio dos olhos castanhos, a garganta masculina quebrava como se fosse um mero lápis, manchada pela cor carmesim dos dígitos do feiticeiro. O corpo caía mole contra o chão, já sem apresentar sinais de luta. A respiração do loiro estava controlada, o olhar vidrado lentamente sendo consumido pela imensidão vermelha enquanto os dedos com unhas cuidadosamente cortadas apertavam mais e mais a garganta mole, com os ossos já quebrados em seu interior, como se quisesse reduzir a carne e todo o conjunto que a acompanha em massinha de modelar.
Kento é um feiticeiro jujutsu, é mais forte e sabe do que você de fato gosta. Ele é melhor.
Esse homem de existência medíocre não deveria ocupar um lugar em sua vida. Não quando Nanami está bem ali, querendo entrar.
Mesmo que não deva querer, mesmo que não possa jamais. Pois no fundo o loiro está dolorosamente ciente de que não importa o quanto tente sentir que faz parte da sua rotina ou o quanto gravite ao redor da maior normalidade e alegria que já sentiu em anos, teria de abdicar de tal sentimento que beira o doentio uma hora ou outra, e a lembrança dolorosa da distância entre os dois, não necessariamente imposta por ambos e sim por um código moral que parecia ficar cada dia mais translúcido na cabeça deturpada o fez voltar a si.
O corpo que jazia mole em suas mãos deu lugar aos tomates amassados enquanto o loiro piscava e respirava fundo, afastando a imagem mental e criminosa do subconsciente carente e enciumado.
Em silêncio, Nanami continuou amassando os tomates cozidos e já resfriados com a mão. Pretendia fazer o melhor molho que sabia e também colocar um pouco de si na comida que você, com sorte, comeria.
O loiro já viu entregas de pizza o suficiente na sua casa para saber seus gostos. Embora não soubesse seu sabor preferido, tinha certeza que algo tradicional cairia bem – com certeza agradaria mais do que azeitonas.
Logo o cheiro de tomate e alho permeia o ar, e as manchas vermelhas são lavadas na pia junto a fantasia de eliminar a concorrência. Enquanto montava se sentiu mais leve e ao pôr a pizza no forno foi até a sala observar a iluminação suave vindo de suas janelas, onde ficou parado, observando. Nanami se apressou quando viu a luz da cozinha acender, tremendo que você iniciasse o jantar antes dele conseguir te levar a pizza.
Antes que percebesse, para não tirar a massa crua, correu até sua casa e bateu três vezes na porta com mais força que o esperado.
Ele esperou um segundo. Então dois, três, quatro… Estava ansioso.
“Ah, Nanami.” Você diz assim que abre a porta, vendo o cabelo normalmente lambido para trás levemente esvoaçante. A visão dos olhos estreitos sem óculos lhe permitiu vislumbrar a surpresa estampada no rosto dele, que se assemelhava a sua própria em vê-lo ali. “Boa noite. Aconteceu alguma coisa?”
“Não.” Ele pigarreou, ajeitando a postura enquanto dava tudo de si para não olhar pra baixo – Você tinha mesmo que ser ingênua o bastante para abrir a porta de camisola? Sério, quem faz isso? “Só… Estava fazendo uma pizza, mas me ocorreu que eu não ia conseguir comer sozinho.” Murmurou, sentindo o coração apertar de apreensão e nostalgia.
Você bateu a porta dele semanas atrás com um discurso parecido.
“Pizza?!” Seus lábios esticaram num enorme sorriso, e o brilho em seus olhos foi capaz de iluminar todos os cantos obscurecidos da alma do mais velho. “Eu adorooo pizza! Que sorte, eu estava indo fazer comida agora mesmo. Você é tão gentil.”
A tensão deixou os ombros largos. Nanami sorriu levemente e acenou.
“Apenas retribuindo sua gentileza.”
“Ok, uau. Isso foi meses atrás!” Riu, observando as bochechas leitoras de Kento escurecem sob a luz suave de sua casa. Ele nem sequer percebeu que o tempo passou desde sua mudança, com a afeição crescendo com nada além de cumprimentos trocados. “Ou é algum motivo especial? Porque, pelo que eu saiba, meu aniversário já passou.”
Aniversário. A informação rondou a cabeça de Nanami.
“Não, só… Coincidência. Fiz muito grande sem querer.” Murmurou, para o qual você apenas balançou a cabeça, ainda sorrindo.
“Ok, eu acredito em você. Vou correr pôr um short e já vou lá, pode ser?”
“Vou deixar a porta aberta, é só entrar.” Com o consentimento do maior, começou a fechar a porta.
“Combinado, até já!” A porta então se fechou em um baque.
Nanami ficou parado por mais alguns segundos, a lembrança do seu decote e pele exposta frescas na mente. O corpo estava quente mesmo contra o vento gelado da noite enquanto, agora mais calmo, caminhava de volta até a própria casa, sendo recebido pelo aroma delicioso do jantar de vocês.
Uma rápida olhada para a mesa sem graça, embora perfeitamente limpa, o fez entrar em um pânico silencioso outra vez. O plano original era te levar a pizza, não te convidar para jantar, então tão rápido quanto possível, colocou pratos, talheres e taças uma em frente a outra. Bem quando o barulho da porta abrindo ecoou e você anunciou sua chegada, Nanami colocou vinho e suco em cima da mesa, para saciar quaisquer que fossem suas vontades.
“Tô entrando!”
“Fique à vontade.” Ele gritou lá de dentro, olhando-a se aproximando enquanto ajeitava o pano de prato.
“Ai, que cozinha cheirosa.” Cantarolou, rindo baixinho ao notar o homem parado a encarando. Sem os óculos a impedindo, pôde ver claramente as orbes castanhas descerem de seu rosto sorridente, claramente alegre por ter sido convidada, até o decote de sua camisola frouxamente enfiada em um short jeans. Nanami rapidamente desviou o olhar respeitosamente para seu rosto, fazendo-a sorrir ainda mais enquanto se dirigia até a cozinha.
Kento se repreendeu mentalmente, observando-a tirar o pano de prato da alça do forno e o enrolar na mão.
“Você está tão distraído hoje, acho que isso aqui logo queima…” Murmurou, se abaixando para abrir o compartimento.
