Linguagem culta x linguagem coloquial
Por: Carolina Valentim Carvalho.
A língua é um código utilizado para comunicação entre os falantes. Há duas modalidades da língua, ambas executadas em diferentes contextos comunicacionais: linguagem culta e linguagem coloquial.
A linguagem culta segue rigidamente as normas gramaticais. É encontrada em textos formais, principalmente nos textos não-literários. A norma culta é normalmente associada ao nível cultural e social do falante: quanto maior o nível de educação, maior o uso da língua padrão. Quando escrevemos um texto é muito importante que utilizemos a norma culta, ou quando fazemos uma entrevista de emprego, ou vamos conversar com alguém com cargo superior em nosso ambiente de trabalho.
Já a linguagem coloquial é aquela que usamos em nosso cotidiano, quando o nível de formalidade é menor (com nossos familiares, amigos, vizinhos, dentre outros). No uso da linguagem coloquial (ou popular), não existe a preocupação com a norma padrão, sendo assim muito comum o uso de gírias, de palavras de baixo calão, uso de palavras regionais, estrangeirismos, cometer erros de concordância, de forma muito espontânea. Essa forma de linguagem é comum no dia-a-dia das pessoas em qualquer idioma.
Vamos usar como exemplo a crônica do escritor Luís Fernando Veríssimo:
A História Mais ou Menos
“Negócio seguinte. Três reis magrinhos ouviram um plá de que tinha nascido um Guri. Viram o cometa no Oriente e tal e se flagraram que o Guri tinha pintado por lá. Os profetas, que não eram de dar cascata, já tinham dicado o troço: em Belém da Judéia vai nascer o Salvador, e tá falado. Os três magrinhos se mandaram. Mas deram o maior fora. Em vez de irem direto para Belém, como mandava o catálogo, resolveram dar uma incerta no velho Herodes, em Jerusalém. Pra quê! Chegaram lá de boca aberta e entregaram toda a trama. Perguntaram: Onde está o rei que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo. Quer dizer, pegou mal. Muito mal. O velho Herodes, que era um oligão, ficou grilado. Que rei era aquele? Ele é que era o dono da praça. Mas comeu em boca e disse: Jóia. Onde é que esse guri vai se apresentar? Em que canal? Quem é o empresário? Tem baixo elétrico? Quero saber tudo. Os magrinhos disseram que iam flagrar o Guri e na volta dicavam tudo para o coroa. Bom. Seguiram o cometa, chegaram numa estrebaria e lá estava o Guri com a Mãe e o Pai. Sensacional. Parecia até presépio vivo.Os magrinhos encheram o Guri de presente. Era Natal, pô. Mirra, incenso, ouro, autorama. Tava na hora de darem no pé quando chega um telex. É do céu. Um anjo avisando aos magrinhos que não, repito, não voltem à presença de Herodes porque o coroa tá a fim de apagar o Guri. E, depois que os magrinhos se mandaram, chega outro telex, desta vez para o velho do Guri. Te manda e leva a família. O Herodes vem atrás de vocês e não é pra dar presente. O velho pegou a mulher e o Guri e voou para o Egito. Na estrebaria as vacas ficaram se entreolhando meio acanhadas, mas depois esqueceram tudo. Aliás, um dos carneiros, mais tarde, quis vender a história toda para um jornal de Jerusalém, mas não acertaram o tutu.Bom, o Herodes, é claro, ficou chutando as paredes quando soube da jogada dos magrinhos. Mandou que todo bebinski nascido nas bocas fosse cancelado. Se tiver fralda, apaga. Foi chato. Muito chato. Morreu neném que não foi fácil. Mas o Guri tava no Egito, vivão. Pouco depois Deus achou que o Herodes tava se passando e cassou a licença dele. E mandou passar outro telex para o velho do Guri: Pode voltar. Segue carta. Mas o velho foi vivo e em vez de pintar na Judéia - onde o filho de Herodes, outro mauca, reinava foi para a Galiléia, para uma cidadezinha chamada Nazaré. Ali o Guri cresceu legal. Acabou Rei mesmo, dando o maior Ibope. Aliás, os profetas já tinham dito que o Guri seria chamado Nazareno. Naquela época, profeta não dava uma fora! Se tivesse a Loteria Esportiva, já viu, né?”
Podemos observar nesta crônica o uso da linguagem coloquial em um texto bíblico, onde é narrado o nascimento de Jesus, nos dando a sensação que o fato narrado tivesse acontecido há pouco tempo.
O texto também sugere uma crítica à forma que as mensagens bíblicas são escritas: de forma tão culta, que para algumas pessoas passa a ser entediante e incompreensível pela forma como são colocados os fatos .
Portanto, as duas formas de linguagem (escrita e oral) são importantes, desde que sejam usadas no contexto correto. Basta ficar atento para não usar a linguagem inadequada durante uma interação social.
Referências:
VERISSIMO, L. F. O nariz e outras crônicas. São Paulo: Ática, 1994.
Linguagem culta e coloquial. Disponível em:http://portugues.uol.com.br/redacao/lingua-culta-coloquial.html - acesso em 14/09/2017.







