☕ O EMPODERAMENTO FEMININO NA CULTURA POP
Por Vitória e Rebeca Castelo Branco
Em um mundo estruturado há séculos para a figura masculina ser a peça central da sociedade, não é de se espantar que isso acabe sendo refletido também na cultura pop, cujos personagens homens ganhavam continuamente destaque em histórias, enquanto a imagem feminina era constantemente desvalorizada e vista apenas como meras coadjuvantes.
Além de que o homem sempre foi enaltecido sem a necessidade de explicação, certas vezes por motivos até questionáveis, ao mesmo tempo em que a mulher era julgada mesmo tendo a mesma narrativa do bonitão, como se primeiramente tivesse que merecer tal papel de destaque. Portanto, é extremamente necessário ter pontos de referência do empoderamento feminino em filmes, livros, séries e etc.
Sendo assim, nós do Literalândia, tomamos a liberdade de escolher quatro personagens femininas eternamente dignas do nosso enaltecimento:
DAENERYS TARGARYEN, A KHALEESI
Foto: Divulgação/HBO
❝ Eu vou pegar o que é meu, com fogo e sangue.❞
Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) é uma inesquecível personagem da série de livros “As Crônicas de Gelo e Fogo”, de autoria do ilustre escritor George R. R. Martin, e da sua adaptação para a telinha no formato da série “Game Of Thrones”, na rede de televisão por assinatura HBO. A Khaleesi, como também é conhecida, não teve um começo de vida bem-afortunado: a sua família foi quase toda dizimada, com exceção da jovem e do seu irmão Viserys, que conseguiram fugir para Essos, após a Rebelião de Robert, que pôs fim a secular dinastia da Casa Targaryen em Westeros.
Exilada em terras estrangeiras, Daenerys precisou ser resiliente para conquistar os recursos necessários a fim de retornar à sua casa e recuperar o Trono de Ferro. Consequentemente ela passou por muitas tribulações, como ser perseguida por incontáveis assassinos e vendida veladamente por Viserys, contra a sua vontade, em troca da aliança de Khal Drogo, o líder dos Dothraki. Seu irmão mais velho tinha delírios de grandeza e acreditava veementemente que ele era o verdadeiro dragão da profecia, mas após a sua morte, o protagonismo finalmente se revelara ser da nossa rainha, pois segundo as suas próprias palavras "o fogo não pode matar um dragão".
❝Passei a vida em terras estrangeiras. Tantos homens tentaram me matar. Não lembro de todos os seus nomes. Eu fui vendida como uma égua parideira. Fui acorrentada e traída. Estuprada e desonrada. Você sabe o que me manteve de pé durante todos esses anos de exílio? Fé. Não em deuses. Não em mitos e lendas. Em mim. Em Daenerys Targaryen. O mundo não via um dragão havia séculos, até os meus filhos nascerem. Os dothraki não tinham cruzado o mar. Nenhum mar. Eles cruzaram por mim. Eu nasci para comandar os Sete Reinos. E vou comandar.❞
A solidão da Khaleesi é evidenciada ao longo da sua história, que se tornara a única sobrevivente herdeira da Casa Targaryen (ela não tinha mais uma “família com quem contar nos tempos sombrios” como as outras casas de Westeros), além de perder seu marido e seu filho, que nem chegara a ver a luz do dia, em um evento extremamente traumático. Só lhe restara então os seus dragões (Drogon, Viserion e Rhaegal), cujos ovos petrificados foram chocados em um dos momentos mais memoráveis da sua trajetória: quando Daenerys entrou em uma pira de fogo, em uma representação de magia antiga, comprovando que ela sim era o verdadeiro dragão.
❝ Eu não sou uma mulher comum. Meus sonhos vão se tornar realidade.❞
A sua jornada como heroína ou anti-heroína para alguns, transparece como é difícil ser mulher em um mundo dominado por homens, que muitas vezes são tratadas como meros peões no jogo deles. Ela se tornou então um grande exemplo de força feminina em uma realidade totalmente desfavorável. Daenerys conquistou gradativamente seu lugar de direito no mundo e também seus seguidores, como os dothraki e os escravos de diversas regiões, e formou o seu próprio círculo familiar com Sor Jorah Mormont, Missandei e Verme Cinzento.
