TRASH NO STAR - o trio vem da famosa baixada fluminense e tem como guitarrista Letícia Lopes, que pode entrar no top 5 dos guitar heroes brasileiros sem pensar duas vezes.
FROM NO LOST GIRLS #1
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TRASH NO STAR - o trio vem da famosa baixada fluminense e tem como guitarrista Letícia Lopes, que pode entrar no top 5 dos guitar heroes brasileiros sem pensar duas vezes.
FROM NO LOST GIRLS #1
A Letícia toca guitarra, bateria, baixo, é vocal, mãe, sócia de um dos picos mais fera do Rio de Janeiro pra música alternativa, tá na frente da Efusiva (selo feminino) e é apenas uma das provas vivas que as mulheres PODEM e QUEREM TUDO. Fomos falar um pouco com ela sobre seu histórico com música e como ser mulher afetou seu trajeto!
“Trash No Star é uma tensão estereofônica gerada por Letícia Lopes (guitarra e voz) e Felipe Santos (baixo e voz), o duo surgiu na baixada fluminense em 2010, assustando os desavisados com shows caóticos. Em 2013, quando lançaram o debute Singles Ladies, parte do público pôde perceber o apelo pop de suas músicas, ainda que fossem embaladas por berros e guitarras dissonantes. As letras falam de problemas do cotidiano urbano contemporâneo, alienação, frustrações e do universo feminino, como a escolha por direcionamentos de contestação ao machismo e ao sexismo.”
Letícia Lopes, 35 anos, Nilópolis – RJ
Banda/Projeto musical: Trash No Star/Belicosa/Estela Disse Sim
Qual instrumento você toca? Guitarra/vocal no Trash No Star, Guitarra no Belicosa e baterista/voz no Estela Disse Sim.
Já pensou em desistir da música? Sim... Já pensei em desistir algumas vezes da música. Não da música, mas de tocar em banda. Eu cheguei a desistir, inclusive. Teve uma época do nascimento do meu primeiro e do segundo filho, a diferença entre eles é de dois anos e alguma coisa, e naquele momento eu fiquei afastada uns cinco anos, se não me engano... Justamente por causa dessa dificuldade toda de ter filho e conciliar com banda.
Já sofreu assédio no meio musical? Eu nunca sofri assédio no meio musical. Porque eu acho que... Eu acho que a galera tem um medo de mim, não sei... Talvez por conta dessa postura. Como eu sempre toquei punk rock, uma parada mais agressiva, a galera tem um medinho de chegar junto e nunca sofri assédio não. Eu já recebi propostas, mais flerte assim, mas assédio não, nunca sofri.
Você sente ou já sentiu alguma diferença no tratamento, enquanto mulher, fazendo música? Existe diferença no tratamento, sim. Existe. Em tudo. Em colega de banda... Já tive banda mista, já tive banda só com menina, e quando você toca com os garotos geralmente eles querem te colocar “Ah, vai tocar baixo!” porque eles acham que baixo é um instrumento mais fácil de se tocar do que guitarra. Ou então ser só vocalista, porque tem aquela falsa formula do sucesso de banda, de ter uma menina de cara bonitinha lá na frente da banda tocando. Então, existe sim essa diferença. Geralmente, a galera te julga como se fosse uma carta na manga, uma cerejinha no bolo. Você tá lá, pra ser a imagem bonitinha, pra fazer sucesso tem que ter uma mulher, como se fosse uma cota. Você tá lá pra preencher a cota. Não porque você é boa, sempre te desmerecendo, sempre esperando o mínimo “Ah, tudo bem. Ela é menina.” E quando você toca muito bem, também existe esse estranhamento de “Nossa! Olha como ela toca bem, mesmo sendo uma garota!” o tipo de coisa que não rola quando é um cara que toca, ninguém faz esse julgamento quando o cara tá tocando. E em casas de show, quando você chega com a sua banda, o técnico de som acha que você é uma idiota, que você não sabe de nada, que você é uma retardada, que precisa de ajuda o tempo todo, ajuda pra afinar o instrumento, ajuda pra ligar os pedais da guitarra, ajuda com o equipamento de som, porque ele acha que você vai olhar pra um amplificador e não vai saber onde que liga e desliga... Então, existe sim essa diferença.
