Como observamos cada vez mais no Brasil, as redes sociais podem servir de articuladoras para a ocupação de espaços livres da cidade. Desde eventos artísticos como o sketch crawl até manifestações políticas, todos os eventos sociais têm um paralelo na rede que funciona como lista de presença. Dado esse fato e, depois dos estudos de caso, fica claro que o caminho para retomar a rede internacional de computadores para o povo é operar dentro dela e subverter sua ordem corporativa. Hoje em dia a Internet tem vários espaços de discussão e interação com pouca ou quase nenhuma vigilância, como por exemplo o Reddit, o 4Chan e a Deep Web além de inúmeros foruns e portais livres (como é o caso no Megafone). Nesses espaços, exatamente pela falta de vigilância, desenvolve-se todo tipo de atividade subversiva, o que os torna mais próximos da realidade da sociedade como um todo. Esses espaços são pouco conhecidos do grande público por que eles não se vendem, não se oferecem a você: os usuários que têm que busca-los e normalmente o fazem para se expressarem sem o risco de serem vigiados, catalogados (como fazem as grandes empresas de redes sociais) e censurados. Esses são espaços que ainda não foram territorializados na internet, e que portanto, têm potencial para serem ocupados por aqueles que também ocupam espaços livres na cidade.
No entanto, para acessa-los, é necessário ter, no mínimo, um device com acesso a internet. Sobre isso, Beiguelman diz:
"[…]operar no interior e através dos seus vetores de midiatização passa pela recusa das retóricas publicitárias de uso das redes, mas não pela negação pura e simples do consumo. Como deixou claro o estudo de Néstor Canclini, as novas tecnologias de comunicação expandiram a noção de cidadania, incorporando práticas de consumo no seu exercício (Canclini, 2008).
O direito de acesso a internet ilustra bem essa relação, abrangendo a necessidade de uma série de bens, que vão desde a disponibilidade de redes elétricas e largura da banda de tráfego dos dados, passando por programas e aplicativos, até o equipamento pelo qual se faz a conexão. Equipamento esse que é cada vez mais o dispositivo móvel, sugerindo que, hoje, o sujeito social exculído é o imóvel." (pp. 265-266) Essa questão sempre foi um dilema neste trabalho, pois o objetivo era atuar fora da lógica capitalista, mas o próprio exercício da civilidade hoje em dia exige que a pessoa tenha consumido um produto do capital. Esperar o contrário, no entanto, seria embarcar numa busca quixotesca. Para projetar algo que funcionasse, era necessário levar em consideração a realidade. Escolhi então trabalhar com algo que já faz parte da realidade dos habitantes da cidade: as microtelas. As informações seriam armazenadas num código que até os modelos mais simples de dispositivos móveis conseguem ler: o QR Code.
Optou-se então pelo desenvolvimento de um portal que poderia ser acessado através de QR codes espalhados por diversos espaços livres de São Paulo. Cada espaço terá seu subportal diferente que só poderá ser acessado de lá e onde as pessoas possam compartilhar registros de momentos que passaram lá. Para hospedar o portal, utilizei a plataforma tumblr como hospedeira, pois é a que oferece a maior liberdade de postagem, seja pela possibilidade de postar em anônimo, seja pela ausência de censura de conteúdo.
O desenvolvimento do projeto se daria, portanto, nas seguintes etapas: - Diagramação das telas do portal - Programação e hospedagem - Aplicação dos QR Codes nos espaços em uma técnica fácil de ser executada e razoavelmente resistente a intempéries.
As preceptivas do projeto e sua própria execução apontam para uma analogia a cultura de arte de rua. Os registros postados na timeline dos portais se assemelham com os os pixos em que o autor registra seu nome e a data em que o fez, ou ainda com os escritos de parede de banheiro em que se lê "fulano esteve aqui". Essa última inscrição é que inspira o nome do projeto. A arte de rua é essencialmente manual, com técnicas de lambe-lambe, por exemplo, datando do século XIX. O projeto TAVAQUI, ainda que encorpore algumas técnicas de arte rua como o próprio lambe, é uma intervenção interativa através de tecnologias modernas. Porém, o projeto visa a reapropriação e transformacão das relações das pessoas no espaço, o que também é uma característica da arte de rua, que se apropria da massa construída e a transforma em suporte para trabalhos de arte. A proposta de ser uma rede social parasitária também é análoga a clandestinidade do graffiti, parasiteario dos prédios e uma expressão proibida de pessoas que de outro modo não teriam voz. De um certo modo, podemos afirmar que o pixador é o hacker da cidade pós-moderna e vice-versa.
Para construir a identidade do portal, eu defini, portanto, dois pre-requisitos de projeto obrigatórios: - As páginas deveriam ter desenho simples e leve, para agilizar o acesso através de dispositivos móveis que utilizam conexões de internet instáveis; - A linguagem deveria lembrar a da arte de rua, mais especificamente a do pixo.
A partir disso, fiz uma pesquisa de algumas tipografias de pixação e testei várias possibilidades. Observei que a letra "Q" podia ser desenhada de forma a lembrar as marcações de lugares utilizadas em mapas online e incorporei isso ao projeto, adotando o Q como pictograma.
Para escolher os espaços onde eu iria intervir, primeiro considerei fazer um grande levantamento de espaços públicos em São Paulo, mas isso se provou trabalhoso e infrutífero. Resolvi então primeiro aplicar o projeto em espaços que eu já conhecia por experiência pessoal e possibilitar que os usuários pudessem sugerir outros lugares.
`espaços públicos atendidos pelo projeto até agora