Ao contrário do que tentaram transmitir em seus atos finais na série de televisão, ela é detentora de um belo caráter altruísta e é exatamente o oposto de uma ditadora. Um dos seus sonhos era exatamente construir um mundo mais justo, e demonstrou isso ao libertar inúmeros escravos de seus cativeiros e punir os seus opressores, além de dar a liberdade de escolha a eles de segui-la ou não, sendo também conhecida como a quebradora de correntes.
❝ Lannister, Targaryen, Baratheon, Stark, Tyrell... São apenas raios de uma roda. Ora um está por cima, ora o outro, mas enquanto rodar, o que há embaixo é esmagado... Eu não vou parar a roda. Eu vou quebrá-la.❞
Vale ressaltar que a Casa Targaryen, cujo maior símbolo são os imponentes dragões, não os considerava somente como meros instrumentos de guerra, mas possuem um forte vínculo com eles, devido a sua linhagem valiriana (o que eles costumam chamar de “sangue de dragão”). Inclusive as famílias do Império Valiriano eram habituadas a realizar casamentos entre irmãos, a fim de preservar tal linhagem sanguínea pura. A jovem, por sua vez, considerava Drogon, Viserion e Rhaegal como os seus próprios filhos e destacava que eles eram os únicos filhos que ela teria (já que ela se tornara estéril), tornando-se conhecida também como a icônica “Mãe de Dragões”.
❝ Um dragão não é um escravo.”
Daenerys Targaryen é mais do que uma personagem, é a realização do anseio de inúmeras mulheres de se sentirem finalmente representadas em um mundo cujo protagonismo quase sempre foi entregue de “mãos beijadas” aos homens, principalmente em obras de alta fantasia. Nossa Mhysa pavimentou, de certa forma, o caminho para mais personagens empoderadas na cultura pop, e será uma eterna fonte de inspiração sobre feminismo, resiliência, genuinidade e determinação. E por isso ela é inspiradora.
Honestamente, é impossível não se apaixonar por tudo o que ela representa, sonhar os sonhos dela e sofrer com ela. Confesso que a minha Khaleesi sempre será a minha personagem favorita e nunca existirá alguém como ela pra mim (chorando de emoção aqui). Recomendo que você se permita apaixonar-se (assim como eu) por Daenerys Targaryen, A Primeira de seu Nome, Nascida da Tormenta, A Não Queimada, Mãe de Dragões, Khaleesi do Grande Mar de Grama, Quebradora de Correntes, Rainha de Mereen, Rainha dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Senhora dos Sete Reinos e Protetora do Reino…
HERMIONE GRANGER, A BRILHANTE
Foto: Divulgação/Warner Bros
Hermione Granger é uma personagem da série de livros “Harry Potter”, escrita pela autora britânica J.K Rowling. O sucesso da trama deu origem a oito adaptações cinematográficas produzidas pela Warner Bros. A atriz Emma watson teve o privilégio de interpretar nossa querida bruxinha, e fez isso de forma excepcional. Granger chegou a ser considerada a melhor personagem feminina de cinema de todos os tempos pela The Hollywood Repórter em 2016.
O que seria de Harry Potter e Rony Weasley sem Hermione Granger? Exatamente, nada! Filha de pais não bruxos, ela sempre soube seu valor e nunca se menosprezou por ser uma nascida-trouxa. Hermione em diversos momentos da saga comprovou ser forte perante as dificuldades, invicta dos seus valores e fiel aos seus amigos, sendo um exemplo de lealdade.
Você deve estar se perguntando, onde ela demonstrou todas essas características? É interessante pensar que ela estava inserida em uma sociedade bruxa tradicional, onde Elfos domésticos eram tratados como propriedades e ainda existia preconceito contra aqueles que não tinham em sua família uma linhagem inteiramente de bruxos.
No quarto livro da saga, O cálice de fogo, a bruxa demonstra seu ativismo quando cria o FALE (Fundo de Apoio a liberdade de Elfos), depois de ver como as criaturas eram maltratadas. Seu principal objetivo era dar a eles uma vida digna, condições de trabalho decentes, um salário justo e fazer com que fossem representados no “Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas”. Infelizmente este fato não está presente nos filmes, porém é essencial citarmos para entender um pouco mais a personagem, levantando atitudes que demonstram o seu caráter.