Foi alguma vez desencorajada quando decidiu aprender a tocar um instrumento? Se sim, por quem? Sim! Fui desencorajada por todo mundo! Primeiro, pela minha mãe que, inicialmente, eu pedi uma bateria de presente e ela falou que não ia me dar, porque não ia perder tempo com isso e me deu um violão. E sempre que eu estava praticando ela sempre aparecia com uma tarefa pra fazer “Olha, você não vai lavar a louça? Você esqueceu de lavar o banheiro? Não tem sua avó pra tomar conta? E seus sobrinhos?” Então eu sempre tive muito mais responsabilidades em relação à minha família que meus irmãos. Mesmo com a minha mãe tentando me criar igualmente. Diz ela que me criou igual, como ela criou meus irmãos. Em relação a isso, meus irmãos tinham muito mais tempo livre pra praticar o que eles quisessem que eu. Eu sempre tinha muitas tarefas a cumprir: tinha que botar roupa pra lavar, estender a roupa, botar o lixo no quintal... Então, o tempinho livre que eu tinha pra praticar alguma coisa, ela sempre dava um jeito de me interromper, de alguma forma. E os amigos em volta diziam minha mão era muito frágil, meus dedos eram muito curtos, que eu não ia conseguir tocar baixo, não ia conseguir tocar guitarra, que na primeira bolha eu ia desistir... Meu professor, na aula de música, quando eu tentei me matricular, falava a mesma coisa “Nossa! Seu dedo é muito pequenininho! Você vai ter mais dificuldade!” Então, a galera dava esse jeitinho de me desanimar, de me desencorajar, sim.
Como tem sido tocar com outra(s) mulher(es), no mesmo projeto? A dinâmica é diferente em relação a tocar com homens? A dinâmica é diferente, sim. Pelo menos pra mim, foi. Porque todas as meninas com quem já toquei até hoje, todas sem exceção, nenhuma delas acreditava no seu potencial. Elas sempre tocavam com muita insegurança, com muita. Então assim, existe todo aquele trabalho “Não miga, você é massa! Você toca muito bem! Você é talentosa! Se solta, confia em você que você vai conseguir!” Então, a dinâmica foi sempre muito diferente sim, do que com os meninos. Os meninos parecem que já nasceram pra fazer aquilo. Eles não têm essa pressão toda, eles têm uma auto confiança incrível “Vamo bora, vamo ensaiar, vamo tocar! Vamo ensaiar uma vez e fazer show, beleza.” Já com as meninas não, senti mais dificuldade. Eu também convivo muito com essa insegurança... Quando eu formo banda com meninas e ainda rola muita insegurança da parte delas, na cabeça delas “Nossa, você é a deusa do rock, toca pra caralho guitarra.” Quando não, eu só assumi aquilo pra mim de uma forma mais tranquila. Eu gosto do que eu faço, tenho segurança quando estou fazendo aquilo, mas já fui muito insegura também. Pra gente é sempre mais demorado, mas não sei cara... Na verdade, eu sei sim. A gente é muito mais cobrada, se a gente toca mal, a gente é cobrada porque afinal é menina e claro que toca mal. Se toca bem “Nossa, que surpresa, essa menina tocando bem!” Então, eu até entendo assim essa insegurança total.
Faz parte de algum movimento feminista? Faço parte sim, não é bem um movimento, mas faço parte de um selo feminista, a Efusiva. E é um selo que a gente criou justamente porque as meninas não se sentem à vontade de gravar com caras e a gente tá nessa correria de começar a gravar as meninas. A gente tá comprando os equipamentos, a gente tá se preparando pra começar a gravar as garotas, porque a reclamação aqui no Rio pelo menos, de 100% das meninas, é de não se sentirem à vontade de gravar com caras. Com as mulheres, elas se sentem mais à vontade... Então a Efusiva acabou surgindo de uma necessidade e de uma prática que já existia, tipo na hora de gravar “Letícia, você me ajuda a gravar? Você me indica? Etc” Então a gente meio que só oficializou isso, oficializou uma demanda que já existia.
