as vezes eu fechava meus olhos e me via. eu estava correndo em círculos. não sabia pra onde ir. eu me senti assim a maior parte do ano. perdida. perdida nos ruídos externos a meu respeito. sem saber o que ser e o que fazer quando várias vozes me direcionavam pra uma estrada onde eu não queria caminhar. mas pior ainda: perdida nos ruidos internos de alguém que me habita mas não me conhece. de alguém que distorce a imagem que entra nos meus olhos. sabe quando nos filmes tem uma cena em que aparece uma sombra que parece ser de algo assustador e, no final, não é nada daquilo? é só alguma coisa simples ou até bonita? eu estive perdida nesse olhar interno de alguém que apenas via a sombra assustadora, como se não fosse boa o bastante, como se não fizesse o suficiente, mesmo tentando muito ser a melhor versão. no dia a dia, quando estou fazendo meus resumos ou as minhas cerâmicas e algo não sai exatamente como eu quero, eu amasso ou desfaço e começo tudo de novo: a matéria-prima, minhas mãos e a expectativa de um resultado melhor. como é que eu me recomeço do zero? como é que eu apago as coisas que me desagradam? como eu viro matéria-prima e tiro esses cortes que fazem a luz entrar distorcida e a imagem se formar assim, desse jeito que eu não gosto? ou será que a medida que as rachaduras vão se formando é que a visão vai ficando melhor? porque quanto mais buracos, mais luz e quanto mais luz, menos sombras. clarice diria que esse pode ser o defeito que sustenta o edifício. ela diria que mais rachaduras significa menos sombra. eu preciso deixar entrar mais luz. enxergar melhor do lado de dentro. ter comigo a mesma gentileza que ofereço ao outro. a paciência e todas as inúmeras chances que dou ao outro. eu espero que no próximo ano as coisas sejam melhores. que exista mais luz. talvez essa seja a matéria-prima que eu precisava: uma nova volta ao sol. talvez meu caminho esteja exatamente aqui onde eu corro em círculos. talvez eu só precise do sol me iluminando por um novo ângulo.












