Na madrugada do último domingo (4), a empregada doméstica Sandra Maria dos Santos Queiroz, 37, começou a sentir contrações.
Negra, nordestina, pobre, empregada domestica.
Veio para São Paulo, deixou seu filho com sua mãe.
Não estudou.
Lava privada que não é dela, lava e passa roupas que nunca poderá comprar, cozinha comidas que, talvez, nem saiba nomear.
Dorme em um casa que não é dela, lá nos fundos, depois da máquina de lavar.
Nunca mais viu o seu filho.
Os anos se passaram e mais um filho veio.
Pai? É dispensável, segundo ela. Foi o que aprendeu com a mãe, que a mãe aprendeu com a vaó, a avó com a bisa e assim segue o andar.
E, para tentar aliviar o peso dessa vida tão sem sentido, foi ao forró, no seu dia de folga.
Lá encontrou o Jota.
O Jota aprendeu com o pai, que aprendeu com o avô, que ouviu o bisavó falando que mulher, quando é fácil, não precisa de respeito.
E entre uma cerveja gelada e um forró bem arrochadinho, dançaram muito mais que isso e nem lembraram que seria bom, naquela hora, ter uma camisinha.
Meses depois da farra, descobre que está grávida.
Lá para a Bahia vai metade do seu salário, o seu filho que já está com 17 anos, precisa dele.
A filha que vive com ela, na casa da patroa, está com quase 3 anos e a outra metade do seu salário é para ela.
E esse filho do Jota? Com que fração ficará?
Não houve pré-natal.
Nenhuma consulta se quer.
Enjoo, dor nas costas, pés inchados, sonolência, azia e falta de ar, ela com certeza teve durante os longos 09 meses que escondeu sua gravidez de todos, enquanto cuidava da filha e de toda uma casa que não era dela.
E foi banheirinho dos fundos, quieta, sem gritar, que teve sua filha sozinha.
Limpou o chão, lavou os panos, limpou a bebezinha e a amamentou.
Escolheu uma sacola e rezando para que ela não chorasse, saiu sem rumo.
Escolheu uma arvore, deixou a sacola ao pé dela e ficou escondida esperando que alguém o acolhesse.
Foi o que aquele porteiro-anjo fez.
Depois disso, ela foi julgada, acusada, procurada, xingada e, se bobear, será linchada.
Sandra Maria dos Santos Queiroz, 37 anos, empregada doméstica de um condomínio de luxo na Rua Pernambuco em Higienopolis, foi presa na quarta-feira dia 07/10 por ter abandonada sua filha na rua.
Desde então eu penso nela, nos filhos dela, na filha dela, quase que continuamente.
Me sinto culpada, por aceitar com naturalidade a posição patroa-empregada, o quartinho dos fundos, o homem que não se importa por ter gerado uma vida, o filho de 17 anos que vive longe da mãe, a filha que cresce na casa da patroa, a carência, a ignorância, a falta de Fé.
Não a julgo, me entristeço.
“Desespero!” – e assim ela explicou.
Gostaria que ela voltasse para a Bahia, levando com ela dinheiro no bolso, a vontade de recomeçar, suas 2 filhas no colo e seu mais filho a lhe esperar.
Ela também tem 3.
“Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser.” J. Goethe