O mais velho desviou o olhar bruscamente, evitando olhar para a amostra tentadora de suas nádegas.
“Me esqueci disso por um momento.” Murmurou, só sentindo o leve cheiro tostado quando o forno foi aberto. Não tinha passado muito. “Desculpe, posso raspar as bordinhas mais morenas.”
“Relaxa, o cheiro tá ótimo, de verdade.” O assegurou, levando a pizza até a mesa.
O coração de Nanami não conseguia distinguir se o que sentia era vergonha ou satisfação. Tê-la ali na casa dele se movendo como se tivesse o total direito de se intrometer no que ele fazia somente alimentou as fantasias que o loiro tentava tanto reprimir.
Se era tão errado, por que parecia tão certo?
“Não sou um anfitrião tão bom quanto você apontou da última vez.” Murmurou, se dando ao menos o trabalho de pegar o fatiador de pizza para você. “Estou te fazendo trabalhar quando devia estar sentada comendo.”
“Não se preocupe com isso. Eu meio que gosto de te ajudar…” Murmurou, dando espaço para Nanami cortar os pedaços.
Quando ele se inclinou, pôde sentir o cheiro masculino de loção pós barba e sabonete de frutas vermelhas. Um aroma doce e azedo. Inconscientemente, se inclinou.
“Que cheiroso… Que marca de sabonete você usa?” Sua voz, mais suave e baixa próximo ao maxilar dele, causou um arrepio agradável ao loiro, que teve de segurar o utensílio de cozinha com um pouco mais de força a fim de impedir os ombros de tremerem visivelmente.
“Kibon... Não– Minuano.” Murmurou a primeira coisa que veio em mente, evitando ao máximo reconhecer sua aproximação despretensiosa enquanto seu cheiro se tornava dolorosamente presente nas narinas agora dilatadas de Nanami.
De forma inesperada, porém, você explodiu em risadas, se afastando e se inclinando para frente enquanto ria. Confuso, o homem te encarou.
“O que, espera–" Você engasgou, respirando fracamente entre o riso. "o detergente?!” O rosto de Kento embranqueceu com a lembrança, e embora o estômago tenha se revirado em constrangimento, não pôde evitar passar a mão sobre o rosto e rir baixinho.
Sua risada é tão gostosa e cativante.
“Não, eu não pensei. É Rexona. O sabonete é da marca Rexona, quase tudo que uso de produto de higiene, na verdade…” Grunhiu, observando de soslaio seu corpo se locomover até o outro lado da mesa, embora ainda rindo levemente.
“Ah, eu imaginei! Mas os shampoos são horríveis, se eu estivesse aqui, ia te fazer usar Eudora.” Comentou, completamente alheia a forma com que o coração do loiro pulou descontroladamente no peito enquanto se sentava meio trêmulo.
Sim, por favor. Ele compraria agora mesmo por você, sem problemas.
“Nossa, está tão cheiroso! Eu comeria sua comida todos os dias, você tem que me passar seus segredos um dia.” Comentou, mesmo apenas se inclinando para se servir com o primeiro pedaço.
Estava sendo cortês demais. Nanami se viu prosperando sob sua atenção relaxada como se não houvesse diferença de idade alguma, como se ele não fosse um homem chato e sério demais para uma mulher tão brilhante como você e como se, de alguma maneira, não fosse uma união impossível.
Se soubesse como o mais velho fantasiou em viver ao seu lado, torná-lá sua esposa e te fazer conceber um filho para que fosse para sempre ligada a ele, ainda seria assim tão receptiva?
“Se me visitar mais vezes, posso te ensinar um truque ou outro.” Murmurou, fingindo não estar nem um terço tão ansioso quanto estava enquanto se servia também.
“Ah, bom saber que sou bem-vinda.” Brincou de boca cheia. Isso incrivelmente não o incomodou.
“Sempre. Sem você, meu aniversário teria sido mais um de vários passado sozinho.” Ele deu de ombros como se nada fosse, olhando-a por baixo dos cílios.
Você se curvou um pouco mais sobre a mesa, expondo mais do vão de seus seios por trás do decote profundo da camisola rendada.
“Eu salvei sua vida, então!” Provocou, vendo como Nanami engoliu um pedaço da pizza queijuda com dificuldade.
Nenhum dos dois haviam se servido com nada para beber. Estavam ambos salivando demais; talvez por motivos distintos.
“Pode-se dizer que sim.”
Você não perdeu a forma como o mais velho desviou o olhar quase que timidamente. Mas havia mais ali do que timidez. Era uma tentativa quase mecânica de controlar as próprias ações e pensamentos. Nada de bom passava pela cabeça de Nanami naquele momento; e mesmo os gestos mais românticos imaginados dentro da massa mole em sua presença, para ele, eram absurdos que não deveriam sequer ser cogitados.
Se apaixonar por uma mulher jovem, tão cheia de vida e expectativas, traria nada além de decepção.
Mas ele já não conseguia mais se conter, nem fingir que esse sentimento avassalador é apenas uma necessidade simplória de conexão entre amigos.
Nanami está se afogando em obsessão. Ele a quer não para apenas sorrir casualmente e desabafar, mas sim para compartilhar a vida, beijar, amar.
Enquanto jantavam, isso não saiu dele. O loiro pensou nisso a cada segundo, a cada mordida, querendo arrumar um jeito, uma saída, qualquer que fosse para prolongar o momento. Para te ter por perto apenas um pouco mais.
E como se vendo através dos olhos cor de avelã conflitantes, você bocejou no meio do terceiro pedaço.
“O olho foi maior que a barriga…” Murmurou, suspirando pesadamente. “O short parece que tá me sufocando, acredita?”
“Acredito.” Ele sorriu, embora tivesse parado no segundo pedaço — apenas por educação, querendo que você se sentisse livre para comer o quanto quisesse. “Não precisa se apressar. Tem um banheiro ali atrás e posso embalar mais numa marmita.”
Você apenas acenou, mas sorriu novamente, de maneira mais prolongada. Levou a mão até a boca aberta, fechou os olhos e se recostou na cadeira.
