PA•REN•TING, episódio 5 - Uriah e as lágrimas compartilhadas desde o dia um
Uma vez, conversando com meus irmãos, na cozinha de casa, em plena quarentena, o assunto paternidade foi colocado na mesa. Ficávamos tentando adivinhar quem de nós seria o primeiro a ter um filho. Obviamente todos apostamos que Eliza jamais iria colocar uma criança no mundo, porque ela não teria sangue frio o suficiente para dizer não a alguém, principalmente se esse alguém fosse o herdeiro da mesma carinha sonhadora e cheia de manha e birra que ela sempre teve. Em seguida, eu fui apontado como o com menos capacidade de ter um filho, porque provavelmente eu nem iria saber como consegui colocá-lo ali dentro.
Isso é uma afronta, não falem comigo e nem com meu mini Uriah do futuro. Reclamei, saindo dali mega ofendido com a audácia, naquele dia.
Mas eis o seguinte: eu também concordava que talvez eu ficasse perdido caso a vida me presenteasse com um neném. Se eu já precisava que minha mãe segurasse a minha mão quando eu tinha que fazer os periódicos exames de sangue para garantir que não fiquei diabético tomando uns grandes porres de suco de morango industrial, imaginava o que eu iria fazer e não fazer quando eu estivesse presente na sala de parto da minha alma gêmea, que na minha cabeça sempre se parecia muito com Minah Montgomery, mesmo que eu me esforçasse para me lembrar que éramos apenas amigos.
É engraçado como a vida engana a gente, porque eu jurava que não havia mesmo chance alguma daquilo acontecer. Mas depois de gritar na janela do apartamento pra quem estivesse passando lá embaixo que iríamos ser pais, eu estava com Minah, segurando sua mão, suando desgraçadamente e culpando não ter ar condicionado naquela sala de parto, mas na verdade mega nervoso, esperando nosso “moranguinho” nascer.
O senhor está se sentindo bem? Uma enfermeira me perguntava de meia em meia hora, olhando preocupada comigo.
É só a emoção. Respondia de cara, não querendo dar o braço a torcer.
Eu ainda repetia a mesma resposta até Cecelia vir ao mundo gritando e esperneando e eu começar a chorar junto, apontando para ela. Exatos três segundos antes de simplesmente cair para trás, desmaiado. Levantei de um pulo, balançando a cabeça.
Eu tô bem, eu tô bem, eu tô ótimo. Respondi, antes de esticar as mãos e me oferecer para cortar o cordão umbilical. O que me foi negado porque ninguém confiava em mim tremendo dramaticamente como estava naquele momento.
Toda a maternidade me conheceu como “o pai emocionado” e eu achei, assim, uma ofensa. Só porque a cada primeiro banho, primeiro arroto e primeira fralda eu começava a chorar chamando o ato de a coisa mais preciosa que já vi um ser humano fazer eu era uma pessoa emocionada?
Por via das dúvidas, eu não contava nada disso para meus irmãos ou June ou sabia o que iriam me responder.
E conforme os anos passavam, eu ainda derrubava umas lágrimas. Como quando eu a levava para tomar vacina e ela se debulhava quando via que não eram gotinhas.
Eu sei! Eu sei! Eu também não gosto de injeção. Concordava com a menor, a voz embargada, enquanto a via esticando o braço muito relutante para as furadas.
Em compensação, lhe enchia de sorvete na saída, mesmo ouvindo do próprio pediatra que isso era um risco para ela desenvolver uma diabetes infantil.
Mas doutor, ela está sofrendo, ninguém chora assim se não estiver realmente sentido! Afirmava com veemência, mais ou menos consciente de que só eu comprava aquele choro e drama.
E ano a ano, enquanto minha pequena moranguinho ia crescendo, eu ia acompanhando seus novos sofrimentos e drama. A cada história de como ela podia jurar que Anwar Evans quase a matou esmagada caindo em cima de si na caixa de areia, eu balançava a cabeça, concentrado e desesperado, porque a empatia era tão forte que eu podia jurar que estava sentindo mesmo todas as dores que a menor.
Mas algumas vezes eu mesmo fazia a coisa ser maior que realmente eram.
MINHA FILHA PERDEU UMA PARTE DELA E PRECISA URGENTEMENTE SER REIMPLANTADA, COM LICENÇA. Saí gritando uma vez com Cecelia nos braços, ela ainda com a roupa de amazona, a cara com o sangue seco, enquanto eu corria com ela pelos corredores de um hospital, deixando que as explicações ficassem com Minah. Enquanto minha esposa explicava que na verdade Cece tinha perdido um dente por um movimento errado de um colega durante o treino de equitação, eu estava a abraçando, com a mesma expressão de quem ia desmaiar a qualquer momento, falando em voz baixa: Vai ficar tudo bem, e ninguém vai notar que você reimplantou seu dente no lugar. Juro de dedinho.
E algumas vezes achava que todas as lágrimas divididas enquanto ela crescia seria o suficiente para lhe ajudar com algo mais sério que um joelho ralado. Porque eu sentia a sua dor, de uma forma muito peculiar e inexplicável, e queria ser capaz de mover mundos para vê-la bem e sorrindo. Todos aqueles anos me ensinaram alguma coisa, é claro, e era jamais ignorar ou diminuir a dor de uma criança ou adolescente, e se ela dissesse que sentia seu coração fora do peito, eu saberia que falava a sério.
Eu sei que dói, e que é ainda pior porque você não teve realmente uma chance de se despedir. Lhe falava na beira da cama, fazendo um carinho sutil e suave em seus cabelos compridos, achando-a cada dia mais a cara de Minah e que esse era mais um milagre que vi um ser humano realizar. Acho que o maior ato que podemos fazer por alguém é amá-lo, verdadeiramente, com os altos e baixos, as brigas e os acertos, os risos e as birras. É estar ao lado quando tudo está desabando e também quando tudo está às mil maravilhas. E sei que amou seu amigo, Minah. E ele sabia disso. Era impossível de dizer. Você o honrou enquanto estava conosco. E em algum lugar no meio das estrelas ele espera pelo momento que um dia você volte a sorrir do mesmo jeito que sorria ao dizer seu nome em conversas casuais.
Algumas vezes você não chora com seu filho. Apenas beija o topo de sua cabeça, aperta seus ombros, e então toca uma música no ukulele, como se fosse uma cantiga de ninar, esperando que seja um conforto, confirmando que você está ali não para derramar lágrimas, mas para secar as que ainda caem.














