Avistei o mais belo Doppelgänger, e ele ria olhando pra mim. Nosso sorriso era tão belo, e nossos olhos conquistadores não mentiram hora nenhuma, mas ao se encontrarem no reflexo causaram um certo tipo de paralisia. Ele me disse todas as coisas das quais estávamos cansados em nós mesmos e das quais gostaríamos de mudar. Eu disse “nós mesmos”?. “Esse reflexo ainda é nosso mas nós dois sabemos, nós sentimos, você não se encaixa mais nele”. Seria isso, uma expulsão? Nossos olhos não deixaram que eu terminasse a pergunta, e então eu me calei quase sentindo seu dedo tocar minha boca e dizer “shhhh, todos morremos inúmeras vezes durante a vida”.
Dizem que avistar um Doppelgänger é sinal de mal agouro. Problemas familiares, doenças, morte, etc. O tipo de coisa que não queremos para nós mesmos. Não é? Não sei, há tanta coisa a se tirar de renascimentos, e é simplesmente tão bom ver o sol nascer de novo, e perceber que o tempo passou, e que você se sente bem consigo e de novo ouve o som dos pássaros, ou se emociona ouvindo Cazuza. De novo esconde as lágrimas no fim daquele filme de comédia romântica que, com uma artimanha do destino, usa a única música que você não aguentaria ouvir sem chorar como trilha sonora. De novo deseja, de novo ama.
Me pego franzindo a testa. Nos estudos da linguagem do corpo, a testa franzida demonstra rancor, insatisfação, raiva. Disse a mim mesmo que não franziria a testa a todo momento mais, mas aqui estou. A testa franze, os olhos começam a se mexer de um lado para o outro cada vez mais rápido e de forma inconsciente: - Cale a boca, você não sabe o que fala - Minhas mãos começam a se apertar... - E por acaso Ele sabe? - Me falta ar, e deixo vazar um longo suspiro... - Não, e nem Eu, por quê não deixamos de ser hipócritas? - Não, eu não deveria começar de novo... - Essa é a Nossa natureza, não se lembra? Ser hipócrita - Não, eu não me odeio, eu não te ode... - A Sua, Meu papel aqui é outro. - Mas eu não consigo me acalm... - Então diga o que deveríamos fazer, gênio - Minha respiração se acelera, meu pulmão pede um cigarro, um arrepio me sobe a coluna - CALEM A BOCA -... uma lágrima me desce o olho. O ódio me enche a boca de sangue, e o reflexo me encara enquanto um filete desce pelo canto da boca. Respiro fundo, me permito chorar, me permito recrudescer, me permito descer até onde consigo e como um orgasmo, sou atacado por extrema apatia quando não tenho mais nada no estômago.
Não sei consumir o ódio depressa, meu estômago é uma merda, preciso comê-lo aos pedaços. Também não é disso que quero me alimentar, por isso deixei de franzir a testa atoa. Mas enquanto mudo minha dieta sou obrigado a admitir: O assassinato deu certo. Não ouço os pássaros, não vejo as cores. Ainda ouço ao fundo “Do que que vocês estão rindo? O que que vocês estão olhando? Eu sei que estou fedendo, eu sei que estou apodrecendo..”. Continuo me esforçando em renascer, e tem dado certo, admito minhas vitórias, mas quem aqui guarda o ódio ri de escárnio de nós dois. Carrego em mim todos meus doppelgängers, e suas projeções me seguem nos reflexos das vidraças dos bancos, no reflexo da televisão, do computador, do espelho do banheiro e do meu quarto, até mesmo no escuro reflexo daquele colar de hematita. Alguns personagens subiram mortos ao palco, outros morreram lá, tente manter fixo os olhos nos que ainda permanecem em pé.