O coração de Nanami disparou. Os lábios tremeram junto às pontas dos dedos, que ele rapidamente suprimiu apertando a calça na área das coxas com força.
Você abriu os olhos, o encarou, sorriu suavemente e bocejou novamente, com força.
“Que sono. Acho que já vou. Que preguiça.” Reclamou em meio ao bocejo, e o coração já acelerado dele doeu.
Estava perdendo uma oportunidade. Não podia se dar ao luxo de ser contido – não quando havia outro pronto para pôr as mãos no que é dele.
“Tenho um quarto de hóspedes vazio.” Disse lentamente, apontando para o andar de cima. “Ninguém usa a anos, mas o mantenho limpo e sem pó. Por precaução.”
Mentira. Nanami provavelmente só limpou aquele cômodo no mês passado, quando começou a fantasiar demais com você.
Ainda bem.
“Sério? Eu moro logo na rua da frente, não é uma grande caminhada.” Tentou recusar, embora agora hesitasse para levantar da cadeira.
“Mas comeu bastante. Não precisa se dar ao trabalho de andar, está frio lá fora.” Comentou, e você estava prestes a recusar novamente; ele percebeu pelo seu franzir de cenho, como quem não tivesse certeza. “Amanhã de manhã eu te faço café da manhã.”
Seus olhos brilharam outra vez e o sorriso voltou a seus lábios, relaxado e livre de qualquer sinal dos bocejos sonolentos que dava até a pouco.
“Não entra sem bater na porta, eu gosto de privacidade.” Disse, com um sorriso tão cheio de confiança no homem a sua frente que o fez sentir dor física.
Privacidade? Isso é algo que ele vem lhe roubando aos poucos. Seja olhando através de sua janela, tirando fotos suas ou te seguindo.
“Claro. Eu jamais invadiria sua privacidade.”
Ainda assim, a mentira deslizou facilmente pelos lábios finos. O loiro não conseguiu nem se arrepender quando você se levantou num pulo alegre, recolhendo os pratos sem sequer pedir permissão.
“Vou guardar e lavar pra gente como agradecimento.” Proferiu, chegando atrás dele antes de pegar o prato vazio.
O calor de seu braço esticado bem em cima do ombro dele o fez engolir em seco, e a sensação suave e quase etérea de seu corpo roçando por um milissegundo no dele o fez prender a respiração. Nanami pensou estar sonhando quando o toque, tão leve quanto uma pena, sumiu em um piscar de olhos.
Ele não encontrou forças para negar nem agradecer, então se limitou a subir até o segundo andar e garantir que você teria um cobertor decente e mais dois travesseiros, apenas no caso de gostar de muitos.
Os dois se deram boa noite a distância depois disso, cada um em frente a sua porta. Uma distância imposta por puro respeito, pois a vontade de Nanami era de destrancar sua porta durante a madrugada e rastejar por trás de seu corpo adormecido, inalando o cheiro de sua nuca até o amanhecer.
Dormir não seria uma opção nesse cenário. Não estava conseguindo nem de longe, por apenas saber que você residia no cômodo ao lado. O homem se revirou por minutos extremamente longos, repassou a noite na cabeça, se julgou e, antes que tomasse alguma decisão da qual fosse se arrepender, abriu uma foto sua saindo de casa.
Ele não se tocou, por mais que observar seu rosto borrado na foto o fizesse lembrar da pouca modéstia que apresentou na casa dele hoje. A masturbação sempre lhe pareceu errado, não pelo ato em si, mas uma parte dele não queria cruzar essa linha imaginária como se fosse a última coisa que o separasse de ser um romântico sem salvação ao invés de um perseguidor doente.
Outra parte sabia que nunca atingiria alívio algum enquanto era tomado constantemente pela culpa, que apenas se afastava da mente nublada de paixão quando você estava lá, sorrindo e rindo como se estivesse tudo bem.
Nanami bocejou olhando sua foto, admirando seus traços borrados pelo zoom. Com um sorriso pequeno, aproximou o celular do rosto e fechou os olhos, se lembrando mentalmente do brilho que a rodeia.
Só então dormiu. E horas depois, ao acordar mais disposto do que nunca, escovou os dentes e começou a preparar seu café, como prometido.
Foi provavelmente a melhor manhã da vida dele.
Você moveu todas as estruturas do lugar, bagunçou a rotina, trouxe caos a casa quieta, organizada, e rotineira. Desceu descabelada, tropeçando no fim da escada enquanto bocejava.
“Seu zíper está aberto.” Foi a primeira coisa que Nanami falou, ignorando seu bom dia.
Você mal havia aparecido, e ele já estava sorrindo. Nanami nem lembrava que sabia sorrir tanto, por tanto tempo.
“Ah, merda. Foi mal.” Bocejou novamente, fechando o metalzinho antes de esfregar os olhos. Kento deu dois passos em sua direção, querendo se sentir fisicamente mais próximo, só para você esticar uma mão em sinal de ‘pare’. “Nem pensar! Eu tô cheia de bafo, não chega perto!”
Arqueando uma sobrancelha clara, o sorriso dele aumentou enquanto subia as mãos em sinal de rendição.
“Pode usar minha escova se um bafinho matinal te impedir de falar com seu vizinho.” Brincou, surpreendendo até a si mesmo com a facilidade que as palavras saíram.
“Bafinho? Comi um molho super alhudo, e muita cebola. Minha boca está fedendo a morte.”
Nanami gargalhou. Uma risada real e genuína.
Ele quis te beijar tanto. Desejou sentir o gosto de seus lábios amanhecidos, a domesticidade do hálito matinal compartilhado — era tão íntimo. Um sonho que parecia agora tão possível.
“Pode escovar os dentes. Não tenho nenhuma doença.”
“Você não me perguntou se eu tenho.” Provocou, rindo baixinho enquanto já se virava para seguir em direção ao banheiro.
“Creio que eu tenha mudado de idéia!” Disse alto o bastante para você ouvir, embora não pudesse ver o sorriso enorme que lhe estica as bochechas.
“Tarde demais!” Gritou de longe, sua voz ecoando pelo corredor normalmente mortalmente silencioso.
Foi tão bom.
