The white wall | Descrição
A pintura cenográfica “Almagre” desenvolvida em 2005 na Ilha de Santa Maria, Açores para as comemorações do dia da Região Autónoma, explorou a ideia da “capacidade de uma superfície pintada interagir com um público”. A opção estética encontrada passou por fazer acompanhar “o andamento” da referida cerimónia por um “jogo” de feixes de luz de intensidade variável sobre uma superfície pintada. Esta experiência permitiu desenvolver o conceito de “pintar com luz”. Com “The bright side of the moon”, exposição realizada em 2007, deu-se continuidade ao conceito através do elemento sombra / luz, dando-se especial relevo à relação formal entre o volume e a luz, abrindo caminho para o desenvolvimento do conceito associado á materialização do “tempo” enquanto unidade de medida. Em 2005, com “Boa viagem“, explorou-se as ideias anteriormente apresentadas, acrescentando-se o “texto escrito” enquanto elemento visual e sua relação com o contexto onde está inserido o trabalho.
A orientar a nossa atenção para as relações formais entre os fenómenos estéticos resultantes de condições ambientais e físicas, o projeto THE WHITE WALL, deve ser interpretado como um processo criativo, transitório e experimental que aprofunda “linhas de pensamento” fundadas nas problemáticas inicialmente desenvolvidas a funcionar como ponto de partida para projetos a desenvolver no futuro.
Com este projeto pretende-se explorar o conceito da capacidade de uma parede transfigurar-se, as problemáticas da sombra / luz enquanto “unidade de medida temporal” e a construção / desconstrução da mensagem enquanto conteúdo estético.
De acordo com referências espaciais de natureza física, ao movimentarmo-nos num espaço, estamos a ser condicionados ao nível do comportamento. Esta questão leva-nos a procurar entender o conceito de parede enquanto superfície arquitetónica “viva”, sua relação com o espaço envolvente e implicações sensoriais junto do espectador. Exercendo-se de forma diferenciada consoante a natureza dos espaços – território, espaço público ou espaço particular, THE WHITE WALL adapta-se às diferentes envolvências graças à sua natureza modular.
Ao interpretar-se a ideia de tempo como elemento resultante da interação entre a luz, superfície do trabalho, o espaço envolvente e o espectador, deve-se referir que à semelhança do que acontece na lua, em que a luz solar é refletida pela sua superfície e durante a lunação, a parte iluminada apresenta-se com vários aspetos, consoante as posições relativas do Sol e da Lua em relação à Terra, a superfície de THE WHITE WALL reage do mesmo modo, refletindo diferentes intensidades de luz, como um organismo vivo, dependendo unicamente das fontes de luz naturais ou artificiais existentes no local. A funcionar como um meio, a superfície de THE WHITE WALL comporta-se plasticamente como uma “pele” que tudo recebe e que tudo devolve sendo marcada por duas características principais associadas à sua vocação plástica: A tridimensionalidade / irregularidade dos elementos horizontais ou verticais e o tratamento cromático da sua superfície (brancos e cinzas) e cor de parede envolvente.
Em presença de espaços arquitetónicos de características cromáticas diferenciadas, e confrontando esta variável com a necessidade de interpretar a parede como continuação formal do trabalho, o branco surge como uma escolha central para a superfície do trabalho não só pela sua neutralidade, capacidade acrescida em refletir luz, sua vocação expressiva e leitura poética.
A privilegiar a visão, THE WHITE WALL usa a luz como material pictórico exaltando os seus reflexos profundos que absorvendo essa mesma luz, a devolve transformada pela persistência do uso e do tempo. Coando a luz por camadas, a superfície promove uma relação tácita entre clareza e e obscuridade desenvolvendo um diálogo subtil entre sombras de leitura dinâmica e temporal. De forma idêntica, o visível é feito de barreiras com fragmentos de significados que se desmontam pela vontade de quem as quer ver, reinventando abordagens impregnadas de emoção e razão.
Com um baixo-relevo composto por lâminas horizontais ou verticais de altura variável ( 2 – 5 cm.), a tridimensionalidade existente na pintura promove o conceito de desconstrução / construção da mensagem através do posicionamento do espectador em relação ao trabalho e funciona como um catalisador de luz, refletindo-a e filtrando-a de acordo com os feixes de luz existentes no local devido aos diferentes ângulos e intensidades de incidência da luz sobre a sua superfície. De igual modo, a irregularidade das lâminas em sua presença permite acrescentar novas propriedades plásticas à superfície, neste caso o elemento sombra composto por uma sucessão de umbras e penumbras simetricamente opostas ao elemento luz.
