━━ all you need is home, and a tea
━ Captain Westergård, can you hear me? Captain? ━ No pesadelo, relembrava dolorosamente a voz de um de seus soldados, implorando para que corresse e se salvasse, enquanto o mesmo ficava para trás e dava a vida para salvar a de Henry. Todavia, na realidade, era uma aeromoça, que tinha dificuldade em pronunciar seu sobrenome sueco. Poderia ter colocado o sobrenome italiano na farda. Os olhos se abriram aos poucos, encarando o rosto preocupado da moça ao lado. ━ Are you okay, sir? Do you need something? ━ Apenas negou a cabeça em resposta, e pareceu não convencer a aeromoça, mas esta deixou-lhe sozinho, para que descesse quando quisesse. Aquele era um dos benefícios de ser uma autoridade, não ser incomodado por tanto tempo. Olhando a sua volta, percebeu ser o único dentro do avião. Moveu os ombros, ouvindo a clavícula estralar alto, e uma pequena dor acompanhou. Aquela não era a única dor que sentia no momento, mas com certeza era a mais leve.
No estacionamento do aeroporto, equilibrou a mala debaixo do braço esquerdo, enquanto acenava para o taxista mais próximo. Não havia avisado a noiva que voltaria para casa - fora forçado a voltar - pois estava sem celular. Caso estivesse com o aparelho em mãos, teria com certeza, chamado um uber. Tirou o óculos escuro de lentes redondas de um dos bolsos da farda, a fim de esconder o hematoma que tinha no olho direito. O incômodo já era grande, pois onde passava, as pessoas desviavam o olhar para o capitão, carregando seu hematoma no olho e no canto do lábio inferior, este acompanhado de um corte que não precisara ser suturado. Até mesmo o taxista indagara sobre os machucados em sua pele alva. Por achar o idoso tão simpático, Henry usou todo seu eufemismo, dizendo ter sofrido alguns acidentes em serviço, e que não eram nada demais. O papo estendeu-se, de maneira que no meio do caminho, os dois já estavam cantando juntos Ain’t no rest for the wicked da banda Cage the Elephant, música que trouxe uma leve felicidade para o americano, que sentiu vontade de gargalhar ao ver que havia escapado de uma situação desastrosa. Mas a vontade logo sumiu ao lembrar de que seus superiores envolvidos não iriam descansar até que o vissem a sete palmos do chão.
Na porta do prédio, despediu-se do taxista, desejando que mais pessoas fossem como aquele senhor. O porteiro, ao avistar-lhe, arregalou os olhos, completamente surpreso. Henry tinha facilidade em fazer amigos, justamente por sua enorme bondade, e colecionava pessoas que gostavam de si. Após cumprimentar e ter uma conversa rápida com o homem, pediu que não avisasse que estava subindo, pois queria que fosse uma surpresa. Num dia normal, Henry teria preferido subir pelas escadas, mas naquele momento, e com as dores que sentia, esperar o elevador era muito mais atraente. Defronte a porta, suspirou fundo antes de apertar a campainha, evitando morder o lábio por ansiedade.