Nanami queria preservar aquela alegria para todo o sempre. Te manter presa naquela casa e obrigá-la a deixar partes suas por todos os lugares todos os dias — pois após a entrada bagunçada, Kento ainda teve o prazer de vê-la cair deitada no sofá dele como se fosse sua cama enquanto o esperava terminar de cozinhar.
Uma das melhores partes do dia foi quando você se ligou no horário. Saiu apressada, com comida ainda na boca. Ia se atrasar, pois nem estava com roupas apropriadas ainda, e mesmo assim deu a volta na mesa e o agradeceu com um abraço. Kento nem ligou que você tinha uma salsicha pendurada na boca e mal conseguisse dizer algo; a sensação do seu abraço rápido permaneceu com ele pelo resto do dia.
Para ele foi uma grande vitória. Quem quer que fosse aquele vizinho, certamente não cozinhava tão bem quanto ele; ainda assim, iria investigar. Precisava ter certeza e garantir que sua familiaridade não fosse distribuída por aí.
Mesmo que ele te veja pegar roupas para dormir toda noite e saiba que o único dia que dormiu fora da própria casa, foi aquele.
E mesmo com tamanha alegria de compartilhar aquela domesticidade com você, nada se equiparou ao momento em que subiu para organizar o cômodo que já sabia que ficaria desorganizado.
Os lençóis ainda tinham seu cheiro, e Nanami não resistiu a se deitar na cama de solteiro repleta de você.
Ele inspirou profundamente o travesseiro que você deitou na cabeça naquela noite. Se moveu na fronha como se isso grudasse o cheiro pela própria roupa e pele. Imaginou seu corpo adormecido e vulnerável ali, esparramado bem ao lado dele.
Trêmulo, Nanami beijou o travesseiro e foi imediatamente invadido por aquele sentimento que dói demais sentir, porque não havia o alívio de seus lábios nos dele, de seu carinho, de seu amor.
Ainda assim, era a dor mais gostosa do mundo. O loiro choramingou na casa vazia, se pressionando mais forte contra as evidências de sua estadia ali, na casa dele.
Dói demais. Ele precisa de mais de você. Não aguentava mais.
Talvez se provasse uma vez só a cama que você dorme toda noite sentisse algum alívio maior. Talvez só faltasse se sentir mais perto — você já está na vida dele. Kento só quer estar na sua também.
{...}
Os dias seguintes passaram como um borrão. Sua dinâmica com ele mudou, passando de comprimentos sorridentes para conversas mais extensas pela manhã antes de você ir pro ponto, e às vezes até reclamações sobre o dia na volta pra casa.
Nada disso supria a necessidade crescente dentro do peito do loiro, quem com muita delicadeza deslizava o dedo pelo telefone enquanto encostado do lado da janela de casa, com apenas uma fresta da cortina aberta. Ele olhava fixamente para fotos suas, observando seu rosto borrado com saudade.
Nunca pôde tirar uma foto que não fosse assim, borrada e distante. Não deveria nem mesmo tê-las, mas parecia mecânico tirá-las e se via incapaz de excluí-las depois. Faltando dois minutos para o horário em que você sempre aparece perto de casa, Kento repensou sobre as próprias atitudes e suspirou profundamente, deslizando para a próxima foto. Você sorria grandemente, dava pra notar pelo borrão branco em meio ao seu rosto, e o coração dele disparou com a lembrança da ocasião.
Nanami tirou essa foto na última vez que você saiu com as amigas, observando-a de longe. Todo o ambiente era escuro, com seu rosto mal iluminado por luzes amareladas.
Naquele dia você estava tão feliz. O coração de Nanami acelerou.
Isso estava errado.
Pigarreando, ele deslizou o dedão até o botão de excluir. Não deveria se permitir sentir isso; não por você. Não assim.
O coração doeu. Sua voz soou em sua cabeça e ele fechou os olhos, clicando no ícone de lixeira. Um pop-up de confirmar apareceu, mas por baixo das pálpebras Nanami somente enxergou seu olhar, aquele que o fazia esquecer o que era solidão e trabalho.
Abriu os olhos e com os dedos trêmulos, negou a solicitação, voltando imediatamente atrás na própria decisão silenciosa. Olhou para o relógio, suspirou e virou-se para a janela entreaberta – essa dor é tão mais suportável assim. Esse hábito ruim pode ficar se ele nunca fizer nada com isso, certo?
Nanami jamais se forçaria para cima de você. Ele só está se auto consolando. Se alimentando de migalhas.
Sim, só isso.
Então uma foto a mais não faria mal. Apenas um pequeno consolo privado para os sentimentos imundos… Adquirido de ações imundas. Onde ele está com a cabeça?
Franziu o cenho com o aplicativo da câmera aberto e já com zoom aplicado. Você logo correu pelo seu lado da calçada fazendo o coração apertado dele afrouxar como num passe de mágica, interessado demais no porquê de sua pressa no dia de hoje para se preocupar com a própria imundice.
Você logo deu um pequeno tropeço no chão e cambaleou para frente, se equilibrando rapidamente. Os lábios até então estreitos do mais velho se contraem numa fina linha curvada para cima, e o olhar angustiado, embora ansioso, suavizou numa calmaria alegre com tão pouco.
A mão dele, porém, ainda estava erguida com a câmera apontada em sua exata direção, embora absorto demais na sua rotina para lembrar de clicar no botão de captura.
Talvez você não estivesse ciente disso quando olhou ao redor curiosamente, quase como se analisasse se alguém viu esse pequeno momento constrangedor, apenas para passar o olhar por ele e então voltar rapidamente com a esclera levemente arregalada.
Seus olhos se cruzaram, e o coração do maior errou uma, duas, e então várias batidas. Parecia que o sangue havia parado de bombear e um zumbido agudo tomou conta dos ouvidos do loiro enquanto você apertava mais forte a alça de sua mochila de ombro e, em silêncio, mas ainda o encarando, dava um passo para trás.
Não, não. Por favor, não.
A mão dele que segurava o celular abaixou imediatamente, e antes que Nanami pudesse correr pela porta para se explicar, você olhou ao redor novamente e então sorriu.
Tudo nele doía.
Então você se colocou de lado.
Ele engoliu em seco.
Você girou a parte superior do corpo, empinando levemente.
Nanami piscou, confuso.
