Vida!
Olha esta gota de água cristalina: é tão leve, tão tênue e pequenina, que a sede vegetal mais estimula, e nem ao menos molha do lírio o hastil, o cálice ou a folha, em que, líquida pérola, tremula; dir-se-ia um pingo de sidérea mágoa. Tu, que já penetraste os oceanos e devassas recônditos arcanos, não a desprezes, olha-a: que vês na gota cristalina de água?
Nela se espelham fulgidos, celestes prismas, que a luz exterior difunde, como em puro diamante lapidado. Mas se o olhar limitado de uma lente revestes, porque a vista sagaz mais se profunde, verás, então, do turbilhão da Vida, surdirem novos seres, e estes seres aumentando-se em linha indefinida, de modo a não poderes contar sequer seu número. Detém-te e observa a formação vária, infinita dos corpos, cujo frêmito latente um mesmo protoplasma anima e agita.
Mas não! O olhar perturba-se em vertigens de febril paroxismo. Nem procures saber-lhes as origens, a esses entes anônimos, que viste. Para o prescrutador olhar humano, como no grande, existe no infinito minúsculo – um abismo.
Homem, na gota de água há um oceano!
Augusto de Lima








