Não sei como cheguei aqui.
Só sei que cheguei. E não me orgulho disso.
Lembro-me de ter começado a me perder há uns anos. Mas, como qualquer pessoa inocente, apenas imaginei que seria coisa de adolescente.
Cá estou eu, finalmente na fase adulta, e numa versão piorada de mim.
Não sei como cheguei aqui.
Só sei que cheguei. E não sei como sair.
O buraco aqui dentro é como se fosse um buraco negro, nunca se satisfaz com nada.
Ele se alimenta da dor. Dor essa que aumenta gradativamente, independente das minhas vontades.
Grito. Grito no silêncio; no escuro; e ninguém parece me ouvir.
Já pedi ajuda inúmeras vezes, mas, como um cartão de crédito sem limite disponível, ela foi recusada.
Não sei como cheguei aqui.
Só sei que cheguei. E cada dia que passa, pioro.
Pioro porque não acredito mais em amizade, família... não acredito mais em mim.
Pioro porque o desprezo, a importância, o sentimento de culpa, nunca saem de dentro de mim.
Não sei como cheguei aqui.
Só sei que cheguei. E o monstro responsável por isso, não quer ir embora.
Mas, isso não importa. Como ele mesmo me disse: “não importa o que você pensa”.
Ele diz que não sou capaz de conseguir nada, e que todos os meus sonhos e desejos não serão realizados, simplesmente porque não mereço.
Não mereço ter nascido; não mereço o meu emprego; não mereço viver (muito menos sobreviver).
Não sei mais o que fazer.
E, enquanto isso, a dor, o buraco, o monstro, apenas crescem.