E então subiu uma mão, fazendo sinal de paz próximo às bochechas com um sorriso radiante. Posando.
Para ele.
{...}
Enquanto olhava para aquela foto em alta definição tirada de você, o loiro sentia a cabeça girar. Não entendia o que houve, e tão pouco porque de seu gesto. Ele tirou aquela foto apesar do momento estranho, mas agora se sentia entorpecido.
Uma sensação similar a quando se sabe que está prestes a enfrentar o pior mas saber que não há nada a ser feito, então apenas aceita a dor da impotência e se permite chafurdar no sentimento.
“Ela vai ligar pra polícia.” Ele murmurou, sabendo que excluir a prova que ela o deu não adiantaria de nada. Gemeu, agoniado, então jogou o celular pro lado do sofá e jogou a cabeça para trás no encosto. “Merda.”
Suspirou, ignorando a ligação de Itadori.
Nanami não saiu de casa pelos próximos dois dias.
“E aí, não vai trabalhar não? Sentimos sua falta Nanamin!”
“Vou tirar uns dias em casa para resolver umas coisas. Trabalhe uma vez na vida.”
“E eu achando que já tinha feito muito matando o Sukuna :p”
Kento não respondeu a última mensagem de Satoru, nem estava incomodado com os descontos que viria em seu holerite.
Ele estava esperando a desgraça acontecer. A polícia bater na porta dele, ou pior, você vindo tirar satisfação. Quão azarado se sentiu quando, no terceiro dia, alguém bateu na porta e não havia ouvido carro nenhum estacionado por ali….
“Bom dia!” Você sorriu assim que Nanami abriu, olhando o rosto caído e cabelos levemente desgrenhados. “Uau, primeira vez que te vejo desarrumado. Não está dormindo bem?”
Ele inclinou a cabeça, confuso. Você está… Normal?
“Não muito.” Murmurou baixo, rouco, analisando-a como um falcão.
Você não pareceu perceber.
“Por que?”
Estava tirando sarro dele? É algum tipo de piada?
“Trabalho.” Ele deu de ombros apesar de tudo, incapaz de ser aquele que admite a própria podridão.
“Aconteceu algo? Vi que você não saiu pra trabalhar esses dias, imaginei mesmo. Ai eu te trouxe pão de alho…” Murmurou, e só então ele notou o pote em suas mãos, segurado bem em frente ao umbigo.
“Oh, só… Estresse. Mas não precisava, eu nem–” Pigarreou, se impedindo de dizer que não merecia tal cuidado. Que não merece nada de bom vindo de você.
“Eu imagino. Seu trabalho não parece ser fácil…”
“Não é.” Ele, de certa forma, esperava mais perguntas. Questões intermináveis, julgamentos coerentes, acusações. Tudo e qualquer coisa.
Mas você não apontou o dedo, nem perguntou mais sobre o trabalho dele, aparentemente entendendo que ele não estava a fim de elaborar. Apenas subiu o pote de maneira semelhante à primeira vez, quando o ofereceu bolo, e sorriu quase tristemente.
“Espero que isso te anime. Você gosta de pão também, não é? Podemos ir naquela padaria da ru–”
“O que você está tentando fazer?” Kento a interrompeu bruscamente.
“Como assim?” Riu anasalado, confusa.
“Isso tudo. Esse teatro…”
“Teatro? Que teatro? Eu só–”
De novo, a interrompeu. Dessa vez, Nanami bateu a porta na sua cara.
O coração dele fervilhava. Não por raiva de você, mas de si mesmo por se colocar nessa situação. Sentia-se quase humilhado, como se não tivesse ligado para a polícia ou comentado sobre por pura pena.
Como se sequer o considerasse digno de ser tratado como uma ameaça.
Não que fosse. Não, jamais seria. Mas era tão frustrante.
Você nem bateu na porta. Ele se encostou nela, respirando fundo, e no fundinho esperando que pedisse por favor, vamos conversar. Me explique o que aconteceu!
Mas você provavelmente tinha entendido. Sabia. Devia saber.
E devia, claro, estar brincando com o coração do vizinho velho e carente de afeto, pois nada fez além de se afastar em silêncio e não bater na porta dele novamente naquele dia, como quem já o tivesse punido o bastante.
Nanami voltou a trabalhar no dia seguinte, pesado e ansioso, matando maldições com mais brutalidade que eficiência, querendo de toda maneira extravasar o que sentia.
“Você está diferente.” Megumi apontou ao vê-lo esfaquear pela quarta vez o rosto de uma maldição já morta.
“Estou normal.”
“Não está.”
“Frustrado.”
“Depois de ficar quase uma semana em casa?” O Fushiguro apontou, arqueando a sobrancelha enquanto desviava de um projétil.
“Problemas pessoais.”
“Tem a ver com aquela garota que Gojo-sensei viu você olhando no telefone mês passado?”
A espada pesada do loiro voou, passando de raspão pelos cabelos escuros de Megumi e acertando um crítico no centro da cabeça do besouro deformado que voava na direção deles reunindo sua gosma corrosiva, fazendo a criatura grande cair de uma vez no chão, morta.
As veias de Nanami saltavam sob sua manga arregaçada, a testa pulsando em irritação.
“Você não devia escutar as fofocas dele.” Nanami grunhiu, passando a mão pelos fios loiros perfeitamente alinhados antes de afrouxar a gravata. “Nem se meter na minha vida. Diga a Satoru para manter a merda dele pra si.” Rosnou, caminhando por Megumi e tirando a arma da maldição sem nem olhar para trás, tão claramente irritado que o feiticeiro mais jovem nada fez além de dar de ombros e suspirar.
Não eram tão próximos, mas Yuji realmente gostava de Nanami e estava preocupado com ele ultimamente. E se Yuji se preocupa, Megumi passa a se importar.
E Nanami conhece o moreno apenas o suficiente para saber que devia resolver isso. Estava tomando proporções irreversíveis e não queria mais ninguém se metendo na vida privada dele, principalmente com isso significando…
Ele já estava te perdendo silenciosamente. Não queria lidar com todos sabendo dos sentimentos que ele nutria cuidadosamente por debaixo de solo infértil.