Sente que as condições/receptividade em relação às mulheres, na música, mudaram nos últimos anos? Sim! Mudou muito, muito mesmo! Lá nos meados dos anos 90, inicio dos anos 2000, como eu disse, a gente preenchia a cota. Toda banda tinha que ter uma menina pra chamar a atenção, pra tocar baixo, pra fazer back vocal, pra cantar, e sei lá cara... Tanto projeto bacana que tem surgido, meninas na batera, Girls Rock Camp... Esses projetos, incentivando a inserção das meninas na música, vai acendendo aquela fagulha. Também tem o Hi Hat Magazine, que dá aulas de bateria pras meninas aí no Rio, mas agora estão pelo Brasil todo. Blogs, páginas no Facebook, nossa... A gente passou por um projeto de empoderamento muito forte! Festivais incentivando... Então veio um boom aí de 2000 pra cá que, nossa, ajudou muito a cena, incentivou muito as minas a fazer, a criar, a produzir... Hoje as meninas já sobem no palco com muito mais propriedades, se interessam mais, estudam mais e hoje em dia tá muito diferente. A gente já consegue um reconhecimento, não sinto mais tanta comparação como antes, tanta cobrança. Hoje as minas estão com mais propriedades no que elas fazem, mais seguras, apesar de ainda existir uma insegurança ou outra, mas rola muito entre a gente, mas quando sobe no palco, quando toca, quando faz, a parada já vai com mais garra.
Nos fala um pouco sobre a Motim, no Rio de Janeiro. Como surgiu esse projeto e pico? E como está sendo essa experiência? A Motim surgiu porque eu e a Amanda (Ostra Brains) estávamos desempregadas e uns anos atrás a gente já falava muito sobre essa ideia de abrir um espaço cultural voltado pras mulheres. A gente sempre falava muito disso. Eu, ela, as meninas... Inicialmente a gente pirava muito de abrir um coletivão mesmo, montar uma casa e aquela casa ser 100% voltado pra práticas femininjas, mas o coletivo que a gente tinha acabou, miou, a gente se separou, mas eu e a Amanda, a gente sempre teve sempre essa ideia “Po, vamo encontrar um lugar pra gente e tal...” Aí acabou que ela ficou desempregada, eu também, e um dia ela me procurou e falou assim “Caraca Letícia, eu to vendo uma sala no centro com a minha mãe e minha mãe super vai me ajudar, você não quer virar minha sócia?” eu falei “Claro! Desempregada, né... Vamo bora abrir esse lugar!” Mas a Motim não é feminista, não surgiu pra ser um lugar de práticas feministas, lá é um espaço misto, lá é um espaço pra gente fazer e promover eventos de bandas, fazer ensaios, exposições de arte, mas de forma mista. Desde que a segurança das meninas seja mantida. A gente foca muito de que a Motim seja um espaço seguro, na medida do possível, claro. De uns dois meses pra cá a gente decidiu abrir e alocar aquele espaço pra atividades de mulheres. Tem umas meninas que vão dar aulas de bateria, eu dou aulas dos instrumentos de corda, outra menina vai dar aula de técnicas vocais/canto, aulas de inglês – tem menina querendo fechar, workshops... Essas práticas a gente prioriza paras as mulheres. Mas os eventos, os ensaios, é misto. A galera também pode chegar pra fazer show e tal. Mas quando os caras procuram a gente pra fazer show, sempre tem esse pega de “Po, dá uma olhada na página da banda, vê se não tem nenhum apelo machista ou alguma coisa homofóbica...” Porque se a gente julgar que o cara não é seguro, o cara não toca lá.
Que conselho daria a uma menina que está apenas começando? Não desistir. Eu estou dando aulas de instrumento pras meninas, estou começando a dar aula agora, e o primeiro conselho que eu dou é esse. “Tá começando? Não desiste! O dedo vai doer, vão te cobrar mais porque você é menina. Tenta arranjar um tempo pra praticar. Lute por esse tempo, esse tempo é seu! Você tem direito sim, de ter um tempo extra. Não deixa ninguém dizer que você não pode, que você não consegue!”. É o que mais tem, cara que vai dizer pra você que você não pode, não consegue, você não é tão boa assim... Eu mesma já fui expulsa de duas bandas. Uma delas me disse que eu era melhor cantora do que era guitarrista. Então assim, cague e ande pra essa galera que vai te desmotivar porque vai e segue em frente e organizar toda essa opressão que a gente sofre, essa raiva que a gente tem de certas injustiças que a gente sofre e organizar isso e fazer música.
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Fotos: Filipa Aurélio
WANWTB // 2016
Trash! #Trashnostar
trash no star e amanda hawk - antiorgasm