❝ É Hermione, das bruxas da sua idade você é a mais inteligente que eu já conheci!❞ (Remus Lupin)
Não se engane em achar que ela era só uma garota “certinha” e inteligente, Granger quebrou inúmeras regras, realizou feitiços proibidos, viajou no tempo, participou da Armada de Dumbledore e liderou a invasão ao banco de Gringotts, tudo isso para ajudar seus amigos e lutar por aquilo que acreditava. Em relíquias da morte ela foi capturada pelos seguidores de Voldemort e torturada por Bellatrix Lestranger com a maldição Cruciatus, uma das maldições imperdoáveis. Mesmo após esse evento ela ainda demonstrou forças para desenvolver um plano, se disfarçar, ir a Gringotts e roubar uma horcrux.
Graças a inteligência da jovem bruxa o trio de amigos resolveu diversos problemas durante toda a saga. Sua personalidade única, seu jeito confiante, o fato de ser esforçada e dedicada, além de sempre buscar expor sua opinião e defender seus princípios, são características que fazem ela se destacar e ser tão especial.
A escritora J.K Rowling disponibilizou no site Wizarding World uma lista de todas as vezes que a nossa bruxinha gostou de quebrar as regras. Você pode acessar esse conteúdo clicando aqui.
LAGERTHA, A ESCUDEIRA
Foto: Divulgação/History Channel
❝ Eu nunca fui o usurpador, sempre o usurpado.❞
Lagertha (Katheryn Winnick) é uma personagem icônica da série histórica de televisão “Vikings”, idealizada pelo produtor e roteirista Michael Hirst a partir de pessoas reais, e transmitida pelo canal por assinatura “History Channel”. Ela é supostamente inspirada na figura homônima da vida real, que foi uma guerreira viking (também conhecida como “skjaldmær ou skjaldmö”, como eram chamadas as escudeiras na mitologia nórdica) e governante do que atualmente seria a Noruega. Ela também é apontada como a primeira esposa do famoso viking Ragnar Lodbrok.
❝Ladgerda, uma surpreendente e bem preparada skjaldmö que, como mulher, teve a coragem de um homem, lutando na frente entre os mais corajosos, com o seu comprido cabelo sobre os ombros. Todos se surpreendiam com as suas proezas insuperáveis, pois seus cabelos descendo pelas costas denunciavam a sua condição de mulher. ❞
A donzela de escudo é inicialmente apresentada no seriado com muitas similaridades à sua contraparte, mas com algumas modificações na sua narrativa, é claro. Ragnar Lothbrok (Travis Fimmel) é o seu marido, com quem teve um filho chamado Björn (Alexander Ludwig) e uma filha nomeada Gyda (Ruby O’Leary). No princípio, eles eram simples exploradores e guerreiros nórdicos, mas Ragnar sempre desejara ser e ter algo a mais, e a sua ambição os levaria a um título de mais prestígio, como o domínio do vilarejo de Kattegat.
O pobre Ragnar desejava ter muitos herdeiros para prolongar o seu legado, assim como fora prometido pelo oráculo de Kattegat, entretanto a sua mulher se tornara infértil, frustrando seus planos. Então ele teve a brilhante ideia de tomar a princesa Aslaug como a sua segunda esposa, sem o real consentimento da amazona, sendo motivo de muitos conflitos com Lagertha. Ela se sente extremamente humilhada pela falta de consideração do seu companheiro e decide ir embora com seu filho Björn, deixando-o para trás.
❝ Uma verdadeira rainha não precisa de um rei.❞
É bom lembrar que diferente da realidade de muitas mulheres de outras culturas da antiguidade, a figura feminina viking é retratada no seriado como detentora de alguns direitos básicos, como o divórcio, herança e propriedades, assim como era mais independente e autossuficiente do que as demais européias (mas ainda assim estava longe de ser o melhor cenário).