Considerando o trabalho no seu todo como um sistema de valores coerente, compete à composição organizar e hierarquizar uma leitura que desenvolva um objetivo estético por parte do espectador através de elementos visuais de natureza e forças diferentes. Além das questões anteriormente abordadas como relações de espaço e gestão de leitura do trabalho a ideia de módulo relaciona-se também com a necessidade de organizar a composição através da justaposição de três grupos de elementos distintos – ao nível do contraste claro / escuro, ao nível do desenho geométrico / orgânico e ao nível do formato global da superfície e sua relação com o espaço envolvente. Em presença de variáveis arquitetónicas e ambientais, tornou-se importante por forma a estabilizar as várias soluções compositivas, sobrepor uma geometria sombreada sugerida pelos limites dos módulos à organicidade das linhas de luz / sombra resultantes dos elementos laminados.
Associado à sua dimensão, a composição da pintura estrutura-se através de 25 módulos de 70 X 70 cm, perfazendo uma dimensão de 350 X 350 cm. na sua versão maior. Com estas características pode-se explorar “outras paredes” (como se de um puzzle se tratasse) de formato e dimensão diferenciadas, bastando para isso reordenar a disposição dos referidos módulos, respeitar a relação de escala, as características dos pontos de luz existentes e a função a que se destina o espaço. A referida funcionalidade do trabalho enquanto capacidade interventiva (sentido poético) da mensagem no meio, pode-se incorporar na sua superfície através de textos ou imagens pintadas que em sintonia com o projeto descrito, acrescentem novos significados / significantes aos problemas iniciais. Esta questão, (a ser aprofundada em projetos futuros) coloca um problema de fundo relacionado com a força literária relativa do elemento de primeiro plano, estando sujeita ao desenvolvimento de uma “escrita” visual de compromisso com todos os restantes elementos visuais.
THE WHITE WALL desenvolve duas variantes distintas relativas à sua composição e mensagem independentemente do formato geral do trabalho destacando a primeira um conceito temporal, desprovido de elementos de primeiro plano, minimal e repetitivo de formato variável orientado de forma horizontal ou vertical, a partir do quadrado, retângulo e triângulo. Esta solução explora como elemento principal a Luz / sombra e apropria-se de forma direta da parede onde está instalada usando-a como um elemento integrado no seu sistema de valores. De outro modo, a segunda solução destaca o conceito de construção / desconstrução da mensagem, com elemento visual isolado e identificável a funcionar como um “ponto de tensão”, remetendo todos os restantes elementos para segundo plano. Este elemento visual de primeiro plano depende da natureza do texto / forma e sua capacidade de ganhar novos significados / significantes consoante o contexto onde está inserido.
A explorar a ideia em que o espectador deixa de estar perante o objeto artístico e passa a estar dentro do próprio, o projeto exposto promove o “tempo” através de uma mutação visual junto do recetor e sua emoção anexa. Em presença de um espaço arquitectónico de interior público composto por três pisos, dois dos quais relacionados através de duas mezaninos simétricos e um passadiço aéreo a reforçar um eixo central composto por um alçado de parede de grandes dimensões, THE WHITE WALL, garante uma continuação lógica do espaço, pontuando-o e reforçando-o, impondo uma relação de escala e redefinindo “um centro”. A existência de vários níveis / sub níveis e ângulos de visão a partir das mezaninos, passadiço e escadas de acesso, permite ao espectador dispor sobre a pintura diferentes ângulos de visão, privilegiando uma extensão do próprio carácter do local e reforçando um entendimento do lugar.
Dados técnicos
Title : the white wall Dimension : 350 X 350cm. (25 modules – 70 X 70cm.) Technique : primary enamel over a mixed technique. Place : Atalhada Date : 2007
Exposição realizada a 22 Dezembro, 2007 | Atelier EA+ | Galeria | travessa do colégio | ponta delgada | açores | ▶ Trabalho
Fontes / texto:
“A Arte Atualizada no Espaço-Tempo Real e no Tempo-Espaço Cibernético: Diferentes Qualidades Perceptivas”. – Anna Barros “O Conceito de Tempo na Física” – Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada. “O Tempo na Física” – Henrique Fleming “O Conceito de Infinito na Filosofia Monista” – Pedro Orlando Ribeiro “Artes do Espaço: Arquitetura/cenografia” – Gabriela Gonçalves “O Elogio da Sombra” – Jun’ichiro Tanizaki
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