Aída Menezes dos Santos nasceu no Rio de Janeiro - RJ
As Olimpíadas têm a capacidade de despertas forças inimagináveis. Unir nações, torcidas e atletas. E com isso, presenciamos momentos espetaculares que ficam registrados na história. Pera, isso ficou bem bonito. Vou copiar e colar esse mesmo trecho aqui embaixo e você lê de novo, mas dessa vez mentalmente com a voz do Cid Moreira, ok?
“As Olimpíadas têm a capacidade de despertas forças inimagináveis. Unir nações, torcidas e atletas. E com isso, presenciamos momentos espetaculares que ficam registrados na memória e na história.”
Como por exemplo, uma das histórias mais incríveis que uma atleta brasileira já viveu: a de Aída dos Santos nas Olimpíadas de 1964.
De origem humilde e simples, Aída dos Santos começou a praticar o esporte graças a uma provocação de uma colega de estudos com quem pegava carona “Se não começar a treinar comigo(no atletismo), vai voltar a pé para casa”. Da brincadeira da colega, Aída, que já jogava volei, acabou descobrindo uma verdadeira paixão pelo atletismo.
Enquanto muitos atletas recebiam o apoio dentro de casa para praticar um esporte, Aída, após participar de sua primeira competição de salto em altura, apanhou dos seu pai, que disse “pobre tem de ganhar a vida, e você não ganhou nada pra fazer isso”.
Mas isso não fez Aída desistir. Tanto que se tornou campeã estadual, brasileira, sul-americana e pan-americana de salto em altura. E foi em 1964, na Olimpíada de Tóquio, que ela mostrou que nada a faria parar.
Tudo começa com a delegação brasileira dificultando a participação dela nos jogos. Sim, eles estavam dificultando e não, não é exagero. Eles pediram para que ela e outra atleta “disputassem” pela vaga. Aída venceu e garantiu seu lugar nos jogos. O problema é que isso fez com que sua classificação ficasse em cima da hora e como consequência, não conseguiu receber o uniforme ( e nem a delegação se esforçou para que isso acontecesse).
E é aqui que começa o filme, digo, a história.
O primeiro ponto que você precisa saber sobre sua participação nos Jogos de Tóquio é que ela não tinha técnico. Seu treinamento era feito em cima do básico, do básico. Tanto que em seus treinos ela não saltava para cair de costas e sim parcialmente de costas. Isso porque ela caía na grama ou areia e não em um colchão.
O segundo ponto é que ela não tinha um interprete, ou seja, ela chegou no Japão (velho, no Japão!) sem entender nada do que estavam falando. Pra se ter uma ideia, na hora do registro na Vila Olímpica a recepcionista apontou para um campo e começou a cantar “Happy Birthday”, foi aí que Aída entendeu que era o campo onde deveria escrever sua data de nascimento. E foi assim, aos trancos e barrancos que ela conseguiu se “comunicar” na terra do sol nascente.
O terceiro ponto é que ela também não tinha transporte para ir ao treinamento, então passou a usar uma bicicleta para se locomover. Só que isso na verdade foi uma coisa boa. Servia de exercício para fortalecer as pernas e melhorar o preparo dela para as competições.
O quarto ponto é que ela também não tinha material para competir. A delegação brasileira (nooossa, mas que delegação gente boa!) não colocou o nome dela na lista de atletas que poderiam retirar tênis e roupas na loja da marca patrocinadora, então ela teria que disputar com os pés descalços. Isso se ela não tivesse recebido a doação de um tênis para competir. O tênis era de sprinter, não tinha travas o que dificultava a tração, mas ainda assim era melhor que disputar a pé. Nos treinos ela usava uma camiseta do Botafogo, sua equipe no Brasil, e nas competições um uniforme antigo. Detalhe, no dia do desfile ela improvisou uma roupa para ficar parecida com a do restante da delegação.
O quinto ponto (isso tá quase virando um jogo Brasil x Alemanha) é que ela também não tinha equipe médica nem nada parecido.
O sexto ponto veio no dia da disputa. Parte da delegação brasileira dizia “te vemos no almoço, Aída”, fazendo a analogia de que ela seria eliminada antes do meio dia e almoçaria com o restante da delegação. Mas vale dizer algo muito importante: Aída era a única mulher e a única representante do atletismo de toda delegação, mas como diria a poetisa “Já que é pra tombar, tombei”.
Ela conseguiu chegar as eliminatórias e foi quando descobriu que precisaria saltar a altura de um metro e setenta para chegar nas finais. Até então, no Brasil, ela não havia conseguido nem saltar a marcação de um e sessenta e oito. Mesmo assim ela se concentrou, saltou e bateu a marca. Porém, acabou torcendo o pé já que não estava acostumada com o colchão de aterrissagem.
Recebeu atendimento do médico da equipe cubana, tomou um remédio e voltou ainda mancando para a disputa. Respirou, correu e novamente se superou e atingiu a marca de um metro e setenta e cinco. Isso garantiu o quarto lugar para nossa atleta.
Essa marca de 1,75 foi mantida entre as atletas brasileiras até 1996. Ou seja, seu recorde nacional foi mantido durante 32 anos.
Quando voltou ao Brasil foi ovacionada e reconhecida pelo seu feito. Mas ela não deu muita bola para isso dizendo que se não queriam saber dela antes, que não viessem agora. Quando deu uma entrevista revelando o descaso da delegação com ela em Tóquio, acabou sendo riscada da lista para a Olimpíada de Munique em 1972 (meu Deus do céu, mas alguém abraça o pescoço dessa delegação porque eles são legais demais).
Por fim (não farei um trocadilho dizendo que ela deu seus pulos) vale dizer que Aída é uma das atletas que possuí o verdadeiro espirito olímpico (não farei um trocadilho dizendo que ela deu seus pulos), sua determinação e o desejo de vencer todas as suas barreiras(não farei um trocadilho dizendo que ela deu seus pulos) resume bem o desejo de todo atleta.
Agora imagine você o que Aída teria alcançado se tivesse apoio, técnico, uniforme e o reconhecimento necessário (na verdade imagine isso até hoje com o tanto de talentos que passam despercebidos nos mais diversos esportes, e só recebem patrocínio quando ganham algo e não o contrário).
E sim, mesmo com todas as dificuldades ela deu seus pulos e venceu. Desculpe, não resisti.
Curiosidade I: Em 2006 recebeu o Troféu Adhemar Ferreira da Silva, dado para atletas que apresentem a mesma determinação do mesmo.
Curiosidade II: A Confederação Brasileira de Atletismo criou o prêmio Aída dos Santos para as atletas brasileiras que conquistam títulos internacionais.
Curiosidade III: É mãe da jogadora de vôlei Valeskinha que já defendeu a seleção brasileira.
Curiosidade IV: Nos Jogos Rio 2016 ela carregou a tocha em Niterói - RJ.
Curiosidade V: O site Bikpek, que reúne a memória olímpica, fez uma campanha para que ela acendesse a tocha do Rio.
Curiosidade VI: Se você tem 27 minutos livres, pare o que está fazendo, e assista ao documentário “Aída dos Santos, uma mulher de garra” da ESPM que conta a história dela em Tóquio.
PS : o nome dela no título está sem acento por razões técnicas. :/
Fontes: http://goo.gl/b1QjWq; http://goo.gl/hsE6hx; http://goo.gl/Zf32Kt