A valquíria então embarca mais uma vez em sua jornada pessoal porque ela é a autora da sua própria história, enfatizando que ela era livre para viver do jeito que sonhava e não era obrigada a se diminuir para caber no mundo de um homem e satisfazer os caprichos dele. Ao longo dos anos, ela foi se tornando cada vez mais influente além de conquistar títulos e propriedades, mostrando que ela é a rainha dos nossos corações.
❝ Você e eu sabemos que o resultado desta batalha já foi decidido. Mas não pelos homens. Pelas outras mulheres que tecem nossos destinos.❞
Ela é um grande exemplo de empoderamento feminino, que busca a igualdade social, manifestando o fato de que homem nenhum possui o direito de determinar a forma que as mulheres devem viver, muito menos limitar suas capacidades e tampouco cercear sua liberdade de escolha. Lagertha também é um modelo de sororidade a ser seguido, visto que, ela sempre se mostrou respeitosa e empática com as suas semelhantes. E por isso ela é inspiradora.
NAIRÓBI, A MATRIARCA
Foto: Divulgação/Netflix
❝ Que comece o matriarcado!❞
A série “La Casa de Papel” é considerada uma produção de sucesso da Netflix, e se tornou um fenômeno, não apenas por oferecer muita ação e reviravoltas instigantes que deixam o público entusiasmado, mas por conter personagens cativantes, sólidos, divertidos e bem estruturados em suas próprias narrativas. Entre eles, mulheres fortes e cheias de si.
Nairóbi (Alba Flores), é a ladra que roubou o coração de milhares de fãs e se tornou para muitos a queridinha do público. A personagem traz uma história comovente, onde conta que nunca teve uma família estruturada, engravidou de um namorado quando era adolescente e acabou sendo abandonada por ele. Com uma criança para criar e sem enxergar outras opções, ela decide entrar para o mundo do crime, o que resulta na perda da guarda do seu filho.
A criminosa se destacou em diversos momentos se mostrando uma líder nata, fonte de encorajamento para o grupo de assaltantes, além de ser uma boa amiga. Entre as suas habilidades está o fato dela ser uma exímia falsificadora que consegue criar cópias perfeitas de tudo o que se possa imaginar.
Foto: Divulgação/Netflix
Nairóbi é uma mulher que não tem medo de demonstrar seus sentimentos, que nos ensina que para amar é preciso ter coragem, e isso é demonstrado quando em um momento honesto da série ela diz amar Helsinki e ter o desejo de se casar com ele. Além disso, ela é uma personagem que apesar de ser uma criminosa passa uma mensagem importante para as mulheres sobre a importância de apoiarmos umas às outras.
Foto: Divulgação/Netflix
Podemos ver isso em diversos momentos da série. Um bom exemplo é quando na primeira temporada Nairóbi dá conselhos sobre autoconfiança a Alison Parker ou quando durante o treinamento para o assalto no Banco da Espanha, Tóquio confessa se sentir culpada pelo sequestro de Rio, mas a amiga a lembra que ela é uma mulher livre para tomar suas próprias decisões, deixando claro que ela não era obrigada a permanecer naquela ilha contra sua vontade.
Foto: Divulgação/Netflix
❝ É livre para ir em uma festa, é livre para sair de uma ilha e é livre para sair do planeta se quiser.❞
Outro momento marcante da personagem é quando ela volta ao local da fundição, após sua cirurgia no pulmão, e acaba encontrando o trabalho estagnado, o motivo era que a equipe e os reféns estavam com medo pois Gandía estava solto. Então, a personagem faz menção a uma realidade presente no cotidiano de muitas mulheres:
❝ Sabe o que dá muito medo também? Andar sozinha de noite na rua. Mas nós, mulheres, seguimos em frente. Pegue o medo pela mão e continue vivendo. Porque temos que viver, senhores!❞
Se vamos falar de empoderamento feminino temos que citar esta personagem incrível, que mostra como o apoio de outras mulheres tem um significado vital em uma sociedade machista e impregnada de estereótipos. Em seus discursos motivadores ou em seus conselhos, Nairóbi nunca deixou de expressar sua opinião, sempre demonstrando e exercitando sua autoconfiança. E por isso ela é inspiradora.
ATÉ MAIS!
Fiquem ligados porque em breve iremos trazer mais exemplos de empoderamento feminino na cultura pop! Se cuidem!










