Eles realmente deveriam parar. Não pelos motivos que Vincent provavelmente acreditava: que Agatha estava casada --- ela não estava; não mais. A aliança no dedo era um adereço para os seus planos --- mas porque, à cada encontro, Odila se sentia mais próxima do passado compartilhado entre eles e não do seu objetivo. Isso a confundia mais do que qualquer outra coisa, porque, oras, estava acordada para vingar-se pelo seu pai, não para afundar em memórias de uma vida distante. E desde que descobrira que Frankenstein estava, de fato, vivo, e que ele havia a abandonado e a deixado no escuro na Floresta Encantada por anos --- décadas se considerasse a passagem de tempo durante a maldição --- sentia raiva dele e queria que ele soubesse o quanto a machucara. Porém, parecia impossível manter-se longe do médico. Mais difícil ainda ignorar a sensação boa de tê-lo de volta, especialmente quando ele a olhava de soslaio enquanto caminhavam pela rua vazia e iluminada pelas luzes de natal. Era se Odila tivesse recuperado parte do seu coração que se fora quando o boato de que Victor havia morrido chegara aos seus ouvidos em Allarch. “Talvez porque você tenha a companhia certa, Leichmann.” Ousou dizer, virando o rosto para fitá-lo com um sorriso curto e sem dentes; claro que se referia à ela. Era conveniente ter um álibi para se comportar daquele jeito sem precisar dar muitas desculpas: a maldição. Os mocinhos descreviam sensações e encontros parecidos com os que eles vinham tendo o tempo todo --- e se Frankenstein estava acordado, como tinha certeza que sim àquele ponto, assumiria que o motivo de Agatha procurá-lo eram os efeitos da magia que recaía sobre os desacordados. Ele havia sido o seu primeiro amor, afinal. “Por muito tempo o Natal foi só a temporada de Quebra-Nozes para mim. Então, esse ano é diferente também.” Soprou um riso baixo, balançando a cabeça com as memórias falsas de Agatha Morrison estrelando como Clara Stahlbaum diversas vezes. Parou de andar de repente quando percebeu que se encontravam à frente da Matres Academy. Tirou o celular do bolso do sobretudo e acessou o aplicativo da câmera, fotografando o estabelecimento que brilhava, à noite, formando figuras conhecidas do Quebra-Nozes para divulgar as futuras apresentações. “Fiz um bom trabalho, vamos admitir.” Explicou-se ao guardar o aparelho, mas antes que retomassem a caminhada, Agatha fisgou a posição de Victor sob o visco que ela colocara noutro dia. Ergueu o queixo para indicar que o homem olhasse para cima e se aproximou logo em seguida. “Sabe, Vincent... Eu gosto de tradições.” Os braços envolveram o pescoço masculino, ficando perto o suficiente para que as respirações condensadas pelo frio se mesclassem. “E respondendo à sua pergunta...” Murmurou, escorrendo as íris até os lábios de Frankenstein. “Agora eu tenho.” Disse antes de selar o beijo. // @vincccnt