Por isso que, no primeiro sábado que surge, ele bate na sua porta logo pela manhã.
“Nanami?” Você questiona, quase surpresa, e então sorri. “Quer dizer, bom dia. Tudo bem?”
“Vim me desculpar pela última vez.” Ele comenta rapidamente, tirando as palavras da garganta antes que elas entalassem de uma vez por todas. “... E bom dia.”
“Eu te perdôo por bater a porta na minha cara e negar meu presente especialmente feito para animar você.” Arqueou uma sobrancelha de maneira brincalhona, o que só o fez franzir ainda mais a loira e olhar para o chão.
“Eu não te entendo.” Murmurou, tentando decifrar suas falas e ações.
Porque não o julgava? Não tentou tirar dele uma satisfação sequer? Isso o estava deixando ansioso. E mesmo assim, mesmo com o olhar cabisbaixo e em conflito, você permaneceu em silêncio, deixando as dúvidas dele crescerem, mas o sentimento brotar.
“Eu posso… Compensar? Ainda há perdão?” Murmurou quietamente, devagar, olhando lentamente para seus olhos outra vez como se esperasse que você entendesse que o pedido ia além de fechar a porta na sua cara.
“Ainda não tomei café da manhã.” Seu sorriso se alargou, fazendo o peito dele vibrar.
“Não fiz despesa nesses dias.” Nanami pigarreou, endireitando as costas com a sensação de arrepio lhe correndo a espinha. “Posso ir na padaria comprar algo.”
“Vamos juntos.” Você murmurou, dando um passo para fora e já fechando a porta atrás de si.
O loiro não teve tempo de pensar, negar ou reagir. Você pegou na mão dele e o guiou para fora da frente de sua porta, quase que nada afetada pela confusão de sentimentos que ele lhe apresentava dia após dia. Sua mão estava quente e apertada. Apertada demais.
Nanami sorriu um pouco, perguntando a si mesmo se na verdade você não teria sentido falta dele também. E então ele apertou sua mão de volta.
{...}
A ida até a padaria foi tranquila, e a escolha também. Você disse que ia comprar algo pros dois também, e embora Nanami não tivesse a intenção de te deixar pagar por nada, assistiu você pegar o que queria com um sorriso suave.
“Quer misto quente?” Ele perguntou, alcançando o pão. “Eu faço um muito bom.”
“Então eu faço pão de queijo para mais tarde!” Disse, indo alcançar os ingredientes.
O coração dele acelerou. Ele tiraria o dia de folga para fazer o pão de queijo para você – e passar o dia com você.
Talvez suas ações signifiquem que queira isso, certo? Os dias sem contato talvez a tenham deixado especialmente nada discreta em se infiltrar na vida dele.
Algo nisso o fez relaxar. Se sentir menos errado, menos criminoso. Como poderia, quando você chegava com a sobrancelha arqueada falando que iam passar a manhã toda escolhendo coisas com a demora dele? Nanami não diria que acabava te olhando por tempo demais.
A alegria dele, porém, logo foi sugada pela atendente normalmente simpática do balcão. Ela sorriu como sempre ao vê-lo, acenando.
“Bom dia, Kento! Já faz um tempo.” A morena disse, já esticando a mão para pegar as coisas da mão dele. Nanami entregou de bom grado, oferecendo-a um aceno educado.
“Bom dia. Realmente, andei ocupado recentemente.”
“Suas olheiras estão maiores. Deve ter trabalhado horas extras essa semana.” Ela riu baixinho, fazendo-o se forçar a sorrir.
Não foi nada assim.
“Muitas.” Mentiu, olhando por cima do ombro como se para averiguar se você estava perto para ouvir; não queria mentir na sua frente, é tão pouco explicar algo para aquela mulher. Para sorte dele, você virou a curva do caixa com queijo parmesão na mão logo na hora, sorrindo de maneira despreocupada.
“Achei!” Exclamou, seu olhar pousando na atendente bem na hora que Nanami virou o rosto e a viu inclinar a cabeça, confusa.
“Ah… Ela é sua parente?” A morena continua sorrindo, embora de maneira hesitante quando você chega perto demais de Nanami e segura a mão dele com o olhar fixo no dela.
Kento olha para suas mãos entrelaçadas e engole em seco. Talvez seu contato repentino enquanto colocava o parmesão no balcão o tenha balançado por tempo demais, pois não teve tempo de responder antes que a mulher continuasse.
“Você nunca me disse que tinha irmã mais nova. Mas sei que não tem filhos nenhum.” Ela insistiu, rindo levemente como se para amenizar o clima.
Irmã mais nova? Filha?
O peito dele doeu. Claro que você seria obviamente mais nova, mas a comparação aos ouvidos dele pareceu quase acusatória. Ainda assim, ele permaneceu composto, inalterado, e apenas balançou a cabeça em negação.
Queria falar algo, mas as palavras ficaram presas na garganta.
Somos só vizinhos?
Amigos?
Algo mais? Não poderia ser. Não são, e como explicar que uma garota quase, se não 15 anos mais nova, é seu interesse amoroso?
Ele seria nojento não só aos seus olhos, mas ao da atendente também, que fofocaria pros vizinhos, e então Gojo descobriria e logo todos os feiticeiros do país–
“A gente nem se parece.” Sua voz afiada cortou qualquer pensamento que o estivesse sufocando, fazendo-o só então notar o quão forte sua mão o apertava.
As mãos dele formigam pelo estresse, quase entorpecidas, mas conforme ouvia sua voz notava como suas unhas estavam fincadas na palma dele de maneira quase… Dolorosa.
“De-desculpa, eu não quis presumir, eu só–”
“Tudo bem.” Não parecia estar. Não com esse tom rude; olhando para baixo, pela primeira vez o loiro viu algo além de um sorriso acolhedor em seu rosto. Estava olhando a atendente da padaria friamente, com o cenho franzido e os lábios trêmulos. “Nossas compras, por gentileza.”
Apontou para os itens, fazendo a mulher imediatamente começar a bipar.
“Eu só conheço o Kento muito bem, sabe, ele vem aqui toda semana a anos e a gente conversa muito–” A mulher começou a se explicar, fazendo Nanami olhar para a parede enquanto sentia silenciosamente sua palma o apertar ainda mais. Sim, agora definitivamente estava doendo. “Ai eu sei que ele não tem filhos e é solteiro…” O dito homem olhou a caixa, vendo as bochechas rosadas dela enquanto a dirigia um olhar estranho. Ela então o olhou e sorriu, e isso de alguma forma o incomodou. “E como você parece muito nova, me perguntei se–”
“Não é profissional da sua parte presumir coisas.” Dessa vez, foi Nanami quem a cortou.
Dessa vez, sua mão doía tanto quanto a dele. Ao notar seu próprio aperto ficando ainda mais na palma dele, Nanami imediatamente afrouxou, somente para sentir sua unha ainda fincada na palma com a mesma intensidade e seu corpo chegando ainda mais perto.
Assim, ele pode sentir seu calor emanando. Sua raiva fervilhando.
Com a intervenção dele, porém, aquele olhar e sorriso estranho da atendente sumiu. Ela ficou pálida, baixando o olhar e passando o último item.
Talvez ele tivesse dado sinais errados todos esses anos. Ainda assim, não era desculpa para a forma como ela olhou diretamente para você com algo próximo demais de julgamento ao pronunciar o valor da compra.
“Cento e sessenta e quatro e oitenta e seis.”
“Débito.” Nanami deu um passo à frente, pronto para discutir se você insistisse em pagar sua parte, mas talvez pela raiva nada fez além de se colocar atrás dele e esperar, largando as mãos marcadas do mais velho e cruzando os braços.
A atendente podia ver a maneira como seu olhar escureceu a encarando fixamente. Notou também as marcas em forma de meia lua na palma de Nanami, quase profundas o suficiente para sangrar.
Engoliu em seco e não disse mais nada. De cabeça baixa, escutou o bip da máquina de vendas antes de o ouvir ensacar tudo. O silêncio foi opressor, e só quando Nanami se virou e esperou por você começar a andar que ela se permitiu olhar para cima.
O loiro carregava todas as sacolas, e quase como que para fazer inveja você olhou por cima do ombro e sorriu.
Mas algo no seu olhar a fez sentir algo além da humilhação pelo ocorrido com a paixão que sentia por ele. Um frio na espinha.
A mulher do pôde desejar ter coragem de pedir demissão para nunca mais os ver.
No caminho de volta, porém, Nanami estava confuso. A mão dele estava ardendo por sua causa, e ainda assim… Você estava a dois passos de distância, sem segurar na mão dele. Muito diferente do caminho até a padaria, então sim, o incomodou.
“Tudo bem?”
“Sim.”
Ele apenas cantarolou, não querendo pressionar.
“Vou fazer tudo rápido. Demoramos um pouco.”
Você apenas cantarolou, sem elaborar. Ele sentiu o coração apertar em agonia. Havia feito algo de errado? Iria piorar se ele perguntasse?
“Não vou trabalhar hoje.”
“Bom pra você.”
Os ombros dele tencionaram, a mão apertou o amontoado de sacolas mais forte. Ele franziu o cenho e se calou, andando mais rápido.
Toda a raiva pela má resposta evaporou quando, na porta da casa dele, você se aproximou devagar e em silêncio o ajudou a segurar algumas sacolas para que ele pudesse pegar as chaves dentro da carteira no bolso da calça.
Os dois não foram feitos para estarem juntos. Ainda assim, quando sente seu toque tudo que Nanami consegue sentir é o desejo inelutável de mais.
É fácil viver sem algo que não se conhece. Difícil ficar sem algo que passou a conhecer e, pior, se viciar.
Por isso o loiro se viu lutando uma batalha silenciosa sozinho, incapaz de elaborar por medo da fragilidade do que havia entre os dois, mas disposto a tudo por mais daquele toque quente e apertado, mesmo quando o estava machucando. Por isso tomou, pela primeira vez durante todos esses meses, a iniciativa de lhe tocar.
Uma mão pesada apoiada em seu ombro ao passar, um toque fugaz na cabeça para dizer que o misto estava pronto, braço colado no seu para servir suco antes de se sentar… E apesar de você sorrir educadamente e o responder como sempre, algo parecia fora do lugar.
Nanami temeu ter perdido a primeira batalha até o momento em que você riu de algo no celular e apontou para ele, falando animadamente sobre coisas que ele não entendia. Ele sorriu. Valeu a pena.
E quando se levantou e pegou seu prato por você, sentiu um puxão na blusa creme e imediatamente cedeu, suspirando baixinho ao sentir seus lábios tocando o maxilar dele num beijo casto e rápido o suficiente para nem sequer doer as costas.
O loiro não se importaria de ficar curvado naquela posição por horas sentindo seus lábios.
“Estava uma delícia! Mas tenho um trabalho para finalizar, eu volto de tarde pra fazer aquele pão de queijo tá bem?”
Ele apenas acenou, assistindo-a levantar com os pratos ainda em mãos. As bochechas estavam quentes, muito quentes. E então você sorriu suavemente e riu baixinho, murmurando algo que ele não entendeu ao se colocar na ponta do pé e o beijar na bochecha.
“Agora sim. Tchau, até depois.” Murmurou contra a pele quente do mais velho, deixando-o de coração acelerado para trás enquanto saia.
Se tivesse feito algo errado, talvez também tivesse conseguido consertar. Que bom.
Pela primeira vez, mesmo após sua partida, seu cheiro impregnado no nariz dele o impediu de se sentir solitário. Nanami fez os pães de queijo sorrindo largamente, lavou a louça com propósito e leu um livro como um adolescente, parando a cada dois parágrafos para sorrir com uma lembrança sua.
Quando a ouviu bater na porta mais tarde naquele dia, ele mordeu o lábio inferior e olhou a palma marcada. Valeu muito a pena… Até que não valeu mais.
Ele não te viu no domingo e se sentiu entrando em abstinência de notícias suas. Você não estava em casa desde antes do horário em que costuma acordar e isso despertou nele um burburinho irritante e preocupado.
Onde estava? Com quem estava?
Seu cheiro não o abençoou naquele dia, sua presença estava longe de ser vista e as fotos só o deixavam mais ansioso. Essa ansiedade é do tipo que dói, que o faz querer rasgar as almofadas e bater em algumas maldições. E assim ele o fez.
Mas na segunda, nada de você ainda. Estavam tão próximos. Porque você ficaria com ciúmes e o beijaria na bochecha tão ternamente, somente para sumir?
Estava mesmo apenas brincando com os sentimentos dele? É uma sádica sem coração?
Doía que, mesmo se fosse, Nanami estivesse apaixonado a ponto de só desejar te entreter um pouco mais. Tudo para não se ver engolfado pela solidão usual que, agora que sabe como é quando preenchida por você, não consegue mais suportar.
Por isso, às dez da manhã, pouco antes do horário combinado para ir exorcizar sozinho maldições que assombravam um hospital em reforma na cidade vizinha, Nanami decidiu arriscar ao menos levar consigo uma lembrança sua.
Algo para não enlouquecer de saudade, apesar do pânico persistente por seu sumiço.
Devia ter ido dormir na casa de alguma amiga. Mas da última vez que o fez, ele ao menos a viu saindo de casa com ela.
Antes que pudesse se conter, Kento sentiu os pés gravitando até sua porta. Trancada.
Ele desfaz o ferro que segurava um de seus bonsai no pequeno jardim lateral dizendo a si mesmo que o colocaria no lugar em breve, e então o torce e usa para destravar sua casa. Não foi nem difícil. Ele anota que devia cuidar melhor de sua segurança.
Sua casa estava cheirosa. Parecia limpa e cheirava a algo doce e azedo. Um cheiro amadeirado mas também… De frutas vermelhas. Bom, mas não era nada como você. Indo mais fundo, Nanami disse a si mesmo que devia se apressar, mas não pôde evitar ir checar sua louça, seu lixo e sua despensa. Queria tanto garantir que você estava cuidando bem de si mesma, embora ele tivesse certeza de que poderia ajudá-la.
Quando viu, estava no seu banheiro, passando o dedo sobre as cerdas de sua escova com saudade e abrindo a gaveta para ver o que você tinha. Seus gostos para maquiagens, acessórios; tudo. Ele só queria aprender mais sobre você.
Por isso também que entrou em seu quarto. A busca por algo descartável que o fizesse sentir que mantinha uma conexão com você poderia ter acabado antes, naquele cesto com roupas com o cheiro de seu perfume combinado ao seu suor, mas a curiosidade falou mais alto.
Logo Nanami estava em seu quarto, profanando seu espaço ao inspirar profundamente os lençóis de sua cama. E ele ali, semanas atrás, dizendo a si mesmo que jamais faria isso… Mas seu lençol cheira tão bem. Pena que, ao levantar a cabeça, ele sentisse o cheiro daquele perfume de casa de frutas vermelhas no ar. Era mais forte aqui em cima.
Ele ajeitou sua cama e olhou para a cortina. Sentiu algo estranho na nuca, uma… Apreensão. Medo de ser pego.
Mas o coração estava estranho. Aquele cheiro… Familiar. Dando uma inspiração mais profunda, franziu o cenho. Era meio masculino, e isso o fez se ajoelhar na frente da sua cama meio irritado.
De quem? É familiar. Seria o cheiro daquele vizinho da última vez?
Nanami grunhiu, sentindo seu aroma no lençol antes de, irritado, fechar os olhos e puxar o cheiro do ar ao invés da cama, puxando na memória de onde o conhecia enquanto curvava a nuca para trás até o rosto estar completamente para cima durante sua fungada prolongada.
Ele então foi inundado pela compreensão. Abriu os olhos de maneira repentina, e a imagem de si mesmo que evocou na cabeça quase tomou forma.
Nanami engasgou levemente ao arregalar os olhos com o coração batendo absurdamente rápido. Aquele sentimento estranho piorou, mas não havia volta agora.
Que porra é essa?
{...}
O suor que escorreu por sua testa e umedeceu sua blusa não a impediu de continuar correndo. Sua panturrilha ardeu nesse ponto; não é como se estivesse longe, mas a pressa a fez pôr tanta força na corrida que até seu pulmão ardia.
Quando virou a rua, imediatamente o viu ajoelhado no seu jardim mexendo em algo. A esperança floresceu em seu peito.
Se fossem um mal entendido e fosse vista correndo de maneira estranha, explicaria depois. Acelerou, chegando perto, e então o viu se levantar e olhar para trás, estático.
A apreensão fez seus olhos se encherem de lágrimas. Tentou forçar um sorriso, mas ao parar na guia e inspirar fundo, pôde ver melhorar a cara séria de Nanami. Ele limpou as mãos na calça e começou a caminhar.
“Nanami–” Disse, sentindo a garganta seca pinicar. Engoliu a própria saliva, respirou fundo. O pulmão ardeu e ele passou reto.
O ar que havia acabado de inspirar saiu de uma vez, e lágrimas imediatamente começaram a brotar.
“Nanami!!” Repetiu, olhando pras costas dele. Ele estava indo em direção a própria casa, e você até tentou dar um passo à frente, mas sentiu as pernas moles e parou, se esforçando para ao menos conter a cara de choro.
Ele não respondeu. Sua cabeça começou a latejar. O loiro pisou na área da garagem, e então você se virou em direção à própria casa.
A ficha não tinha caído. Não podia aceitar a derrota.
Apertou a maçaneta, vendo que a porta estava destrancada. Claro; você sabe que trancou. Nunca teria esquecido.
Suas lágrimas borraram qualquer coisa que havia tentado ver ao abrir a porta com as mãos trêmulas, mas ao fechá-la e apertar os olhos com força, soluçou. Escutou atrás de si o barulho agudo do que provavelmente era o carro do mais velho saindo em alta velocidade da garagem, e então começou a cambalear pela sua sala.
Foi direto pro seu quarto, onde a porta estava escancarada.
“Merda, merda, merda– porra!” Gritou, entrando no cômodo e vendo as provas da invasão de Nanami. As provas contra você. “Você não tem o direito de ficar bravo comigo!! Não tem, não tem! Merda!”
Exclamou, caindo no chão e se engatinhando até a cama, onde abraçou os itens jogados sobre ela e se viu soluçando com a mera idéia de ter o empurrado para além do concerto.













